Rituais Egípcios


Texto de Helena Petrovna Blavatsky, Ísis Sem Véu

“No Ritual Funerário dos egípcios, encontrado entre os hinos do Livro dos Mortos, e que é chamado por Bunsen de “esse livro precioso e misterioso”, lemos um discurso do defunto, agora sob a forma de Hórus, que detalha tudo e que ele realizou para seu pai Osíris. Entre outras coisas, a divindade diz:

“30 Dei-vos Espírito.

31 Dei-vos Alma.

32 Dei-vos poder.

33 Dei-vos [força]”.

Em outro lugar, a entidade, chamada de “Pai” pela alma desencarnada, representa o “espírito” do homem; pois o versículo diz: “Fiz minha alma falar com seu Pai”, seu Espírito.

Os egípcios consideravam o seu Ritual como uma inspiração essencialmente Divina; em síntese, o mesmo que os hindus modernos em relação aos Vedas e os judeus modernos quanto aos livros mosaicos. Bunsen e Lepsius mostram que o termo hermético significa inspirado, porque é Thoth, a própria Divindade, que fala e revela ao seu eleito entre os homens a vontade de Deus e os arcanos das coisas divinas. Nesses livros há passagens inteiras que se diz terem sido “escritas pelo próprio dedo de Thoth, são obras e composição do grande Deus”. “Num período posterior, o seu caráter hermético ainda é mais distintamente reconhecido e, num ataúde da 26º Dinastia, Hórus anuncia ao morto que ‘o próprio Thoth lhe trouxe os livros das suas obras divinas’, ou escritos herméticos”.

Dado que sabemos que Moisés era um sacerdote egípcio, ou pelo menos ele era versado em toda a sua sabedoria, não devemos nos espantar que ele escrevesse no Deuteronômio (IX, 10) que “E o Senhor me entregou duas tábuas de pedra escritas pelo dedo de DEUS”; ou que leiamos no Êxodo, XXXI, 18 que “E Ele [o Senhor] deu a Moisés (…) duas tábuas do testamento, tábuas de pedra, escrita pelo dedo de Deus”.

Nas noções egípcias, como nas de todas as outras fés fundamentais na filosofia, o homem não era apenas, como afirmam os cristãos uma união de alma e corpo; ele era uma trindade de que o espírito fazia parte. Além disso, aquela doutrina o considerava composto de kha – corpo; khaba – forma astral, ou sombra; ka – alma animal ou princípio vital; ba – a alma superior; e akh – inteligência terrestre. Havia ainda um sexto princípio chamado sha – ou múmia; mas as suas funções só tinham início após a morte do corpo. Após a devida purificação, durante a qual a alma, separada do seu corpo, visitava com freqüência o cadáver mumificado do seu corpo físico, essa alma astral “tornava-se um Deus”, pois ela era finalmente absorvida na Alma do mundo”. Transformava-se numa das divindades criadoras, “o deus do Phtah”, o Demiurgo, um nome genérico para os criadores do mundo, traduzido na Bíblia como Elohim.

No Ritual, a alma boa ou purificada, “em conjunto com seu espírito superior ou não-criado”, é mais ou menos a vítima da influência tenebrosa do dragão Apophis. Se chegou ao conhecimento final dos mistérios celestiais e infernais – a gnoses, isto é, reunião completa com o espírito -, ela triunfará dos seus inimigos; se não, a alma não pode escapar à sua segunda morte. Essa morte é a dissolução gradual da forma astral nos seus elementos primários, aos quais já aludimos diversas vezes ao longo desta obra. Mas essa sorte terrível pode ser evitada pelo conhecimento do “Nome Misterioso” – a “Palavra”, dizem os cabalistas.

Mas, então qual a pena vinculada à negligência do seu conhecimento? Quando um homem leva uma vida naturalmente pura e virtuosa, não há castigo algum, exceto uma permanência no mundo dos espíritos até que se encontre suficientemente purificado para recebê-la do seu “Senhor” Espiritual, um da Hoste poderosa. Por outro lado, se a “alma” *, enquanto um princípio semi-animal queda-se imóvel e cresce inconsciente de sua metade subjetiva – o Senhor – e proporcionalmente ao desenvolvimento sensual do cérebro e dos nervos, ela mais cedo ou mais tarde se esquecerá da sua missão divina na Terra. Como o Vurdalak, ou Vampiro, do conto sérvio, o cérebro se alimenta e vive e se fortifica às expensas do seu parente espiritual. Então, a alma já semi-inconsciente, agora completamente embriagada pelos vapores da vida terrena, perde os sentidos e a esperança de redenção. É incapaz de vislumbrar o esplendor do espírito superior, de ouvir as admoestações do “Anjo guardião” e de seu “Deus”.

Ela só pretende o desenvolvimento e uma compreensão mais completa da vida natural, terrena; e, assim, só pode descobri os mistérios da natureza física. Suas penas e seus temores, sua esperança e sua alegria – tudo isso está estritamente ligado à sua existência terrestre. Ela ignora tudo o que pode ser demostrado pelos órgãos de ação ou sensação. Começa por se tornar virtualmente morta; morre completamente. Está aniquilada. Tal catástrofe pode ocorrer, muitas vezes, muitos anos antes da separação final do princípio vital do corpo. Quando chega a morte, seu férreo e perigoso domínio se debate com a vida; mas há mais alma a liberar.

A única essência dessa última já foi absorvida pelo sistema vital do homem físico. A morte implacável libera apenas um cadáver espiritual; no melhor dos casos, um idiota. Incapaz de se elevar para regiões mais altas ou de despertar da letargia, ela se dissolve rapidamente nos elementos da atmosfera terrestre.

Os videntes, homens corretos que lograram a ciência mais elevada do homem interior e do conhecimento da verdade, têm, como Marco Antônio, recebido instruções “dos deuses”, em sonhos ou por outros meios. Auxiliados pelos espíritos mais puros, aqueles que moram nas “regiões da bem-aventurança eterna”, eles observam o processo e advertiram repetidamente a Humanidade.

O ceticismo pode provocar com zombarias; a fé, baseada no conhecimento e na ciência espiritual, acredita e afirma. No século atravessamos amiúdam-se os casos dessas mortes de almas. A todo momento tropeçamos com homens e mulheres desalmados. Não é estranho, portanto, no presente estado de coisas, o gigantesco fracasso dos últimos esforços de Hegel e Schelling no sentido de elaborar a construção metafísica de um sistema. Quando os fatos, palpáveis e tangíveis do Espiritismo fenomenal, acontecem todo o dia e a toda hora e, não obstante, são negados pela maior parte das nações “civilizadas”, existe pouca chance para a aceitação de uma metafísica puramente abstrata por parte dessa massa sempre crescente de materialistas.”

Este post tem um comentário

  1. Vespertine

    Baita texto, parabéns!

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