O Tridente e a Psicologia

“Num tempestuoso mar de emoções em movimento, lançado como um navio no oceano”
– Kansas

Resolução CFP Nº 002/2006

Art. 2º – Define-se a cor azul para a faixa da beca dos formandos do curso de graduação em psicologia, a pedra lápis-lazúli para o anel de formatura e a letra grega “psi” (Ψ) para símbolo da psicologia.

Qual é a relação entre o deus dos Mares e a psicologia? Vamos fazer um levantamento mitológico e simbólico para entender essa correlação.

Muitos dizem que o tridente da psicologia é uma analogia a teoria freudiana das pulsões: Ego, Id e Superego. Ou então que o tridente representa as três ‘correntes’ da psicologia: comportamental, psicanálise e humanismo. Já li até que representa as três pulsões humanas principais: sexualidade, espiritualidade e auto-conservação. Mas acho que essas explicações individuais não são o suficiente.

A palavra psicologia vem do grego ψυχή (significando psiche, alma) e λόγος (significando logos, estudo/saber). Psicologia, portanto, é a representante científica do estudo da alma. Como é possível perceber na própria raiz da palavra, encontramos o prefixo “Ψ”, literalmente o símbolo utilizado para representar a psicologia. Além disso, o mesmo símbolo “Ψ” é utilizado para representar o potencial hídrico, que na física, representa a energia livre que as moléculas de água têm para realizar trabalho.

E essa não é a única associação com água que encontramos neste símbolo. Vale a pena frisar que, para algo ser definido como um símbolo, o mesmo necessita apreender pelo menos três diferentes significados. Jung (1964) introduz a noção de símbolo como um conjunto de significados que transcendem sua própria imagem concreta. Um símbolo remete a algo maior que o próprio símbolo, um conjunto de ideias orientadas através de um sutil emaranhado de padrões.

O símbolo psi (“Ψ”) está intimamente ligado ao tridente do deus grego Poseidon, cujo equivalente romano é Netuno. Num dos principais mitos de Netuno, o mesmo e seus dois irmãos, Júpiter e Plutão, se reuniram para destronar o pai, Saturno. Cada um dos irmãos munido de um artefato especial, Júpiter do raio do trovão, Netuno do tridente e Plutão do capacete da invisibilidade conseguiram juntos subjugar Saturno e enterrá-lo nas profundezas do inferno. Como herdeiros do Universo, os irmãos o repartiram, sendo de responsabilidade de Júpiter os céus, de Netuno, os mares, e de Plutão, o mundo dos mortos.

Netuno representa, arquetipicamente, o grande regente dos mares e das águas, principalmente as subterrâneas e submarinas, o que nos remete ao conceito de profundidade, sendo fácil realizar uma associação simbólica entre os oceanos e nosso inconsciente, pois como ressalta Jung (1964) “nos sonhos ou nas fantasias, o mar ou toda extensão vasta de água designa o inconsciente”. No mito deste “Senhor dos Mares”, o tridente era utilizado como uma arma de guerra que, quando cruzava o coração do inimigo, Poseidon ganhava o controle sobre a alma do indivíduo.

Ser atravessado pelo simbolismo do tridente nos permite adquirirmos mais consciência sobre nossa própria alma, e que forma melhor de se obter tal auto-conhecimento, se não através da psicologia, que como vimos anteriormente significa o “estudo da alma”? Era dito também que o tridente, quando fincado na terra, podia manipular as águas, tornando-as calmas ou agitadas.

No hinduísmo, em que é chamado de “Trishula”, o tridente é utilizado por Shiva e representa a trindade da constância, da destruição e da criação. Encontramos também o tridente nos culto afro-brasileiros, como um artefato utilizado por Exu, uma entidade do movimento e da comunicação. Neste panteão, o tridente representa a busca espiritual, através dos quatro elementos, sendo fogo, ar e água orientados para cima e terra para baixo.

O tridente representa, portanto, uma chave para a compreensão da imensidão do ‘oceano’ inconsciente, que, através de uma canalização correta de forças e pulsões, pode orientar essas forças inconscientes para a consciência, resultando em insights sobre o si-mesmo, e permitir que cada um encontre e conheça sua própria essência e a manifeste!

Aquele que busca a totalidade, que deseja conhecer desde o α (alpha) até o Ω (ômega), talvez tenha que passar pela penúltima letra do alfabeto grego, o Ψ (psi), que nos convida a olhar para nós mesmos . Como diria Sócrates: “Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os Deuses.”

Inutilmente Parecemos Grandes

O mar jaz; gemem em segredo os ventos

Em Eolo cativos;

Só com as pontas do tridente as vastas

Águas franze Netuno;

E a praia é alva e cheia de pequenos

Brilhos sob o sol claro.

Inutilmente parecemos grandes.

Nada, no alheio mundo,

Nossa vista grandeza reconhece

Ou com razão nos serve.

Se aqui de um manso mar meu fundo indício

Três ondas o apagam,

Que me fará o mar que na atra praia

Ecoa de Saturno?

Ricardo Reis, in “Odes”

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Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano, Mestrando em Ciências da Religião e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br ou envie um e-mail para [email protected]

Imagens:

“Double Exposure”, fotografias de Antonio Mora
“Tridente” Encontrada na internet
“The Return of Neptune” ca. 1754. John Singleton Copley (American, 1738–1815)
Shiva e Exú com seus respectivos tridentes encontrados na internet

Bibliografia:

JUNG, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1964

CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, vol. 3 – Mitologia Ocidental. São Paulo. Palas Athena. 1990

Este post tem 3 comentários

  1. Alisson Costa Lisboa

    Muito bom!!! Estou gostando muito da sua coluna. Parabéns pelo trabalho. Também sou psicólogo e teus textos tem me ajudado em algumas reflexões importantes e prazerosas. Obrigado!

  2. Levi Midori

    Genial! Parabéns!

  3. Amanda

    Nossa, que maravilhoso ler sobre isso, parece que minhas conexões me trouxeram até aqui por meio de outros caminhos que nem sei como chegaram ao tridente. A vida é incrível, acho magnífico a capacidade de analisar e ter sensibilidade para falar disso,
    Adorei o conteúdo, mesmo em 2018, adorei a vibe do site.

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