Hierarquia, Dualismo e Evolução Espiritual

Eu não acho que exista um problema no dualismo ou na hierarquia em si, como ideia. São meras sistematizações. Há muitos exemplos em que se pode utilizar esses sistemas com sucesso e inclusive eles ajudam para a organização.
Meu ponto é que pode ser que em alguns casos essa ideia traga problemas. Por exemplo, como se tornou recorrente citar Platão desde o lançamento de “Epoch: The Esotericon & The Portals of Chaos”, seu “Mundo das Ideias” deu origem a um tipo de idealismo que dividiu o mundo em dois: um mundo espiritual e melhor, e outro material e pior; uma alma superior e um corpo inferior, etc.
Um dos problemas é que o universo criado por Platão é estático, em que tudo tem o seu lugar determinado. Essa ideia era inclusive usada para reforçar o sistema de castas e a escravidão. Claro que seria um pouco precipitado culpar a hierarquia e os dualismos por causa disso, considerando-os fadados ao conservadorismo e preconceitos. Eu não acho que seja esse o caminho.
 Essa reflexão serve para alertar o magista sobre o seguinte: caso ele opte por utilizar um sistema idealista e dualista, derivado das tradições neoplatônicas (isso resume praticamente todo o ocultismo tradicional, especialmente os sistemas derivados das religiões judaico-cristãs como a cabala), ele deve ficar atento para não cair nas armadilhas que o dualismo pode gerar.
Evidentemente, cada sistema tem suas armadilhas, pontos fracos e problemas. O próprio caoísmo não é isento disso. Quem é caoísta pode cair na armadilha de confundir a imaginação com o mundo dos sentidos, de acreditar que tem superpoderes realmente extraordinários a ponto de comandar o universo, dentre outras conclusões precipitadas.

Não há respostas definitivas para essas questões, mas para concluir até onde pode ir, o caoísta deve testar: no seu dia a dia, a sua imaginação é tão poderosa a ponto de transformar completamente a realidade lá fora? E até que ponto a imaginação pode alterar suas emoções? Ele é realmente o rei do universo?
Há outras problemáticas em jogo. O magista não é somente mente; ele é corpo. O seu corpo possui aspectos fisiológicos que não devem ser ignorados. Os hormônios influenciam diretamente em suas emoções, não importa o quão forte seja sua mente. Ele precisa de comida, precisa de coisas materiais. Não irá transformar o mundo somente com o poder da mente. Esse poder existe, mas deve ser aliado ao próprio corpo e à realidade material lá fora.
Corpo e mente, mente e espírito, todas essas coisas estão tão conectadas que é difícil separá-las. Elas devem ser vistas e transformadas em sua totalidade. A magia deve ser realizada de forma holística e não pela metade.
Muitos sistemas de magia neoplatônicos que clamam ser o espírito superior à matéria não estão “errados”. Eles são verdadeiros, mas somente dentro de seus modelos. Lá eles funcionam, contanto que se enxergue esse dualismo somente como uma sistematização.
A própria Magia do Caos, ao falar de “caos” não está realmente clamando que não existem padrões na natureza e que eles são somente inventados pela mente. Nós não sabemos se há padrões, falta de padrões ou uma mistura dos dois. Porém, como não é possível viver ou fazer magia fora de um modelo, os caoístas geralmente optam por modelos que mostram uma realidade mais caótica, pois abre um universo de possibilidades. Em suma, cada modelo tem seus altos e baixos.
Claro que quando eu digo que não é possível fazer magia fora de um modelo, nem mesmo isso deve ser visto como uma afirmação absoluta. Eu uso até mesmo essa colocação meta-paradigmática como um paradigma.
Mas você não precisa ficar louco ao estudar teoria da magia, tentando entender o que realmente é a magia e como ela atua. Isso é difícil de descobrir, por isso no caoísmo nós optamos por ser pragmáticos: use a teoria ou a prática que te gere resultados interessantes.
O que é um resultado interessante? Isso cada magista deve descobrir. Cada um é livre para usar magia para o que bem entender. Sempre há os moralistas defendendo que magia só deve ser usada para A e não para B. Algumas vezes pode ser que eles estejam certos, mas os magistas também merecem a liberdade de explorar um pouco o que funciona até chegarem em suas próprias respostas.
E aqui nós caímos novamente na questão da hierarquia. Um sistema hierárquico já te deu estas respostas e já te colocou num ranking. Esse sistema te indicou o caminho que você deve seguir para “evoluir espiritualmente”, seguindo um passo a passo mais ou menos determinado. Isso é válido. Esse sistema pode ser usado com sucesso. Mas não é a única forma de fazer as coisas. Provavelmente não é a melhor, pois o que é melhor pode variar de pessoa para pessoa.
Eu particularmente não me sinto tão à vontade ao pensar em termos de melhor ou pior na magia. Para mim, a Magia do Caos permite descobertas, transformações e sobretudo autoconhecimento. Para alguns (note, não para todos!), é difícil haver autoconhecimento quando você já tem tudo pronto numa cartilha e não tem a liberdade de refletir, de questionar e de construir suas perguntas e respostas. Porém, cada pessoa é diferente e cada um tem a liberdade de conhecer a si mesmo da forma que bem entender e não precisa dar satisfações.
Acredito que a maior parte dos desentendimentos que existem no ocultismo é porque cada magista clama ter encontrado a forma “melhor” de fazer magia. A meu ver, não há uma forma melhor, pois cada indivíduo é único. Ou se realmente existe um caminho melhor, é difícil definir o que ele realmente seja através de nossa razão e de nossos sentidos. Essa primeira falha inerente à natureza humana é chamada de “ídolos da tribo” por Francis Bacon: tanto o intelecto quanto as percepções sensoriais estão sujeitos a enganos.
Alguns magistas podem dizer: “Eu li mais livros” ou “Consigo mover objetos com a mente” ou “Meus feitiços sempre funcionam” ou “Sou iniciado em dez Ordens diferentes” ou “Faço mais doações para instituições” ou “Sou ativo politicamente”.
Todas essas coisas são ótimas, mas eu acredito que não é nada disso que defina em absoluto o nível de magia, nível espiritual ou mesmo o caráter de uma pessoa. Simplesmente porque eu prefiro tentar olhar para a realidade como, por natureza, isenta de hierarquias. Para mim, pelo menos a maior parte dessas hierarquias foram artificialmente inventadas por nós.
Alguém pode clamar: “O certo e o errado, o bem e o mal, eles são absolutos, não são construções históricas e sociais”. Existe uma chance de isso ser verdade. Mas mesmo se for, quem realmente consegue diferenciar essas coisas se a mente e o mundo são tão complexos e existem tantos ídolos distorcendo nosso entendimento?
Vamos supor que, na maior parte das situações, sejamos capazes de diferenciar o bem e o mal. E provavelmente nós somos. Mas quem disse que isso é uma competição?
Há essa mania de competir, seja no mundo ou na magia. E isso não me surpreende. Somos incentivados a competir desde o colégio, com as notas. Na universidade, no trabalho. E os sistemas e teorias da magia foram construídos no interior de um mundo competitivo, que funciona como um jogo.
O jogo da magia é: “vamos evoluir espiritualmente. Vamos ver quem ganha. Vejamos quem é o mais bondoso e o mais poderoso”. Eu não sou contra competições saudáveis. Porém, como eu já mencionei antes, pode haver o risco de transformar uma boa intenção em algo perigoso, como a ideia de que existem os “escolhidos ou iniciados sábios” e a “massa ou o gado ignorante”. Um dualismo, a meu ver, bastante negativo. Em vez de desejar destruir a dualidade, queremos fazer parte dos “sábios” e manter a dicotomia. Como disse Paulo Freire, o sonho do escravo não é acabar com a escravidão, mas tornar-se um senhor que possui escravos.
Acho que cada pessoa deve ser livre para explorar a magia no seu ritmo. Ir descobrindo a si e ao mundo pouco a pouco, de forma natural e divertida. O magista não precisa sacrificar a si mesmo pelo bem do mundo (pode ajudar os outros, mas sem prejudicar a si) ou treinar meditações ou feitiços horas por dia pelo desejo de se tornar “mais poderoso”.
Claro, como foi dito, na magia queremos ganhar o jogo: ser o mais sábio, o mais poderoso, o mais bonzinho, o mais qualquer coisa, contanto que seja “o mais”. Vamos ver quem leu mais livros, quem ganha as discussões, quem dobra o mundo material a seus pés com a magia ou quem é o redentor do mundo, para se tornar um herói e receber a aprovação dos outros.
Evidentemente, quem se diverte jogando o jogo, pode continuar, principalmente se os resultados forem positivos. Se a competição estimula o magista a estudar, praticar ou até a ser mais gentil, que legal! Então use a hierarquia de forma positiva. Isso é possível.
No entanto, devo dizer que eu, particularmente, prefiro tentar não jogar tanto o jogo da hierarquia. Não acho que “os fins justificam os meios”. Não acredito que seja justificável fazer as coisas certas pelos motivos errados (considerando o que é “certo” e “errado” dentro desse modelo).
Ainda acho mais válido simplesmente dizer: que tal deixarmos de lado a ideia de evolução espiritual? Para mim essa é uma ideia de Darwin que faz sentido na biologia (e até mesmo na biologia ela não é absoluta). A evolução não necessariamente se aplica tão bem ao ocultismo. A propósito, no livro “A Origem das Espécies” Darwin deixa claro que aplicou a teoria de Malthus (que posteriormente se mostrou incorreta) para desenvolver a ideia de luta pela sobrevivência. Não sei porque muitos colocam um status quase divino nas ideias de cientistas como Darwin e Einstein, já que a história nos mostra que tais teorias irão eventualmente se mostrar não tão corretas no futuro ou serão no mínimo complementadas por outras. São hipóteses verificadas pela experiência, mas que não descrevem de forma absoluta a realidade. Não há nenhuma razão, tampouco, para aplicar as teorias atualmente aceitas (que são temporais) para o que ocorreria ao nosso espírito, que, segundo se costuma dizer, seria atemporal.(Só abrindo um parênteses: isso não significa que devemos deixar de dar crédito à ciência. Devemos considerá-la como divulgadora de verdades provisórias até que surjam teorias melhores. O método científico não é perfeito, mas é bom o bastante para confiarmos nele, com os devidos cuidados. É algo vivo e em constante transformação, sempre desafiando a si mesmo).
Não acho que devemos desesperadamente tentar fazer o bem para outras pessoas a custa de nossa saúde e sanidade ou estudar magia loucamente e sem parar para “estar na frente dos outros”. Deve haver um equilíbrio. Eu acho que os magistas formam um grupo múltiplo, vejo beleza na diversidade. Ninguém é melhor, mais poderoso, mais sábio ou mais “espiritualmente avançado” do que ninguém. As pessoas são apenas diferentes.
Claro que sempre podemos melhorar a nós mesmos, mas até essa ideia de “melhorar” a si não precisa ser vista de forma absoluta ou fatalista. Nós estamos sempre aprendendo, mas também desaprendendo. Acho duvidosa essa ideia de que gradativamente nos tornamos cada vez melhores. Até a evolução na biologia frequentemente atua de forma aleatória. Uma mutação pode até extinguir uma espécie. O nosso cérebro é seletivo, deleta informações o tempo todo, esquece coisas. Nossa memória engana. E um dia ela vai desaparecer.
Pode existir coisas como karma e alma imortal, mas não sabemos direito como isso funciona. O que sabemos é que, aparentemente, nosso corpo está vivo, nosso cérebro aprende e esquece coisas, passa os genes adiante e morre. Enquanto isso podemos criar, destruir, aprender coisas e esquecer. A magia entra aí no meio num contexto histórico e cultural, no meio da arte e da espiritualidade.
Nós criamos sentido para as coisas, inventamos padrões e hierarquias. Outros nós descobrimos, sem ter certeza se é uma ilusão ou a verdade. O padrão parece funcionar por um instante. Em outros momentos pode não funcionar mais, pois a realidade e a mente são dinâmicas.
A magia pode trazer grandes momentos de diversão, deleite e descobertas. Aprendizados e esquecimentos, que não são lineares. Para mim, não existe uma escadinha que marque uma evolução espiritual e que te faça subir até o céu. E se existir, ela pode ser tão diferente do que imaginamos que poderia se assemelhar mais a uma espiral ou a algo que aos nossos olhos pareceria um grande caos.
Portanto, a ideia de que estamos realmente “avançando” no entendimento da magia e do mundo ou “evoluindo”… será que faz sentido? A partir do Iluminismo muitos começaram a falar na ideia de progresso (criticada por Rousseau) e na supremacia da razão humana, no domínio sobre a matéria através da ciência. Até que estouraram as Grandes Guerras. Se estamos sempre progredindo, por que o sistema heliocêntrico de Aristarco de Samos foi retomado somente muitos séculos depois?
É bem aceito na biologia que o ser humano não é mais evoluído do que outros animais, mesmo possuindo a razão. Alguns animais voam, outros respiram embaixo d’água; existe a ideia de um ser mais adaptado ao ambiente em que vive e não um animal mais evoluído que todos, de forma absoluta. E se o ser humano não está mais evoluído que outro animal, por que um ser humano estaria mais evoluído que outro? Se isso faz sentido do ponto de vista biológico, faria ainda mais do ponto de vista espiritual, que seria mais subjetivo.
Para alguns a ideia de evolução espiritual pode soar simpática. Para outros, pode haver soluções melhores. Aconselho usar a visão que mais te agrada, que mais faz seu coração bater forte e seguir experimentando e compartilhando suas descobertas. Não somente por desejo de ser melhor ou de evoluir, mas pela alegria de se divertir com os amigos. No final, pode ser que todos esqueçam de tudo, seja ainda em vida ou na morte, mas ainda assim terá valido a pena.

Este post tem 15 comentários

  1. Laureano Nogueira

    Marcelo,
    este trecho deixou-me confuso “para mim, não existe uma escadinha que marque uma evolução espiritual e que te faça subir até o céu”.
    Sempre entendi que a trilhar os caminhos da Árvore da Vida, conforme o sistema da Golden Dawn ou da A.A., levaria o iniciado rumo ao Ain Soph Aur, que seria o Nirvana. Assim, existiria uma hierarquia, estou enganado quanto a esta leitura do processo iniciático?
    @Wanju – Oi Laureano. O Marcelo poderá te responder posteriormente, certamente com mais habilidade do que eu, já que ele possui mais conhecimento sobre a cabala. Mas por enquanto deixo aqui a minha visão sobre o assunto. Esse texto foi escrito por mim e cada colunista pode possuir uma leitura diferente sobre os assuntos abordados. Da forma que eu entendo, a Árvore da Vida está correta, assim como os sistemas ensinados pela Golden Dawn e a A.A. Porém, como aqueles que já estudaram a Árvore da Morte estão cientes, não existe uma única via para escalar a árvore. Thomas Karlsson em seu livro “Qabalah, Qliphoth and Goetic Magic” menciona o Caminho Nobre, que segue pelo meio dos ramos da Árvore, que seria diferente de seguir o caminho tradicional pelos pilares direito e esquerdo. O adepto RHP é orientado a subir na Árvore a partir de Malkuth, enquanto o adepto LHP consegue pegar atalhos através das conchas das qliphoth e mundos de emanação. Ou seja, pode existir uma hierarquia sim, mas é uma hierarquia provisória, um mapa para percorrer o caminho. Contudo, aqui deverei repetir o velho clichê de que “o mapa não é o território”, ou ao menos ele não é na maior parte dos casos. Quando achamos exceções a essa regra, podemos esboçar um sorriso: há momentos em que achamos caos na ordem e outros em que achamos ordem no caos. No próprio budismo há dois caminhos para chegar ao Nirvana: a via da Flor de Lótus Vermelha (iluminação pela mente, através do caminho tradicional Theravada, com os jhanas) e a via da Flor de Lótus Branca (iluminação pela sabedoria, pegando os atalhos, como os koans do zen budismo). Algumas vezes iluminar-se significa atravessar o caminho do samsara para o Nirvana, seja com um barco grande (Mahayana) ou pequeno (Hinayana). Em outras significa eliminar a noção de que há um caminho (unir as mãos do samsara e do Nirvana num “gassho”)

  2. Henriquess777

    “Em vez de desejar destruir a dualidade, queremos fazer parte dos “sábios” e manter a dicotomia.” 10/10

    é como eu ja ouvi de gente que ta fazendo sua verdadeira vontade: “divirta-se” 🙂
    muito bom o texto.
    @Wanju – Valeu, Henrique!

  3. Hellyaz

    Wanju para presidente o/
    Puta texto mew. Continue escrevendo bastante para o TdC, pois certamente nós, simpatizantes do caos, imergimos em profundo deleite multiorgasmático em cada um dos seus Textículos.
    @Wanju – Brigadão, Hellyaz!

  4. Danilo S.

    ”Pode existir coisas como karma e alma imortal, mas não sabemos direito como isso funciona”. Finalmente algo coerente, aguardo mais textos do autor, parabéns.
    @Wanju – Obrigada, Danilo.

    1. Magick

      Quando você disse: ”Pode existir coisas como karma e alma imortal, mas não sabemos direito como isso funciona” e “os caoístas geralmente optam por modelos que mostram uma realidade mais caótica, pois abre um universo de possibilidades.”, lembrei de um parágrafo do “O Livro das Sombras: O Guia dos Jogadores para MAGO: A Ascensão”, que diz:

      “Há poucas respostas fáceis nessas páginas, mas há muitas possibilidades. Muitas informações contidas aqui tomam a forma de histórias, parábolas que divulgam verdades sob diversos pontos de vista. Alguns desses contos criam mais perguntas do que repostas, mas para Mago isso é bastante apropriado. Se a realidade é maleável, então há muitas verdades as quais escolher. As respostas claras limitam as possibilidades.”
      @Wanju – Exatamente. Ótima referência!

  5. Dan Cruz

    Wanju, uma pergunta: o que dizer de sistemas “dualistas” como o Tao ou mesmo a interação Fogo&Gelo da Magia Nórdica? Pela forma que você colocou no texto seria um “dualismo” diferente desse neoplatônico, até por não fazerem uma relação hierárquica nesses casos.
    @Wanju – Adorei a pergunta, Dan! Em geral o neoplatonismo deu origem a sistemas de magia derivados da doutrina judaico-cristã. O taoísmo tem influências fortes da cultura chinesa na qual nasceu. O Yin e o Yang são opostos, mas são complementares e interdependentes. Por isso é como você falou, não formam uma relação hierárquica. No caso da Magia Nórdica, Michael Kelly diz o seguinte em seu livro “Aegishjalmur”: “Não há nenhuma inimizade – e pouca diferenciação – entre a carne e o espírito nas religiões europeias originais. O corpo é uma parte do complexo que compõe o Self. Encarnação é uma alegria, não uma obrigação”. “A maioria das religiões preocupam-se com a cessação do desejo, mas a Magia Draconiana é – e sempre foi – sobre a busca do Desejo”. “Não há necessidade de uma distinção entre Caminho da Mão Direita e Caminho da Mão Esquerda no Norte, tais como se encontra em outras abordagens espirituais; ou talvez mais precisamente que a ideologia do Norte é Caminho da Mão Esquerda em sua própria essência”. Nesse livro são apresentados os quatro elementos helenísticos, mas substituindo a terra pelo gelo. E cada dois elementos formam novos (gelo e ar forma sal, por exemplo). Os elementos são claramente vistos numa relação muito mais de complementação do que de oposição.

    1. Dan Cruz

      Tem ilustrações que esquematizam a relação corpo/espírito em livros de Magia Nórdica que lembram muito uma matryoshika 🙂 Essa relação de complementação me parecer ser mais forte nos sistemas pagãos e orientais mesmo.

  6. Elber

    Lendo esse texto fiquei com a idéia de que, se existe realmente uma evolução, talvez ela seja horizontal, no sentido de expansão de consciência/experiência e nao vertical como algo a se ascender, ou escalar.

    Não sei se estou certo, mas, errado ou certo parece que as liçoes estão sempre no meio, rs.

    Parabéns Wanju, ótimo texto.
    @Wanju – Brigada, Elber. Gostei da ideia de evolução horizontal. Ela me parece bem mais simpática que a outra, pois seriam coisas que se vai agregando (ou perdendo) ao longo da vida, em vez de uma escada cujos degraus já estão determinados.

  7. Krameria

    “E se o ser humano não está mais evoluído que outro animal, por que um ser humano estaria mais evoluído que outro? Se isso faz sentido do ponto de vista biológico, faria ainda mais do ponto de vista espiritual, que seria mais subjetivo.”

    Wanju, como de costume, ótimo texto.De fato, vencer a dicotomia parece ser um dos maiores desafios de estudantes de ocultismo de todas as correntes.O BemxMal , o CertoxErrado e as teorias de evolução espiritual muitas vezes atrapalham nosso desenvolvimento, pois nos vemos prisioneiros de determinadas ideias e conceitos e fazendo um esforço monstruoso para compreender e seguir estas diretrizes.Sempre desconfio dos caminhos de “Iluminação” ou de “Mestres Iluminados”.Não me parece saudável tentar atingir uma inumanidade uma vez que, em Malkuth, essa é a situação de todos nós: perdidos feito cego em tiroteio, buscando uma forma de melhorar um pouquinho de cada vez.
    @Wanju – Muito obrigada, Krameria. De fato, é curioso pensar que uma teoria dicotômica, cujo intuito era somente realizar uma sistematização para facilitar o entendimento possa acabar criando obstáculos. Em casos em que isso ocorre, pode ser benéfico abandoná-la ou no mínimo interpretá-la sob outros pontos de vista. Afinal, essas diretrizes que criamos são úteis somente na medida em que nos auxiliam. No momento em que são tomadas como a verdade absoluta podemos cair em várias armadilhas que esse pensamento suscita. Muitas vezes o que nos falta é realizar somente uma mudança de paradigma. Nós temos a tendência a pensar que o problema está sempre do lado de fora: o fato de sermos humanos, mortais e imperfeitos e tentamos desesperadamente nos tornar algo diferente disso, ambicionando uma condição divina, imortalidade ou perfeição que é tida como “melhor”. Acredito que deva haver um equilíbrio: aliar a mudança mental a uma mudança corpórea e material, em vez de criar uma guerra entre corpo e mente, entre mente e espírito. É como foi mencionado aqui nos comentários sobre o Yin Yang: os opostos podem se complementar e harmonizar.

  8. Makavelli

    Texto bonito e inspirador, porem com argumentos de defesa ruins. Concordo em partes e descordo em partes. Você simplesmente é contra o “se achismo” ou “superioridade” de certas pessoas ou massas diferentes uma da outra, porem defende essa sua ideia de maneira sensacionalista e errada.
    Explicitamente você tenta falar (nao existe maneira certa existe a MC..ahahha descontrair) e faz comparações de coisas distintas para relatar que nem um, nem outro é melhor. quando na verdade 1 pode ser melhor em um aspecto, e outra em um aspecto diferente, tendo em vista isso não tem necessidade destas comparações, porem muitos fazem esta e isso te deixa P, Tudo isso para dar uma pitada sobre a visão errônea de de alguns na magia tradicional do dualismo.

    Vamos lá…..

    Vou dar meu parecer obviamente onde entendo mais, com fatos fisiológicos desculpa se interpretei errado teu texto.

    “quando você fala de biologia e mutações como argumento de defesas dei cambalhotas na cadeira”

    -Adaptação e evolução andam em uma linha muito estreita, que um texto como esse pode ludibriar as pessoas. Tenhamos um dicionario ao lado da mesa….Sem tentar distorcer a palavra adaptação e evolução.
    -Adaptações na natureza ocorre para preservar a especie esse conjunto de adaptações acabam se tornando a evolução da mesma ao passar os anos, pois se isso não tivesse ocorrido pereceria.
    -Mutações ocorrem na alteração da cadeia de Aas que o organismo produz, podem ser benéfico, forçados pela necessidade de uma adaptação ou não e consequente mente se tornar uma evolução, pode ser indiferente no qual ocorre porem o organismo se adapta (e evolui aahahah) ou ruim quando o orgiasmo nao tem o tempo necessário para tal adaptação (sem evolução), porem desconheço fatos que tenham extinguido especies. Tenho conhecimento em que duas especies se diferenciaram devido mutações onde as duas evoluíram 🙂

    “. Ninguém é melhor, mais poderoso, mais sábio ou mais “espiritualmente avançado” do que ninguém. As pessoas são apenas diferentes.”

    Falando assim me apaixono, me faz lembrar muitas minorias oprimidas….
    -Não pode me dizer isso, sem colocar um parâmetro, dentro de algum assunto lugar (whatever), sim eu sou bem mais sábio, melhor, mais poderoso, mais avançado, EVOLUÍDO que você, como você pode ser mais que eu em outro. É ISSO QUE NOS DIFERENCIA. essa diferença pode ser útil ou inútil, pode escolher….
    -De maneira geral não vivemos um arco ires. Quem vai atrás e se esforça é melhor e ponto e quem nao vai fica estagnado….(Á mas a sociedade atual mimi blabla… você não pode dizer que é melhor pois conhece mais ou leu mais ou se denomina fulano ciclano) quer ser uma alga marinha e acreditar nisso beleza, vai morrer e nada vai acontecer, vai ficar estagnado indo conforme os outros ditar a coisa!
    -O ser humano evoluiu nem sempre por uma adaptação, exemplo nosso cérebro tinha e tem fatores limitantes, começamos mudar isso quando assamos os alimentos, oferecendo mais calorias para desenvolvimento dele (chame isso como quiser adaptação ou evolução).
    -Li algo aqui que o marcelo postou que diza: Nao existe almoço grátis.. PoisZé, quem se dedica mais evolui e conhece mais independente se é (MC ou M.tradicional ok?)

    “Uma mutação pode até extinguir uma espécie. O nosso cérebro é seletivo, deleta informações o tempo todo, esquece coisas. Nossa memória engana. E um dia ela vai desaparecer.”
    – até hoje desconheço alguém que a memoria tenha desaparecido além do meu vô com Alzheimer, e mesmo assim ele não esqueceu apenas confundia(brincadeira ahahah)… se a nossa memoria não for a “porta” ou “livro” para alguma coisa a mais alem do material, nós somos muito egoístas por estamos aqui no blog. Li aqui no T.C:
    “Pertencer a uma Ordem Iniciática não faz de você uma pessoa melhor,
    Ter muitos conhecimentos magísticos não faz de você uma pessoa melhor,
    Estar em uma religião não faz de você uma pessoa melhor,
    Ser uma pessoa melhor faz de você uma pessoa melhor“.
    – Nao vou falar muito sobre Cérebro, Manobrown ja diria cada ser humano é um universo.
    -Nossa especie ela armazena oque é do nosso interesse, e oque nos deixa melhor ou nos mantem vivo quando nao esta trabalhando para melhorar algo que ja saibamos, oque não me interessa vai embora, todos que estão aqui tem interesse pela espiritualidade naturalmente uns vão saber mais outros menos sobre criando sim diferença de sabedoria.
    vide o exemplo bicicleta nem todos sabem andar, quem sabe nunca esquece, porem uns andam mal e outros bem…

    Vou finalizar por que poderia ficar até amanha colocando Quotes do que foi dito no teu texto e rebatendo de maneira muito séria.

    ”Nós criamos sentido para as coisas, inventamos padrões e hierarquias. Outros nós descobrimos, sem ter certeza se é uma ilusão ou a verdade. O padrão parece funcionar por um instante. Em outros momentos pode não funcionar mais, pois a realidade e a mente são dinâmicas.”
    E todos o resto sobre natureza e biologia, que você sitou como base de argumentação, a Fisiologia e Bioquímica explica! cuidado…

    Voltado para espiritualidade!
    Talvez não exista pessoa mais evoluída espiritualmente (particularmente duvido mas nao se trata da minha opinião), Talvez exista pessoas com mais “bagagem” das quais estas podem lhe ajudar e transmitir algo útil. Fora isso é baboseira.
    E sim existe um certo “seachismo” no meio esotérico, isso é muito chato, cada um deveria cuidar de si.

    Voltada para escritora:
    li diversos textos ultimamente teus, e teu livro. Ótima escritora e muito inteligente, brinca com as palavras. Cuidado ao entrar na parte fisiológica.ahahah….
    No entanto traga mais conteúdo sobre a MC e menos contra pontos ou divergência a alguns pensamentos da magia tradicional, sempre voce fala que na magia tradicional é assim porem na mc é assim…uau, menos disso.
    Muito obrigado pela leitura, forte abraço, deus te ilumine =)

    @Wanju – Oi Makavelli. Obrigada por ter lido minha postagem e por ter feito comentários tão detalhados. Acho bacana que mesmo que você não concorde com o que eu disse em muitos pontos (e você tem todo o direito de discordar) ainda assim leu com atenção e levantou pontos importantes.
    Tentarei responder as questões mais ou menos na ordem em que você as apresentou. Caso eu tenha entendido errado alguma colocação sua ou não tenha respondido adequadamente, peço que me avise e logo após tentarei responder de forma mais apropriada.
    Primeiramente, achei que eu tinha deixado claro (se não deixei, foi um erro meu) que não sou contra dualismos e hierarquias. Na verdade, eu escrevi isso no parágrafo de abertura da postagem. Há vários exemplos excelentes de sistemas de magia que funcionam muito bem dentro desse paradigma. Eles não estão errados! O meu ponto é que eles funcionam muito bem dentro do modelo em que foram construídos e existem outras possibilidades de modelos.
    Isso é tudo. Aponto exemplos de armadilhas em que podemos cair, não importando se estamos falando de magia tradicional, moderna ou pós-moderna. Nenhum sistema é perfeito, pois a sistematização mostra um modelo da realidade e não a realidade em si.
    Agradeço pelo esclarecimento sobre as diferenças entre o termo “mutação” e “adaptação”, se você acha que apontar essa diferença muda em algum ponto o que eu disse. O que eu quis dizer é que mutações podem trazer alterações genéticas que beneficiem ou prejudiquem um indivíduo de dada espécie (algumas mutações inclusive não alteram em nada a sequência de aminoácidos do DNA, que são as chamadas mutações silenciosas). Pode ocorrer o evento de uma mutação desfavorável se espalhar naquela espécie (caso seja transmitida de forma hereditária, como no caso de uma mutação nas células germinativas, que originam os gametas) e levá-la inclusive a extinção. Eu usei esse exemplo para demonstrar que o termo “evolução” não significa necessariamente “melhorar”. Evolução é mudança, seja num sentido positivo ou negativo (pode ser negativo para o indivíduo e positivo para a espécie, etc).
    Felizmente o complexo MHC varia bastante entre diferentes pessoas (o que também é resultado da evolução, gerando variabilidade no sistema imune), que é um dos fatores que impede que fiquemos suscetíveis a um patógeno altamente virulento e ocorra a aniquilação da nossa espécie.
    Quando eu disse “Ninguém é melhor, mais poderoso, etc” você tem razão em apontar que isso é verdadeiro somente dentro de um paradigma específico (este que eu tratei no meu post). Evidentemente, você pode construir modelos em que exista uma hierarquia. Novamente, eles são válidos. Eu apenas observei que sistemas hierárquicos não são os únicos possíveis.
    Quanto às algas marinhas que você mencionou (desculpe, senti vontade de defender as algas marinhas, hehe) elas estão adaptadas ao ambiente em que vivem. Há alguns estudiosos inclusive que as consideram importantes o bastante para estudá-las. Ainda bem, pois elas são fundamentais ao ecossistema, assim como todos os outros seres com os quais compartilhamos complexas relações ecológicas.
    Sobre o ser humano não evoluir sempre por uma adaptação biológica, você está completamente certo. Como Richard Dawkins aponta em seu livro “O Gene Egoísta”, a cultura tornou-se um replicador muito mais eficiente que os genes, que ele chama de “memes”.
    O materialismo e o idealismo são duas percepções acerca da realidade. Não sabemos qual é verdadeira, dentre outras opções. Porém, cada uma delas pode funcionar bem dentro de seu paradigma, tendo em vista resultados práticos.
    Sobre a memória, não somente nos casos de Alzheimer ou de morte (na morte realmente não sabemos o que ocorreria com a memória; alguns clamam que o que aprendemos em vida fica no karma, mesmo que a memória se vá) ela pode apresentar algumas falhas. Sim, nós temos, até certo ponto, algum poder de decidir o que fica ou não na memória. Há um vídeo interessante sobre isso que nos lembra sobre o quanto a memória pode nos pregar peças às vezes: https://www.youtube.com/watch?v=IjUbaf1duCE
    Você citou a fisiologia e a bioquímica. Por acaso, já cursei essas disciplinas na faculdade (assim como biofísica, histologia, anatomia, ecologia, dentre outras nessa área) porém, evidentemente isso não é o bastante para eu ter conhecimento suficiente nessas áreas complexas. Nem se eu lesse inteiro o “Princípios da Bioquímica” de Lehninger seria o bastante para eu afirmar que realmente sei bioquímica.
    Concordo com você, pode haver pessoas com mais “bagagem” em temas específicos. Porém, essa bagagem a encaixa numa hierarquia somente dentro de um modelo em que aquele tema específico seja considerado relevante, seja por quais razões forem. Provavelmente em certa tribo indígena é mais relevante saber seguir trilhas de animais para caçar do que saber química.
    Sua última observação é interessante. Peço desculpas se estou sendo insistente em comparar magia tradicional/moderna com a vertente pós-moderna chamada magia do caos. Eu o faço aqui no TdC especialmente porque sei que aqui a maioria dos leitores seguem escolas mais tradicionais de magia. Nenhum problema nisso, respeito a magia clássica, ela é belíssima, bem fundamentada e funciona muito bem. Porém, tenho interesse que mais pessoas conheçam a MC simplesmente porque gosto dela e acho que vale a pena ser conhecida. Por isso me foco nesse tipo de argumentação. Não para colocar uma contra a outra, mas na tentativa de harmonizá-las: mostrar que um mago que estuda cabala pode estudar também caoísmo e vice-versa.
    Embora eu tenha focado bastante na CMT (Chaos Magic Theory) nos meus últimos posts, já falei extensivamente de muitos outros temas do caoísmo, tanto em meus livros como em minhas outras postagens. Se houver um conteúdo de MC em específico que você deseje saber mais, fique à vontade para sugerir que posso tratar dele, se eu puder.
    Eu que agradeço pelo comentário. Abraços! Que Deus, os Deuses e os servidores te iluminem também, haha.

  9. Damnes Aspare +h -A

    Eu entendo magia da caos como “magia open source” enquanto os outros sistemas de magia são sistemas fechados onde você pode trabalhar com certa criatividade porem dentro dos limite do sistema. Magia do caos significa “descompilar” este sistemas buscando o seu entendimento e sua fonte de funcionamento, alem de buscar em suas experiencias pessoais outros conhecimentos para melhorar o modelo antigo. Muito escandalosamente se fala sobre excesso de teoria dentro do ocultismo porem o que realmente é excesso de pessoas pegando excesso ideias prontas e aplicando elas , porem sem nunca refletir de como essas ideias são construídas. Eles podem até ficar bom no que fazem , porem seu entendimento vai se manter limitado.Magia do Caos é possibilidade de uma magia mais cientifica onde se reflete sobre as estruturas da magia e sobre seu funcionamento , ainda a muito mistério a se descobrir porem e muito mais fascinante que preso as antigas ideias fechadas.
    @Wanju – Perfeito, Damnes!

  10. cristiano

    texto genial. seu ponto de vista é excelente, muito amplo. parabéns, estou muito grato por você escrever este texto. compartilhamos muitas opiniões.
    @Wanju – Valeu, Cristiano!

  11. Gelo

    Talvez não aja evolução espiritual, talvez não devamos transpor um conceito tão mal debatido e aplicado da biologia para a busca espiritual. Talvez nem exista esse negócio de “espírito” e no final só valha, mesmo, as exp. e o compartilhar.
    Muito obrigado amigo. Você fez uma vida -ou com mais justeza: um momento – mais leve. Obrigado
    @Wanju – O prazer é meu. Há muitos “talvez” na existência. Os momentos que passamos e as experiências que compartilhamos com os outros são reais o suficiente e nos dão dicas o bastante do gosto da vida.

  12. cristiano

    TEXTO INCRÍVEL

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