Os governantes antigos

Retirado do Tao Te Ching (*)

Na Era do Ouro, as pessoas não estavam conscientes
de seus governantes.
Na Era de Prata, elas os amavam e cantavam.
Na Era de Bronze, elas os temiam.
E por fim, na Era do Ferro, elas os desprezavam.

Quando os governantes perdem sua confiança,
as pessoas perdem sua fé nos governantes.

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Deus no Taoismo

rei_jadePor Gilberto Antônio Silva

Uma das perguntas que soam bastante freqüentes quando eu falo sobre Taoismo é o clássico “os taoistas acreditam em Deus?”. Isso é bastante natural vindo de um ocidental, nascido e criado em uma tradição judaico-cristã, mas pode ser bastante difícil de responder do ponto de vista oriental.

Se você pensar em termos de um Deus antropomorfizado, que possui sensações e sentimentos humanos, vigia a humanidade de barba branca e tem “favoritos” entre as pessoas, a resposta é “não”. Se você imaginar Deus como um princípio ordenador, sem forma mas dotado de consciência e que permeia todo o universo, a resposta é “sim”.

Muitos traduzem “Tao” simplesmente por “Deus”, mas é um erro de metafísica já que são coisas diferentes. O Tao é um conceito muito complexo, que extrapola a mera racionalidade humana.

Aí o leitor atento pergunta: “mas Deus não é um só?”. Sim, claro, mas mudam as formas como os povos O compreendem. No Oriente a concepção de Deus como pregada nas religiões reveladas (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo) é algo desconhecido. Quando os missionários cristãos pregaram na China tiveram uma dificuldade imensa pois os chineses não conseguiam entender a idéia de um Deus Único, Criador e Onipotente. Então usaram o termo “shen” para traduzir “Deus”, por significar algo parecido. Mesmo assim não tiveram muito sucesso, pois esse conceito continua obscuro para os chineses. Os missionários, então, se concentraram na figura de Jesus, pois um homem sábio que vagava pela terra acompanhado de discípulos e ensinando a todos é coisa bem comum na história chinesa. Confúcio mesmo fez muito disso.
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Magia Negra no Feng Shui

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Por Gilberto Antônio Silva

As pessoas de modo geral têm uma visão bastante equivocada do Feng Shui. Acham que é aquilo que aparece nas revistas de decoração e programas femininos, onde se coloca um sofá cor de mostarda na sala para harmonizar o “cantinho da prosperidade”. Isso tudo é bobagem. O Feng Shui tradicional chinês é uma poderosa ferramenta para se manipular energia. E manipulação de energia pode ser usada para qualquer fim que se deseje, benéfico ou não. Vou mostrar um bom exemplo disso.

Antes gostaria de deixar clara minha definição de “magia negra”, que muitos poderão achar simplista, mas que considero muito prática e objetiva: Magia Negra é toda manipulação de energia sutil ou forças naturais com finalidades egoístas e/ou que causem prejuízos a outros de modo deliberado.

Dentro do Feng Shui existem várias técnicas de estudo das formas do ambiente que se incluem nas chamadas “Escolas das Formas” como “Luan Tou” (“Topo da Montanha”) ou “Xing Fa” (“Método da Forma”). Acredito que não precise explicar aqui a importância das formas geométricas e suas influências energéticas, fartamente exploradas pelos grandes iniciados antigos, dentre eles os taoistas chineses.
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A ruína

Retirado do Tao Te Ching (*)

Quando o Caminho foi abandonado
a benevolência e a justiça se tornaram necessárias.
Então vieram a sabedoria e a perspicácia,
e a hipocrisia foi geral.

Quando a harmonia se perdeu
na relação das seis grandes famílias
o amor aos pais surgiu como uma grande virtude;
Mas era uma pseudo-virtude…

Quando os estados e os clãs estavam em ruína,
foram os ministros e os funcionários fiéis
quem os salvaram.

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Os significados ocultos no Yin-Yang

Oh, como é puro e tranquilo o Caminho,
pode ser que continue para além do Céu!
Não sei de quem possa ser filho,
pode ser anterior ao próprio Imperador de Jade
(Tao Te Ching, IV)

O Imperador de Jade, na mitologia chinesa, governa o céu e toda a existência abaixo dele, sendo o equivalente de um “deus criador primordial” das mitologias ocidentais, como Gaia [1] ou Javé. Quando o Tao Te Ching afirma que o Tao, ou o Caminho, pode ser anterior a tal divindade, ele estabelece com grande propriedade o quão misterioso e oculto é o Tao.

O Tao, conceito central do taoismo, não é só um caminho físico e espiritual; ele também é identificado com o Absoluto que, por divisão, gerou os opostos/complementares yin e yang, a partir dos quais todas “as dez mil coisas” que existem no universo foram criadas. Isto quer dizer exatamente o que parece: o Tao é o Tudo, pois é precisamente este o significado de “as dez mil coisas” no taoismo, isto é, Tudo o que existe.

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Dois Caminhos

Por Gilberto Antônio Silva

Ao entrarmos em uma seção de “filosofia oriental”, ou como geralmente se encontra, “esoterismo” e “auto-ajuda”, seja em uma biblioteca, livraria ou sebo, nos deparamos com uma infinidade de obras que mostram caminhos para o ser humano se conhecer e viver melhor, com mais “espiritualidade”. Isto causa uma certa confusão na pessoa que busca este tipo de conhecimento. Afinal, qual caminho devo escolher dentre esta miríade de escolas, linhas, culturas, filosofias, religiões?

Para ajudar a selecionar o que é melhor para você mesmo, mostrarei que praticamente todo este conhecimento se divide em dois caminhos principais que levam à “Iluminação”: a sabedoria e a devoção.

Estes dois caminhos são tratados por todas as grandes culturas do mundo, seja de modo claro, seja de modo disfarçado. Para os indianos os dois caminhos principais são o Jnana, sabedoria, e o Bhakti, devoção. No Taoismo temos o Daojia (taoismo filosófico) e o Daojiao (taoismo religioso). Qualquer um destes dois caminhos pode ser a escolha principal de cada pessoa, de acordo com sua constituição e necessidade espiritual. Existe um debate dentro do Taoismo, onde muitos afirmam que não existe essa separação, religião e filosofia são uma coisa só. Eu concordo, em parte. Filosofia e religião não são uma mesma coisa, simplesmente, mas ênfases diferentes em um mesmo caminho. Uma pessoa que siga um dos ramos não é melhor nem pior que outra que se sinta amparado pela outra via, pois ambas levam ao mesmo destino. Mas é inegável que existe uma atitude diferente às duas trilhas.
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Wuwei – A Água e a Pedra

Por Gilberto Antônio Silva

O conceito de não-ação (wuwei) é um dos conceitos taoistas mais mal compreendidos no Ocidente. Muitos pesquisadores acreditaram tratar-se de um fatalismo e de uma “filosofia da indolência”, onde aceitar o que acontece de forma passiva e esperar as coisas acontecerem são os fundamentos. Nada mais longe da verdade.

O Tao é uma constante não-ação
Que nada deixa por realizar
Tao Te Ching, Capítulo 37

Wuwei simboliza a aceitação do fluxo de acontecimentos e a atenção a cada pequena chance de alterar a direção deste fluxo. Todos sabemos que as circunstâncias nos conduzem em determinada direção, mas que dentro deste direcionamento sempre podemos fazer pequenas alterações e correções de rota.

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O retorno ao Caminho Antigo

Retirado do Tao Te Ching (*)

Se pudéssemos esquecer de nossa sabedoria
e de nossa perspicácia, isto seria um imenso benefício
para toda a vizinhança.
Se pudéssemos esquecer de nossa benevolência
e de nossa moral, a vizinhança voltaria a ser amável
e bondosa.
Se pudéssemos esquecer de nossas máquinas
e de nosso desejo incessante de enriquecer,
na vizinhança não mais se contariam nem ladrões
nem malfeitores.

Pois esses são os três novos métodos,
e todos eles desprezam o Caminho Antigo,
inventando palavras e pseudo-virtudes
para mascarar sua desgraça.

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Principais Tradições Taoistas

Gilberto Antônio Silva

O conhecimento de algumas das principais tradições taoistas é muito importante, pois cada uma delas possui características particulares. Saber alguma coisa sobre essas características nos auxilia a seguir o fio condutor das práticas taoistas e a compreender melhor seus conceitos e costumes.

Taoismo Huang-Lao: é uma escola de pensamento formada entre os séculos IV e II a.C. que traria principalmente a filosofia de Huangdi, o Imperador Amarelo, e de Laozi, autor do Tao Te Ching. Incorporou também elementos da alquimia e da religião tradicional chinesa (Shendao) e outras escolas como a Naturalista e a de Zhuangzi. Embora a Tradição Huang-Lao em si não possua doutrinas religiosas nem ensinamentos sistemáticos, foi nesse caldeirão que se moldou o Taoismo que viria a se difundir na Dinastia Han do Leste (25-220) e dar início às correntes religiosas taoistas. Era eminentemente filosófico e tinha a alquimia e a busca da imortalidade como de grande importância. Dentro dessa tradição a Medicina Chinesa teve um grande desenvolvimento, reunindo conceitos e fórmulas e sistematizando-as.

Taoismo Zhengyi (Unidade Ortodoxa): também conhecida como “Taoismo dos Mestres Celestiais” (Tianshi Dao). Fundada por Zhang Daoling em 142, foi a primeira organização taoísta e é ainda hoje uma das maiores e mais importantes. Seu fundador dizia ter recebido por transmissão divina do próprio Laozi a “Poderosa Comunidade da Unidade Ortodoxa” (Zhengyi Meng Wei). Teve seu quartel-general no Monte Longhu (Montanha do Dragão e do Tigre).

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O grande privilégio

Retirado do Tao Te Ching (*)

Os antigos mestres do Tao,
com sua sutileza e delicadeza,
compreendiam seus mistérios profundos;
e esta profundidade aparentava ser obscuridade
para aqueles que não eram capazes de lhes compreender.

Tais mestres tampouco podem ser descritos,
mas tentaremos fazer uma pálida aproximação da sua natureza:

Pareciam audaciosos como quem cruza um rio caudaloso
após o degelo do inverno.
Prudentes como se desconfiassem de todos os vizinhos.
Cheios de reverência como um hóspede numa grande mansão.
Prontos a desvanecer como o gelo ao sol.
Despretensiosos como a madeira bruta, ainda por ser talhada.
Livres como os ventos do vale
e turvos como a água do lamaçal.

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