Toda demanda é uma demanda de amor

A criança, ao nascer, tem como primeira experiência uma situação de profundo desamparo. A criança é um ser desamparado, que não possui por si própria as condições de sobrevivência, sendo dependente dos pais ou outros cuidadores. Alimentação, abrigo, introdução à vida cultural, entre outras necessidades, são responsabilidades dos adultos cuidadores até que o indivíduo alcance certo grau de autonomia. É uma fase também de edificação das relações afetivas da criança. Como um ser emocional, a criança liga-se afetivamente aos seus cuidadores, ainda que não tenha recursos simbólicos para nomear esta ligação. A criança ama seus cuidadores devido a sua condição de desamparado, sendo dependente deles, e estes atendem às suas necessidades. Por sua vez, ela deseja conquistar o amor deles, desenvolvendo uma série de comportamentos com o objetivo de atrair sua atenção. Assim como ama este outro que cuida dela, a criança deseja ser o objeto amado do outro.

Freud apresenta tal dinâmica através da metáfora familiar conhecida como complexo de Édipo. Esta nos serve como um referencial, pois sabemos que uma família não é formada apenas por indivíduos de sexos opostos, mas pode se apresentar de diversas maneiras, de acordo com a sociedade e o tempo histórico correspondente. Deste modo, pai e mãe são mais referenciais simbólicos que a literalidade do homem e mulher. Na metáfora freudiana do complexo de Édipo, a criança deseja ser o objeto amado da mãe, mas o pai se apresenta como uma interdição a satisfação deste desejo. Na fantasia infantil, o pai é um rival que compete com a criança em obter a atenção, e mais profundamente, o amor da mãe. Se por um lado, a interdição do pai frustra a criança em sua primeira relação afetiva, introduz a criança ao mundo da Lei.

A primeira relação de um indivíduo em sua existência é uma relação de amor. Ainda que haja algo nesta relação que aponte para um ódio (como por exemplo, uma relação de maus tratos de uma mãe para com seu filho), esta será uma relação de amor marcada pelo ódio. Amor, neste sentido, é visto de uma maneira mais abrangente do que romantismo. Deste modo, por exemplo, uma relação de raiva pode ser também uma relação de amor. Porque de algum modo, há algo nesta raiva (ou qualquer outra emoção que afete o indivíduo) que aponta para a estrutura deste sujeito, ou seja, a forma que ele se constituiu através de suas experiências. Experiências estas, em última instância, afetivas.

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Ao fim do complexo de Édipo, somos confrontados com a castração, isto é, a impossibilidade de obter o que desejamos. Entretanto, continuamos a demandar do Outro o amor que nos foi impedido de obter no Édipo. Os mesmos afetos envolvidos ao longo do desenvolvimento do indivíduo e que definiram o seu modus operandi tendem a se repetirem. Por exemplo, um sujeito que assistiu à traição nas relações de seus pais, especulativas ou literais, poderá ver-se mais tarde em relações de traições com outras pessoas. Um sujeito em que o amor lhe aparecia junto à punição pode habituar-se a uma posição masoquista para encontrar felicidade. Importante salientar apenas que isto não acontece de maneira determinista, mas depende do próprio modo como o sujeito interpreta suas vivências e como se projetará a partir delas. O que o sujeito entendeu sobre o amor a partir de suas relações vividas com o Outro, e não o que ele ouviu falar sobre o amor, é o que o sujeito projeta e demanda receber, ainda que inconscientemente, ainda que por vezes seja fonte de sofrimento para o mesmo.

Novamente relembro não se tratar aqui de um amor romântico, mas da própria matéria prima afetiva que constitui as relações. Deste modo, amamos muito mais uma fantasia do que a realidade que se apresenta diante de nós. Isto é, ao longo do complexo de Édipo, tal dinâmica sequer pode ter acontecido na realidade, mas foi interpretada pelo sujeito da maneira como ele conta. Entender a forma como interpretamos os acontecimentos é muito mais importante que demonstrar o que realmente aconteceu, esta última uma tarefa impossível já que cada um acredita apenas no que quer acreditar.

Desejamos um objeto amado que contemple essa fantasia, mas que ao mesmo tempo não a satisfaça por completo, uma vez que é necessária a sua própria incompletude para que ela continue existindo. O desejo busca uma satisfação, mas é ele próprio causado por uma carência, uma insatisfação. A satisfação da carência significa a própria privação do desejo. Deste modo, quantas vezes nos vemos diante de um desejo muito grande, e assim que satisfeito, o que antes era desejado parece perder a graça? No entanto, quando a insatisfação é por demasiada penosa, a satisfação parcial não compensa, deflagrando o sofrimento. Se por um lado, esta parece uma visão pessimista de que o ser humano está destinado sempre à insatisfação, podemos pensar que é esta última o próprio motor de movimento da vida e que nos impulsiona a crescer como indivíduos e sociedade.

Nas relações românticas, habitualmente cremos que o nosso parceiro é a satisfação do desejo. No entanto, nosso amor nos insatisfaz ao mesmo tempo em que excita o desejo. Tudo o que o objeto amado pode oferecer é um gozo parcial, uma vez que ele é tão humano (e possivelmente neurótico) quanto nós, além do gozo absoluto se tratar apenas de uma idealização. Idealizações estas que são muito comuns nas relações românticas, com demandas neuróticas como “o eleito deve ser único e insubstituível”, “deve permanecer invariável, não mudar nunca, a menos que mude de uma forma que queiramos”, “deve estar sempre disposto para satisfazer meus caprichos”, e “paradoxalmente, ainda que submisso, deve conservar uma autonomia para não nos estorvar”. Quando na realidade o objeto amado é um ser híbrido, constituído pela presença fantasiada e inconsciente em nós, e a pessoa exterior com que de fato convivemos e nos atrai por questões que vão além de nossa própria fantasia neurótica.

Em termos de psicologia, quase nunca podemos ser generalistas devido ao fato de lidarmos com pessoas, e obviamente, com a subjetividade. Entretanto, afirmamos com grande possibilidade de estarmos certos que toda demanda é, no fundo, uma demanda de amor. Com os nossos atos, tudo o que esperamos do outro é ser amado, independente do que signifique para este sujeito o que é o amor, o que ele pede e quais são os seus efeitos.

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Igor Teo lembra que Freud certa vez disse que todo tratamento psicanalítico é uma tentativa para libertar o amor recalcado.
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Este post tem 7 comentários

  1. Rodrigo

    Muito bom o texto.

  2. EDJ

    Ao analisar meu mapa natal, algumas das interpretações como Lua em capricórnio na casa 8 e marte (peixes casa11) trígono com plutão (escorpião casa 7) falam coisas tipo “você sofreu traumas na infância” e etc, logo fui “moldado” por isso. Como esse mapa foi gerado por um programa de computador com interpretações pré cadastradas julgo que todos com tais características sofrerão traumas parecidos e terão atitudes parecidas. Como fica a questão do livre-arbítrio? Não parece um tanto teatral? Vir e cumprir um papel pré estabelecido. Eu sei que falam que eu escolhi isso antes de vir, mas mesmo assim, como mudar algo que era suposto acontecer? Ex: Se alguém que tenha Lua em Capricórnio na casa 8 e não sofra traumas na infância causado pelos pais, vai ter que sofrer de alguma outra forma?
    @Teo – Todos, quaisquer que sejam as características astrais, sofreram traumas na infância e foram moldados por suas respectivas experiências. O fato disto permanecer inconsciente não significa não ter ocorrido, apenas que o recalque foi “eficiente”. Entretanto, não há determinismo. A forma como cada um lida com seus traumas é particular, e as atitude decorrentes são responsabilidades do sujeito.
    Por exemplo, uma mesma experiência vivida pode ser causalidade para uma introversão ou, ao contrário, uma extroversão. Como experiências completamente diferentes podem ser ambas causalidades para uma introversão para diferentes pessoas. Podemos não escolher o que o outro fez conosco, mas escolhemos, ainda que inconscientemente, o que fazemos a partir disto.

    1. EDJ

      Tomando sua resposta como ponto de partida “A forma como cada um lida com seus traumas é particular, e as atitude decorrentes são responsabilidades do sujeito.” Falando de modo mais superficial, mapas de colegas de trabalho e amigos que pude observar alguns características tidas com negativas acabam se compensando em outras. E de modo mais profundo no meu mapa a forma como resolvi lidar está refletido no meu mapa em outras características. Por mais que eu concorde com você a respeito que cada um deve ser responsável pelo que faz, cada vez que leio mais meu mapa e outros livros e sites para ajudar a interpretar e vejo outros mapas, parece que independente do que faça ou deixe de fazer, esta tudo “escrito”. E indo um pouco mais além, se acessar o site astro.com, aparentemente é possível fazer análise do teu dia ou mesmo o ano inteiro do que provavelmente pode acontecer. E o programa ou pessoa que interpreta só utiliza essas “coordenadas” entre os planetas. Se com a pouca evolução que essa ciência teve devido aos preconceitos pode-se fazer isso, imagino que com mais dados e análise e investimento, as informações seriam cada vez mais precisas a ponto de se resumir aquilo que temo, papéis a interpretar. Você não acha que é possível o livre-arbítrio ser a ilusão de estar no controle?
      @Teo – De fato, não acredito existir livre-arbítrio, muito menos que estamos no controle de qualquer coisa na vida. Ela é muito maior do que nós. Entretanto, acredito que não somos totalmente passivos diante disso. Há algo na subjetividade que é impossível de pré-dizer. Diferentes das maçãs de Newton, que não deixarão de cair da árvore se falarmos a elas sobre a lei da gravidade, nós construímos um conhecimento sobre nós mesmos (seja pela psicologia, sociologia, astrologia, etc.), e a partir dele podemos mudar o que era “pré-estabelecido”.

      1. Franco-Atirador

        É isso. Mas quando “saímos” de algo pré-determinado, entramos em outro campo com outros padrões pré-determinados, cheio de campos, pontos no espaço tempo onde temos porcentagens diferentes de escolha, aqui 100%, ali 0%, ali 21%, etc. Fico imaginando que isso rende muita diversão e apostas para seres que podem enxergar isso tudo, deve dar muito mais grana e emoção do que corrida de cavalos.

        Enfim, é mais ou menos como a kabbalah diz: podemos escolher entrar em diferentes salas de cinema, mas lá dentro o filme já está determinado. Há portais na nossa vida mais ou menos estreitos pelos quais podemos “entrar em outras realidades”.

        Fico imaginado como podemos mudar as nossas vidas. Uma pessoa solteira e “aventureira”, livre de dogmas, pode explorar muito mais esses aspectos e surfar muito mais a realidade. Nossa sociedade nos trava, nos impõe papéis e personalidades fixas. Um verdadeiro saco. única coisa que penso compensar é o afeto de uma família.

  3. Jessé Bispo

    “Na fantasia infantil, o pai é um rival que compete com a criança em obter a atenção, mais profundamente, o amor da mãe.”
    Pela primeira vez na vida, tenho experimentado na pele e entendido mais do que nunca o complexo de Édipo. Minha primeira “anjinha” vai faze 2 aninhos e tem nos ajudado a conhecer mais os intricados caminhos da vida. Uma fase muito linda e realmente profunda.
    Minha esposa e eu amamos seu texto Frater Teo. Muita Luz pra ti.
    @Teo – Obrigado! Felicidades para a família.

  4. Morphy

    A foto do filme que vc postou, tem alguma coisa a ver com assunto? Qual a avaliação que vc dá para o garoto psicopata do filme?
    @Teo – Tem sim. O filme é baseado no livro de mesmo nome. No livro, toda informação que possuímos sobre o garoto vêm da mãe, logo, a única análise possível é da própria mãe.

    1. Franco-Atirador

      Que filme é esse?
      @Teo – Precisamos falar sobre o Kevin

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