Tive uma decepção amorosa, daí encontrei a espiritualidade

Não foram poucas vezes que escutei pessoas afirmarem que chegaram na espiritualidade após o término de um relacionamento. Uma relação que chegou ao fim nem sempre motivada por questões como morte ou doença, mas que foi o simples término de um grande amor porque uma das partes já não estava mais interessada em manter aquele laço. As pessoas costumam relatar isso com certa vergonha, como se fosse uma razão baixa, menos legítima, o que não é justo. Não há vergonha nenhuma dizer que buscamos encontrar o amor na vida, e o amor sob a forma de um relacionamento amoroso. Aliás, é o que todos fazemos. E uma vez que passamos por uma grande crise relacionada a isso, tendemos a experimentar um grande colapso existencial. O conforto, por sua vez, podemos acabar encontrando em alguma forma de espiritualidade. (mais…)

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O inconsciente é como uma piada

Aquilo que permitiu a psicanálise se estabelecer como um saber diferente da psicologia e da psiquiatria, não podendo ser reduzida a estas, foi o seu objeto particular de estudo e atuação: o inconsciente. Enquanto na leitura psiquiátrica dos tempos de Freud, o psiquismo estava restrito ao campo da consciência, de maneira que é nesta que se incidia a alienação mental, a psicologia se centrava nos estudos das faculdades mentais, como sensação, percepção, atenção, memória, imaginação e entendimento, sempre também referidos à consciência. O psíquico se identificava assim com o ser da consciência e a subjetividade se fundava sob ela.

Já a noção de inconsciente é fundamental para a psicanálise, pois é a partir dela que Freud estabeleceu o entendimento tanto dos fenômenos que se apresentavam na clínica como patológicos, como também os eventos comuns vida cotidiana. Talvez um dos textos mais importantes de Freud sobre o inconsciente, e um dos que curiosamente menos recebe atenção, é Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905). Nele, Freud se debruçou sobre o fenômeno do chiste, da piada, do humor e daquilo que nos faz rir e ter gracejos no cotidiano. É no jogo de palavras, nos trocadilhos, no equívoco do entendimento –coisas tão comuns a piadas – que atribuímos um sentido diferente a algo que a princípio não teria. O discurso enunciado guarda um não dito que é suposto, mas cujos efeitos se fazem notáveis. Descobrimos uma verdade, concedendo-lhe conseqüências lógicas que ultrapassam a natureza original do comentário. Mas, essencialmente, no que consiste a técnica de fazer um chiste? (mais…)

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Autoconhecimento não é um caminho para dentro

Processo terapêutico, caminho espiritual, jornada de vida, autoconhecimento, dentre outros, são termos que se tornaram usuais na nossa fala cotidiana para nos referirmos a um processo pessoal de descoberta e realização. O sujeito, geralmente motivado por alguma questão que esteja o perturbando, sente-se motivado a entender mais sobre si para tentar lidar melhor com alguma situação na qual sente dificuldade. Pode ser uma ansiedade, uma exigência específica de realização, uma tristeza, um sentimento de solidão, ou mesmo desencontros em relacionamentos com familiares, amigos ou parceiros sexuais. Muito se fala neste momento em mergulhar na interioridade. Entretanto, ao estudarmos a psicanálise em seu âmbito teórico-clínico, precisamos fazer algumas ressalvas quanto a isso.

Pretendo demonstrar com o texto que um processo analítico não se trata de um mergulho, um retorno à interioridade, e sim um saltar para fora dela, um descentramento de si. Portanto, nos é necessário inicialmente diferenciar dois termos: o eu e o sujeito. O primeiro trata-se de uma identificação imaginária construída e operada ao longo da vida. O segundo é uma função simbólica de um ser falante, sem nenhuma essencialidade ou qualidade que a defina. Tais não igualáveis entre si. (mais…)

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O Inconsciente é o divino

A superfície consciente da nossa natureza é o nosso pequeno ego humano – as profundezas inconscientes são o nosso grande Eu divino.

A Realidade Universal é o grande Inconsciente, não o Inconsciente da vacuidade, mas o Inconsciente da plenitude. O Inconsciente da plenitude é o Oniconsciente, mas esse Oniconsciente se apresenta ao nosso ego consciente como sendo o Inconsciente. Os extremos se tocam. Quem olha para dentro da treva nada enxerga; quem olha diretamente dentro da luz solar, nada enxerga. Aquela escuridão é a ausência da luz, esta é a plenipresença da luz. Treva total e luz total são, para nossa percepção finita, a mesma coisa – o Nada, o Vácuo, a Treva, a Ausência. Nós, os finitos, só enxergamos o Todo quando ele é reduzido a Algo, mas não o enxergamos como o Todo, que nos parece o Nada. (mais…)

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