Star Wars, Taoismo e o lugar da neurose

Estamos vivendo a emoção do reencontro com a saga Star Wars nos cinemas. Após o excelente filme do episódio VII, produzido pela Disney, a mitologia de George Lucas voltou ao palco de nossas atenções. Rica em inspirações, a trama que mistura espiritualidade, ficção científica e política guarda muitos aspectos a serem explorados. Neste texto não me deterei na nova sequência, cuja história ainda está sendo contada, mas no arco de Anakin Skywalker, com especial ênfase nos episódios I, II e III.

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Se me proponho, a como anunciado no título, falar sobre a neurose, primeiro é necessário uma conceituação desta. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, entendia a neurose como um posicionamento estrutural do sujeito no mundo. Este posicionamento não se trata de uma patologia, mas de uma forma de organização psíquica frente à instituição da lei social. As instituições sociais são as regras simbólicas que fazem funcionar a sociedade segundo certo modelo estrutural, variando no tempo o espaço, mas que sempre existem como um modelo a ser seguido pelo sujeito. Elas são transmitidas inicialmente dentro da ordem familiar, onde o sujeito inicia seu desenvolvimento, e é posteriormente reafirmada pelas convenções sociais. Estas vão desde coisas simples e pouco questionadas no cotidiano, como usar roupa na presença de outras pessoas, até a própria crença no funcionamento da moeda como mecanismo de troca entre pessoas de valor assegurado, por exemplo.

A instituição da lei traz consigo aquilo que Freud chamava de castração. A lei como instituição reguladora impede que cada um faça o que queira, agindo somente a partir de seus caprichos, fundando uma regulação entre diferentes interesses. Na vida social, cada um sacrifica um pouco do que deseja egoicamente para poder viver na segurança e no conforto da civilização. A castração significa que nenhum indivíduo tem direito a satisfazer tudo aquilo que deseja, seja por convenção social (na medida que aquilo que deseja pode ferir, prejudicar ou até matar o outro), ou mesmo por impossibilidade (há tragédias acima do poder humano, como a aleatoriedade, o desejo do outro, a doença e a morte).

Na psicose, entendida como loucura, o sujeito, ao se deparar com a lei, a foraclui. Isto é, não a inclui como algo que diz respeito a si. Na ausência de uma lei social comum introjetada como forma de existir no meio social, o sujeito se utiliza do delírio como modo a criar para si uma representação de algo que em algum momento lhe faltou. A neurose, por sua vez, posicionamento de todos nós que nos consideramos normais, diz respeito ao sujeito que introjeta a lei que lhe é imposta, mas por desejar ir além dela padece de culpa. Seus sintomas são tentativas de dar saída ao seu desejo reprimido e, ao mesmo tempo, uma autopunição por se ver desejante. Observa-se assim que não há “sujeito completamente normal e saudável” para a psicanálise. Se, frente à lei e a castração, não for uma saída pela psicose e no delírio, o que nos resta é a fantasia neurótica, o mundo das ilusões (palavra que no espanhol tem um interessante duplo significado: também pode significar esperança) do amor, da religião e da política como forma de preencher um vazio de significação última que é a própria vida.

Anakin Skywalker representa muito bem o lugar do neurótico em sua saga. Garoto prodígio, inicia sua jornada no lugar fálico. Ele é o escolhido, centro das esperanças da ordem Jedi. Assim como um bebê comum que inicialmente ocupa um lugar fálico na ordem familiar. Sua majestade o bebê é o centro das atenções e das preocupações, e sobre ele é depositado os desejos dos pais. Será um grande juiz como o avô? Será capaz de fazer aquilo que seu pai quis, mas não pode fazer? Será bem sucedido como a mãe espera?

Durante seu treinamento Jedi, Anakin começa a dar indícios de sua ambição: deseja se tornar o Jedi mais poderoso de todos. A filosofia taoista, uma das inspirações para a construção do universo de Star Wars, diz que o homem deve se recusar a ser “o primeiro sob o céu”. Isto é, querer ser o maior entre todos os homens dentro de algo. Pelo contrário, prevê um caminho de simplicidade, de naturalidade do homem em relação a si e o mundo.

O taoísmo, diferente de outras doutrinas orientais mais radicais, tem um interessante posicionamento sobre o desejo. Não é errado desejar, tampouco o desejo precisa ser completamente erradicado. Faz parte da vida e do caminho do homem possuir diferentes desejos e até querer satisfazê-los. O problema está no excesso. Os extremos levam um ao outro: o excesso de riquezas cria o medo da pobreza, e a falta gera a ansiedade pelo possuir. O homem santo do taoismo é aquele que descobre o que é necessário para si, segue seu desejo, mas sem a intenção de com ele se tornar o primeiro sob o céu. Seu desejo o conduz a um caminho de simplicidade e liberdade, despojado das vicissitudes da vida, inclusive da própria necessidade do excesso. Poderíamos traduzir em termos psicanalíticos modernos dizendo que, ao contrário do que a fantasia de culpa do neurótico diz, o gozo é sim permitido, mas é na tentativa de fazer esse gozo infinito que o sujeito encontra sua perdição.

A grande questão para Anakin está perante a morte. Primeiro, enfrenta o trauma da morte de sua mãe, em que ele se vê incapaz de ter evitado por chegar tarde demais. Neste momento Anakin se confronta com a castração. E como neurótico, se revolta. O ser humano se encontra castrado diante de muitas coisas na vida, não possuindo poder sobre tudo. Como diria Freud, o homem não é senhor nem em sua própria casa, pois ao investigar seu psiquismo se dará conta da dimensão do inconsciente, que o influencia a todo o momento sem que ele conscientemente se dê conta. Há coisas que estão para além do poder individual, como o desejo do outro (sempre imprevisível e seguindo suas próprias regras), a aleatoridade da vida (não há como controlar cada passo do nosso dia, mas é na surpresa de deixar se permitir acontecer as coisas que novidades interessantes e recompensantes podem acontecer), e a própria morte. Esta última vai muito além da significação da morte física, mas da simbolização do próprio fim. Seja de um amigo que com a morte física se ausenta do seu convívio, um relacionamento que termina e deixa um vazio, ou o fim de uma identidade com uma mudança brusca na vida. O fim daquilo onde o sujeito neurótico se apoia como uma base é simplesmente aterrorizante.

Ao sonhar com a morte de sua amada Padmé Amidala, Anakin se reencontra novamente com seu trauma. No entanto, desta vez Anakin decide superar a castração. Deseja obter poder sobre a vida e a morte, lutar contra aquilo que está acima da própria condição humana. Negando a sua condição de castrado, ele se alia ao lado negro da Força, tornando-se assim Darth Vader. Ironicamente, similar às antigas tragédias gregas como a de Édipo, é ao tentar fugir de sua profecia que ela acaba se concretizando. Padmé, ao descobrir no que Anakin tinha se tornado, falece após o parto de seus gêmeos.

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A Força do universo de Star Wars possui inspiração no Tao do Taoismo. Tao, significa numa tradução aproximada, caminho. Mas que também pode significar caminhante ou caminhar, uma vez que estes não se diferenciam. No Tao Te Ching (O Livro do Caminho e da Virtude), base filosófica para o taoismo, é dito que o caminho que pode ser trilhado não é o caminho eterno e imutável. Isto significa dizer que o Tao está acima de tudo, não podendo ser propriamente descrito em palavras, ou mesmo controlado. O caminho do homem no Tao é a fonte de sua espirtualidade e singularidade, mas acima dele está o Tao que não pode ser domado. O homem pode viver no Tao, mas não dominá-lo. Assim estão os fatos maiores que o próprio homem, como a morte.

Darth Vader não aceita o caminho do Tao – ou da Força – e assim busca dominá-la para colocar sob seus desígnios, desejando superar a vida e a morte, indo contra o seu lugar de Jedi e seguindo o caminho Sith. Ele segue o caminho da neurose, que busca obsessivamente tudo controlar, tudo dominar, querendo superar a própria castração. O taoismo (e porquê não dizer o Jediísmo também) propõe uma outra forma de lidar. Assim como a psicanálise, conduz ao real da castração, não para aceitá-la como um fato mórbido, mas que a partir dela é que se pode viver. É através da simplicidade, aceitando que nem tudo pode se controlar ou dominar, que o homem se encontra com a liberdade de ser si mesmo.

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Como exemplo, há uma história que Jacques Lacan contava. Quando o sujeito vai ser assaltado lhe perguntam: a bolsa ou a vida? A questão é que essa é uma escolha falsa. A bolsa você já perdeu. A única escolha que você tem é pela vida, já que escolher a bolsa é perder a bolsa e a vida. Isto resume a realidade de castração e qualquer coisa que psicanaliticamente podemos falar dela. Você já perdeu muita coisa e ainda vai perder muito mais. Mas nunca tudo. Resta aceitar o que já está perdido para ter todo o resto.

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Curta a sua página no facebook.
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Este post tem 6 comentários

  1. Luigi Gomes

    Puxa. Melhor coisa que eu li no ano.

    Obrigado por ter escrito. Sensacional, mesmo. Me faltam palavras pra descrever a sensação epifânica, a identificação, de ler.
    @Teo – Obrigado, Luigi. Fico feliz que o texto tenha sido bem aproveitado!

  2. Pablo

    Como diriam os Beatles….Let it be…

  3. Wallace

    Incrível texto. Fascinante. Você conseguiu porem palavras o que já ronda a minha mente há muito tempo. Parabéns.
    @Teo – Agradeço, Wallace!

  4. Lima

    O caminho não pode ser dominado. Estava com os mesmos pensamentos do Anakin. O texto foi um grande alerta, Teo, estou grato!
    @Teo – Que bom! Abraço, Lima

  5. Fabrício

    Muito feliz a articulação entre a saga, o tao e a neurose! Parabéns!
    @Teo – Obrigado, Fabrício

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