Sombra

Tema sugerido pelo leitor Leandro.

Talvez um dos conceitos mais famosos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung seja o de Sombra. É possível encontrar referências a ela desde obras cinematográficas até na literatura de autoajuda. Deste modo, creio que falar deste tema não seja uma tarefa tão laboriosa, já que a maioria de nós possui certa familiaridade com seus pressupostos. Mas adianto que, como ferramenta teórica,  a ideia de Sombra deve ter certos cuidados por frequentemente nos levar a interpretar um estatuto transcendental e independente à mesma, como se o conceito se justificasse por si próprio.

De acordo com Jung, a Sombra é a parte da personalidade que a pessoa não reconhece em si mesma. Como na maioria das vezes os conteúdos que queremos ignorar em nós mesmos são características moralmente reprováveis, a Sombra tende a ser vista como a “parte negativa de nós”. Entretanto, não devemos levar isto como regra geral, já que aspectos positivos da personalidade podem eventualmente serem rejeitados. Porém, apesar de repudiada, a Sombra é parte integrante de nossa natureza, não podendo ser simplesmente eliminada. Mais além de sua negatividade, a Sombra é também fonte de espontaneidade, vitalidade e principalmente de criatividade.

Um aspecto importante de se compreender é sua tendência à projeção, isto é, que quando não reconhecida pelo seu portador, o indivíduo tende a projetar suas tendências indesejáveis em outros. É a pessoa que vive reclamando do defeito do outro, mas não percebe que aquilo que ela tanto aponta nas outras pessoas está muito mais presente nela própria do que em qualquer outro lugar.

O encontro com a própria Sombra é parte importante do que Jung chamava de Processo de Individuação. O reconhecimento de sua própria Sombra marca o primeiro estágio do processo analítico, que culminará com a integração da Sombra. A integração se constitui como um processo distinto da recusa e da aversão (que só alimenta ainda mais a Sombra) ou do oposto que seria se tornar a Sombra (se tornar o que você não quer ser).

O premiado filme Cisne Negro apresenta esta questão com maestria, onde Natalie Portman representa Nina, uma bailarina do espetáculo Lago dos Cisnes. Nina é uma jovem aspirante ao sucesso, dominada pela figura materna e emocionalmente insegura.  Vivendo uma vida excessivamente controlada, busca sempre pela perfeição. O papel do Cisne Branco não lhe oferece dificuldades, devido a sua característica doçura e delicadeza, mas para desempenhar o papel de Cisne Negro é necessário que ela penetre no lado sombrio de si mesma. No desafio de viver um papel que ela não está acostumada, Nina encontra seu psiquismo dividido entre sua personalidade de menina frágil e sua sombra de uma  mulher sedutora e espontânea.

Como ferramenta teórica, Jung nos trouxe um grande auxílio para compreensão de certos fenômenos. Porém, vejo com frequência o uso comum do termo quase como algo de existência própria e independente. Mas admito que não seja particularidade dela apenas, pois o mesmo ocorre frequentemente com termos como ego, superego, etc. Pois quando alguém diz “a minha sombra é assim” ou “isso é o ego”, lembro que não é sua sombra ou seu ego, mas você. Isto é, sombra e ego são ferramentas teóricas, nenhum existe de maneira delimitada e circunscrita dentro da sua cabeça ou seja lá onde for, mas simplesmente estão presentes no psiquismo. Deste modo, não há exatamente “a minha Sombra”, porque a sua Sombra é você.

__________________________________________________________________

Igor Teo lembra que Jung certa vez disse que “sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der”.
Blog: Artigo 19
Curta nossa página no facebook

Os textos de nossa coluna têm o objetivo de refletirem de forma na qual o leitor possa reconhecer seus próprios recursos conscientes e inconscientes para o desenvolvimento pessoal, criando um ambiente não para aconselhamentos ou manuais de como se deve viver, mas um espaço protegidamente para provocações e reflexões de temas comuns a nossa vida.

O próximo tema pode ser escolhido por você. Basta enviar sugestões, pedidos ou mesmo relatos diretamente ao e-mail do blog ou nos comentários mesmo.

Este post tem 13 comentários

  1. felipe

    Muito bom o texto,faço filosofia mas a psicologia me encanta :),bem mas como agente deve lidar com a sombra ?
    @Teo – Boa pergunta. Como você acha que deve ser?

    1. felipe

      bem,acho que o melhor seria meio que um dialogo interno,tentar compreender esse lado e se possivel se vigiar para que esse lado não nós atrapalhe,caso ele seja perigoso.

    2. Flavio Rodrigo

      não há nenhuma necessidade de lidar com a sombra, esse que lida com a sombra não existe, é o cerne do conflito, a ilusão de um objetivo, a ilusão de um responsável por arrumar as coisas sendo que tudo é sempre perfeito, tudo é você, tudo é um, remova todas as palavras desse texto ou de qualquer outro, e substitua por “mim mesmo”, nenhum esforço é necessário, não há qualquer coisa além de ti mesmo, relaxe e se entregue ao seu próprio fluxo, eterno e sem finalidade, nada tem nenhuma relevância, nem esse comentário, essa é a verdade.

      1. felipe

        Me desculpe,mas tem algo na sua visão que me incomoda um pouco,é como se fossemos simplesmente ”animais levados pelos instintos” , um instinto mais complexo…ma mesmo assim,de certa forma estaríamos condicionados a isso,entende?…ou talvez eu só esteja seja um pouco possessivo em relação ao controle kkkk. De qualquer forma agradeço a resposta e ficarei pensando nisso.

        Namatê.

  2. Vila

    Tive uma experiencia recente que deve encaixar nessa definição.
    Tenho um professora que ha muito atrito entre nós e eu via isso como responsabilidade da parte dela, como muito dos outros colegas… Chegando a brigar feito na sala por isso, e comecei a sentir prazer nessa contenda e identifiquei isso, era algo quase imperceptível no “calor da batalha”.
    Consegui transformar a ira em disciplina e tive exito melhor que o esperado na matéria.

    1. Juliano

      Parabéns pelo progresso!

      Tenho a suspeita que essa professora leciona português 🙂

  3. Leandro

    Puxa, muito obrigado pelo artigo!
    valeu!

  4. Alan

    Como sempre postou aqui um ótimo texto, Igor. Gosto muito desses conceitos de arquétipos da psicologia Jungiana. Esse texto me lembrou um sonho que acho oportuno compartilhar aqui nos comentários:
    “No sonho eu era um garoto loiro, aparentava ter uns 5 anos, estava em uma sala de cinema com um protetor(esse era idêntico ao Michael Clarke Duncan, rsrsrs), fora nós dois não havia mais ninguém.
    De repente uma sombra começa a sair da tela e tomar conta da sala. Ela tinha uma risada sinistra e acabou nos deixando contra a parede. Eu estava assustado e o Guarda costas, apesar de mostrar-se corajoso diante a sombra, não podia fazer nada. A sombra estava prestes a nos envolver até que um herói aparece. Era um rapaz jovem, aparentava ter por volta de 21 anos. Ela era sorridente, enérgico e entusiasmado. Essa cara jovem era eu mesmo, sim eu era duas pessoas ao mesmo tempo no sonho. Ao ir de encontro á sombra eu( o jovem de 21 anos) emanava uma luz, de alguma forma sei que essa luz vinha de meu animo, e a sombra não a suportava, dando gritos de dor, de uma dor bem forte. E assim aos poucos a sombra foi de recolhendo de volta para a tela.
    Assim o Eu de 21 anos virou sua cabeça para trás olhou para o Eu criança piscando um olho, assim ele deu um salto em direção à tela e acabou entrando lá, nesse instante eu acordei.”
    Costumo lembra, de tempo em tempos, desse sonho. Ele parece ser bem rico em símbolos, fácil de se decifrar e ainda pode dizer muito ao meu respeito.
    Espero ter contribuído, abraços.

  5. Dialuana

    Texto “simples” e “objetivo”, rs! Porém, complexo! rs

  6. Juliano

    Gostei do texto e da citação ao filme Cisne Negro.
    Será que o filme Revolver também tem algo nesse sentido?

  7. XI-ON

    Teo,

    em uma abordagem mais prática,
    como eu devo me integrar com minha sombra
    através da meditação?

    Seria pela observação do pensamento,
    sem julgar os pensamentos como bons ou ruins,
    mas aceita-los como parte de mim?
    É isso?
    @Teo – Numa abordagem mais prática, além da meditação, na “vida prática” também. É como aquela história, “não adianta fazer yoga e não dar bom dia para o porteiro”. Deste modo, observe também sua relação com os outros e como você se implica nela. Reconhecer si mesmo nas escolhas e em como você influencia o seu mundo.

  8. Dentro do processo terapêutico podemos com certeza ter atitudes proativas com reloação à sombra. Considerando que o inconsciente se manifesta diariamente através dos sonhos, podemos desenvolver a capacidade de conhecer seus símbolos e desta forma compreender suas mensagens. A dificuldade inicial é compreender e aceitar que não somos plenos na nossa consciência racional, como já está demonstrado por muitos estudos. A segunda dificuldade e se estamos dispostos a fazer mudanças que, às vezes, implicam em desconforto. De qualquer forma não temos outra saída: ou promovemos mudanças quando necessárias, ou somos atingidos por elas à revelia. Hoje, a necessária reforma das instituições que governam nossas vidas, passa pela reforma individual de cada um.

Deixe uma resposta