Seria Thelema a Religião do Novo Æon?


Por Jonatas Lacerda
Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.
Seria Thelema a Religião do Novo Æon? Esta é uma questão extremamente complexa e sua resposta, por mais que seja realmente muito simples não pode ser dada sem ir um pouco além.
A resposta é não, Thelema não é a Religião do Novo Æon, assim como Thelema também não é uma filosofia, um sistema místico, mágico ou ainda um sistema político. Thelema é puramente a palavra de Lei que foi proferida pelo Magus do Æon (Aleister Crowley) e ela não pode ser qualquer outra coisa senão a palavra que rege as questões da Lei.

Muito do que é coberto pelo assunto utiliza citações de textos do próprio Crowley para validar ou invalidar a tese de que Thelema é uma Religião. A questão básica neste aspecto é que a cronologia das citações não é respeitada e com isso nada pode ser realmente validado, já que Crowley evoluiu juntamente com sua descoberta e sua maior tarefa foi tentar interpretar o significado todo desse novo processo que foi iniciado em 1904 e.v..
Declarar Thelema como algo específico (e não como algo aplicável) é simplesmente, limitar o campo de atuação retraindo sua abrangência e dificultando a expansão da ideia de forma global.
Um Æon é um espaço de tempo e esse espaço de tempo é regido por alguns conceitos em particular. Thelema (Vontade) pode ser colocada, para simplificar como um desses conceitos. O ponto é que existem diversos fatores que coexistem independentemente das eras e o que difere esses fatores (de uma era para outra), é a fórmula de aplicação e é aí que mora o segredo, não há como esperar mudanças extremas, já que o próprio processo evolutivo é vivenciado paulatinamente. Sim! não acrediteis em mudanças; vós sereis como sois e não outro. Portanto os reis da terra serão Reis para sempre: os escravos servirão. Não existe ninguém que deverá ser rebaixado ou elevado: tudo é sempre como foi. – AL II:58.
A Lei de Thelema provê fórmulas consistentes e funcionais que podem ser aplicadas em todos os campos que conhecemos desde a vida pessoal, ao trabalho, à política, à religião, ao misticismo, à magia; enfim, sendo a palavra de Lei, ela rege a Lei de todos os campos conhecidos pela mente humana e sua aplicabilidade é tão extensa que seria impossível citar tudo em um texto tão curto. A palavra de Lei não é o fim e sim o meio para se alcançar novos horizontes e com a análise correta, tudo o que conhecemos pode passar pela fórmula dessa palavra de Lei e pela Lei em si, tornando-se assim, Thelêmico.
Falando explicitamente sobre religião, o que podemos perceber é que ainda há muito preconceito dentro dos próprios meios Thelêmicos. E esse preconceito talvez seja um pouco prematuro, já que na verdade nós devemos nos opor às religiões que castram e escravizam seus adeptos e não ao conceito como um todo. A religião em si, não é danosa quando vista a partir do ponto de vista da Lei da Vontade. “O MUNDO PRECISA DE RELIGIÃO. Religião deve representar a Verdade e, celebrá-la. Essa verdade é de duas ordens: a primeira, relativa à Natureza externa do Homem; a segunda, relativa à natureza interna do Homem. Existem religiões, especialmente o Cristianismo, que são baseadas na primitiva ignorância dos fatos, particularmente de natureza externa. Celebrações devem ser conforme o costume e a natureza do povo. O Cristianismo destruiu as alegres festividades, caracterizadas pela música, dança, festas e o ato de fazer amor, e apenas manteve a melancolia.” – Editorial do The Equinox, vol. III nº I (The Blue Equinox). A maior questão é que, é possível sim explorar a religião de forma que ela ainda dê bons frutos aos seus adeptos, não deixando de ser um processo Místico, onde rituais são utilizados de forma a conectar o indivíduo com Deus. Perceba que essa conexão não é com um ente celestial todo poderoso, mas sim com o Deus interno, a própria divindade de cada ser, que pode ser encontrada de diversas formas, por diversos meios.
Um ponto importante a frisar é que ao aplicar as fórmulas da Lei de Thelema no contexto “religioso” todos os processos que são conflitantes devem ser eliminados, de forma que o adepto consiga vivenciar o processo sem ferir a sua natureza. Vêde! os rituais do tempo antigo são negros. Que os maus sejam atirados longe; que os bons sejam purgados pelo profeta! Então este Conhecimento seguirá corretamente. – AL II:5.
Religião do latim religare, significa se religar com o divino e este é o ponto mais sensível e que causa mais repulsa entre aqueles que são de nós, já que em teoria não haveria ao que se religar, já que não existe deus senão o homem. Porém, o processo não funciona bem assim, na verdade nossa Grande Obra é o trabalho de se religar com a nossa própria divindade, isto é, com o nosso Santo Anjo Guardião e depois disso trabalhar no processo da nossa Verdadeira Vontade, onde o ponto de vista é alterado e a cada passo se olha mais pela humanidade, se religando assim ao corpo dos corpos, o todo. Com isso, percebemos a sutileza do mote da A? A?: o método da Ciência; o objetivo da Religião.
O mais importante neste Novo Æon de Hórus é perceber o nível de liberdade que alcançamos: quem quer ficar preso à era passada, que fique; quem quer seguir nesta luz, que siga; todos nós temos o direito de acreditar ou não em qualquer divindade ou força, já que o poder criador infinito e supremo está em cada um de nós. Não existe mais diferença entre o profano, o santo ou o santíssimo, todo homem e toda mulher é uma estrela, integrados ao corpo celestial de forma única e infinita.
O mais importante é sempre trabalhar para não restringir os campos de atuação da Lei de Thelema e do Novo Æon, já que a resultante dessa restrição é a regressão no processo de emancipação da mente humana que foi iniciado em 1904 e.v.. A aplicabilidade das fórmulas encontradas em Liber Legis é extensa e abrangente e essa premissa, todos nós temos que manter sempre em mente.
Por fim, é importante ressaltar as palavras de Mestre Therion (Aleister Crowley) no Magick Without Tears: “Chame isso de uma nova religião, então, se isso tanto agrada a vossa Graciosa Majestade; mas confesso que não vejo o que você ganhará ao fazer isso, e sinto-me obrigado a acrescentar que você pode facilmente causar um grande mal-entendido, e causar um tipo estúpido de injúria em particular.”.[1] Amor é a lei, amor sob vontade.
Publicado originalmente em Thelema.com.br

Este post tem 12 comentários

    1. Caro Henrique,
      Do what thou wilt shall be the whole of the Law.
      Que bom que meu artigo foi esclarecedor! Muito obrigado por dedicar um pouco de seu tempo à leitura dele!
      Love is the law, love under will.
      Sinceramente,
      Jonatas Lacerda

  1. Jeferson

    Um dos parágrafos que, na minha opinião, deve ser compreendido por todos. A melhor forma para abordar toda a obra de Crowley, e posteriormente, outras de vários thelemitas.
    Muito do que é coberto pelo assunto utiliza citações de textos do próprio Crowley para validar ou invalidar a tese de que Thelema é uma Religião. A questão básica neste aspecto é que a cronologia das citações não é respeitada e com isso nada pode ser realmente validado, já que Crowley evoluiu juntamente com sua descoberta e sua maior tarefa foi tentar interpretar o significado todo desse novo processo que foi iniciado em 1904 e.v..

  2. PH

    Olá Marcelo Del Debbio (ou outros colaboradores do site). Desculpe se este comentário foi escrito em lugar inapropriado, mas gostaria de receber algumas informações e fazer algumas perguntas referentes as Artes e espero que algum de vocês possa gentilmente responder, grato desde já. Quanto a prática mágica, é conhecido que o lado direito dos destros é elétrico e o esquerdo magnético. Então ao praticar, sendo canhotos estes, o lado a ser utilizado deveria naturalmente ser o contrário , fazendo estes então a inversão? Outra pergunta: Há uma edição de As Clavículas De Salomão pela editora Pallas, que foi foi feita segunda a tradutora , algumas adaptações, se tratando que esta foi feita para esta editora, nisto ela descreve que ao traçar o círculo, no Hemisfério Sul , este dever ser em sentido anti-horário, sendo que o Sol observardo nesse Hemisfério se movimenta dessa forma. É conhecido que nos antigos tratados e manuais de magia informa-se que o círculo deve ser traçado em sentido horário! Outra pergunta, você(s) já leu esta versão? Já pôde compará-la com outras versões, ou ouviu algo a respeito? Agradeceria se algum(s) puderem responder! Desde já muito obrigado.

  3. Felipe Genuino

    Olá Del Debbio, tenho uma pregunta sobre astrologia(sem querer sair do contexto): eu estava tentando compreender melhor a energia do planeta marte no mapa astral, então me veio a ideia de ser uma energia parecida com aquele impulso que te faz levantar da cama quando algum motivo te faz sair do torpor da sonolência e levantar em centésimos de segundos. Essa analogia estaria correta? e o motivo de levantarmos poderíamos fazer a analogia com o signo em que estaria o planeta? ou não tem nada a ver?
    @MDD – É uma boa analogia.

  4. J. B.

    Muito interessante o texto.
    Fundamental também é perguntar o que é religião.

    1. Caro J,B.,
      Do what thou wilt shall be the whole of the Law.
      Primeiramente, obrigado por ler meu artigo. Você diz também que é essencial perguntar o que é religião. Na verdade, eu acredito que a pergunta essencial é: “quem sou eu?”. Na resposta desta pergunta reside a resposta para as outras. Isto é, ao se entender como indivíduo, conseguimos perceber as outras relações, como a própria religião.
      Love is the law, love under will.
      Sinceramente,
      Jonatas Lacerda

  5. lucian krugeer

    Thelema é puramente a palavra de Lei que foi proferida pelo Magus do Æon (Aleister Crowley)…MAgus do eon? conheço varios supostos magus do novo eon….satia sai baba,,osho,,,jose henrique de souza,,samael auen or,,dentre varios outros…conheço a arvore pelos frutos,,,crowley ja foi desbancado,,,ele pode ter falado coisas muito importantes que serão de muita valia para a humanidade,,mas considerar um viciado em morfina acusado de estrupo e envolvido com tantrismo negro em magus do eon é demais….O magus do novo eon esta dentro de cada um,,,esse é a nova vinda do cristo,,,dentro de cada um…a religiao do novo eon esta em cada coração…
    @MDD acusado de “estrupo”? aonde? por quem? cite um link, por favor.

    1. Caro Lucian,
      Do what thou wilt shall be the whole of the Law.
      Acredito que você conheça diversos supostos Magus de um Æon em particular… Não estou aqui para defender Crowley, que não precisa de uma defesa… Mas acredito que a obra dele fala por si só e que para falar mal dela, é necessário, no mínimo, ter algo maior e melhor que ela.
      Por fim, tenho apenas uma mensagem para você: Faze o que tu queres… mas me deixe também fazer o que eu quero, não forço a você minha visão, não tente forçar sua visão a mim…
      Love is the law, love under will.
      Sinceramente,
      Jonatas Lacerda

  6. Vinicius

    Tenho uma pergunta: Reparei que os escritos do Crowley, textos e rituais da A.’.A.’. e da OTO têm bastante coisa do Gnosticismo (o original, não o do Samael. Se é que posso chamar de “original”, já que foram vários movimentos, em diferentes épocas, com visões de mundo diferentes). A pergunta é: Foi o Crowley que introduziu o Gnosticismo na modernidade, ou já tinha isso na G.D?
    @MDD – Ja havia isso na Maçonaria e na Rosacruz dois séculos antes de Crowley.

  7. Jessé Bispo

    Adorei o texto de Jonatas Lacerda. Acredito que toda pessoa em qualquer religião, pode ser um thelemita sem deixar a mesma (desde que suas egrégoras não sejam conflitantes, claro). Não acredito que Mestre Therion tenha sido dogmático como vários thelemitas que existem por aí, que colocam Thelema justamente como uma religião dogmática a ser seguida. O impulso e a compreensão é que são maiores e mais dinâmicas nessa Nova Era, e independente do Ritual Religioso, deveríamos todos internalizar o que muitos seguem externamente. Essa é a essência. Não mais olharmos pra fora, buscando um Mestre ou Salvador externo. Se a pessoa que busca Jesus na Cristandade, se “converte” a Thelema (ou outra filosofia mística), e passa diferentemente de seus irmãos da mesma instituição a ver “jesus” como um título do homem “redimido”(e não como um ser exterior que espera culto), como o homem “regenerado”, aquele que se uniu ao seu Cristo Interno, acredito que ninguém poderá dizer que ele não é um thelemita somente porque decidiu continuar frequentando aquele meio (se gostar, precisar por algum motivo estar alí, ou se conseguir). O que nos foi dado foi uma fórmula, uma palavra, não um dogma ou religião. Assim, as Religiões continuam a serem necessárias realmente, pois as variações conscienciais delas necessitam. No mais, não deveríamos nunca criticar e maldizer os praticantes de outros seguimentos pois “todo homem e toda mulher é uma estrela”.

  8. Ivan

    Thelema…Quantas vidas serão necessárias para que um dia possamos entendê-la?
    As vezes fico confuso com o que leio, mas alguns textos são extremamente esclarecedores! Assim como o seu.
    93!

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