Relativizar não é suficiente


Em muitos textos e comentários vocês já me viram dizendo que devemos ter sempre cuidado para contextualizar o que dizemos ou o que acreditamos. Tudo o que eu, você ou qualquer outra pessoa acredita é relativo à própria experiência pessoal, e por isso constitui-se como “verdades individuais”. Entretanto, há um problema quando se pensa que somente ao relativizar, todos os problemas se resolveram magicamente. Pelo contrário, porque relativizar é só o primeiro passo.

O problema de relativizar e colocar os conceitos sempre em suspensão é destruir toda a capacidade de ação dos discursos. Imagine uma briga de casais. Se tanto o marido e a mulher possuem versões diferentes do mesmo ocorrido, quem possui a razão?
Podemos dizer que ambos, pois cada um possui um discurso movido por suas próprias motivações pessoais. Todo discurso é legítimo por ser a representação de alguma necessidade que um indivíduo ou algum grupo acredita ser legítima. Entretanto, somente isto não basta para resolver a situação. Se pararmos por aqui, nós não resolvemos o problema, ao contrário, vamos excluir a capacidade de diálogo dando a razão a todos e a solução a ninguém.

Que cada pessoa constrói sua própria concepção de mundo, particular e subjetiva, de forma que duas visões de mundo nunca são completamente iguais, acredito que já está mais do que fundamentado. Entretanto, como seres sociais, estamos colocando nossas próprias verdades individuais em constante dialética com as diferentes concepções de mundo oriundas dos mais diferentes contextos e sustentadas pelas mais distintas personalidades. Não vivemos em pequenas ilhas isoladas, mas compartilhamos sentidos com o meio social.

Voltando ao exemplo da discussão de relacionamento do casal, embora cada um deles possuam visões diferentes de uma mesma situação, eles podem procurar um entendimento comum. Com base no diálogo e a exposição dos diferentes pontos de vistas, eles poderão criar um novo ponto de vista que leve ambos a um consenso. Não que esta versão, fruto do diálogo, possa ser chamada da versão real dos fatos, pois esta nova perspectiva ainda será relativa a produção daquele casal e as necessidades dos mesmos. A ocorrência da mesma situação para um casal diferente poderia ser vista como uma situação diferente, tendo como possível consequência uma solução diferente. Mesmo acreditando que não é possível alcançar a uma versão definitiva e absoluta de uma situação, podemos nos posicionar e tomar uma decisão, ainda que por pragmatismo.

Nesse sentido, é preciso explicitar que quando defendemos uma perspectiva ou debatemos um assunto, e acabamos por dizer a palavra “verdade”, esta pode possuir um diferente significado, dependendo do contexto em que se fala. Quando eu digo, por exemplo, que não foi Colombo o primeiro europeu a chegar à Europa, mas que em verdade foi Leif Eriksson, estou me referindo a uma construção histórica que busca chegar a um entendimento objetivo de uma determinada situação. De fato, sabemos que há uma linha linear de tempo, pelo menos dentro deste Universo de nossa vivência, que nos permite dizer que algo acontece antes de outra. Isto é objetivo e passível de alcançamos um consenso através de evidências e argumentações.

Diferente é o caso de 3 pessoas que olham para uma esfera pintada como um mosaico de cores de maneira totalmente aleatória, cada um de um ponto de vista diferente, é pedido para que cada participante de nossa experiência desenhe o que está vendo. Cada um desenhará um círculo composto por diferentes cores, organizadas de maneira distinta. O problema seria, se a partir da concepção de que apenas o que ele enxerga é válido, algum deles queiram vir a dizer que o seu círculo é o único verdadeiro. Cada visão está subordinada a sua própria capacidade perceptual, não podendo afirmar que um seja mais verdadeiro que outra. Numa análise de fora da situação é possível dizermos ainda que a existência da esfera seja a Verdade, e que todos os círculos seriam o erro. Nesse caso seria conceber a própria Verdade como a existência de diferentes verdades em que nenhuma se faz mais verdadeira que outra, mas somam-se para constituir algo maior. Volta-se ao ponto inicial de que cada visão é relativa, igualmente válida, embora nenhuma delas seja capaz de eliminar o erro por si mesma. Todas estão certas, todas estão erradas.

Poderia a lógica do experimento com a esfera ser aplicada a lógica do exemplo de quem descobriu a América? Muitos defendem que sim. Para muitos historiadores, a ideia de que foi Leif Eriksson o descobridor da América carece de evidências. Há ainda pesquisadores que defendem que os chineses foram os primeiros a chegarem à América! De qualquer modo, se admitimos que exista uma cronologia, de fato, alguém realmente chegou primeiro. Que a descoberta da verdade histórica esteja perdida, uma vez que dependa de evidências que muitas vezes se perdem com o passar dos séculos, é passível de argumentação. Entretanto, não se pode usar da incapacidade de descobrir esta informação para dizer que a mesma seja subjetiva, mas que em verdade se constitui como subjetiva, e é nesse detalhe que devemos nos atentar.

Vejo que o relativismo às vezes é usado de uma forma diferente do que ele se propõe. É como o sujeito que dá um soco na cara do outro e diz que não foi isso que realmente aconteceu, mas a cabeça do outro que acertou a sua mão, porque afinal, “tudo é relativo mesmo”. Que esse texto não seja visto como um incentivo para abandonar uma perspectiva relativista, mas um esforço para trazer a mesma para o pragmatismo. Pois se ao atravessar a rua e vier um carro em sua direção, você pode questionar a existência do mesmo, supor que em diferentes pontos de observação da situação o mesmo possa sequer existir dentro de um universo fenomenológico, mas ainda assim é bom sair da frente dele.

Você pode até estar em situação diferente de um carro descontrolado que vem em sua direção (o que exige uma resposta rápida e não cabem questionamentos existenciais), mas em demais situações e práticas individuais e sociais de longo prazo, é válido sempre relembrar: Relativizar é o primeiro passo para entender uma situação. Sem relativizar, a possibilidade de cometer um equívoco é muito maior do que quando se procura ponderar o máximo de variáveis que estão envolvidas numa situação. A partir de este entendimento segue-se assim para uma ação. Sair da situação de ilusão de neutralidade oferecida pelo relativismo para tomar um posicionamento consistente.

Como pode ser percebida, essa não é uma solução fácil e simples. As escolhas podem parecer confusas e muitas vezes até contraditórias. Mas soluções para decisões que envolvem ética, direito e justiça nunca são fáceis. Na verdade, deve-se desconfiar das soluções simples e já dadas, que se apresentam prontas e fáceis. É, sem dúvida, preferível dúvida de certezas a certezas duvidosas.

Este post tem 4 comentários

  1. Ramon

    Sem duvida. A necessidade de relativar pra chegar à um meio termo pode acabar fazendo os dois lados abrirem mão de pontos importantes e verdadeiros. E no final, se cria uma coisa que não é nem “meia verdade”.
    @Teo – A lei da polaridade, uma das sete leis herméticas, postula que “Tudo é duplo, tudo tem dois pólos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados”.
    Curiosa essa lei que inicia afirmando que tudo é duplo e termina dizendo que o duplo não existe… Acho que vale para refletir no sentido do que você comentou.

  2. muito bom Igor.
    Acredito piamente que o exercício da exposição de opiniões ainda seja mais importante do que a própria opinião. Diante do exposto relativizar é antes de mais nada mensurar o “contexto”. Pesar e medir é sempre bom, principalmente para descobrir como o outro pesa e mede a sua realidade. Portanto se do outro recebemos um peso e uma medida temos por direito e dever trabalhar um peso e uma medida. Chega que em determinado ponto as partes comungarão de um consenso, se claro o objetivo for de fato este. Claro que com suas nuances e distinções habituais, mas nada que torne os posicionamentos contrários plenamente. Esse exercício é antes de mais nada saudável. Implicar portanto num posicionamento é acima de tudo uma forma de por em cheque o mesmo posicionamento se o indivíduo for capaz o suficiente de lidar com o desenrolar das opiniões postas na mesa. Acontece que se cresce quando se escuta, mas antes de se escutar é necessário falar algo, e vice-versa.
    Viver em sociedade como vivemos é um exercício diário para lidar com tais posicionamentos e nada mais interessante do que relativizar diante do fato que o outro sempre será um desconhecido… sempre. Diante do habito de travar o discurso aprendemos antes de mais nada a nos ver, já que o outro é antes de ser o outro uma parte de nós mesmos. O trabalho do discurso portanto é um trabalho de auto conhecimento mútuo. Mas para tal as partes devem ser capazes de, como coloquei, falar e escutar alternadamente.
    O que absorvi do texto para que gerasse tal raciocínio foi a sensação de que a verdade é antes de mais nada inexistente. De fato não há como ver a verdade da mesma maneira, mesmo que nos coloquemos no lugar do outro ainda haverá a diferença de tempo que já alterou algo. Sendo assim é quase como dizer que verdades não existem. No entanto eu implico que há uma “certeza”. Essa certeza independe de nós e do fato se damos crédito ou não à essa certeza. Ela é, simplesmente. Advindo dela são geradas as verdades, que como bem sabemos sofre com o contexto geral, sofre com as implicações do meio interno e externo do indivíduo e do tempo. Mas mesmo assim essa “certeza” permanece. Intacta, gerando várias verdades, cada qual licenciada pela posição diante desta “certeza”. Poderemos pensar nessa certeza como um fato, que por mais que mude o texto é o mesmo fato, mesmo que nos enganemos e avaliemos errado, o fato permanece sendo o mesmo. Claro que no caso da realidade vale muito a prova desse fato, as vezes mais do que o fato, pois implica-se que a palavra do outro não é suficiente para corroborar e provar qualquer coisa que seja… mas o fato perdura, é inalterável, mesmo quando entendido errado.
    Sendo assim relativizar não é suficiente, mas é um bom começo. Diante da produção incessante de opiniões a “certeza” torna-se um plural de verdades. O que se implica disso é: primeiro se o indivíduo que assim vê guarda tais pensamentos só pra si. segundo se o indivíduo expõe tais posicionamentos – o que leva a uma nova variante: 1.A – expondo e sendo capaz de escutar. .2.A – expondo e tornando seu posicionamento uma verdade cristalizada, imutável.
    Sabe… no desenrolar do tempo eu vejo que o segredo mesmo é nunca deixar de usar e abusar das coisas. Se esta não é útil tomemos portanto outra variação e tentemos novamente. Pra mim esse é o melhor exercício que nossa condição de “pensadores” no proporciona. Portanto por mais que relativizar não seja suficiente, já demonstra ser um bom começo.
    Espero que tenha ficado claro o meu posicionamento… se não ficou, pense que como falei no começo: o exercício da exposição de opiniões é mais importante do que a própria opinião… até por que sendo a verdade parte de um algo maior, cada opinião é um pedaço do tesouro, que fragmenta-se constantemente a cada momento.
    Por fim o exercício da exposição da opinião é acima de tudo um pedido discreto ao debate. Que inevitavelmente levará a uma reestruturação da opinião inicial. (?)
    Sabe, esse espaço aqui, pra não usar os mesmos exemplos que vc usou, como nos nossos blogs são ao meu ver o melhor meio para esse tipo de acontecimento. Ao jogarmos opiniões num lugar como a internet significa que iniciamos um combate. Um conflito com o outro. E como sendo a internet tão aberta, esse outro poderá ser o nosso maior inimigo. Em suma, é abrir as portas para receber de tudo. E isso é um exercício grandioso e que requer muita coragem. Claro que como em qualquer discurso, poderemos terminar com um simples: eu não quero saber o que vc acha e pronto…. mas nesse caso a opinião já perdeu completamente o valor… e provavelmente será mais um canto e discurso esquecido pelo tempo.
    portanto… relativizar, quando em meio a um discurso é sempre válido. Relativizar diante da realidade factual é um risco à saúde. Pois a realidade requer que sejamos categóricos, exatos. Erros são mal vistos e tem causas funestas. Relativizar é não transformar a diferença em hierarquia, é abrir espaço ao “mais”.
    bem… tenho a impressão que fui além do texto… mas tudo bem.
    abraço!
    @Teo – Nada, achei bem legal o que disse. rs

  3. Marcio

    Acho excelente o exemplo do carro desgovernado, porque quanto mais perto da reação do instinto básico animal, menos relativizar se faz necessário.

    1. D

      Quando você está em uma situação de emergência, PRINCIPALMENTE se existe perigo de vida, a única coisa que você não deve fazer é ceder ao impulso animal.
      Sair correndo da frente do carro, só para ser acertado pelo caminhão que está vindo na outra pista não adianta de nada.
      É justamente nas situações mais tensas e com maior carga “instintiva” (vamos fingir que exista uma “pré-programação” chamada instinto, e que isso não seja uma programação subconsciente passível de ser mudada, como qualquer outra..) que você tem que ter a maior capacidade de negar o domínio dos instintos e agir racionalmente, incluindo a relativização.
      No exemplo do carro, você pode tentar prever a rota de colisão e escapar por uma outra rota, mas isso exige raciocínio. A menos que o carro esteja vindo em linha reta na sua direção (muito pouco provável) você terá que prever a trajetória mais provável do veículo (o que não requer o seu ponto de vista – de fato, são poucas pessoas que pensam na trajetória de um veículo a partir de seu ponto de vista – geralmente elas abstraem e relativizam para algum modelo de comportamento gerado pela experiência) e criar uma rota de fuga (o que envolverá relativizar a sua posição – qual é ela em relação a cada rota de fuga, e qual a viabilidade das suas rotas de fuga considerando-se a presença da trajetória do veículo desgovernado).
      Se você estiver em um tiroteio, não adianta muito o seu ponto de vista. Para poder sair da linha de tiro, você terá de relativizar o seu ponto de vista a partir do ponto de vista do atirador.
      Se você estiver tentando lidar com um animal agressivo, seu ponto de vista também será inútil. Você terá de perceber se suas ações são adequadas a partir do ponto de vista do comportamento do animal.
      Tudo isso são relativizações da realidade – formas de compreendê-la fora de seu ponto de vista original, entendendo que o seu ponto de vista não é o único verdadeiro.
      Não é apenas a abstração profunda sobre a existência das coisas que lhe permite relativizar situações – nós já relativizamos praticamente tudo, todo o tempo. Nossa própria sociedade obriga-nos a isso, ao fazer com que relativizemos nossos atos a partir do ponto de vista de uma moral social e de leis externas, não apenas a partir de nossa vontade.

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