Por uma espiritualidade menos coxinha

O que você busca com a espiritualidade?

Você já parou para pensar nisso? E com a espiritualidade aqui me refiro inicialmente a toda forma de religiosidade, filosofia, doutrina ou corrente mística que você possa se afeiçoar. Qual a sua demanda nela?

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Essa pergunta não é das mais fáceis a ser respondida. A psicanálise diz que nem sempre a demanda é reconhecida de forma consciente pelo sujeito. Ali onde ele age, pensa e reivindica do outro, há um apelo a algo que ele mesmo desconhece. Quando há uma grande questão que nos assujeita em determinado momento da vida, provavelmente é porque a questão mesma é outra.

Vamos formular três hipóteses gerais para responder a pergunta inicial, dado que consequentemente cada hipótese também corresponde a uma maneira de conceber a própria espiritualidade. Claro que para cada pessoa essa resposta seria singular. Cada um tem sua própria demanda enquanto sujeito em suas relações com o mundo. No entanto, para não nos perdermos entre infinitas possibilidades, sintetizaremos em formas socialmente concebidas na atualidade, embora não devamos ignorar que existem idiossincrasias.

Nosso ponto de partida é de que viver sob uma crença religiosa é confortável. Assim como sob tudo aquilo que ela versa, como Deus, santos, demônios, preces, karma, reencarnação, energias quânticas. Ela oferece o diagnóstico e o tratamento para todo mal-estar da vida. Insegurança quanto ao futuro? Crê em Jesus que ele te sustenta. O primo está se metendo em encrenca na rua e trazendo dor de cabeça para a família? Então só trazer ele para a gente dar um passe bom nele. O irmão está doente? Vamos ver isso de uma forma positiva, ele está equilibrando o karma. O que retorna à pergunta sobre o que buscamos na espiritualidade. Parece que deste modo estamos tentando contornar o furo desconfortável das nossas vidas, fechando os olhos para aquilo que de tão real só nos resta fantasiar sobre. Isto é, nós nos sentimos desamparados.

Desamparados diante da grandeza do mundo e da nossa pequenez dentro dele; desamparados diante dos amigos que podem mudar seus cursos de vida e nos separarmos; desamparados diante da dificuldade em encontrar um amor que se encaixe com nossas fantasias românticas; desamparados diante da possibilidade de adoecimento ou morte repentina; desamparados diante da grande chance de nossos pais morrerem antes de nós e termos que enfrentar a vida com a ausência daqueles que nos cuidaram para o mundo; desamparados diante das inseguranças do mundo do trabalho e da necessidade de sobrevivência; desamparados frente às conturbações políticas de nosso tempo.

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Neste sentido entra uma das funções da doutrina: oferecer uma finalidade para este desconforto. E é isso que as religiões fizeram ao longo da história da humanidade.  Forneceram sentido para o mal-estar, e em última análise, para a própria vida.

A questão aqui não é se Deus existe ou não. Se reencarnação é um fato ou os materialistas estão certos. Ou ainda qual a natureza dos anjos. Não importa critérios de veracidade nos termos em que estamos explanando. Deixemos as discussões metafísicas para os estudos metafísicos. A pergunta aqui é: independente da sua posição na crença ou descrença, o que você espera de tudo isso?

Essa questão não deve ser tomada como secundária. Vivemos tempos em que a espiritualidade assume formas cada vez mais burocráticas. Nosso país mesmo enfrenta sérios problemas com a laicidade do Estado. Talvez porque algo da própria espiritualidade tenha se perdido no discurso espiritual.

Quando discutia esse assunto com uma amiga, ela me colocou a seguinte questão: qual o conceito de espiritualidade para afirmar isso? Geralmente a associamos logo a um contexto místico ou religioso, mas há filósofos que trabalham com a ideia de que espiritualidade é uma categoria completamente independente da religiosidade. O que faz muito sentido, já que se defendermos a espiritualidade como algo pertencente somente ao campo doutrinário, a primeira pergunta que teríamos que nos fazer é: qual doutrina está correta? Qual a doutrina mais espiritual? Sem dúvida você deve ter sua opinião quanto a isso. O problema é que outras bilhões de pessoas também possuem as delas. Bilhões de pessoas antes de nossa geração também e, continuadamente, ao passado por sucessivas gerações. Talvez seja um indício de arrogância dizer que você tem a resposta certa, quaisquer que sejam seus motivos pessoais para pensar assim.

Precisamos desvencilhar espiritualidade não apenas da exclusividade da doutrina x ou y, como do próprio campo doutrinário. E quem tem feito isso muito bem é o neurocientista Sam Harris. Para Harris, experiências de transcendência e realização são experiências ordinárias, isto é, passíveis de serem vividas por qualquer ser humano. Basta vivenciarmos certas experiências de transcendência do eu, em contextos religiosos ou não. Dentre alguns exemplos temos o uso de drogas alucinógenas ou a prática da meditação transcendental.

Sam Harris: um ateu que se preocupa com a espiritualidade.

Podemos perceber que estamos também mudando o sentido de espiritualidade com o transcorrer do texto. Se antes falávamos da função da espiritualidade como panaceia ao desconforto humano perante a vida, estamos migrando para uma função de transcendência e realização. O lugar da espiritualidade é, assim, aquele que Sigmund Freud denominou como “sentimento oceânico” no primeiro capítulo da obra Mal-estar na Civilização, em que a consciência ultrapassa o nível individual do eu para se sentir presente numa ordem maior, como o mundo, o universo, ou até mesmo o cosmos. Essa é uma visão de espiritualidade compartilhada muitas vezes por cientistas como Carl Sagan ao definir nossa existência como poeira de estrelas.

Mas quem talvez tenha se aproximado mais de uma boa definição de vivência espiritual seja Jack Kerouac no livro Os Vagabundos Iluminados. Não porque tenha encontrado uma boa doutrina para isso, mas justamente pela ausência dela. Na história de Kerouac, os personagens se dizem budistas, mas temos que admitir ser de uma maneira completamente anárquica. Eles se apropriam de termos e conceitos orientais de uma forma descompromissada com o uso correto, aplicando em sentidos confusos e absurdos que fariam budistas dizerem “isso não é a iluminação que Buda disse”. No entanto, é justamente essa rebeldia que dá o caráter espiritual da obra. Os personagens não estão preocupados com a aplicação correta dos conceitos de dharma ou bodhisattva, mas em utilizar meditações, temporadas de acampamento nas montanhas e introspecção a fim de encontrar a “iluminação. Jack Kerouac nos brinda ainda com a seguinte pérola:

“Quanto mais perto se chega da matéria verdadeira, pedra, ar, fogo e madeira, rapaz, mais espiritual o mundo fica. Toda essa gente achando que é algum tipo de cabeça-dura prático e materialista, ninguém sabe porcaria nenhuma a respeito da matéria, a cabeça dessas pessoas está cheia de ideias e noções delirantes.

Um verdadeiro tapa na cara na forma como a espiritualidade ocidental se organizou ao longo dos séculos. A Kerouac apenas se acrescentaria Friedrich Nietzche, ao denunciar como pela negação da matéria – da ideia de que o espiritual deveria ser uma dimensão transcendente, e não imanente – construímos uma cultura que nega a sexualidade, os prazeres, toda a dimensão do corpo e do próprio mundo sensível, o único mundo que temos para viver por enquanto. Para não nos perdermos em filosofia, vamos trazer esse debate para uma questão atual. Quando algum líder protestante diz que a homossexualidade é errada por ir contra a natureza, a pergunta que deveríamos lhe fazer é: o que você ou sua religiosidade, pretensamente transcendente, sabem sobre a natureza (que é imanente)?

Jack Kerouac: pode seu personagem ser iluminado e alcoólatra?

Pois o que Kerouac revela na sua obra é que a espiritualidade se encontra em comunhão com a natureza. Os personagens dele fazem isso através de peregrinações, escaladas, meditações ao ar livre. Nós podemos encontrar isso também através de trilhas, mergulhos em cachoeiras. Ou para ser mais simples, apenas deitar na grama e contemplar as estrelas. Existe algo que nos faz sentir realmente mais espiritual que isso?

Mas que isso não se confunda com uma doutrina naturalista. Isso não significa dizer que vamos apenas ser espirituais se largarmos a sociedade e vivermos de modo tribal na natureza. A questão a ser denunciada, na verdade, é a operação de alienação que sofremos, e como essa operação está diretamente ligada com o nosso sofrimento contemporâneo.

Vamos a um fato científico: diversas pesquisas demonstram que trabalhos manuais ajudam na recuperação de pacientes depressivos. Mas por que e o que isso tem a ver com espiritualidade? A resposta da ciência à primeira pergunta é que trabalhos manuais ativam nossos mecanismos internos de recompensa mais primários, oferecendo satisfação na medida em que nos vemos capaz de solucionar alguma tarefa e produzir algo.

No mundo contemporâneo estamos acostumados a terceirizar nossas atividades mais básicas. Aquelas que durante séculos estiveram ligados à sobrevivência. Se por um lado isso permite nos dedicarmos a questões mais complexas, por outro bagunçam bastante nosso mecanismo interno de autorregulação. Não precisamos sair para flertar e encontrar um parceiro sexual, usamos aplicativos no celular para isso. Não precisamos preparar a comida, ela é comprada praticamente pronta. Não precisamos nos esforçar para nos locomover, carros fazem distâncias longas parecerem curtas. Não precisamos encontrar os amigos, podemos falar ou mostrar qualquer coisa pelo whatsapp. Se isso traz diversas facilidades no cotidiano, por outro lado nos afasta também da experiência real, tangível, e que da maioria das vezes é a que mais precisamos.

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Isso nos leva à terceira hipótese de espiritualidade. Se a primeira se refere a ser um reconforto diante das questões insolúveis da vida, enquanto a segunda a uma maneira de extrapolação do eu (ego), tornando-o maior do que de fato é, a terceira forma de conceber a espiritualidade é a menos metafísica possível. Trata-se da experiência da imanência, do retorno à matéria, ao sensível, ao experienciável. Uma religação ao básico da vida, como quando em meditação simplesmente prestamos atenção na respiração. Religação inclusive é um dos sentidos originais da palavra religião (religare).

Ilustramos isso com uma passagem do mestre Chuang Tzu nos seus Ensinamentos Essenciais:

Quando Tzu-kung passava pela margem meridional do rio Han viu um homem encorpado trabalhando numa lavoura de legumes de um acre. Descia ele num poço com um jarro, depois subia e irrigava a plantação. Parecia dar o sangue no trabalho sem alcançar grande benefício com os seus esforços.

— Existe um mecanismo para fazer isso — disse Tzu-kung —, e com ele você poderia irrigar cem acres num único dia. Não exige muito esforço, e traz grande vantagem. Não gostaria de ter um desses?

O jardineiro ergueu-se e fitou-o.

— Como é que funciona?

É uma máquina feita de madeira, pesada numa das extremidades, leve na outra. Puxa a água para cima como uma caneca, muita água, tanto que jorra para fora como se estivesse fervendo. Chama-se cegonho.

O jardineiro fez uma careta, depois disse rindo:

— O meu mestre costumava dizer: “Onde houver máquinas, haverá problemas mecânicos; onde houver problemas mecânicos, o mecânico penetrará nos corações e nas mentes do povo; quando os corações e as mentes do povo se tornarem mecânicos, o que é puro e simples se estragará. Sem o puro e simples, o espírito não conhece repouso. E se o espírito não conhece repouso, nem mesmo o Tao pode fazer você progredir.” Não é que eu não conheça a sua máquina, mas ficaria envergonhado se a usasse.

O princípio da simplicidade taoista apenas nos indica que a espiritualidade não se esconde nas grandes burocracias da vida cotidiana, formas coxinhas que inventamos para vivê-la, mas nos atos simples. Cozinhar a sua própria comida pode ser um grande ato espiritual hoje. Estar presente com um amigo, iniciar um empreendimento que deseja faz tempo ou ler um bom livro também. Diante da mecanização da vida – o que em certos contextos também ajuda bastante – o mais espiritual que podemos fazer é sentir a essência da vida como ela é. Lembrar-se do que de fato o mundo é feito.

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Curta a sua página no facebook.

Este post tem 8 comentários

  1. Ramon

    Muito bom. Parabéns!
    @Teo – Obrigado, Ramon!

  2. Felipe Soares

    Tenho que confessar que quando leio algo assim, uma faísca desperta dentro de mim. A poucos dias atrás voltei do meu trabalho, e quase mecanicamente ia entrar em casa como em todos os dias, mas fitei o céu que estava bem azul, e parei. Fiz um agrado aos meus cachorros que já sentiam falta disso à tempo, tirei minhas botas e meias e botei os pés na grama. A sensação até ai já era ótima, então decidi deitar na calçada para olhar melhor o céu. Nesse momento um pensamento veio e disse “deitar na calçada? e as formigas? e uma aranha ou outro inseto que pode me picar? Por sorte outro pensamento me disse: que formiga o que, vou deitar e pronto. Confesso que foi extremamente confortante o que senti nesse dia, algo muito mais profundo do que quando tento meditar aqui na empresa na folga do almoço. De certa forma foi uma meditação aquilo, e sai aliviado dela, o fim do texto me fez lembrar desse dia.
    A psicanálise me interessa muito hoje em dia, pois já pensei em cursar filosofia, e já pensei também em psicologia, agora vejo o quanto as duas estão próximas e talvez da fusão delas a psicanálise surgiu. Claro que isso é um ponto de vista meu, baseado em coisa alguma alem do pouco conhecimento que possuo em relação as duas, mas talvez seja uma opção futura de graduação para mim.
    Parabéns pelo texto!
    @Teo – Obrigado, Felipe. Que relato interessante!

  3. cristiano

    magnífico texto, com exceção do uso do termo “coxinha”

    1. leitor antigo

      também achei desnecessário, mas dá pra se redimir escrevendo a parte 2: ‘por uma espiritualidade menos petralha’ onde seria comentado a respeito das pessoas que querem que tudo aconteça milagrosamente sem trabalhar e suar a camisa, jogando toda a culpa das desgraças nos outros.
      ps: apesar de brasileiro eu não voto, eu pago minha multa mas não participo do circo.

      1. Ana C

        To com “leitor antigo”. Nao querendo desconsiderar o texto, ou mesmo o conhecimento do autor, talvez o titulo seja um tanto parcial. Mas essa é so a minha opiniao…

    2. Franco-Atirador

      Antes de Freud, Nietizsche já dizia “algo pensa em mim”, falando sobre o holofote que guia nossa consciência por entre um mar de inconsciente. Além de Nietzsche muitos outros já haviam cunhado essa ideia, ao que parece Freud a aprimorou, desenvolveu, e também teve a sorte (?) da comunidade científica mundial ter reconhecido seu trabalho. Há mesmo um livro que lista categoricamente de onde Freud plagiou seus termos e ideias, que, inclusive, causou certo furor kkkkk.

  4. Horacio

    A espiritualidade no sentido teológico tem duas vertentes: Ou Céu ou Inferno. No sentido das macumbas: Direita ou Esquerda. No sentido ocultista: Adonai ou Lúcifer. Quanto ao resto perderam todo o sentido. Mas conseguem encher muita linguiça com capim seco para encher estômago de imbecil à míngua de alimento mais “racional” à própria razão da mesma espiritualidade. Enfim, a psicanálise e psicologia deviam ir plantar batatas que alimentariam melhor esta súcia e famintos espirituais, porquanto ambas, são instrumentos meramente antropológicos para explicar daquilo cujo orgulho acadêmico é useiro e vezeiro de querer sem renegar: a espiritualidade como elemento Místico ou Metafísico.

  5. Rafael

    Acho que não.
    Acho que faça o que tu queres.

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