Pitágoras e os Feijões

Olá crianças,
Conta a história de Pitágoras que, certa vez, falando a um grupo de colonos, sentiu-se tentado a acrescentar algo de filosofia e esoterismo; declarou que a Terra é a mãe-natureza e que, além do respeito que devemos tributá-la como a “doadora da vida”, devemos também respeitar todas as formas de vida por ela geradas, até mesmo a vida latente que se esconde em um simples semente de feijão. Aquela gente simples e ignorante, escutando com atenção ás palavras do mestre, entenderam-nas em sentido literal e espalharam aos quatro ventos que Pitágoras proibia o consumo de feijões!
Com o passar do tempo, criaram-se várias lendas na Grécia a respeito desta palestra do Mestre e, certa vez, chegou à escola Pitagórica um aluno questionando por que Pitágoras “preferia morrer do que ter de atravessar uma plantação de feijões”. Historiadores e biógrafos têm se desdobrado nas mais imaginativas explicações desse fato aparentemente corriqueiro.
Pitágoras, deste fato, extraiu apenas uma lição: ensinar somente para quem tenha capacidade de aprender. Assim, foi delineando-se o método de ensino que, mais tarde, adotaria em sua Escola Iniciática, que consistia em dividir seus discípulos em dois grupos: os profanos (ou Exotéricos) e os iniciados (Esotéricos)
– Do livro Pitágoras, de Carlos Brasilio Conte

Para quem acha que isto é apenas uma fábula:
Perhaps the most famous of the Pythagorean dietary restrictions is the prohibition on eating beans, which is first attested by Aristotle and assigned to Pythagoras himself (Diogenes Laertius VIII. 34). Aristotle suggests a number of explanations including one that connects beans with Hades, hence suggesting a possible connection with the doctrine of metempsychosis. A number of later sources suggest that it was believed that souls returned to earth to be reincarnated through beans (Burkert 1972a, 183). There is also a physiological explanation. Beans, which are difficult to digest, disturb our abilities to concentrate. Moreover, the beans involved are a European vetch (Vicia faba) rather than the beans commonly eaten today. Certain people with an inherited blood abnormality develop a serious disorder called favism, if they eat these beans or even inhale their pollen. Aristoxenus interestingly denies that Pythagoras forbade the eating of beans and says that “he valued it most of all vegetables, since it was digestible and laxative” (Aulus Gellius IV. 11.5, Stanford University).

Muita gente me escreve nos comentários ou por email perguntando porque não escrevo textos mais profundos sobre determinados assuntos aqui no Blog, deixando apenas um conhecimento aparentemente para iniciantes ou para quem está no começo. A maioria dos meus alunos já sabe, porém, que após os cursos de hermetismo ou após alguns anos na Rosacruz, Maçonaria, Martinismo ou Ordens Herméticas, todos os textos do TdC revelam-se ao buscador com uma segunda camada de conhecimentos mais escondidos, que dificilmente eu vou explicar de maneira aberta.

Um dos exemplos mais óbvios são as imagens que coloco a cada passagem de signo solar. Cada ano, leitores comentam que entenderam mais e mais pedaços das imagens, inclusive percebendo objetos que nem repararam na primeira vez que observaram tais imagens.

Assim como nos tempos de Pitágoras, tudo no Ocultismo sério é aprendido na forma de espiral, ou labirinto. Primeiro se passa pelo texto de maneira exotérica (que, repetido sem o devido conhecimento, pode acabar nos sites esquisotéricos do famoso copia-e-cola-do-site-do-deldebbio-sem-dar-crédito). Ao buscador, que chegou ao texto porque já estava procurando por alguma palavra chave por conta dos trabalhos das ordens Herméticas (e eu coloco as palavras certas nos locais certos pois o deus Google é generoso com quem trabalha junto a ele), já compreende o texto de uma maneira mais profunda, porque vai encontrar a informação que precisava ali.

Infelizmente, no Reino da fast-food intelectual, as pessoas querem respostas rápidas e sem entender a profundidade do que necessitam aprender para compreendê-la totalmente (“O que significa aquela rosa branca na mão daquele personagem do tarot?” uma resposta XYZ e a pessoa diz “Ah tá” mas não aprendeu porra nenhuma, nem interiorizou o que aquela imagem realmente passa em uma meditação mais profunda).
Percebemos hoje que, de 4000 pessoas que começam estudos sérios no hermetismo, 3.400 sequer consegue passar do primeiro degrau da pirâmide… e menos de 2% chegam até as portas do Templo.

Paralelamente, vemos crescer o número de gente mandando emails porque se ferraram em rituais qliphoticos, caíram em pactos pactorums, roubadas tantricas, entraram em grupinhos de estudo picaretas, maçonarias espúrias galácticas, Illuminatis da silva, grupos de eguns canhotos, ordens de facebook ou compraram livrinhos de R$ 9,90 em Escolinhas de Magia sem caminho nem tradição nenhuma. Nesse momento, sempre me lembro das sábias palavras “Não existem atalhos para nada que valha a pena”.

O conhecimento está disponível? Sim. Crowley mesmo escreveu “não há mais segredos”, mas o conhecimento esotérico decente continua ESOTÉRICO, velado em camadas que exigem preparação, disciplina, entendimento e estudo. Como Pitágoras percebeu, pouco conhecimento é muito pior do que nenhum. Para ensinar alguma coisa, é necessário ter aprendido primeiro, e é o que menos observamos por aí.

Querer, Saber, Ousar e Calar.

E comam mais feijões…

Este post tem 28 comentários

  1. Thiago

    Obrigado pelo tapa estava precisando rsrsr

  2. Flávio Barros

    Parabéns, pela lucidez em todo texto.

  3. Liz

    Desculpa o paralelo ridículo, mas o externo se comunica a tal ponto qdo estamos ligados a essa busca do saber que até em jogos de caça palavra nos programas profanos infantis na TV há um recado. Juro pelo o que quiser que já aconteceu comigo… Comendo feijões sem nem saber.

  4. Keera Moon

    Lendo seu texto me lembrou um papo com um professor a muitos anos. Ele falava que um assunto tem que ser ensinado de forma diferentes para cada idade e experiencias de vida. O entendimento de uma pessoa varia de acordo com as experiencias que se tem, dos livros que se leu, do que se estudou e viveu. Num país de analfabetos funcionais o balançar da cabeça indica se a pessoa entendeu alguma coisa, ou seja, nada. Buscar, pesquisar, ler, perguntar, refutar, duvidar, questionar são atos para o saber. Dá trabalho e muito, não é um caminho para preguiçosos. E imagino que muita gente deita na rede que você teceu, sem nem se dar conta do trabalho e do tempo que levou. Eu agradeço por você fazer esse blog, cada coisa que leio é um pontinho de luz pra mim nesse imenso universo. Beijos

  5. Caio

    Pobres feijões…

  6. Leandro Silva

    Acredito que a maioria de nós tende a encarar, a princípio, esse tipo de estudo e desenvolvimento como qualquer outro curso por aí no qual basta que você apreenda informações… O fast food do conhecimento está em toda parte, desde o primeiro ano de escola até o ensino superior, e todo mundo quer se sentir o máximo sem esforço, como nos filmes.

    Pode ser muito sofrido realizar um exercício de 10min diários que seja quando esse mesmo exercício escancara a distância entre o lugar em que realmente se está e o lugar que se deseja fazer crer que esteja.

  7. NOP

    4 Pilares. Apocalipse de São João, Cap. 4, V6-8
    Realmente como você disse, meu irmão, a maioria é “devorada”.

  8. Ramon

    Hahaha’ Muito bom. E realmente, a mudança de percepção nas figuras astrológicas a cada ano mostra bem a capacidade evoluir que, às vezes, passa despercebida.

  9. flasHQ

    O problema é que as pessoas acham que a “escola” faz o aluno, mas é o aluno que faz o aluno, as vezes nem de escola precisa, e mais o comprometido naquilo que se aprofundou provavelmente vai acabar criando a sua escola. Todos querem respostas vinda de outros, tanto o que pergunta mas nem presta atenção no que ouviram por não ter paciência pra entender ou mergulhar naquele ensinamento quanto aquele que faz milhões de cursos, aprende várias coisas, replica elas em seus próprios cursos mas sempre precisa de uma fonte para se alimentar em vez de criar seu próprio pensamento.

    No final, todos queremos pagar e receber algo e não ir até a natureza e moldar o que realmente precisamos.

  10. Carlos

    Belíssima explicação. Simples e eficaz.

    Acho que o maior dos defeitos da atualidade é a Preguiça. Muitas pessoas querem as coisas sem trabalho, querem dar “um jeitinho”, um atalho, mais fácil.

    Mas como você mesmo disse Tio DD: “Não existem atalhos para nada que valha a pena”, até por que o caminho é tão importante quanto àquilo que se busca… E acaba se integrando a ele.

  11. Eduardo

    Ótimo texto MDD!
    Ser superficial na senda ocultista é como nadar num imenso lago, muitas vezes de uma ponta a outra, sair, se secar. Com o ego inflado, vangloriar de uma profundidade superficial. Mas será que percebeu o gosto da água, sua coloração e principalmente o que se esconde no fundo do lago?
    Na esmagadora maioria das vezes não.
    O texto reflete exatamente isso!
    Pra sair da superficialidade, é preciso dedicação e real interesse em aprofundar em conhecimentos que apenas nadadores com fôlego suficiente(buscadores sinceros e persistentes) conseguem adentrar pra conhecer o fundo do lago dos conhecimentos profundos.

  12. Fenix777

    Adoro feijões…. 🙂

  13. Don Ron

    Sobre as últimas palavras, as 4 palavras que são extraídas de uma certa cruz alí.
    Após esse text eu entendi bem mais oq ue elas querem dizer. Terminei de ler e me veio na mente como uma luz que explica o que querem dizer.

    Realmente não é do dia pra notie que entendemos uma palavra, frase, símbolos.
    E sinceramente, qualquer pessoa que estiver lendo isso aqui não entenderá tão fácil, porque além de tudo, foi uma experiência pessoal.

    Parabéns.

  14. William

    Mestres verdadeiros são raros nestes tempos de sabedoria invertida.
    Parabéns Sr. Debbio…Simbologia simples para conhecimento complexo.

  15. DIGMASTIC

    O tempo vem e fala, e vem e lembra mas ele nunca passa, legal, mas tenha piedade de nós tempo, amém!! Dinheiro!!

  16. DIGMASTIC

    Se tu puder dizer que eles chegarão lá sem passar trabalho e sofrer, eu estou dando dinheiro!!

  17. Felipe

    Amei o texto, era o que necessitava!

  18. Cid

    Feijão tem ferro na sua composição, e nesta época de frio, e para aqueles que estão gripados, resfriados é indicado para prevenir e enfrentar o clima e as condições de saúde adversas relacionadas à gripe. Acho que devemos respeitar todas as formas de vida, e tenho tido o hábito de agradecer a todas elas, principalmente, quando vou usufruir de seus poderes, pois todas elas tem a centelha da Divindade.

  19. Moscavich

    Parabéns pelo texto, gostei muito!

  20. Cursino

    “Não existem atalhos para nada que valha a pena”. Sentença curiosa, não? Virou um koan na minha cabeça.

  21. Marcio Homem.´.

    OK, mas nao explicaste porque Pitágoras nao gostava de feijao… 🙂
    Já conhecia esta lenda, que lembra muito o “nao jogue pérolas aos porcos”. Na verdade nao existe “quem nao tenha capacidade para aprender”, existe sim ciclos corretos para determinadas pessoas aprenderem.
    Muito bom o texto.

    1. Tim Markx

      Tio Piti não gostava de feijões por causa dos reptilianos!

  22. Acauã Silva

    Eguns canhotos, kkkk. De onde vc tirou isso, mto bom.

  23. Roberto Vasconcelos

    E comam mais feijões! Amém! o/ xD

  24. Juliano

    Poxa, li e gostei muito!

    E pensando um pouco mais sobre o texto, parece que me serve como resposta a um comentário/perguntas que deixei em outro post 🙂

  25. Guilherme

    Por isso que sua Bibliografia se “contradiz”. com os textos e o mesmo deixam a desejar.

  26. Baylon

    Como me disse um irmão e mestre: tem gente que vive bem na escuridão; as vezes não adianta levar a luz, porque pode cegar – chega a ser um ato de caridade deixar a pessoa na escuridão e não cegá-la

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