O verdadeiro complexo de Édipo

Estamos acostumados a uma determinada ênfase interpretativa na tragédia grega de Sófocles. Um bebê é deixado para morrer por haver sobre ele a profecia de que mataria o pai e desposaria a mãe. O bebê é salvo por um pastor, e anos mais tarde, enquanto viajava, mata o seu desconhecido pai numa briga na estrada. Ao chegar a sua cidade natal, desconhecida por ele deste modo, casa-se com sua mãe viúva. Sem saber sobre seus atos, cumpre a profecia que havia sobre ele justamente na tentativa de fugir dela. Assim Édipo mata o pai e desposa a mãe, se tornando Rei de Tebas.

No entanto, nos enganamos em acreditar que o parricídio e o incesto são os crimes edipianos. Os atos de Édipo só tornam seu destino trágico a partir do momento em que ele toma conhecimento do que fez. A história de Édipo não é uma tragédia do destino, mas a história trágica do saber.

A peça de Sófocles se inicia com o povo de Tebas reunido frente ao seu tirano Édipo. Sua cidade está sendo assolada por uma terrível peste, os campos já não dão mais frutos e as mulheres não podem mais ter filhos. A razão de tamanha maldição dos deuses é que o assassino de Laio, antigo rei de Tebas, se encontrava presente na cidade vivendo entre eles. E assim, Édipo, desejando saber quem cometeu esse crime diz:

Que nenhum habitante deste reino, onde exerço o poder soberano, receba esse indivíduo, seja quem for; e não lhe dirija a palavra, nem permita que ele participe de preces ou de holocaustos, ou receba a água lustral. Que todos se afastem dele, e de sua casa, porque ele é uma nódoa infamante, conforme acaba de nos revelar o oráculo do deus. Eis aí como quero servir à divindade, e ao finado rei. E, ao criminoso desconhecido, eu quero que seja para sempre maldito! Quer haja cometido o crime só, quer tenha tido cúmplices, que seja rigorosamente punido, arrastando, na desgraça, uma vida miserável… E se algum dia eu o recebi voluntariamente no meu lar, que sobre mim recaia essa maldição e os males que ela trará! (…)

E após amaldiçoar o destino do assassino de Laio, afirma:

 (…) deveríamos realizar todas as pesquisas possíveis! Para tanto esforçar-me-ei agora, eu, que herdei o poder que Laio exercia, eu que tive o seu lar, que recebi sua esposa como minha esposa, e que teria perfilhado seus filhos, se ele os tivesse deixado! Sim! Por todas essas razões, como se ele fosse meu pai, tudo farei para descobrir o assassino desse filho de Lábdaco, digno descendente de Polidoro, de Cadmo e do lendário Agenor.

 Esses trechos muito nos interessam num olhar psicanalítico. Édipo amaldiçoa o criminoso que trouxe infortúnio para seu lar, mas o que todo sujeito em análise eventualmente se dará conta é que o principal responsável pelo seu sofrimento é si mesmo. Não o outro, que lhe faz algum mal, tomando-o por vítima. Mas si mesmo, que se permite, devido a seu próprio gozo sintomático, a ser vítima do desejo do Outro. Édipo encarna assim o sujeito neurótico que amaldiçoa o mal que lhe fizeram sem saber que ele mesmo é o principal responsável por sua tragédia.

Alguns rumores são levantados pelo coro, ao que Édipo diz: Que rumores? Eu estimaria conhecer tudo (…). Ao centro da encenação é trazido então Tirésias, profeta cego que tudo sabia, e ao ser questionado por Édipo quem é o assassino de Laio responde: Oh! Terrível coisa é a ciência, quando o saber se toma inútil! Eu bem assim pensava; mas creio que o esqueci, pois do contrário não teria consentido em vir até aqui. Édipo irado pressiona Tirésias, até que enfim, a contragosto, lhe revela que o tirano é o próprio assassino.

O orgulhoso Édipo, que se julgava muito inteligente – afinal fora ele quem respondeu corretamente ao enigma da Esfinge, salvando Tebas no passado –  proclama:

Ó riqueza! Ó poder! Ó glória de uma vida consagrada à ciência, quanta inveja despertais contra o homem a quem todos admiram! Sim! Porque do império que Tebas pós em minhas mãos sem que eu o houvesse pedido, resulta que Creonte, meu amigo fiel, amigo desde os primeiros dias, se insinua sub-repticiamente sob mim, e tenta derrubar-me, subornando este feiticeiro, este forjador de artimanhas, este pérfido charlatão que nada mais quer, senão dinheiro, e que em sua arte é cego. Porque, vejamos: dize tu, Tirésias! Quando te revelaste um adivinho clarividente? Por que, quando a Esfinge propunha aqui seus enigmas, não sugeriste aos tebanos uma só palavra em prol da salvação da cidade? A solução do problema não devia caber a qualquer um; tomava-se necessária a arte divinatória. Tu provaste, então, que não sabias interpretar os pássaros, nem os deuses. Foi em tais condições que eu aqui vim ter; eu, que de nada sabia; eu, Édipo, impus silêncio à terrível Esfinge; e não foram as aves, mas o raciocínio o que me deu a solução. Tentas agora afastar-me do poder, na esperança de te sentares junto ao trono de Creonte!… Quer me parecer que a ti, e a teu cúmplice, esta purificação de Tebas vai custar caro. Não fosses tu tão velho, e já terias compreendido o que resulta de uma traição!

 1- edipus

Édipo se vê como um homem de conhecimento. Ele acredita no poder da razão. Pensa que todas as questões devem ser resolvidas através da lógica e da sabedoria. Édipo não é diferente de nós, sujeitos modernos, que quando qualquer problema se coloca sobre nosso destino, laçamo-nos a consultar especialistas, os discursos científicos sobre o assunto, ou ao menos, fazer uma pesquisa no Google. Buscamos aplacar nossa angústia sobre a vida, o amor e a morte através da filosofia, da ciência, ou mesmo das teorias religiosas. Estamos sempre buscando teorizar sobre tudo: porquê somos ou não somos amados, de onde viemos antes da vida e para onde vamos depois da morte, quem somos nós e quem são os outros. Racionalizamos e criamos explicações para tudo, servindo em última instância, apenas para aplacar nossa angústia de não saber das coisas.

Na história de Sófocles, segue-se um intenso debate: Édipo está sedento por descobrir a verdade acima de tudo. Entra em cena Jocasta, sua esposa, e lhe pede que abandone tal ideal, pois a cidade já havia sofrido demasiadamente, havendo coisas mais importantes a se fazer. Mas Édipo não abandona seu desejo de saber sobre a verdade. E quanto mais Édipo fala, quanto mais ele volta às histórias de seu passado, mais a dúvida assenta em sua alma. Mais razões ele encontra para ser ele o assassino de Laio.

Para acabar com seus temores, Édipo deposita sua esperança numa revelação final. Um servo lhe revela que foi ele quem o salvara da vontade de seu pai Laio de matá-lo após descobrir que seria aquela criança seu assassino no futuro. Quando descobre a verdade sobre si, Édipo arranca seus próprios olhos, e após acusar Apolo por sua tragédia, diz: Mas ninguém mais me arrancou os olhos; fui eu mesmo! Desgraçado de mim! Para que ver, se já não poderia ver mais nada que fosse agradável a meus olhos?

Após descobrir que a verdade era dolorosa demais para ser vista, Édipo escolhe a cegueira. Mas a ironia trágica é que quando o tirano possuía olhos, Édipo não via a verdade. Ao descobrir a verdade, não era mais necessário seus olhos para esta ser vista por sua alma em sofrimento. A peça termina com Corifeu dizendo:

Habitantes de Tebas, minha Pátria! Vede este Édipo, que decifrou os famosos enigmas! Deste homem, tão poderoso, quem não sentirá inveja? No entanto, em que torrente de desgraças se precipitou! Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida.

Na tragédia grega, Édipo acreditava que seu poder, conquistado após derrotar a Esfinge em seu enigma, se assentava sobre o saber. Não diferente de nós, sujeitos modernos, que neuroticamente a tudo queremos saber para poder controlarmos. Com a metodologia científica, tentamos esquadrinhas as leis do universo, decifrar as regras da vida e do amor, obter poder acima da morte. Não cabe aqui questionar a eficácia moderna disto. A partir do avanço do conhecimento obtivemos grandes descobertas na medicina para salvar vidas, desenvolvimento tecnológico para facilitar nossas tarefas e alcançar grandes realizações. O problema é quando nos tornamos cegos pelo saber, assim como Édipo. Quando o saber se torna a única forma de nos relacionarmos com o mundo e com as pessoas. Quando buscamos o saber pela própria sede de saber, tornando este um fim em si mesmo.

Muitos sujeitos que chegam à análise, ao estarem sofrendo com uma crise de ansiedade ou uma depressão, por exemplo, costumam pedir ao analista um modo de lidar com aquilo, um método para se sentirem bem, uma técnica para não sofrerem mais. Este é justamente o problema moderno: acreditamos que tudo é técnico, que tudo é racional. Que se trata de descobrirmos um método seguro para obtermos um caminho fácil para o “saber lidar com isso”. E assim nos tornamos surdos para nossas emoções, para os nossos sentimentos. Estamos tentando usar a razão para derrotar nossas próprias emoções, estas últimas as respostas verdadeiras ao modo como vivemos e organizamos nossa vida. Talvez devêssemos escutar mais nossas emoções, pois elas têm muito mais a nos ensinar quando o assunto é nossa própria vida do que qualquer teoria testada em mil laboratórios, pesquisada em mil universidades. Esse é o valor da psicanálise, que aposta nas emoções do singular contra o saber técnico das quantidades.

Parece que somos colecionadores de técnicas, fundamentadas sempre na crença de que o saber é suficiente. Técnicas de meditação para nos espiritualizarmos, métodos de azaração para nos relacionarmos com o sexo oposto, formas de se comportar para crescer na carreira etc. Uma metodologia inútil enquanto não nos aproximarmos das nossas reais emoções. Pois são estas que nos revelam os caminhos do nosso desejo, as motivações da nossa angústia, a verdade sobre nossas relações. Deste modo, não há saber ou método melhor do que escutar a si mesmo.

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Curta a sua página no facebook.

Este post tem 3 comentários

  1. Carlos

    Vejo uma grande culpa bilateral na história de Édipo.

    Se o pai de Édipo não o tivesse abandonado, da forma que fez com a intenção de que ele morresse para que não fosse cumprida a profecia, ele não teria matado seu pai. Ora, o rei com medo da conclusão real da profecia e com o intuito de evitá-la tomou exatamente a atitude necessária para que ela acontecesse de verdade.
    Se tivesse Édipo sido criado pelos seus pais verdadeiros a “história” nem teria “acontecido”.

    Claro, sei que o conto alude alguma moral/ensinamento, essa explicada pelo texto talvez. No entanto, será que existe somente ela? Não seria Édipo somente um resultado de uma ação do rei?
    Como você mesmo diz, sempre procuramos a solução lógica para os problemas, e a solução mais lógica – e burra pra quem olha de fora – do rei foi essa, matar seu próprio filho.

    Não sei, geralmente vejo uma lógica parcial em fábulas e em alguns contos. Vejo uma logica muito preta e branca.
    Como se eu dissesse que é culpa da cor azul ter ficado verde sendo que foi eu que fui lá e misturei o amarelo…. kkkk

    1. Marcos

      Creio que, por se tratar de um mito, podemos explorar inúmeros ângulos, observando cada personagem e cada evento como uma fonte infinita. É uma questão de ângulo pelo qual se observa a narrativa. Freud demonstrou em suas obras um ponto, Igor Teo demonstrou nesse texto outro ponto, você demonstrou em teu comentário mais um. Além disso, podemos mesmo afirmar que há apenas um, dois, três culpados para um acontecimento? A prática tem demonstrado que as tragédias ocorrem por uma incontável sucessão de eventos. Há muito o que aprender nos mitos, nas fábulas, nos contos!

  2. Lima

    Mas e como vamos entender nossas emoções sem algo a seguir, um método? Como estudar uma coisa sem enquadrá-la de alguma maneira? Se a razão traiu Édipo no conto, em que ele deveria ter acreditado e por quê? Édipo estaria errado seguir o pensamento científico em qualquer situação em nosso mundo?

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