O Santo Graal e a Linhagem Sagrada

O Santo Graal e a Linhagem Sagrada

Publicado no S&H em 04/03/09

Na Semana anterior começamos finalmente uma das séries mais empolgantes aqui no Teoria da Conspiração: Os Mitos do Rei Arthur e suas relações com a Mitologia, o Ocultismo, a Alquimia e com os Cavaleiros Templários.
Semana passada falamos sobre Excalibur e o simbolismo da Espada dentro da Alquimia e ocultismo, bem como das origens de uma das mais famosas armas mágicas de todos os tempos. Esta semana, nos aventuraremos na origem e significado do Cálice Sagrado.

A Cornucópia
Um dos amuletos mais comuns e conhecidos no mundo são os pedaços de chifres e cornos (ou metais e corais moldados à forma de um chifre). Este amuleto é também chamado de Cornucópia de Amaltea e sua origem data das celebrações gregas.
E quem era Amaltea?
Amaltea era uma cabra descendente do Sol que vivia numa gruta no monte Ida, em Creta. Ou segundo outras fontes, era uma ninfa, filha de Meliseo, que alimentou Zeus com o leite de uma cabra.
Segundo as lendas, quando Zeus era pequeno e estava escondido de seu pai, Saturno (Chronos) e era tratado por Amaltea, num ataque de ira, o deus menino agarrou com força o corno da cabra, puxou-o e arrancou-o, produzindo uma enorme dor à sua cuidadora. Quando Zeus ficou adulto, ele concedeu ao chifre arrancado o dom da abundância; a partir desse momento o chifre estaria sempre cheio de alimentos e bens que o seu dono possa desejar.
Quando Amaltea morreu, foi levada a Zeus, que a transformou na constelação de Capricórnio. O chifre ficou conhecido como “a cornucópia” ou “o corno da abundância”. Desta maneira, ao mesmo tempo, este símbolo representava o poder fálico dos deuses criadores e o ventre gerador da vida feminino. Traçando um paralelo com a Kabbalah hermética, temos o Caminho de Daleth, entre Hochma e Binah.

Cornu Copiae
Já na mitologia romana, a cornucópia deriva do latim “Cornu copiae”. A cornucópia ou corno da abundância é um dos cornos do deus-rio Aqueloo, metamorfoseado em touro, que lhe foi arrancado por Hércules, quando lutava contra ele.
Segundo outros textos romanos, a lenda segue a original grega: é um chifre da cabra com cujo leite, a ninfa Amaltea, amamentou Júpiter na sua infância, quando se escondeu de seu pai, Saturno, para que este não o devorasse. Diz-se que Júpiter arrancou o corno à cabra enquanto brincava, e ofereceu-o a Amaltea, asseguran-do-lhe que o corno se encheria de frutos cada vez que ela o desejasse. A cornucópia é um atributo muito mostrado nas moedas romanas, nas mãos de divindades benéficas, como Ceres e Cibeles, ou de alegorias como a Abundância e a Fortuna.
Como curiosidade, a cornucópia é usada atualmente como símbolo do Mestre de Banquetes em algumas ordens cavaleirescas e na maçonaria.

O Chifre de Epona e o Unicórnio
Entre os povos gauleses, a principal divindade relacionada com os equídeos é a deusa gaulesa, ou melhor, galo-romana, chamada Epona (ou Epona Regina), cujo nome deriva do gaulês epo, que significa cavalo. O seu culto difundiu-se até à Bretanha e ao leste da Europa, especialmente na região de Borgonha. Na Península Ibérica foram documenta dos alguns vestígios epigráficos que testemunham o seu culto.
Epona possui diversas referências e numerosas imagens da deusa, geralmente montada sobre um cavalo. A deusa era representada muitas vezes com uma série de atributos, como a cornucópia ou a patera (espécie de bacia de cerâmica onde eram feitas as oferendas, semelhante a um caldeirão raso), que a relacionam com a abundância e a prosperidade. Também estava vinculada com as fontes e ao mundo espiritual.
Da fusão destas duas características da mesma deusa surgem os primeiros relatos medievais de uma criatura encantada que vocês já devem estar imaginando quem seja: o Unicórnio. O Cavalo Branco, símbolo sagrado para a Deusa Epona, associado ao chifre mágico que tudo produz. Claro que esta criatura não existe no Plano Físico, embora muitos picaretas ao longo dos milênios tenham tentado forjar unicórnios com esqueletos de cavalos e narvais, além de rinocerontes e de uma criatura particular chamada Orix.
Até então, o Unicórnio estava associado a um BOI de um único chifre, não a um cavalo. Na Bíblia, em Números 23:22 e no Deuteronômio 33:17, é citado o unicórnio como um animal de força extraordinária. Nos ritos antigos, era costume cortar um dos chifres do maior e mais viril touro do rebanho para ser usado como taça cerimonial para beber o vinho sagrado ao final dos rituais egípcios, junto com o Pão (e qualquer semelhança com a Santa Ceia e o Cálice Sagrado NÃO é mera coincidência!).
O Touro, agora considerado sagrado, era chamado de Uni-corno. Somente com os gauleses e com Epona esta associação passou a ser feita com cavalos. Uma curiosidade é que durante todo este tempo, na história grega, o unicórnio não aparecia em textos de Mitologia, mas sim em textos de biologia, pois os gregos estavam convencidos de que era uma criatura real.
E desta relação surgem as lendas a respeito da pureza necessária para se tocar o chifre de um unicórnio. Embora o primeiro escritor a descrever que “somente uma virgem poderia cavalgar um unicórnio” foi o Grão Mestre Leonardo DaVinci, em suas anotações datadas de 1470, para o quadro “Jovem sentada com unicórnio”.

Mimisbrunnr
Um dos chifres que também é famoso na mitologia é o Gjallarhorn, narrado nas Prosas Eddas do século XIII, que originalmente é o chifre usado por Odin para beber a água da sabedoria da fonte que fica debaixo de Yggdrasil, a Árvore da Vida. De acordo com a história, qualquer um que seja capaz de beber deste chifre terá vida eterna e abundância material. Para vocês terem uma idéia de como este conhecimento é valioso, de acordo com a lenda, Odin sacrificou um de seus olhos em troca da oportunidade de beber destas águas (a razão pela qual Odin sempre é retratado com um tapa-olhos nas imagens nórdicas).
Este chifre acaba se tornando a posse de maior valor de Heimdall, o guardião da Ponte do Arco-Íris que liga Aasgard à Terra (que simbolicamente representa o caminho de Tav na Kabbalah, unindo Yesod a Malkuth, com todas as simbologias associadas a este caminho). O Gjallahorn é a trombeta que será tocada no dia do Juízo Final para anunciar o Ragnarok.

O Caldeirão de Cerridwen
O Caldeirão de Cerridwen era um caldeirão enorme, de ferro e extremamente útil para exércitos: conta-se que, por estar intimamente ligado com o Reino dos Mortos, quando guerreiros mortos em combate eram colocados em suas águas mornas eles retornavam á vida, porém perdiam a capacidade de falar. Estes guerreiros podiam voltar para o campo de batalha até serem mortos novamente, quando não mais poderiam retornar ao mundo dos vivos. Minha opinião pessoal (e não embasada por nenhum livro, que eu saiba) é que esta lenda retrata algum tipo de iniciação semelhante ao Taubólio romano, nas quais os soldados mais indicados para a iniciação aos mistérios passavam por uma morte simbólica no sangue do touro e renasciam abençoados por Hades. O silêncio tem paralelos muito marcantes com os votos de silêncio templários, o voto de Harpocrates e outros votos também realizados pelos que passavam pelo “batismo de sangue”, mas estou começando a entrar em áreas que não posso comentar aqui…

O Caldeirão de Dagda
O deus supremo do panteão celta é chamado de Dagda (esposo da deusa da natureza e prosperidade, Danu). O Dagda é uma figura paternal, protetor da tribo e o deus “básico” do qual outros deuses masculinos podem ser considerados variantes. Também associado com Cernunnos e outros deuses “chifrudos” tanto do panteão celta quanto do panteão grego. Os Contos irlandeses descrevem Dagda como uma figura de força imensa, armado de uma clava e associado a um caldeirão (o Caldeirão de Sangue, que continha diversas propriedades mágicas).
E adivinhem o que este caldeirão fazia?
O Caldeirão de Dagda estava sempre cheio de sopa, vegetais e frutas, providenciando abundância e alimentos para todos a seu redor, sem nunca se esgotar. Poderia servir a toda uma tribo durante um banquete e nunca estaria vazio. O Caldeirão de Dagda é considerado um dos quatro tesouros da Irlanda (os outros são a Espada de Nuada, a Lança de Lugh e a Pedra de Fal). Note que, mais uma vez, fazem-se referências aos quatro elementos da Alquimia e aos quatro naipes do Tarot, quase seiscentos anos antes do tarot aparecer “oficialmente” na forma de cartas. Mas falarei sobre isso depois que acabar esta série sobre o Rei Arthur.

O Mabinogion
Nas lendas posteriores, o Caldeirão de Cerridwen passa a ter sua localização nos Reinos Subterrâneos, mas mantém suas propriedades de sabedoria, vidência e prosperidade, culminando no famoso poema “The Spoils of Annwn”, onde o conhecemos como o “Caldeirão do rei Odgar”. Este caldeirão mágico é roubado do rei Odgar pelo Rei Arthur e seus homens, no poema “Culhwch and Owen” (onde estavam os celtas quando distribuíram as vogais?).
Neste poema, temos o primeiro contato com uma “jornada aos reinos Subterrâneos” em busca de um “Caldeirão Mágico”. O caldeirão é, então, levado por Arthur para a casa de Llwydeu, filho da deusa Rhiannon. Até ai tudo bem, mas Rhiannon é outro nome para Epona, “A Grande e Divina Rainha”, que se torna, então, proprietária do tal caldeirão mágico (que em algumas pinturas é retratado como uma espécie de vasilha rasa usada para oferecer comida aos deuses, a já mencionada patera). A mesma deusa Epona dos chifres mágicos, etc, etc etc.
Estas histórias acabam entrando em uma coletânea de livros galeses, que se tornaram famosas a partir do século XIII e traçam as bases das lendas mais conhecidas do rei Arthur.
A Jornada ao Reino Subterrâneo eu já descrevi em colunas anteriores, quando falei sobre Yesod e o Reino dos Mortos simbólico.

O Caldeirão e o Sangreal
A partir das cruzadas e dos Templários agindo mais abertamente, algumas destas lendas acabaram sendo recontadas sob o ponto de vista dos cavaleiros e dos cátaros, os protetores da linhagem Sagrada, que aproximaram as narrativas a respeito do Graal.
Para entender a próxima etapa, recomendo a leitura dos seguintes textos, na seguinte ordem:
Perceval, de Chrétien de Troyes
Lancelot ou le chevalier de la charrette, versos de Chrétien de Troyes
Yvain ou le chevalier au lion, versos de Chrétien de Troyes
Perceval ou le Conte du Graal, versos de Chrétien de Troyes
Parzival, de Wolfram von Eschenbach
Joseph d’Arimathie de Robert de Boron
La Mort D´Arthur, de Thomas Malory

Eles foram publicados em um espaço de tempo relativamente curto e formataram a lenda do Rei Arthur e da Távola Redonda tal qual a conhecemos hoje. Sei que, como os 4 elementos da narrativa fluem juntos (o Graal, Excalibur, o Cajado de Merlin/Lança do rei Pecador e a Távola Redonda/Cavaleiros), talvez algumas partes deste texto ainda vão gerar dúvidas. Eu recomendo a vocês relerem cada matéria novamente antes de avançar para as próximas, e tudo vai fazer mais e mais sentido a cada novo elemento, ok?

Perceval ou Lê Conte du Graal
Nesta série de poemas, estamos finalmente dando uma forma para o Graal, da maneira como ele é mais conhecido pelo público leigo: A forma de um cálice ou, mais precisamente, o Cálice usado na Santa Ceia.
Perceval ou le Conte du Graal (Perceval, o Conto do Graal) é um romance inacabado de Chrétien de Troyes escrito provavelmente entre 1181 e 1191, dedicado ao patrono do escritor, Filipe da Alsácia, conde de Flandres e cavaleiro Templário. Chrétien havia trabalhado na obra a partir de escrituras iniciáticas fornecidas por Filipe e relata as aventuras do jovem cavaleiro Perceval.
O poema é iniciado com o jovem Perceval encontrando cavaleiros e percebendo que também gostaria de ser um. Sua mãe o havia criado fora dos domínios da civilização, nas florestas do País de Gales, desde a morte de seu pai. A contragosto de sua mãe, o garoto parte para a corte do Rei Artur, onde uma garota prevê grandes conquistas na vida dele. Ele é caçoado por Kay, mas torna-se cavaleiro e parte para aventuras. Perceval salva e apaixona-se pela jovem princesa Brancaflor, e treina com o experiente Gornemant.
Em um momento de sua vida conhece o Rei Pescador, que convida Perceval a permanecer em seu castelo. Enquanto estava lá, o cavaleiro presenciou uma procissão em que jovens carregam objetos magníficos entre cômodos, passando por ele em cada fase do evento. Primeiro aparece um jovem carregando uma lança coberta por sangue, e depois dois jovens carregando candelabros. Por fim, uma jovem aparece trazendo consigo um decorado cálice (o Graal). O objeto contém uma alimento que miraculosamente sustém o pai ferido do Rei Pescador.
Tendo sido aconselhado para tal, o jovem cavaleiro permanece em silêncio durante todo a cerimônia, apesar de não entender seu significado. No dia seguinte, ele volta para a corte do Rei Artur.
Antes de se manifestar no local, uma dama furiosa com trejeitos celtas entra na corte e clama a falha de Perceval em perguntar sobre o Graal, já que a pergunta apropriada curaria o Rei Ferido. Ela então anuncia que os Cavaleiros da Távola Redonda já haviam se prontificado a buscar o Cálice.
E o poema termina ai, sem um final…

O Rei Pescador aparece originalmente neste poema. Nem sua ferida nem a ferida de seu pai são explicadas, mas Perceval descobre posteriormente que os reis seriam curados se ele perguntasse sobre o Graal. Percival descobre que ele próprio é da linhagem dos Reis do Graal através de sua mãe, que é filha do rei ferido. Entetanto, o poema é terminado antes que Perceval retornasse ao castelo do Graal.
A associação entre “Pescador” e “Pecador” (no original Pêcheur e Pécheur respectivamente) é proposital, pois faz diversas associações entre o símbolo do Pescador, da linhagem de Yeshua e sua associação com a multiplicação dos peixes e com os apóstolos “pescadores” em diversas passagens do Novo Testamento.

Chrétien não chegou a usar o adjetivo “sagrado” para o Graal, assumindo que sua audiência (templária) já estaria familiarizada como o termo. Neste poema, Chrétien deixava implícito que havia uma dinastia descendente direta de Jesus, isso mais de 700 anos antes do Dan Brown!

Associação direta do Graal ao Sangue de Jesus
O próximo trabalho sobre o tema “Linhagem Sagrada” foi apresentado no poema Joseph d’Arimathie de Robert de Boron, o primeiro a associar diretamente o Graal à Jesus Cristo. Nesta obra, o “Pescador Rico” chama-se Bron, e ele é dito ser cunhado de José de Arimatéia, que havia usado o Graal para armazenar o sangue de Cristo antes de o deitar na tumba. José então encontra uma comunidade religiosa que viaja para a Bretanha, confiando o Graal à Bron (falarei sobre a relação entre José de Arimatéia, ou Yossef Rama-Teo e Merlin na próxima coluna).

Segundo a lenda, José de Arimatéia teria recolhido no Cálice usado na Última Ceia (o Cálice Sagrado), o sangue que jorrou de Cristo quando ele recebeu o golpe de misericórdia, dado pelo soldado romano Longinus, usando uma lança, depois da crucificação. Boron conta ainda que, certa noite, José é ferido na coxa por uma lança (perceba também, sempre presente, as referências às lanças, símbolos do fogo, tanto nas histórias de Jesus como de Arthur). Em outra versão, a ferida é nos genitais e a razão seria a quebra do voto de castidade (este fato mais tarde dará origem ao desenvolvimento literário do affair entre Lancelot e Guinevere, que precisa ainda ser mais detalhado).

Somente uma única vez Boron chama a taça de Graal (ou SanGreal). Em um inciso, ele deduz que o artefato já tinha uma história e um nome antes de ser usado por Jesus: “eu não ouso contar, nem referir, nem poderia fazê-lo (…) as coisas ditas e feitas pelos grandes sábios. Naquele tempo foram escritas as razões secretas pelas quais o Graal foi designado por este nome”.
Em outra versão do poema, teria sido a própria Maria Madalena, segundo a Bíblia a única mulher além de Maria (a mãe de Jesus) presente na crucificação de Jesus, que teria ficado com a guarda do cálice e o teria levado para a França, onde passou o resto de sua vida, dando origem à já conhecida “linhagem Sagrada”.

O cavaleiro e escritor Wolfram von Eschenbach baseia-se na história de Chrétien e a expande em seu épico Parzival. Ele re-interpreta a natureza do Graal e a comunidade que o cerca, nomeando os personagens, algo que Chrétien não havia feito; o rei pai é chamado de “Titurel” e o rei filho de “Anfortas”.

Sarras e São Corentin
Outro aspecto muito importante a respeito do Santo Graal é Sarras, a cidade mítica para onde o Graal é levado ao término do poema. A Cidade mítica de Sarras. Sarras é a “Cidade nos confins do Egito, onde está armazenada toda a sabedoria antiga”, que está associada às terras bíblicas de Seir. Porém, ao analisarmos o nome do rei de Sarras, Sir (Es)corant, chegamos a um personagem muito importante do século VI, chamado São Corentin.
Corentin, ou Corenti em alguns textos, foi um monge da Cornualha cujo monastério ficava justamente na península de Sarzeu Uma das lendas a respeito de Corentin é a de que ele teria vivido durante um período na floresta sendo alimentado apenas por um peixe. Ele comia um pedaço do peixe e, no dia seguinte, o peixe estava vivo e inteiro novamente. É muito simples perceber a associação entre Sarras/Sarzeu, Es-Corant/St Corentin e o rei pescador/monge pescador neste poema.

O Graal-pedra
Em “Parzifal”, o cavaleiro alemão Wolfram Von Eschenbach coloca na mão dos Templários a guarda do Graal que não é uma taça, mas sim uma pedra: o poema fala sobre uma gema verde esmeralda.

Ela trazia o desejo do Paraíso: era objeto que se chamava o Graal!
(Parzifal)

Para Eschenbach, o Graal era realmente uma pedra preciosa, pedra de luz trazida do céu pelos anjos. Ele imprime ao nome do Graal uma estreita dependência com as força cósmicas. A pedra é chamada Exillis ou Lapis exillis, Lapis ex coelis, que significa “pedra caída do céu”.


É a referência à esmeralda na testa de Lúcifer, que representava seu Terceiro Olho. Quando Lúcifer, o anjo de Luz, se rebelou e desceu aos mundos inferiores, a esmeralda partiu-se pois sua visão passou a ser prejudicada. Uma dos três pedaços ficou em sua testa, dando-lhe a visão deformada, que foi a única coisa que lhe restou. Outro pedaço caiu ou foi trazido à Terra pelos anjos que permaneceram neutros durante a rebelião. Mais tarde, o Santo Graal teria sido escavado neste pedaço.

Façamos agora uma comparação entre o Graal-pedra de Eschenbach com a não menos mítica Pedra Filosofal, que transformava metais comuns em ouro, homens em reis, iniciados em adeptos; matéria e transmutação, seres humanos e sua transformação. O alemão têm como modelo de fiéis depositários do cálice sagrado os Cavaleiros Templários (de novo!).

Seria Wolfran von Eschenbach um Templário? Certamente que sim. Era a época em que Felipe de Plessiez estava à frente da ordem quase centenária. O próprio fato de ser a pedra uma esmeralda se relaciona com a cavalaria. Os cavaleiros em demanda usavam sobre sua armadura a cor verde, sinônimo de vitalidade e esperança. Malcom Godwin, escritor rosacruz, refere-se a Parzifal da seguinte maneira: “Muitos comentadores argumentaram que a história de Parzifal contém, de modo oculto, uma descrição astrológica e alquímica sobre como um indivíduo é transformado de corpo grosseiro em formas mais e mais elevadas”.
Nesta obra, que é um retrato da Idade Média – feito por quem sabia muito bem sobre o que estava falando – reconhece-se uma verdadeira ordem de cavalaria feminina, na qual se vê Esclarmunda, a virgem guerreira cátara, trazendo o Santo Graal, precedida de 25 cavaleiros segurando tochas, facas de prata e uma mesa talhada em uma esmeralda (mais para a frente, voltarei a este assunto quando for falar de Joana D´Arc).

Na descrição do autor da cena de Parzifal no castelo do rei-pescador (que, assim como Jesus, saciara a fome de muitas pessoas multiplicando um só peixe) lemos:

“Em seguida apareceram duas brancas virgens, a condessa de Tenabroc e uma companheira, trazendo dois candelabros de ouro; depois uma duquesa e uma companheira, trazendo dois pedestais de marfim; essas quatro primeiras usavam vestidos de escarlate castanho; vieram então quatro damas vestidas de veludo verde, trazendo grandes tochas, em seguida outras quatro vestidas de verde (…). “Em seguida vieram as duas princesas precedidas por quatro inocentes donzelas; traziam duas facas de prata sobre uma toalha. Enfim apareceram seis senhoritas, trazendo seis copos diáfanos cheios de bálsamo que produzia uma bela chama, precedendo a Rainha Despontar de Alegria; esta usava um diadema, e trazia sobre uma almofada de achmardi verde (uma esmeralda) o Graal, ‘superior a qualquer ideal terrestre’”.

As histórias que fazem parte do chamado “ciclo do Graal” foram redigidas de 1180 até 1230, o que nos inclina a relacioná-las com a repressão sangrenta da heresia cátara (mas terei de fazer um post paralelo só sobre a Cruzada contra os Cátaros para explicar como tudo isto está intimamente relacionado).

Conta-se que durante o assalto das tropas do rei Filipe II de França à fortaleza de Montsegur, apareceu no alto da muralha uma figura coberta por uma armadura branca que fez os soldados recuarem, temendo ser um guardião do Graal. Alguns historiadores admitem que, prevendo a derrota, os cátaros emparedaram o Graal em algum dos muros dos numerosos subterrâneos de Montsegur e lá ele estaria até hoje.

A “Mesa de Esmeralda” evocada pelas histórias de fundo cátaro relacionam-se de maneira óbvia com outra “mesa”: a Tábua de Esmeralda atribuída a Hermes Trimegistos. A partir daí o Graal-pedra cede lugar ao Graal-livro.

O Graal-livro
O Graal-taça é tido como um episódio místico e o Graal-pedra como a matéria do conhecimento cristalizado em uma substância. Já o Graal-livro é a própria tradição primordial, a mensagem escrita. Em “José de Arimatéia”, Robert de Boron diz que “Jesus Cristo ensinou a José de Arimatéia as palavras secretas que ninguém pode contar nem escrever sem ter lido o Grande Livro no qual elas estão consignadas, as palavras que são pronunciadas no momento da consagração do Graal”. De fato, em “Le Grand Graal”, continuação da obra de Boron por um autor anônimo, o Graal é associado – ou realmente é – um livro escrito de próprio punho por Jesus, o qual a leitura só pode entender – ou iluminar – quem está nas graças de Deus. E por conta disso temos uma noção de que “segredos Templários” o Vaticano estaria atrás todo este tempo.

“As verdades de fé que este contém não podem ser pronunciadas por língua mortal sem que os quatro elementos sejam agitados. Se isso acontecesse realmente, os céus diluviariam, o ar tremeria, a terra afundaria e a água mudaria de cor”.

Semana que vêm, Merlin, Cajados, Lanças, José de Arimatéia e os Reis Pescadores.
Qualquer dúvida, mandem nos comentários que eu tento responder.

PS: o Sedentário está com a CSS zoada, então não aparece nem negrito e nem itálico nos textos.

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Este post tem 20 comentários

  1. Rafael

    MDD (ou quem puder e quiser responder) iniciação em termos esotéricos siguinificaria mais ou menos “morrer” para renascer para uma nova vida, por ese ponto de vista uma das iniciações mais “fortes” é a dos irmãos candomblecistas que tem de ficar recolhidos no roncó por um período com várias restrições algumas pelo resto dessa encarnação, realmente é um renascimento. Ja vi que maçons tmb são ao seu modo iniciados, no meu caso, sou umbandista a lavagem de cabeça o batismo, sem entrar em detalhes, pode ser chamado de iniciação ou é forçar a barra pergunto não por vaidade e sim curiosidade pois ja vi aqui no TdC ser dito que padres são iniciados (Pastores não? rssss)

    @MDD – A chamada “Iniciação” no Hermetismo ocorre quando você deixa de “acreditar” que existe um mundo espiritual e CONHECE o mundo espiritual, através de uma Viagem Astral Consciente. até então, você acredita ou não nas coisas que eu escrevo. O dia em que for verdadeiramente iniciado, você terá a chance de ver e sentir com seu próprio corpo o mundo espiritual. As antigas iniciações consistiam em deixar o sacerdote “morrer” na pirâmide enquanto seu espírito era elevado por sobre seu corpo. Quando o candidato podia observar a si mesmo (seu corpo físico) e era acolhido por aquela egrégora espiritual, tornava-se um Iniciado. Hoje em dia, a maioria das chamadas iniciações são apenas simbólicas, feitas através de rituais, mas que são apenas acolhimentos dentro de uma egrégora, mas não tornam a pessoa um iniciado (da maneira como nós conhecemos esta palavra). Na Umbanda, através da mediunidade, os iniciados em rituais por meio de entidades podem ser considerados Iniciados, por exemplo; mas não Maçons ou Rosacruzes que apenas fazem o ritual simbólico em loja. Estes estão ligados à Egrégora, mas são poucos que realmente tem consciencia do mundo além do Plano Físico. Para isso precisa estudar muito e praticar a arte.
    E ser Iniciado é apenas o começo… significa que começou a caminhada e está protegido por uma egrégora. Padres ordenados (embora pessoalmente eu ache que HOJE, só de cardeal pra cima que é verdadeiramente Iniciado) são considerados acolhidos na egrégora da ICAR, os pastores (que não forem ex-pais de santo)são normalmente apenas zé ruelas capazes de recolher bastante dízimo…

    1. Ranieri

      Marcelo…
      Há um tempo, quando eu pouco sabia das coisas, eu tive uma Projeção Astral sem eu ter a mínima intenção disso, durou pouco mais de 10 segundos, mas eu pude voar, ouvir música…tudo isso sentindo todo o meu corpo, com visão idêntica à visão física…e tudo mais…

      Posso ser considerado um Iniciado com I maiúsculo?

      @MDD – Nao… qual egrégora está te protegendo? mas é um começo razoável.

    2. Danilo Fucci

      Pensei que o fanatismo dos padres os impedissem de ser iniciados. Fiquei surpreso… Como pode ser iniciado e continuar com tanta asneira?

    3. Vinícius Pedro

      recentemente eu vi em um programa a iniciação da religião Bwiti, aquilo sim é que é uma iniciação. dá até um certo medo só de assistir.

  2. João

    Magnífico!
    Uma pergunta, os textos recomendados possuem publicação em português?
    Obrigado.

    @MDD – Nao tenho certeza, mas é bem possivel que tenha sim.

  3. mr.poneis

    Ler as coisas por aqui é mesmo incrível, de uma forma abstrata é como se tudo o que você ouviu a vida toda em pedaços aqui e ali começasse a se encaixar, aos estalos…

    O mais legal são todos estes nomes, que você sempre acaba achando que o autor escolheu aleatóriamente tem toda uma história… Épona? Monocero?

    Acredito que seja só eu… mas no final, é um cálice, uma pedra ou um livro? ou é todos os três (como em uma coleção de artefatos)?

    Muito obrigado pela aula

    até mais ver
    mr.poneis

    ps.: você costuma moderar comentários em posts antigos também? De repente me ocorreu que pode ser mais prático postar uma dúvida em um post relacionado, mas se for o caso eu posso fazer minhas perguntas no post mais recente…

    @MDD – Pode fazer a pergunta direto no post que te interessar. Eu modero todos os comentários justamente para poder responder a perguntas de posts antigos também. Eu prefiro sempre que vocês procurem fazer as perguntas nos posts relacionados.

  4. Leikun Dantas

    E, ainda por cima, temos diversas referências diretas e/ou indiretas.

    Como a própria Epona, que foi literalmente homenageada com a égua de mesmo nome no jogo do The Legend of Zelda – The Ocarina of Time.

    Confesso que esbocei um sorriso divertido quando vi você falando sobre exatamente sobre isso.

    Tio Debbio, aproveitando… Bem que você poderia (se possível, claro) fazer algum post contrapondo diversas obras e simbologias (Tal como você já o fez antes).

    Abraços.

  5. Rafael

    Obrigado pela resposta foi bastante completa (claro, levando em conta q foi dada a um estranho na net) e elucidativa. Sem querer floodar mas ja floodando, se possível gostaria que o assunto “coincidencias” fosse abordado aqui no TdC pois eu estou certo que isso não existe, quanto mais aprendo e estudo tanto com as informações e lições obtidas na caminhada recem iniciada com os guias, com os mais antigos e com as leituras (virtuais e tradicionais) como olhando para dentro para as lembranças e para as pretenções futuras eu vejo que o tal acaso é uma grande bestagem como diria um amigo meu.

  6. Rodrigo

    Del Debbio, eu devo confessar que nesses ultimos dias voce esta verdadeiramente inspirado…

  7. Lucas.

    Há relação etimológica do nome “Portugal” com “Graal”? Se eu me lembro bem, Portugal vem de Portus Cale, que seria uma cidade romana correspondente à atual cidade do Porto. Todavia, há um selo de D. Afonso Henrique que é possível “Portugral” (http://bit.ly/gqUy8F ); Seria “Porto do Graal”? Visto pela presença dos templários na península Ibérica, não seria nada estranho.

  8. KalyaWasp

    Interessante isso aqui hoje! Sonhei que tomava vinho no santo graal xD

  9. Naruto

    MDD, lendo este post, acabei me lembrando de um fato que ocorreu comigo a algum tempo atrás… eu estava em minha casa sozinho e falava ao telefone sentado junto a uma mesa. Após desligar o telefone comecei a psicografar (na época participava de um grupo espírita) involuntáriamente e questionando quem estaria ali me foi dito que era meu guia, chamdo H. Perguntei de que forma estavamos juntos e ele me disse o seguinte (resumidamente):
    Que por volta de mil anos atrás, nós haviamos participado de uma “guerra santa” próximo a jerusalém e que eramos muito amigos, mas devido ao conflito, ficamos de lados opostos e ele acabou por me matar e de lá pra cá vem me acompanhando e procurando me ajudar a me desenvolver, tenho muitas mensagens dele psicografadas por mim, a grande maioria de cunho moral e sobre os valores e virtudes.
    Daí a minha pergunta: o Graal sempre esteve no meio destas “guerras”, isso é verdade? E na minha cabeça sempre me vejo do lado muçulmano, a tradição muçulmana tinha conhecimento do Graal?
    De qualquer forma, Muito Obrigado por ter lido o comentário e “por favor, questione!”

  10. Vinicius

    Obrigado, mr. poneis, vc tirou uma dúvida q sempre me afligiu.

    E quanto a pergunta do Rafael, o que motivou essa descaracterização? Hoje eu tenho quase certeza de que a maior parte dos maçons ou RCs (ao menos o q eu conhecer) não são iniciados de fato. Muitos maçons são católicos praticantes (dupla contradição, pois a ICAR não os aceita, e a Iniciação verdadeira derrubaria dogmas católicos e evangélicos) os irmãos Wright da IPB também eram maçons, se não me engano, embora tenham continuado a liderar uma igreja que, como a maioria dos evangélicos, crê apenas na vida material, seguida de morte e inconsciência e depois a ressureição.

    O que parece é que, especialmente na maçonaria, que você mesmo é obrigado a acusar vez por outra de ser uma espécie de clube social, ocorreu uma descaracterização semelhante à da Igreja, onde iniciados essênios foram substituídos por ignorantes oportunistas e a ritualistica desandou.

    Mas a maçonaria não teve a massificação e publicidade da Igreja, nem a influência do Imperador nas escolhas internas. O que provocou esse abandono nas ordens discretas? E, mais importante, ao meu ver, como curar esse mal, antes que seja tarde demais?

  11. Nasiadka

    Saudações Tio MDD !
    estou sempre acompanhando o teoria da conspiração. Vi uma referência a palavras ditas na consagração do graal que so quem teve acesso ao Grande Livro poderia pronuncia-las. Noto que em cerimônias tradicionais Catolicas ao consagrar o calice o Padre sussurra algumas palavras erguendo-o. Esse ritual parece ser feito com uma intensidade diferenciada do resto dos procedimentos. Há alguma referencia com as palavras que talvez a igreja catolica desconheça e houve a necessidade de muda-las? qual a relaçao entre a real consgração ensinada no Grande Livro e a consagração tradicional da Igreja Catolica?

    Grande Abraço
    Que o Grande Arquiteto continue te iluminando sempre para nos presentear com tamanho conhecimento.

  12. Renan Matos

    Tenho uma pergunta Marcelo.
    Se fossem comprovadamente encontrados os descendentes de Jesus, vivos nos dias atuais, sem querer entrar no mérito da reestruturação do cristianismo que passaria por uma tremenda reforma e com certeza voltaria a ser algo parecido com que temos hoje no Budismo, todos podem ser Buda, ou Cristo, como quiserem, sem falar que os descendentes seriam as pessoas mais ricas do mundo, dispondo da titularidade de todo o mercado trilhonário da fé cristã, coisa que o Dan Brown esqueceu de explorar.
    E ai Marcelo? Em toda nossa história observamos reinados perecerem por acreditarem que os descendentes do grande rei seriam uma continuação de seus pais, e aumentariam sua obra. Um descendente comprovaria a humanidade de Jesus, mas e depois? Você poderia me dizer qual a idéia dos Magos sobre o poder do sangue. Em minha humilde opinião, pais e filhos compartilham muitas coisas, mas acreditar que esses descendentes teriam alguma vantagem na difícil trilha da iluminação pessoal, ou que seriam super-humanos me parece fantasioso demais…

    1. Renan Matos

      Caro Marcelo
      Aguardei mais de uma semana por sua resposta.
      Por favor, responda, é uma questão realmente importante pra mim.

      @MDD – Nao tem como especular o que aconteceria SE descobrissem algo assim. Ia ter desde maluco fundando novas religiões dogmáticas até fanáticos ateus dizendo que é uma farsa sem nem olhar as evidencias. Acho que seria o circo…

      1. Renan Matos

        Caro Marcelo

        Eu não quis questionar as consequências socioeconômicas da aparição de um descendente. Minha pergunta é sobre o poder do sangue! O que esse sangue carregaria de tão importante (sobrenatural), além, é claro, de comprovar a humanidade de Cristo.

        @MDD – sangue de descendente de Jesus nao tem poder… na melhor das hipoteses, se ele se cuidar, serve para doar pra ajudar alguém e conseguir um mapa astral na hospitalaria. Nao é o corpo que faz de uma pessoa iluminada, é o espírito.

  13. Matheus

    Eu queria saber como elevar tipo meu espirito e tal, não sei se é esse o termo certo, já mandei outros comentários, e por acaso encontrei este post.
    No caso se o que torna a pessoa “poderosa” é o espirito? e quanto ao mental e alma?

  14. Nats

    Fiquei mais curiosa para saber o que vc falará sobre a Joana D´Arc!

    Seus textos sempre excelentes!

  15. Jefferson de Oliveira

    Marcelo,

    Tenho um amigo, iniciado, que me contou que o Santo Graal teve duas etapas durante a sua história. A primeira, como foi relatada no seu belo texto, como pedra, bem antiga, na época da Atlântida.

    E a segunda etapa, como a taça na qual a gente conhece de hoje, que passou por personagens como Salomão e José de Arimatéia. Ele ainda diz que essa taça existe realmente, no mundo físico, e está muito bem guardada, e durante toda a história da humanidade, ela foi guardada através das ordens que se sucediam, duas delas são, a Ordem dos Nazarenos, que era a ordem na qual Jesus fazia parte e a mais conhecida, a Ordem dos Templários. A taça possivelmente nos dias de hoje, está sob as mãos de outra ordem oculta para a humanidade.

    Ele chegou a afirmar que a taça é toda de ouro, pesa algo em torno de 50 quilos e já passou por todas as 7 Igrejas do Oriente e também das 7 Igrejas do Ocidente, inclusive aqui pelo Brasil, em Salvador.

    Você acredita nisso, qual a sua opinião??

    @MDD – Já ouvi esta historia do pessoal da Eubiose, mas não faço ideia se é verdade ou não. Não creio que seria a taça antiga, mas talvez uma taça simbólica feita por eles que circula mesmo entre as Igrejas.

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