O Sagrado Feminino


Por Mirella Faur

Durante os milênios da supremacia patriarcal, refletida nos valores espirituais, culturais, sociais, comportamentais e amparada pela hierarquia divina masculina, foi negada e reprimida qualquer manifestação da energia feminina, divina e humana. Resultou assim em uma cultura exclusiva e destrutiva, centrada na violência, conquista e dominação, com o conseqüente desequilíbrio global atual. Os homens – como gênero – não foram os únicos responsáveis pelas agressões e atitudes extremistas a eles atribuídas; a causa pode ser atribuída à maneira pela qual a identidade masculina foi criada e reforçada pelos modelos e comportamentos de “heróis” e “super-homens”. Fundamentados em seus direitos “divinos”, outorgados inicialmente por deuses guerreiros e depois reiterados pela interpretação tendenciosa dos preceitos bíblicos, os homens foram inspirados, instigados e recompensados para desconsiderar e deturpar as milenares tradições matrifocais e os cultos geocêntricos. Em lugar de valores de paz, prosperidade e parceria igualitária, foram instaurados princípios e sistemas de conquista, exploração e dominação da Terra, das mulheres, crianças e de outros homens.

Pela sistemática inferiorização e perseguição da mulher, o patriarcado procurava apagar e denegrir os cultos da Grande Mãe, interditando os seus rituais, “demonizando” e distorcendo seus símbolos e valores. A relação igualitária homem-mulher foi renegada, a mulher declarada um ser inferior, desprovido de alma, amaldiçoado por Deus, responsável pelos males do mundo e por isso destinada a sofrer e a ser dominada pelo homem. Os princípios masculino e feminino – antes pólos complementares da mesma unidade – foram separados e colocados em ângulos opostos e antagônicos. Enalteceu-se o Pai, negou-se a Mãe e usou-se o nome de Deus para justificar e promover o código patriarcal, a subjugação e exploração da Terra e das mulheres. A tradição, os cultos e a simbologia da Deusa foram relegados ao ostracismo e paulatinamente caíram no esquecimento. Patriarcado e cristianismo se uniram na construção de uma sociedade hierárquica e desigual, baseada em princípios, valores, normas, dogmas religiosos, estruturas sociais e culturais masculinas.

As últimas décadas do século passado proporcionaram uma gradativa mudança de paradigmas nas relações e nos conceitos relativos ao masculino e feminino. No entanto, para que este avanço teórico se concretize em ações e modificações comportamentais e espirituais, é imprescindível reconhecer a união harmoniosa e complementar das polaridades e procurar novos símbolos e rituais para o seu fortalecimento e equilíbrio. Com o surgimento progressivo de uma dimensão feminina da Divindade na atual consciência coletiva, está sendo fortalecido o retorno à Deusa e a revalorização do Sagrado Feminino.

Somos nós que estamos voltando à Deusa, pois Ela sempre esteve ao nosso lado, apenas oculta na bruma do esquecimento e velada pela nossa falta de compreensão e conexão com seu eterno amor e poder.

A principal diferença entre o Pai patriarcal, celeste e a Mãe cósmica e telúrica universal é a condição transcendente e longínqua do Criador e a essência imanente e eternamente presente da Criadora, em todas as manifestações da Natureza.

A redenção do Sagrado Feminino diz respeito tanto à mulher quanto ao homem. Ao esperar respostas e soluções vindas do Céu, esquecemos de olhar para baixo e ao redor, ignorando as necessidades da nossa Mãe Terra e de todos os nossos irmãos de criação. Para que os valores femininos possam ser compreendidos e vividos, são necessárias profundas mudanças em todas as áreas: social, política, cultural, econômica, familiar e espiritual. Uma nova consciência do Sagrado Feminino surgirá tão somente quando for resgatada a conexão espiritual com a Mãe Terra, percebida e honrada a Teia Cósmica à qual todos nós pertencemos e assumida a responsabilidade de zelar pelo seu equilíbrio e preservação.

O reconhecimento do Sagrado Feminino deve ser uma busca de todos, porém cabe às mulheres uma responsabilidade maior, devido à sua ancestral e profunda conexão com os arquétipos, atributos, faces, ciclos e energias da Grande Mãe.

Uma grande contribuição na transformação da mentalidade do passado e na expansão atual da consciência coletiva são os encontros de homens e mulheres em círculos e vivências comunitárias, para despertar e alinhar mentes, corações e espíritos em ações que visem a cura e a transmutação das feridas da psique, infligidas pelo patriarcado. Apaziguar a si mesmo, harmonizar seus relacionamentos, vencer o separatismo, reconhecer e honrar a interdependência de todos os seres, evitar qualquer forma de violência, dominação, competição ou discriminação são desafios do ser humano contemporâneo, no nível pessoal, coletivo e global. Incentivando a parceria entre os gêneros e a interação dos planos energéticos (celeste, telúrico, ctônico) criam-se condições que favorecem a expansão da consciência individual e contribuem para a evolução planetária.

Este post tem 6 comentários

  1. Ramon da Cruz Salgueiro

    Ótimo texto. Preciso comprar logo o livro dela sobre runas.

  2. Vinícius Ferreira

    Eu concordo plenamente, com cada palavra, porém os pagão tem um problema: achamos, no geral, que as coisas vão se resolver sozinhas. Bem, vão, mas vai depender da evolução da humanidade, que é lenta e dolorosa.
    Por que não há representação politica para os pagãos?
    por que não temos uma organização central? Por que ficamos “cada um na sua”?
    Por que não nos organizamos para sermos fortes e representativos?

    A nossa fé, nossa filosofia de vida, está para o governo e para a sociedade classificada como “outros” . Pra que essa realidade se consolide temos que começar a pensar em coisas assim.

    1. Dorival

      Vinícius eu também concordo com todas as palavras, e após ler o seu comentário parei para refletir mais profundamente sobre sua ideia. E aí me surgiu, será que ao se organizar desta maneira, não estaríam os pagãos também se separando do tudo? A ideia não é justamente contrária à da separação? Conforme o tempo passa nós notamos uma mudança geral na consciência da humanidade, e é justamente o conceito da conexão com o planeta que torna essa mudança possível. Creio que com o passar do tempo nem partidos políticos nem associações das quais representem um certo grupo de pessoas serão sustentáveis.

      Como você mesmo diz, a evolução da humanidade é lenta e dolorosa, mas não me prendo à essa visão muito não sabia, na verdade os últimos tempos têm sido bem corridos não acha? Se por um lado parece que não evoluímos nada, olhando por outro ângulo me vêm na mente uma evolução extraordinária. Há tanta coisa boa acontecendo agora, tantas pessoas estudando e se melhorando que chega a ser espantoso.

      Um ótimo texto este, muito a se pensar e a se fazer, mudando dentro para que o fora também possa mudar.

      Abraços a todos!
      PAZ!

    2. Jcascatinha

      Vinícius,
      Simples, verifique os conceitos das suas expressões: Organização – característica masculina / Força – característica masculina. O Feminino se ergue com base em suas próprias “forças” e não utilizando a mesma mentalidade do Masculino…

  3. los

    O sagrado feminino nunca criou uma sociedade duradoura, já a “opressão machista” criou várias, que ao contrário do que pregam da muito mais vantagens as mulheres do que aos homens.

    1. ana

      Sociedades matriarcais existiram e ainda existem sim,é só pesquisar um pouco,principalmente pesquisar a história das religiões antigas e da onde vem o conceito de sagrado feminino,e sinceramente,em que mundo uma sociedade machista beneficia mais as mulheres que homens???Acho que o correto é o equilibrio/igualdade entre homens e mulheres,ninguém é melhor/superior que ninguém.

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