O que é ser equilibrado?

Comumente temos a visão de uma pessoa equilibrada como alguém completamente indiferente ao que acontece a sua volta. Alguém que supostamente jamais se irrita com uma ofensa, que nunca usa termos mais agressivos, ou que nunca demonstra fraqueza ou fragilidade diante de certos impasses. Porém, isto se trata na verdade de um ideal abstrato e pouco real do que é ser humano. Pensar assim pouco nos ajuda a encontrar o tal “equilíbrio”.

Antes da consciência e da razão, as emoções são as nossas ferramentas mais básicas de regulação. Elas servem como parâmetros comportamentais em nossas relações com o mundo, com as outras pessoas, e até com nós mesmos. Biologicamente, a emoção é o mecanismo regulador da sobrevivência. Em tempos pré-históricos, a reação emocional correta (como medo ou ansiedade) podia determinar a sobrevivência do indivíduo, uma vez que ela preparava o organismo para lidar com o perigo através de respostas comportamentais (luta e/ou fuga, por exemplo).

Em nossa sociedade contemporânea, são raras as vezes que necessitamos usar nossas emoções de forma tão radical. São poucas as situações em que nos encontramos realmente em caso de vida ou morte. O que não impede um organismo de encarar determinadas situações com tal peso. Então, quando alguém reage de forma exagerada a determinada situação, com uma resposta emocional extrema, pode até parecer absurdo para você que está fora da situação, mas para tal organismo pode realmente parecer uma questão de vida ou morte, seja na realidade ou não.

O que nos interessa aqui, no entanto, é sublinhar que as emoções funcionam como o nosso termômetro. Elas traduzem a realidade do organismo e como nós vivenciamos nossas experiências. Tristeza, raiva, alegria, euforia, ansiedade, medo, entre tantas outras, são mecanismos normais de qualquer organismo em sua relação com o Outro. Indicam nossas expectativas, nossas fantasias, nossas crenças. O que não quer dizer que, por serem naturais, conseguimos aceitá-las com facilidade.

Sentir-se triste é socialmente condenável numa cultura em que o prazer é hipervalorizado. A raiva é vista como negativa quando o comportamento agressivo é geralmente associado a maldade. O medo é visto como covardia quando se é exigida a coragem acima de tudo. Deste modo, tendemos a recalcar nossas reações emocionais legítimas a determinadas experiências, de modo que passamos a desconhecer a realidade da nossa própria vida interior. Tornamo-nos assim alienados de nós mesmos, e qualquer reação fora do padrão imaginário é autocondenada.

Por outro lado, as emoções não deixam de se manifestarem por serem reprimidas. Aquilo que é recalcado retorna mascarado sob outras formas de sofrimentos, como sintomas psíquicos ou somáticos, reações desmedidas a questões aparentemente simples, preconceitos, insatisfação em relação à vida, angústias, e por aí vai. Como não somos educados desde crianças a lidarmos com nossas emoções, mas apenas moralmente condicionados a agirmos sempre de determinado modo, nos tornamos incapazes de lermos nossas próprias emoções. Como robôs de uma suposta moralidade, temos pouca margem de ação e criatividade para expressar nossas verdadeiras emoções e podermos assim lidar como elas.

Quando a angústia irrompe em função da falta de atenção às nossas próprias emoções, surge a necessidade de procurarmos um psicólogo, de modo a nos retornarmos a esta atividade aparentemente simples, que é desenvolver uma maturidade emocional, mas que ainda assim se faz de modo tão complexa e trabalhosa. O primeiro passo ao retomar o contato com nossas emoções é a aceitação. Entender que nenhum sentimento é bom ou ruim em si mesmo, mas todos são respostas legítimas a determinadas situações. Gosto de dizer que um sujeito equilibrado age com suas emoções como se viajasse com uma criança. Você não deve colocar uma criança para dirigir o carro, mas também não a deve levar no porta-malas.

Neste sentido, podemos entender “estar equilibrado” de um modo distinto do senso comum. Equilíbrio não é uma completa indiferença pelo mundo, pelas coisas que acontecem ao nosso redor ou conosco, já que isso não existe. Estar no mundo significa estar implicado em uma diversidade de questões, o que significa dizer também que não existe neutralidade. Cada um está mais ou menos envolvido em suas próprias questões.

Equilíbrio é a capacidade de ler seus próprios sentimentos, dar vazão a eles, sem que por eles você continue a ser conduzido após a sua expressão. Isto significa que, por exemplo, quando alguém propositalmente pisar no seu pé, num sentido metafórico, você não vai apenas sorrir, anulando-se diante de uma agressão gratuita. Equilibradamente, você pode reagir, demonstrando que você não está satisfeito com aquela agressão, fazendo o que for necessário para impedi-la de se repetir. O que é diferente de entrar irracionalmente numa briga e num ciclo de agressões sem fim por mero descompensamento. Estar equilibrado, neste caso, é dar a justa medida da sua raiva, reação natural. E depois disso, apenas seguir a vida, como devemos seguir, sem estar preso aos fantasmas do passado.

Guardar sentimentos negativos para si para demonstrar neutralidade ou um suposto equilíbrio não é estar realmente equilibrado. É se anular como sujeito e apenas fazer mal a si mesmo. Um bom esbravejamento, neste caso, pode ser ainda um ato de grande equilíbrio.

O mesmo se passa com nossas tristezas, medos, alegrias e ansiedades. Emoções são os nossos termômetros. Ser equilibrado é descobrir que esse termômetro é dinâmico, e assim aprender a utilizá-lo para melhor nos regularmos diante do mundo. O que significa manifestar suas emoções – raiva, tristeza, alegria, medo, seja ela qual for – de maneira equilibrada. Isto é, poder sim manifestá-las, e não apenas ser conduzido por elas em função de as desconhecermos.

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Você pode me encontrar no Facebook ou no YouTube.

Este post tem 6 comentários

  1. Danilo S.

    Ótimo texto, me mostrou uma nova visão sobre equilíbrio emocional onde o caminho do meio é tortuoso e passa pela esquerda e direita o tempo todo nos restando o a responsabilidade de conduzir adequadamente nosso comportamento de acordo com as situações e as intensidades emocionais diversas.

  2. Felipe Soares

    Olá Igor. Interessante sua abordagem sobre o equilíbrio. No início achei que o texto conduziria a uma opinião da qual não compartilho, mas o desenrolar definiu o equilíbrio tratado no texto como sendo certo para o nível de consciência adequado.
    Digo isso porque concordo com a metáfora de viajar com uma criança, não devemos deixa-la dirigir e nem levá-la no porta-malas, assim o sentimento não deve nem dominar e nem deixar de existir.
    Gostaria de saber sua opinião na seguinte questão:
    Passado o desafio inicial de não ser reativo quanto as emoções, quando a pessoa adquire um certo equilíbrio, você concorda que dali para frente existem outros níveis de equilíbrio, onde o ser deixa de somente controlar a emoção e passa a não senti-la de forma tão significativa, até o ponto onde a evolução da pessoa lhe permite realmente não precisar nem mesmo controlar suas emoções, pois elas de maneira alguma implicam no seu temperamento ou reações?
    O exemplo que eu citei é em relação a um nível bem mais profundo, onde realmente não é mais preciso controlar, pois a maioria não controla, os equilibrados segundo seu exemplo já controlam, mas segundo o meu exemplo já estão em uma fase avançada, onde não necessitam mais lutar para ter o controle da emoção.
    Espero que minha questão não tenha ficado muito confusa.

    Gostaria de saber também se você se considera uma pessoa controlada e em qual dos níveis.
    Obrigado!

    @Teo – Olá, Felipe. Bom que o texto o surpreendeu então!

    Eu acho que o termo controlar não é bom, nem no começo nem no final da nossa questão. Vamos continuar com a metáfora de viajar. Quando a gente dirige o carro, nós não o controlamos, nem controlamos a estrada. Nós o conduzimos, manejamos. Porque não decidimos as curvas que a estrada possui, ela tem suas próprias curvas, e nem o que vai acontecer com o carro durante a viagem (por exemplo, ele pode quebrar). Pode parecer que estou sendo chato com as palavras, mas estou sendo mesmo. Porque controlar passa uma ideia de poder, o que é diferente do que acontece com nossas emoções. Não temos o poder sobre elas. Mesmo tendo uma boa dose de manejo emocional, nossas emoções nos guiam também, a gente não tem como controlá-las completamente. O que podemos fazer é, como ao segurar o volante do carro, andar sentindo a estrada, ir nos guiando por ela, ao mesmo tempo em que manejamos para que as coisas também não se tornem puro descontrole.

    Neste sentido que não creio poder determinar um nível de controle também, para mim ou para os outros. É uma atividade mais do “feeling” que do “thinking” para hierarquizar. Por outro lado, tentando sistematizar algo, uma alta maturidade emocional – como a dos grandes meditadores e dos grandes lamas – parece ser algo próximo de fazer as pazes com suas emoções, e não mais precisarem brigar com elas quando se sentem tristes, com medo ou com raiva. Pode até parecer que eles estão “acima” delas, mas eles estão na verdade muito mais próximos delas do que nós imaginamos. Isso permite uma awaraness comportamental muito grande.

    Espero que as coisas tenham ficado mais claras entre nossas linguagens. Abraço!

  3. Felipe Soares

    Com certeza! Ótima resposta.

  4. Vanessa Diniz Mendonça

    Olá. Excelente texto. Estou estudando psicanálise e gostei muito quando vc usou o manejo das emoções em lugar de controle não controle..Agora a minha dúvida é mais sobre a descoberta de como manifestar essas emoções de forma equilibrada sem tentar controlar..Por ex, você está muito nervoso, a ponto de explodir e te indicam ir respirar e meditar..isso por si não seria uma tentativa de controlar o impulso sem sentí-lo de fato e de maneira equilibrada?

    Obrigada
    @Teo – Olá, Vanessa. Obrigado!
    Se alguém está nervoso ao ponto de explodir, pode respirar e meditar para acalmar, jogar videogame, ou sair com os amigos para beber e distrair a cabeça. São manejos em maior ou menos grau de lidar com aquele nervosismo. O melhor mesmo é tentar examinar – talvez não na hora, mas quando mais calmo depois – o que exatamente lhe deixou tão transtornado em determinada experiência. Isso pode lhe ajudar a lidar de uma forma menos extrema numa próxima situação parecida. Mas a questão é que, às vezes, explodir talvez possa ser um dos “manejos” possíveis, uma escolha necessária para alguma situação reincidente e que você precise se posicionar.

  5. Ana Claudia Nascimento do Rosatio

    Olá Igor, voçê é sensacional cara.Muito obrigado e eu achando que se alguem pisasse no meu pé eu tinha que suportar a dor,pra poder ser equilibrada ,ó pra isso…..! um abraço, valeu !
    @Teo – Obrigado, Ana Claudia. Eu que agradeço aos leitores 🙂

  6. Franco-Atirador

    Excelente.

    Me levou a pensar sobre o conceito cabalístico de proatividade, que consistem em não ser reativo, buscar ser causa, e a tentar fazer um paralelo, se é que não significa exatamente o mesmo que ser equilibrado. Esse conceito de proativo sempre me atraiu, pois via sabedoria nele. Mas pensando bem fica fácil confundir ser proativo com um simples “não reagir” e, de repente, nos tornamo um recalcado gourmet, achando estar se espiritualizando. Linha tênue. Mas considerando que ninguém nunca pode escapar de suas emoções, o proativo também precisa lidar com elas, e alcançaríamos uma descrição mais detalhada do que é proatividade misturando esse conceito com seu texto podendo dizer que o proativo: recebe o estímulo do mundo, o reconhece/reconhece o impacto em si, pondera/mede, e alquimicamente dá a resposta balanceada resultante de suas emoções com a luz consciência/autoconhecimento. Pode parecer algo complexo e “manual”, trabalhoso, e lento, mas para o indivíduo equilibrado é algo meio que natural, quase espontâneo, talvez apenas com uma pausa maior entre o estimulo e a resposta, se comparada a uma ação desequilibrada. O trabalho verdadeiro consiste no antes: no autoconhecimento, no tempo para si para pensar suas questões, na aceitação, no processo terapêutico, na atenção a seu corpo e suas emoções, etc.

    O que nos leva ao fato de que, como Freud disse, “não somos senhores nem em nossa própria casa”. Somos administradores de um fluxo. O que nos leva a sua exposição: “Entender que nenhum sentimento é bom ou ruim em si mesmo, mas todos são respostas legítimas a determinadas situações”. Respostas legítimas. Legítimas em relação a que? Em relação à nós mesmos. Há um motivo, um porquê, uma lógica para aquele resultado. O processo terapêutico e de autocrítica/analise/conhecimento visa encontrar esse dispositivo, quase todos implantados na primeira infância, quando seu corpo construía e balanceava seus mecanismos de ação no mundo de acordo com seu modelo/corpo/talentos/parte biológica, utilizando dados de alta confiabilidade da fonte afetiva parental, assimilando crenças, comportamentos, e fazendo associações – um psicólogo poderia enriquecer muito mais essa parte.

    Ainda sobre não sermos senhores em nossa casa, recentemente tive um insight. Me imaginei em uma cena aparentemente constrangedora, mas observei que curiosamente não senti o constrangimento que sentiria normalmente (observando e associando isso a algumas recentes mudanças minhas de comportamento). Então instantaneamente construí essa percepção através de de uma imagem. Era como se estivesse sentado em uma poltrona na cabine do meu coração, assistindo tudo serenamente. O símbolo do coração denotou a expressão da mais profunda verdade do ser (e pra saber que é verdade, o ser precisa se conhecer), que quando é expressa traz realização, prazer e serenidade, logo, a reprovação alheia em sua diversas modalidades pouco pode fazer para destruir/inibir isso. Achei muito marcante e significativo. Não surpreendentemente, eu estava em estado alterado de consciência, canabicamente falando. A mãe ganja sempre abre os fluxos. Chove e venta. Achei que seria pertinente ao texto.

    “Um sujeito equilibrado age com suas emoções como se viajasse com uma criança. Você não deve colocar uma criança para dirigir o carro, mas também não a deve levar no porta-malas.” Muito bom. Vou levar (a frase; mas as crianças tb hehe).

    Obrigado
    @Teo – Seus comentários são sempre um ótimo acréscimo aos meus texto aqui no TdC!

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