O que as pessoas não falam sobre meditação

Existe um consenso de que a meditação é uma prática saudável, recomendada a qualquer pessoa e com evidências de sua eficácia em promover o bem-estar do praticante. Atualmente, com a popularização da mindfulness (nome científico para a mesma coisa), a meditação começa a ser praticada em consultórios médicos e psicológicos, em escolas, em presídios etc. Os resultados são ótimos: há uma melhora na qualidade de vida, redução de estresse e ansiedade, melhores indicadores de afetos como empatia e a diminuição de respostas violentas a problemas comuns.

Mas será que meditar é tão simples assim? 

Se você pesquisar no Google “como meditar”, não faltarão textos, sites, vídeos, livros onde você encontrará indicações e guias para iniciar a sua prática meditativa. Nem eu estou fora dessa [você pode baixar gratuitamente o livro instrucional que escrevi sobre o tema aqui]. A princípio, trata-se de uma prática para qualquer um se aventurar, cujos efeitos positivos são garantidos. Mas não é de todo assim.

Apesar de existirem inúmeros relatos de meditadores experientes de como a prática tornou a vida mais equilibrada e assim conseguem encontrar paz no cotidiano conturbado que é nossa vida moderna, o mesmo pode não se aplicar aos iniciantes. Talvez não seja o seu caso, que desde a primeira vez sentar-se quieto para meditar foi algo bem simples, mas o texto se destina exatamente àqueles que não sentiram o mesmo.

Baseamo-nos aqui no método mais simples e universal de meditação. Sentar-se numa posição confortável, enquanto mantemos toda atenção na respiração, evitando ao máximo movimentar-se. Meditar não é o mesmo que “não pensar”, mas deixar os pensamentos fluírem com naturalidade, numa postura de aceitação do seu conteúdo, mantendo a atenção na respiração que deve transcorrer de forma tranquila. Há outras formas de meditação, com música, com movimentos, com dança, com exploração de ideias, guiadas ou não, mas não vamos nos adentrar nelas. Por hoje ficaremos no básico.

A primeira dificuldade do iniciante é não deixar os pensamentos atrapalharem. É normal que o fluxo de preocupações nos leve para longe e, quando percebemos, passaram minutos que não estivemos observando a respiração tranquila. Não há problema. Lutar contra os pensamentos atrapalha mais do que ajuda. O mais indicado nesse caso é apenas retornar a atenção para respiração, como se nada tivesse acontecido, voltando à atenção plena.

Outra dificuldade comum é quanto ao corpo. A postura logo começa a incomodar. As costas doem, a perna fica agitada, os braços querem se mexer. O ideal é não se deter nessas demandas corporais e apenas manter a atenção plena na respiração suave. O que nem sempre é possível. Você pode realizar pequenos movimentos, somente para aliviar a tensão, retornando logo ao prosseguimento da prática. Com o passar do tempo, a tendência é que esses incômodos se tornem menos frequentes, de modo que você pode permanecer em mindfulness numa duração cada vez maior.

Mas passemos agora à dificuldade principal.

Quando buscamos uma prática espiritual, normalmente o fazemos motivados por algum problema, conflito ou crise que estamos experienciando. Demandamos da prática a solução para nossa questão, ou, ao menos, o alívio para nosso sofrimento. É neste sentido que a meditação nem sempre pode cumprir a promessa. Ao menos não nos primeiros meses.

A meditação é uma das ferramentas mais eficientes para observarmos o funcionamento automático da nossa mente. Quando silenciamos nossos pensamentos conscientes, podemos perceber a mente atuando automaticamente, oferecendo sentimentos, sensações, problemas, raciocínios. Deste modo, a meditação não cala nossos conflitos internos, mas os amplificam.

Muitos meditadores iniciantes se queixam de se sentirem angustiados durante a prática. Não é incomum serem assaltados por medos incompreensíveis, dores estranhas, surtos de ansiedade.  A prática que inicialmente fora visada para encontrar equilíbrio é a porta de entrada para angústias profundas. A meditação não despertou estas crises. Na verdade, nossas angústias, medos, limitações estão sempre operando em nós, mas geralmente não as reconhecemos por serem inconscientes em seu núcleo mais profundo. A meditação, ao nos convocar ao silêncio, faz na verdade com que nos ocupemos daquilo que recusa a calar-se.

Será então a mindfulness algo ruim ou que não deva ser praticada? Não é o que estou dizendo. Seus efeitos positivos são amplamente reconhecidos. O que não podemos esperar, por outro lado, é uma cura milagrosa, a panaceia universal.

Meditar é se permitir à manifestação de seus conflitos e angústias internos. O que pode ser muito aflitivo. Mas meditar é uma prática, um processo. Como ferramenta, podemos usá-la para tomarmos conhecimento de nossas limitações inconscientes e, uma vez reconhecidas, podemos nos posicionar subjetivamente de modo distinto em relação a elas.

Como um exercício espiritual, a meditação nos leva ao atravessamento de nossas angústias, medos, traumas. Atravessar não significa erradicar, calar, esconder, mas – como numa jornada – superar nossos conflitos e nos posicionarmos de outra maneira frente a eles. Certamente com maior maturidade emocional.

Portanto, a recomendação é que você não pratique sozinho. Claro que você deverá praticar na singularidade, no silêncio do seu quarto ou em algum outro canto seu. Meditar é uma prática que só depende de você. Mas isso não significa que seja desnecessário algum acompanhamento eventual. Alguém com quem você possa compartilhar suas dificuldades, falar de suas questões ou até obter algumas instruções. Essa pessoa pode ser um psicólogo, um mestre espiritual do templo que você costuma frequentar, ou até um grupo de meditadores mais experientes.

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Você pode me encontrar no Facebook ou no YouTube.

Este post tem 8 comentários

  1. Mozart

    Isso explica muita coisa. No início, quando meditava de modo mais esparso, me sentia apenas tranquilo. Mas de um ano pra cá, quando aumentei a intensidade e frequência, vieram as crises de mau humor, dificuldades pra dormir, medos repentinos sem causa definida.

    Acredito que essa seja uma das grandes causas de desistência dos neófitos no caminho iniciático. O sujeito começa a participar de algum grupo ou ordem esotérica, fica todo alegrinho porque vai desenvolver “poderes psíquicos”, mas algum tempo depois constata que ele terá de usar “músculos” nunca usados anteriormente, e que esses músculos vão doer conforme ele os exercita. Emblemático.

  2. dEAN

    Se fosse escrever uma coluna sobre a meditação, faria ao seu inverso. Colocaria as referidas pilhas de livros em enfoque e lançaria a pergunta”será tao dificil assim?”
    A ausência dos pensamentos excede consciência, e por isso qualquer tentativa de trespassar seu conceito pela cognição é, no meu ver, falha. Pra saber de que forma fazer e onde chegar, muito melhor é praticar.

  3. Diego

    No budismo geralmente se diz mindfullness por si só é insuficiente. Porque pela meditação a pessoa pode acabar se sentindo invencível com relação ao sofrimento alheio, meio que distante do resto do mundo. Para equilibrar eles recomendam práticas para desenvolver um bom coração, como por exemplo a prática de tonglen que é recomendada por grandes mestres como o Dalai Lama e Sogyal Rinpoche.

  4. Carol lopes

    Muito bom o texto! Tirando que mindfulness não é um termo científico para meditação achei muito esclarecedor 😀

  5. Franco-Atirador

    Muito bom.

    Diferenciado.

  6. NonSense

    Porque meditar se eu não sei onde quero chegar?
    Quem poderá me ajudar?

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