O Nove de Espadas

Uma das cartas mais enigmáticas do Tarot, o 9 de Espadas possui duas descrições clássicas que lhe são muito características: Arthur Waite lhe atribui o título de “Preocupação” enquanto Aleister Crowley lhe chama de “Crueldade”. Ambos estão corretos.

Na visão de Waite, o 9 de Espadas (Ar de Ar regido por Yesod) implica no excesso de Razão obscurecendo a intuição. Esta carta apareceria em uma leitura quando o consulente estivesse com excesso de preocupações e pensamentos em relação a um assunto que não conseguiria resolver naquele momento. Como por exemplo, alguém que tem um problema a ser resolvido no Domingo pessoalmente e não tenha nada que ela possa fazer na Quinta-Feira, senão aguardar o resultado (ou enquanto aguarda o resultado de um vestibular, ou de um teste de HIV…). Pensar no assunto, ficar ponderando ou buscando alternativas naquele momento apenas causa um excesso de energia dispersada, sem que nada possa ser resolvido.
Daí a imagem escolhida: um jovem sentado na cama sem dormir, envolto em um cobertor com todas as possibilidades do zodíaco, mas preocupado com as espadas que permanecem ao redor de seu pensamento, impedindo que ele se eleve a Yesod e possa meditar com o subconsciente na resposta.

Crueldade
Para Crowley (e também para Del debbio e Rodrigo Grola), o tarot deveria ser usado por pessoas conscientes de suas capacidades como mago de escolherem suas ações e assumirem responsabilidade por elas, sendo donos, também, das consequências de seus atos e dos erros cometidos.
Assim como um estelionatário que é descoberto e nada pode fazer enquanto suas tramóias são desveladas uma a uma, o naipe está em degeneração constante; o pensamento já passou por todas as etapas possíveis de encobrir os erros e a conclusão é o desespero. O puro intelecto original não passa agora de movimentos automáticos das paixões sem coração. A consciência caiu em um reino não iluminado pela razão. E o fim é inevitável. Daí a crueldade em pensar que se tem escapatória do resultado de suas más ações.

Este post tem 15 comentários

  1. Anderson

    A agonia pra agir numa situação na qual você é impotente.

  2. demolayninja

    seria como por o carro na frente dos bois no jargão popular

  3. Roonney

    O que me veio a cabeça na primeira vista da carta foi a palavra TORMENTO.

    E me veio logo depois uam música que eu ouvia do Krisiun, banda alemã de Thrash Metal, a música se chama Tormentor.
    Acho que nela, os caras souberam, pelos riffs, música seguida de mesmas batyidas e sons desgastantes, fazer com que se passase uma sensação de tormento mesmo, é interessante ouvri e associar. Realmente o cara tá na merda.

    1. Edgar

      Krisiun eh uma banda Gaúcha de Death Metal! 🙂

    2. estrela

      Krisiun é uma banda Gaúcha.

  4. Roberto

    E o querido (para não dizer assustador) X de Espadas? Seria este o resultado iminente de uma situação “regida” pelo IX de Espadas?

  5. Mahamudh

    Marcelo você bem que poderia, assim como Crowley praticantes de magia, escrever um livro com informações, associações, métodos, rituais, correspondências e tudo o mais possível de se fazer utilizando o Tarot da Kabbalah Hermética. O que acha da idéia?

  6. Borges

    Prezado,

    O uso do tarot por um não-iniciado não seria perigoso? Espíritos baixos ou outras criaturas, ainda que com poder limitado, seriam capazes de influenciar o resultado de acordo com seus interesses, confundindo o pretenso praticante e causando danos — não apenas para quem quer “prever o futuro”, também para aquele que está utilizando buscando autoconhecimento ou conhecimento das influências que atuantes no momento da prática.

    E ainda há chances do indivíduo trazer à tona elementos de seu subconsciente para cujo contato não está pronto. Não há nota de proteção que torne a coisa segura. Outrora, as pessoas tinham uma fé profunda e definida em Deus e/ou poderes superiores, e esses conhecimentos eram protegidos a sete chaves; hoje, a fé (até para o mal) é insípida: tendo de um lado o materialismo e do outro o gnosticismo, o máximo que os jovens concedem conceber da divindade, na hora de dizer que a ela pertence o Reino, a Glória…, é a imagem de Kether nos quadrinhos de Promethea ou qualquer outro espantalho conceitual que lhes permita afirmarem-se “praticantes” ou “espiritualmente engajados” sem que se sintam abaixo do que está acima, sem contrair obrigações mais profundas que o ritual de fim-de-semana, na garagem, e o bate-papo com outros grandes magistas na internet; e é nessas condições, para essa turminha, que a Grande Fraternidade, as Grandes Mentes Superiores et al, resolvem divulgar seus segredos!

    Não sei se isso de que “as egrégoras são fortes e protegem” funciona, porque a burrice é estupidamente forte e acho que até para certas potências é difícil proteger as pessoas delas mesmas quando elas se determinam a fazer besteira. E, bem, se esse conhecimento é só para mentes não-bovinas, vale lembrar que o filósofo mais sábio de Atenas só o era porque, diferentemente de seus contemporâneos, ele sabia o quanto o quanto não sabia; de minha parte, nunca vi cabeça bovina que não se julgasse dantesca. A única coisa que, ao meu ver, justificaria buscar o que vocês buscam, não se tratando de algum super chamado divino ou coisa do tipo — que, convenhamos!, não se encontra todo dia na esquina! — , seria uma submissão de corpo e alma à verdade e ao conhecimento, que forçasse, “com uma angústia de fome de carne”, a descer mesmo até o inferno e subir até os palácios celestes em busca da verdade. Porque, se o que vocês ensinam está certo, empreender essa busca e essa pesquisa sem uma pureza de espírito tal seria partir em direção a um abismo, no qual há uma torre, na qual há não apenas uma floresta e três feras como também um trono. E, vê, eu quero crer que os sujeitos que vão se sentar para meditar olhando para um rider-waite, hoje, são nobres e compenetrados buscadores, e que a maioria não é de meninos que dariam três pinotes e meio se tivessem de ler a Metafísica, optando, sabiamente, por largar o volume e fugir para o computador, para o conforto do Facebook e das qliphotic-hot-magistic-flame-wars costumeiras, mas, quanto a crer nisso, tal qual a Pedro outrora, poder-me-iam chamar “homem de pouca fé”.

    Temia-se, antes, que as crianças fossem influenciadas pelo Pinhead. Pois é, hoje elas podem ver, em revistas em quadrinhos, membros de células anarco-magísticas evocando a Rainha Aranha ou um ocultista da máfia evocando, duma só cajadada, todos os demônios goéticos para que assassinem um inimigo político! Elevaram o nível da conversa, de modo que, para os pobres mortais de Malkuth (o que me inclui), nunca antes o buraco foi mais embaixo, nem nunca esteve tão perto. Nessa história de voar para perto do sol (para evocar um dos que chamam “reis”, provavelmente), um bando de Ícaros estava muito ocupado caindo, com asas derretidas, para notar o tamanho das sombras que suas experiências vetoriais tinham avolumado sobre a terra. Porque, por fim, se há uma serpente — e só quem não desceu o bastante acha o contrário —, e se esta está por aí desde que se era possível estar, e se supera em beleza e astúcia os mesmos arcanjos cujos rituais de evocação encontram-se agora disponíveis na internet, há sempre a possibilidade de se envolver numa bela esparrela. Aliás, é assim que funciona a coisa, não é? A pessoa se quer mais astuta que o bandido, aí, já viu!

    E se…?

    Um abraço.

  7. Marchini

    Hahaha, coincidencia…. perguntei ao tarot, o que tanto esta atrapalhando minha mediunidade? :O

  8. Guilherme Souza

    Que sincronicidade! Excelente interpretação. Só agora percebo que ela foi postada na Lua Nova, quando estava prestes a realizar um trabalho de destruição. Cheguei a iniciar o trabalho, mas, certo dia, preocupado como “um jovem sentado na cama sem dormir, envolto em um cobertor com todas as possibilidades do zodíaco, mas preocupado com as espadas que permanecem ao redor de seu pensamento”, resolvi seguir minha intuição e jogar o Tarot. Entre as 3 cartas que saíram, a terceira foi o Nove de Espadas – a única que não compreendi, pois tenho um conhecimento superficial do Tarot. Como a primeira carta já indicava qual caminho a seguir, não dei prosseguimento a ele, pois seria, como interpretou Crowley, uma crueldade que não se preocupa com o resultado das más ações; um desespero.

    Obrigado.

    Abs, Die Mensch-Maschine

  9. L ;-)

    Tio, vc conhece o Tarô da Aurum Solis? Indica? Estou pensando em adquirir, gostaria de sua opinião.

    Abraço!

    😉

  10. Aline

    MDD, sobre o Nove de Espadas e, aliás sobre o tarot em geral, por que algumas cartas tem conotação negativa?! Por exemplo, no caso do nove é o elemento Ar aplicado ao Mental , certo?! Então por que o significado é visto como um gasto de energia perante uma situação que te deixa impotente em vez de ser visto como, por exemplo, o esforço extra de raciocínio que te falta para chegar a uma solução?! Hum, deu pra entender minha pergunta ou ficou confusa?!

    @MDD – Entendi a pergunta 🙂 Vamos la… os naipes de taças e espadas são complementares entre si, ou seja, se você observá-los atentamente, verá que todas as cartas “boas” de copas tem seu equivalente “ruim” em Espadas e vice-versa, por exemplo, o 2 de taças que é o envolvimento amoroso em contraparte ao 2 de espadas que é o distanciamento afetivo; 3 de taças que é a celebração de um amor versus o 3 de espadas que é o rompimento emocional; o 4 de taças representa o excesso de emoçoes enquanto o 4 de espadas aconselha uma pausa sozinho para se afastar das emoçoes; o 5 de taças avisa sobre perdas enquanto o 5 de espadas fala sobre causar danos e assim por diante… Desta maneira, a energia equilibrada do 9 de Taças mostra-se desequilibrada na forma de “preocupações” (enquanto no 9 de Taças temos o equilíbrio entre razão, emoção e intuição, no 9 de espadas temos o excesso mental atrapalhando a intuição de Yesod).
    Em tempo, o “esforço extra de raciocínio para chegar a uma solução” é o 8 de Taças 🙂
    A melhor maneira de compreender toda a estrutura do tarot é “dar um passo para trás na mesa” e observar todo o conjunto de cartas como fotografias de um fluxo energético completo, desta maneira: http://www.deldebbio.com.br/2013/05/13/estrutura-tridimensional-do-tarot/.

    1. Emmanuel

      Essa ‘ruindade e bondade’ no tarot me faz lembrar a crença em planetas maléficos e bondosos na astrologia tradicional.

  11. Madhos

    MDD, por que o 9 de Espadas é “Ar de Ar”? Sei que o naipe de espadas tem relação com o esse elemento, mas o que origina essa segunda referência a ele?

  12. Rogerio

    MDD, o 9 de Espadas seria a crueldade para as pessoas de Ego inflamado e que estão a beira da crise, mas poderia ser também um sinal de Libertação para aqueles que despertam? Afinal espada para quem não conhece é perigo para si, mas para os instruídos é uma arma mortal contra os opressores. Desta forma posso entender mente como conhecimento ou estou forçando uma interpretação?

    @MDD – esta forçando muito a barra…

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