O Nada não existe, mas insiste

Talvez em algum momento de nossas vidas possamos nos questionar sobre o que é real, o que é certo, ou melhor, o que realmente e certamente existe. Descartes tentou responder essa pergunta dizendo que o fato dele ser capaz de pensar seria garantia suficiente de sua própria existência. No entanto, sua visão idealista do pensamento como um dado em si mesmo ignorava que o próprio é consequência de processos anteriores, biológicos e sociais, e não uma erupção acausal. Mas não preciso me aprofundar muito mais nessa questão porque Antonio Damásio já faz isso no seu livro “O Erro de Descartes”, pois com a teoria Darwinista sabemos que antes de nossa espécie sequer desenvolver linguagem, já tínhamos uma história filogenética, sendo necessário assim existir muito antes de pensar.

Apesar disso, ainda estamos buscando por certezas. Descobrir o que é seguro para nos agarrarmos com todas nossas forças e rezar com toda nossa esperança para que nada mude. O que queremos é assegurar a nossa própria existência, é calar o medo do nosso próprio fim.

O Universo é infinito para que o Nada não tenha espaço. Ora, as coisas só podem existir, pois se elas não existissem não seriam coisas. Nada pode se criar ou se perder, Tudo só pode se transformar. O Nada, entretanto, tem uma certeza que o Tudo não possui: o Nada pode existir quando todas as outras não puderem, porque ele é a única coisa que não depende de outras coisas para existir.

Um erro comum é confundir a palavra “nada” com o próprio conceito do Nada. Nietzsche já havia alertado para que tivéssemos muito cuidado e não acreditássemos na gramática. O fato de provar algo linguisticamente não significa que aquilo seja verdade. E dou um exemplo com uma frase: “Eu sinto palavras verdes e fritas”. Mas alguém já sentiu palavras verdes e fritas? Entretanto, só porque eu criei gramaticalmente essa “substância sensível”, podemos filosofar sobre ela, fazer diversos tratados e teorias, mas ainda assim ela ainda não existirá depois disso. Por isso jogo de palavras, embora sejam interessantes para exercitar a mente, nem sempre são argumentos válidos (na verdade, muitas falácias são jogos de palavras). Citando o filósofo cético Flores d’Arcais, a razão é impotente para além do domínio empírico.
Deste modo, acredito que teorizar sobre o Nada não é justo, pois muitas argumentações tendem a dizer que o “nada não existe” ou que o nada seja na verdade algum tipo de substância. Mas se pensarmos bem, o simples fato de nomeá-lo, já o faz “em substância”, desnaturalizando-o de seu real tipo de existência.

Apesar de Tudo existir, esta totalidade está sempre nos remetendo ao Nada. Não podemos nos esquecer de que o sentido das coisas é dado pelo simbolismo que associamos a ela, ou seja, como as nomeamos. Uma galáxia não é uma galáxia, e o que chamamos de galáxia é apenas uma convenção que criamos para aquilo que chamamos de galáxia. Uma galáxia é, em realidade, apenas algo, cru e sem sentido, mas que nossa mente simbólica atribui um significado. Nesse momento que encontramos o próprio vazio existencial das coisas e de Tudo. Esse vazio existencial, por sua vez, nos remete a morte, ou melhor dizendo, a possibilidade de nossa própria não existência.

O ser humano não está preparado para lidar com a possibilidade de seu fim, embora em seu íntimo este temor o acometa com frequência. Crenças como paraíso, reencarnação ou mesmo teorias científicas de que genes passam de indivíduo para indivíduo abafam o medo do dia que possamos voltar a não existir. E é isso que religião, arte, ciência, bem como outras produções humanas, estão buscando: a transcendência. No fundo, todas elas buscam algo que faça a vida humana durar um pouco mais do que ela dura, como um sobreviver além do que se pode. Por isso muitos dizem que para morrer em paz um homem deve antes escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Esses “três deveres” são na verdade formas do homem sobreviver a seu próprio fim, ou seja, através de suas obras. Mas quando perguntaram ao cineasta Woody Allen se gostaria de torna-se um imortal através de seu trabalho, ele respondeu que preferia tornar-se um imortal não morrendo, e se caso um dia ele gostaria de sobreviver nos corações e mentes de outras pessoas, ele disse que preferia viver no seu apartamento.

A alternativa da existência infinita das coisas ou da própria Coisa é o finito, uma bela existência limitada do homem. A cada dia morremos um pouco mais. Deixamos uma casca velha para abraçar uma nova couraça. E por isso nossa história não acaba com um final trágico, mas com a possibilidade de construção de novos sentidos, fora de velhos clichês, para a existência humana.
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Igor Teo gosta de receber críticas inteligentes, sejam positivas ou negativas, mas não críticas de pessoas que não chegam nem a ler todo o conteúdo.

Este post tem 17 comentários

  1. Paulo F

    Uma leitura muito interessante sobre o tema apresentado são os: 108 Upanishads.
    Indico a leitura do Tejo-Bindu Upanishad (Krishna-Yajur-Veda).
    Pra quem tem paciência … vale a pena.

  2. raph

    A morte tampouco é o Nada…
    O Mario Sergio Cortella quem disse que “o homem é o único animal mortal”, pois todos os outros animais provavelmente são mesmo imortais: eles vivem este momento, e não se preocupam com a morte, pois tampouco tem consciência da morte (embora alguns elefantes talvez tenham).
    Mas mesmo o fim da vida é alguma coisa. Na verdade é alguma coisa que ocorre todas as noites, quando vamos dormir… Como bem disse John Galsworthy com suas cascas de sentimento: “O dia chegou novamente. Mas sua face parece um pouco estranha, não mais como fora ontem. Estranho de se pensar, nenhum dia é como o dia que se foi e nenhuma noite como a noite que virá! Porque, então, temer a morte, que é noite e nada mais? Porque se preocupar, se o dia que virá trará uma nova face e um novo espírito?”
    Mas sobre o Nada, não há nada a dizer. Não é possível nem elogiar ou criticar, nem defender ou atacar o Nada. Não é possível filosofar sobre o Nada, mas talvez seja importante se perguntar: “porque existe algo, e não nada?”

    1. ugo

      Que me importa a mim, por exemplo, não ter consciência de que vou ter um acidente no futuro?
      Não é por ter consciência do acidente, não deixa de haver o acidente e as suas consequências.
      @raph – Poucas pessoas saberiam viver sem medo ou estagnação tendo plena consciência do dia exato de sua morte. O fato de não sabermos alivia o medo e a estagnação, independente de crermos ou não em vida após a vida…

      1. ugo

        Eu não falei em nenhum dia exacto, mas novamente não volto a concordar com a sua afirmação. Após ser dito muito a doentes terminais que eles têm x meses de vida, muitos deles colocam a vida perspectiva e conseguem viver melhor do que nunca viveram.

    2. Azal'ucel

      Esse assunto tão importante é ao mesmo tão delicado, parece que nós humanos temos um interruptor de medo que se liga quando se toca no assunto morte, aniquilação e seus derivados, particularmente passei muitos anos sofrendo com essa ideia de desintegracao, vazio… hoje depois de anos com meus estudos do ocultismo o que mudou em minha concepcao é que tenho opcoes depois de desencarnado, mas mesmo assim sempre tem aquela voz la no fundo que questiona: e se nao for real o que acreditas? enfim vejo que so tenho o agora e não adianta muito deixar minha mente tomar as redeas de minha maquina e projetar-me pra um futuro ilusorio o qual não tenho. Namastê.

  3. Daniela

    O texto me lembrou uma aula de História da 6ª série, onde o professor disse: você agora está mais velho do que a três segundos atrás. Alguns não entenderam, outros se assustaram (me inclui nessa). Mas ele falava de algo que o homem nunca aceitou: a velhice, e logo depois dela a morte.
    Enquanto o ser humano buscar por segurança e certezas absolutas, sem as mudanças que a vida nos coloca, viverá em uma eterna guerra….
    Abçs! 🙂

  4. Pseudo-Cético

    Adoro o tema exposto como um todo, e gosto mais ainda quando este é bem reflexionado.
    A linguagem serve razoavelmente bem para expor o que existe e é palpável para a consciência. É um espelho cognitivo e ao mesmo tempo uma ponte, transitando entre a consciência abstrata do indivíduo para o meio e vice-e-versa.
    Quando falamos em Nada (não a palavra, mas o conceito), acredito que a linguagem seja insuficiente e incondizente, pois no nada talvez não exista a necessidade de palavras, pois não há meio e muito menos com quem se comunicar. Tampouco haveria “Eu”. Todas as palavras e conceitos que utilizamos e definimos servem para descrever este plano e aquilo que o tangencia e que foi captado por nossa consciência (não necessariamente real), assim como servir de “padrão” para nossas interações sociais.
    Talvez o nada seja a grande caverna na qual um dia estivemos, antes mesmo de sermos o que somos, e esta grande ilusão, a que chamados de realidade, seja o grande milagre, a alvorada da consciência, que tende a se levantar todos os dias da escuridão.
    Nós, enquanto pertencentes a um meio, não podemos identificar completamente o que é o Nada. Mas Isso não quer dizer que não exista, pois, parodiando ao DD, “existir não significa ser real”. kkk
    Viajei… 😛

    1. jonnathan

      o Nada nunca existiu é apenas uma ilusão (:

  5. bw

    Muito interessante, você escreve muito bem! Esse é um daqueles assuntos que se você tentar conversar com alguém “normal” sobre, te chamam de louco, provavelmente pelo confusão que a linguagem cria. Confesso que sou noob em filosofia mas adoro ler textos a respeito do ser/não-ser, embora não gosto de ler muito sobre a morte – tenho problemas de ansiedade/pânico.
    Parabéns pelo texto, a forma como você escreve faz com que a leitura “desça macia”.
    @Teo – Obrigado 🙂

  6. Desi

    “Porque um dos nossos domínios é o vazio, filha. Esse vazio que ninguém entende, e que cerca tudo que há. Porque nesse trabalho de exu, às vezes a gente remexe em algumas ideias desagradáveis, justamente pra que vocês possam encarar esse vazio e percebam como são as coisas…
    Mas o mistério desse vazio é a parte interessante. Você pode até pensar sobre isso, e ter uma leve noção de como as coisas talvez funcionem, mas entender o vazio verdadeiramente… Só quem já experimentou é que sabe desse mistério.”

  7. Junior

    🙂
    Curiosamente a primeira coisa que li depois disso foi isso
    O poder do invisível
    Tao é insondável,
    É invisível, apesar do seu Poder.
    O mundo não o conhece.
    Se reis e príncipes tivessem consciência de Tao,
    Todas as creaturas lhes prestariam
    Espontânea homenagem.
    O céu e a terra se uniriam em júbilo,
    Para fazer descer suave orvalho,
    E os homens viveriam em paz,
    Mesmo sem governo algum.
    Quando Tao assume forma,
    Pode ser conhecido mentalmente,
    Mas todos os conceitos
    São apenas indícios
    Que apontam para o Inconcebível.
    Não se esqueça o homem da sua limitação,
    Não há perigo.
    Neste caso, a relação
    Entre o concebível e o Inconcebível
    É como entre regatos e lagos
    E as grandes torrentes que demandam os mares.

  8. J. B.

    Texto muito bom e de profundo significado!
    Com relação ao exemplo dado com a palavra “galáxia”, o mesmo poderia ser dito a respeito da palavra “morte”. De fato cada um tem suas próprias construções e crenças sobre o fenômeno denominado morte, mas ninguém sabe o que ela é, a menos que morra. Em síntese, o homem deseja se perpetuar, superar a morte como a concebe, mas não tem certeza se ela é real – no sentido de um término da sua existência – ou apenas mais uma ilusão que existe apenas na sua consciência.
    Lendo o texto lembrei-me do conceito nama-rupa presente no Budismo, e também da tradução da palavra “sunyata”, que normalmente é traduzida como vazio, talvez por falta de uma palavra mais adequada no nosso idioma. Entretanto, o que a palavra “vazio” significa para o ocidental deve ser bem diferente do que a palavra “sunyata” significa para o oriental. Além de gerar mal entendidos a respeito do tema, não conseguimos captar o seu significado original em virtude das limitações linguísticas, e ainda eventualmente acrescentamos muitos outros sentidos – inclusive negativos – em função da nossa identidade cultural/social. O mesmo pode ser dito em relação a palavra “nirvana” e tantas outras.
    Fascinante é a capacidade do homem de construir fora e dentro de si mesmo tantos conceitos, relações e até mesmo condicionamentos. Une de forma engenhosa alguns pedaços de madeira e diz: mesa! São pedaços de madeira, mas não podemos negar que seja uma mesa.

  9. kk

    Gostaria de fazer um adendo em relação ao que foi dito a Descartes, acredito que ficou vago. Descartes ao desenvolver as Meditações, fez questão de anular tudo ao redor dele para destruir suas crenças interiores e não incorrer em precipitação. É onde Descartés tem uma aproximação para não dizer quase budista. Ele suspendeu seus desejos, o mundo exterior, seus sentidos, inclusive a própria “coisa pensante”, para poder desenvolver a dúvida metódica. Mesmo que a coisa pensante ainda assim possa ser uma ilusão, e que o Nada somente seja o real, você precisa admitir a existência da coisa pensante, enquanto pensante, que duvida, sente, imagina, porque tais atos obviamente criam a contradição de que isto, que a coisa pensante pensa, sente e imagina, é inviolável. Descartés não descartou a construção social e a natureza do ser humano, ele só tentou sublimar tais coisas porque admitiu que elas possam ser uma ilusão e que possam prejudicar um juízo correto das coisas.
    A dúvida metódica certamente tem um caráter muito mais budista, de se libertar das crenças e pensamentos construídos, para perceber o que é e que não é ilusão, ainda que ele seja interpretado como idealista, representacionalista e claro, ter tido um caso próspero e intenso com a Igreja. Porém, as Meditações e o próprio Discurso do Método não pretendem cancelar o mundo exterior ( mundo por extensão ), apenas servem de cautela ao julgá-lo.
    Eu defendo um pouco o Renezinho porque o pessoal sempre leva Descartés além do que ele pretendia e se deixa levar muito por preconceitos.
    @Teo – Creio que a razão que Descartes recebe tanta crítica hoje em dia é porque ele fundamentou um saber muito dicotômico. Mundo interior e mundo externo, corpo e mente, entre outros, são conceitos que influenciaram muito o pensamento ocidental e atualmente ouvimos no senso comum. No entanto, hoje essas são ideias mais do que refutadas, da filosofia às neurociências. Não tem alguém propor uma desconstrução de uma ideia que passou da validade sem citar o principal pai da mesma.

  10. eva mara

    O que está havendo foi um engano o tempo inteiro? o meu pensamento continua sendo de uma visão social …nunca foi pragmática mas do todo como conquista social onde todos tenha vez e voz..

  11. Flavio Rodrigo

    esse que assiste é tudo que é assistido, tudo que você pode ver e conhecer infinitamente, além da lógica ou dentro dela, é sempre a si mesmo.

  12. Joao Arantes.

    Como podemos dar nome a uma coisa que não existem, Retire tudo que existe no universo provavelmente vai ter que arrumar um outro universo pra colocar o que foi tirada do primeiro, mesmo assim o primeiro continuara sendo alguma coisas um vazio aparentemente pra nossas cabeças vazias.

  13. Bruno

    Não há efeito sem causa, o universo não fez a si mesmo e as leis que regem o mundo material não podem, de maneira alguma originarem-se da própria matéria, uma vez que sua natureza difere de tudo o que é matéria, tem de derivar de uma causa imaterial, não é necessário ser nenhum intelectual renomado para saber que estas são verdades absolutas e fatos eternos.
    @Teo – Não há efeito sem causa? Nosso conhecimento ainda é bem limitado para se afirmar isso com certeza absoluta.
    A física quântica parece falar algo contra isso. Quando um átomo recebe energia, esta energia incide sobre o elétron, este absorverá um fóton, desde que a energia seja suficiente para ele mudar de nível. Chama-se isso de salto quântico. Porém, para ele se desexcitar ele libera um fóton e consequentemente energia. Não há uma causa para a emissão desse fóton pelo elétron, nem um momento previsível no tempo, nem uma margem para a direção do fóton, nem uma margem para a energia liberada com o fóton. Aparentemente, um efeito sem causa.
    Todavia não sabemos se é uma causa desconhecida ou realmente algo que muda nossos paradigmas sobre a física. Vamos nos manter abertos ao conhecimento e a possibilidade de nos surpreendermos, sem crer que já descobrimos qualquer tipo de fato eterno.

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