O Misticismo Taoista

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Por Gilberto Antônio Silva

Semana passada eu assisti ao filme do Dr. Estranho. Era um personagem que há muito eu deseja ver nas telas. Achei o filme muito interessante e que não deixou muito a desejar. Mas eu esperava um pouco mais de filosofia, de conhecimento místico de verdade (não importa a ramificação). Houve apenas uma cena em que isso aconteceu e o restante do filme se desenrolou na base da fantasia, ficção científica e efeitos especiais. Uma pena.
Em suma, um bom filme no Universo Marvel, mais adulto e complexo, com uma pitada de espiritualidade. Mas o motivo desses comentários é que saí do cinema pensando em quanto as pessoas desconhecem a amplidão do Taoismo. Parece um poço sem fundo de conhecimentos onde mesmo depois de décadas de estudo perseverante não divisamos nele nenhuma pista sobre um final. É o caso do misticismo taoista, muito pouco conhecido.

Todos sabem que o Taoismo (Daojia) é uma filosofia antiga e muito sólida cujos alicerces remontam ao Yi Jing (I Ching), há 3.000 anos. A partir do ano 142 de nossa Era ele começa a virar religião (Daojiao) através do trabalho do Mestre Zhang Daoling. Mestre Zhang era um estudioso taoista que teve visões de Laozi lhe passando informações e a missão de difundir esses ensinamentos. O Taoismo, então, começa a crescer como religião e a absorver a antiga religião ancestral chinesa (Shendao).

O Shendao é tão antigo que ninguém sabe quando começou ou quem o iniciou. É um conjunto de crenças, ritos e técnicas que remontam à idade neolítica e aos primeiros habitantes da China, dezenas de milhares de anos atrás. Ele possui profundas raízes xamânicas e está mergulhado no antigo misticismo das estepes mongóis. Um conhecimento tão antigo quanto a mais antiga das tradições de magia que conhecemos no Egito ou Europa. Algo que está permanentemente entranhado nos arquétipos humanos, por mais que a moderna (e superficial) ciência nos diga que não existe.

A maior parte de seu conhecimento era transmitida oralmente e praticado segundo nuances e características próprias de cada região da China, apesar de vários pontos de convergência. O poder que emana do Céu (Tian), o culto aos antepassados, o respeito pelas forças da Natureza, a existência de divindades, seres elementais e demônios de todos os tipos eram ideias em comum que permeavam essa prática.

Ao se fundirem, o Daojia e o Shendao se tornaram ainda mais poderosos. O Shendao ganhou uma filosofia sólida, que não apenas explicava muito bem sua metafísica como servia para incrementar seus rituais, que se tornaram mais complexos e formais. Dessa forma pôde enfrentar o Budismo que cresceu muito a partir do século IV. O Taoismo, por outro lado, ganhou espaço junto à população mais simples que não era muito afeita aos rigorosos treinamentos e pesada filosofia, mas apreciavam os rituais e as práticas que eram muito próximas do que era feito tradicionalmente dentro de suas famílias. Também ganhou um lado místico que estava praticamente ausente nos seus primórdios.

Embora sempre estivesse com um olho no Absoluto, em busca do Tao e do mergulho no universo latente representado pelo Wuji (vazio primordial), o Taoismo não lidava ainda com algumas forças do mundo invisível. A partir do crescimento do Daojiao os taoistas passaram também a lidar com demônios, seres celestiais, mundos paralelos, encantamentos, invocações e tudo aquilo que já é bem conhecido dos iniciados. Hoje esse conhecimento está restrito a algumas linhagens enquanto a maioria se preocupa ainda com a obtenção da imortalidade, a alquimia interna e a busca pelo Tao.
Algumas práticas místicas taoistas são bastante similares em objetivo às de outras tradições, embora se manifeste através de mecanismos diferentes. Os talismãs, por exemplo, são recursos adotados pelos taoistas desde o início dos tempos. Consistem basicamente em uma mistura de ideogramas convencionais, escrita arcaica, selos e carimbos, e desenhos diversos. A origem documentada dentro da tradição se encontra em algumas escrituras taoistas, como representações de sinais do Céu para trazer sua energia para a Terra.

Existem muitas formas de se fazer um talismã e muitas maneiras de empregá-lo. Em geral se utiliza tinta preta e vermelha sobre um papel amarelo. O talismã pode ser utilizado em uma cerimônia e queimado em seguida; pregado na parede para proteger o local ou expulsar espíritos nefastos; carregado pela pessoa para garantir proteção ou usado por um doente para recuperar a saúde. Também podem ser queimados e suas cinzas misturadas com água e depois bebidas, especialmente para fins terapêuticos.

A possessão é outro fenômeno largamente trabalhado pelos taoistas, que volta e meia eram chamados para resolver esse tipo de problema. Pela concepção taoista, nós possuímos duas almas: Hun (Alma Etérea) e Po (Alma Corpórea). Po é ligado à Terra, ao Ego, às coisas corpóreas e materiais, e Hun às coisas sutis, celestiais e espirituais. Quando uma pessoa se perde nos vícios, sexo desregrado, excesso de bebidas alcoólicas, drogas, músicas turbulentas, o equilíbrio interno fica comprometido. Tudo isso corrompe Po e deprime Hun. Quando o Hun fica muito deprimido e retraído, abre-se espaço para a entrada de seres malignos ou energias perversas, ocorrendo o que se denomina de influência maligna ou “possessão.

Na prática isso não implica necessariamente que depois desse processo de corrupção de Po e depressão de Hun a pessoa será tomada pelo capeta (embora algo assim possa eventualmente acontecer). O mais comum é que esse modo de vida leve ao contágio com energias nefastas bem conhecidas da Medicina Chinesa e do Feng Shui, pois isso abre um buraco no sistema energético da pessoa, facilitando o ingresso de forças nefastas exteriores.

Alguma entidade nefasta pode vir a assumir o controle da pessoa, pois o fato de freqüentar ambientes de baixa qualidade energética já o coloca em contato com tudo o que existe de pior na esfera espiritual. Depois basta uma porta aberta. Quando esse tipo de coisa se manifestava um taoista era chamado para efetuar o exorcismo, uma prática complicada e trabalhosa, que não raramente terminava com a morte do exorcista ao menor descuido. Poucos taoistas se especializavam nessa prática, geralmente gente soturna e de poucas palavras.

O mundo espiritual também possui uma grande quantidade de fantasmas. Um fantasma se forma quando o falecido possui grande apego às coisas materiais e não consegue ser naturalmente levado pela corrente da transmigração (reencarnação) e nem acabar nas prisões infernais, nos subterrâneos de Fengdu. Eles vagam pela Terra, desejando satisfazer seus apetites de coisas materiais ou vingança. Lidar com esses seres era tarefa dos taoistas, assim como caçar entidades maléficas e demônios. A técnica geralmente consistia em utilizar encantamentos, fórmulas e mantras para prender a entidade maligna em uma cabaça ou vaso de cerâmica (modernamente se utilizam até mesmo garrafas de vidro). Existiam mosteiros taoistas famosos por serem caçadores destas entidades. Um deles, que colecionava centenas de vasos contendo demônios, fruto de centenas de anos de combate a estas forças, foi “visitado” pelo Exército Vermelho na Revolução Comunista de 1950, que quebrou grande número destes vasos. Acredita-se que estes seres, agora libertos, se espalharam pelo mundo gerando diversos problemas de guerra, violência e doenças que sentimos ainda hoje.
As invocações também estão no repertório místico dos taoistas. Pode-se invocar uma entidade celestial ou um demônio. Neste último caso, ele pode se tornar um servo do mago. Mas para isso dar certo (e não acabar na morte do mago “vacilação”) é necessário executar muito bem o ritual adequado e saber o nome correto do demônio, coisa que era grafada em vários livros de algumas linhagens. Alguns deles traziam centenas de nomes.

Manipulação da natureza também era uma habilidade muito exercida. Conjurar uma nevasca ou granizo contra inimigos era uma tarefa muito requisitada por reinos em guerra. Da mesma forma, fazer chover em uma seca prolongada era muito útil. Existem vários encantamentos de clima que poderiam ser utilizados.

O exposto é uma pequena parte da tendência mística taoista. O Taoísmo é uma fonte inesgotável de conhecimento que merece ser investigada em sua essência e extensão. E os taoistas, em geral tão cordiais e espiritualistas, vejam só, podem ser barra pesada se necessário.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo, incluindo o grande sucesso “Os Caminhos do Taoismo”. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

Este post tem 8 comentários

  1. Amon

    Parabéns Gilberto. Excelente texto, bem concatenado. Muito gostoso de se ler. Quando percebi, já tinha acado!

  2. Marcos

    Muito interessante, obrigado por esse conhecimento!

  3. Paulo Alves

    Boa noite.
    Poderia indicar livros que aprofundem mais o tema?

    Obrigado

    1. Gilberto

      Olá, Paulo.
      Veja minha resposta para o Victor.
      Um abraço e feliz 2017

  4. Victor

    Gostaria de saber mais sobre livros ou artigos que explanassem mais sobre esse lado mais “underground” do taoismo; muito interessante por sinal.

    1. Gilberto

      Olá, Victor.
      Existem pouquíssimas obras em línguas ocidentais sobre esse tema. No Brasil sou o único que fala abertamente sobre isso. 🙂
      Uma obra interessante é “The Secret and Sublime: Taoist Mysteries and Magic”, de John Blofeld. Ele narra o que viu e vivenciou em suas andanças pela China na década de 1930. Muita coisa interessante.
      Outra obra seria meu livro “Os Caminhos do Taoismo”, que tem várias partes dedicadas à esses temas. Ele pode ser adquirido pela internet em papel ou baixado gratuitamente em meu site: http://www.laoshan.com.br
      Um abraço e feliz 2017.

  5. vivardia

    fiquei com vontade de quero mais, quando vi ja tinha acabado o texto

  6. Gilberto

    Muito obrigado a todos pelos comentários. Fico feliz que tenha atingido meu objetivo.
    Um grande abraço a todos e um feliz 2017, sempre no Caminho.

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