O Lugar do Corpo: um espetáculo contemporâneo

Se o século XVII fora influenciado pelo pensamento mecanicista e as leis da física tudo explicavam, a partir do século XIX vemos a biologia ganhar importância como ciência. Hoje, somos herdeiros desta tradição, e com os avanços das pesquisas científicas, mais a “ciência que estuda os seres vivos” e suas ramificações têm tomado conta de nossas vidas. Seu objetivo: domar o corpo, esta fera incontrolável e extremamente perigosa ao poderio político e econômico. Mas como disse certa vez o escritor uruguaio Eduardo Galeano: “O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa”. Sendo assim, convido o leitor a festejar e embarcar num espetáculo em quatro atos por essa história.

Porém, antes de alguém se sentir enganado, aviso que tenho como objetivo neste texto pensar o lugar do corpo e todo o saber que se produz sobre e a partir dele na cultura contemporânea. Portanto, gostaria de adiantar logo de início que ao questionar a questão do culto ao corpo, tão característico de nosso tempo, não pretendo pregar nenhum tipo de moralismo, como se advogasse a favor de algum conservadorismo. Meu objetivo é pensar a centralidade do lugar do corpo em nossas preocupações cotidianas, levando em consideração suas causas e consequências, e mais do que ser uma crítica apenas pela simples atividade de criticar, pretendo que seja um estopim para pensarmos novas possibilidades.

1º Ato – Teoria e realidade

Podemos entender todas as teorias, científicas ou não, como metáforas. Isto é, teorias são instrumentos conceituais que nos permitem compreender fenômenos específicos, mas nunca são o próprio fenômeno em si. Teorias são como mapas: nenhuma teoria é idêntica à realidade, apenas tenta se aproximar ao máximo dela para servir de base para entendê-la.

Imagine que uma teoria é um GPS, indicando caminhos que devemos seguir. Se o GPS informa que sobre o rio há uma ponte, mas em nosso caminho não avistamos nada além de uma queda, vemos que há uma falha nesse mapa, e por bom senso não devemos seguir por este caminho. O processo de avanço do conhecimento é uma constante tentativa de adequação das teorias à realidade.

A partir do momento que acreditamos que uma teoria é um mapa seguro, passamos e nos guiar pela realidade através daquele mapa. Eventualmente, também passamos a enxergar a realidade da forma como o mapa nos diz que devemos enxergar. Em tempos históricos específicos, um modelo de visualizar a realidade passa a ter dominância sobre outros, guiando a maioria dos homens daquele tempo a pensarem de forma parecida. Até que surge uma nova forma de visão da realidade que questione a anterior e mude o que as pessoas acreditam ser do mais verdadeiro.

2º Ato – A metáfora biológica

Embora o conceito de biologia enquanto campo científico único e coeso só tenha emergido no século XIX, ao longo do século XVIII áreas como botânica e a zoologia já haviam se tornado campos de estudo profissionais. Ao longo deste período, naturalistas de diversas áreas tiveram uma série de descobertas propiciadas pelo avanço instrumental da época (como por exemplo, o microscópio) que influenciaram não apenas seu próprio campo, como também outras áreas de conhecimento. Teorias da biologia foram apropriadas por outros campos e utilizadas como modelos de explicação para diferentes fenômenos.

O sociólogo Émile Durkheim, por exemplo, diferenciava dois tipos de solidariedade. Na solidariedade mecânica o indivíduo é socializado homogeneamente com seus semelhantes no seio de um mesmo tipo coletivo. Já na solidariedade orgânica, são as diferenças sociais que unem os indivíduos pela necessidade de troca de serviços e pela sua interdependência. Por acaso ou não, com esses termos Durkheim retoma o paradigma mecanicista e o biológico (orgânico), hierarquizando-os.

Já Francis Galton acreditou que poderia aplicar as ideias da seleção natural de Charles Darwin na sociedade, e através do que chamava de eugenia, poderia levar a humanidade a melhorias hereditárias. Suas ideias se disseminaram e no Brasil até início do século passado o movimento eugenista se preocupava com a questão racial, propondo medidas como o fim da imigração de não-brancos e desencorajando a miscigenação. Mas como bem sabemos, não foi apenas no Brasil que ideias raciais tiveram péssimas consequências.

Entretanto, nos enganaremos se acreditarmos que essas ideias ainda hoje não resistem. Talvez não mais pela via racial, mas pela genética. Hoje buscamos nos genes explicações para a vida. Na questão da homossexualidade, por exemplo, a resposta que todos buscam é se é natural ou não. Como se o fato de algo ser natural fosse o único modo de legitimar como possível. Pois parece que se não estiver escrito na lei da natureza, não deve ser permitido. Deixamos de ir às missas, mas ainda procuramos por mandamentos. Agora são os de Sua Majestade Natureza. Ou seus sacerdotes que podem falar por ela: geneticistas, biólogos e cientistas naturais.

3º Ato – O Biopoder

Anatomia, fisiologia, biologia, genética, medicina… Saberes que buscam compreender, medir, categorizar, classificar e melhorar o organismo humano. Parece que o corpo deve ser domado. Mas por quê?

Michel Foucault dizia que vivemos em uma sociedade disciplinar. Disciplina é, dentro da lógica foucaultiana, a capacidade de organizar com a máxima produtividade, sem desperdícios e com o controle preciso do corpo e do tempo. O poder disciplinar não reduz as forças, mas procura adestrá-las para melhor utilizá-las. Para existir a disciplina não é necessário que haja um poder coercitivo 24 horas por dia. Basta que o indivíduo internalize e acredite que aquilo é o melhor para ele. Deste modo, o indivíduo por si só não apenas seguirá como também será um grande divulgador.

A disciplina não se relaciona com um grupo específico, mas se espalha pelas organizações (escolas, hospitais, prisões, oficinas, indústrias, etc.), todas dispostas a fabricar indivíduos úteis à sociedade, todas com o objetivo de crescer as aptidões e o rendimento de cada indivíduo, e dentro do sistema capitalista, também o lucro que cada um deles pode gerar. O indivíduo não é oprimido ou reprimido, mas cuidadosamente fabricado para funcionar melhor dentro de um projeto político.

Não há o centro do poder ou uma elite secreta no comando, mas há uma rede múltipla de saberes normalizadores investidos pela ciência (psiquiatria, medicina, pedagogia, etc.) que reproduzem os discursos. E nós também reproduzimos diariamente este poder, sem questioná-lo, quando também queremos saber qual a melhor forma de sentar, a melhor forma de respirar, a melhor alimentação, a melhor forma de caminhar, o melhor exercício para se fazer na academia, o jeito mais saudável de se viver, e tantas outras formas de adequar o corpo a uma disciplina rígida que visa o seu próprio melhor funcionamento. Mas quando questionamos somos lembrados: “mas é o melhor para você”.

4º Ato – Da intimidade ao espetáculo

Durante muito tempo se falou em uma cultura da intimidade, num indivíduo introspectivo, no sujeito singular, da interioridade psíquica, na exacerbação sentimental e do egocentrismo. Entretanto, todo o romantismo da cultura ocidental desdobrou-se contemporaneamente numa intimidade que não está voltada para a reclusão do sujeito consigo mesmo. A intimidade é na contemporaneidade um espetáculo para todo o mundo assistir.

Redes sociais como facebook, twitter, tumblr, dentre outras, são ferramentas que fazem da vida privada um espetáculo diário acessível a todo um séquito de seguidores desconhecidos. A cena engraçada do churrasco da família vai para o Youtube, onde recebe milhões de visualizações e arranca risadas em países que nunca pensaríamos visitar.

A cultura é também somática. O artista musical tem o corte e a cor de cabelo que deve ser seguido. As celebridades o corpo perfeito para ser copiado. O programa da televisão dá as melhores dicas para manter o corpo sempre em forma. Todas estas características sempre sendo divulgadas como fórmulas garantidas para se alcançar o sucesso.

A cultura da intimidade e do espetáculo se unem na somatização da dualidade corpo e mente dizendo que o que você é interiormente deve ser exteriorizado no corpo. O corpo bonito, o corpo da moda, o corpo perfeito. Quanto melhor for o corpo, melhor sua interioridade irá parecer para os outros. Deste modo, suas possibilidades de sucesso consequentemente irão se potencializar. Sendo assim, cada vez mais vemos a busca pela perfeição corporal. Cirurgias plásticas e implantes variados de um lado, enquanto noutro aparecem na clínica psicológica casos de anorexia e bulimia.

A ciência busca um saber no corpo, enquanto a política se aproveita do mesmo. E a mídia faz disto tudo um espetáculo.

Epílogo – O Culto ao Corpo

Pois bem. Chegamos ao fim. Podem descer as cortinas.

Vimos que o corpo humano tem lugar central em nossas representações. Ele é alvo de investimentos libidinais, de desejos, do conhecimento científico e do poder político e econômico.

Mas não cabe aqui perder tempo recriminando algo. O corpo não é a raiz do mal, tampouco o ideal de salvação. Nada é essencialmente bom ou ruim. A culpa também não é da ciência ou da mídia. A maneira como lidamos e os fins que damos a nossas escolhas é que devem ser repensadas. Devemos nos responsabilizar por nossas decisões, e não a relegarmos aos outros.

Durante muito tempo na história ocidental o corpo foi visto apenas como um mero veículo passageiro que não merecia atenção ou como uma prisão que devia ser desprezada. Hoje, ele toma seu lugar de centralidade e sua reconhecida importância para o exercício da liberdade. Entretanto, não há mudanças sem efeitos colaterais. Melhor ou pior é impossível mensurar por existir mais variáveis em jogo do que podemos lidar, e tampouco importa, já que os valores sempre se adequam as necessidades imediatas do ser humano. De qualquer modo, a cultura somática tem efeitos que não podemos ignorar. Temos que de algum modo lidar com eles.

Bibliografia indicada para quem se interessou pelo tema:
O Vestígio e a Aura, de Jurandir Freire Costa.
Vigiar e Punir, de Michel Foucault.

_________________________________________________________________________________________________________-

Igor Teo lembra que Foucault certa vez disse que é a alma a prisão do corpo.
Blog: Artigo 19
Curta nossa página no facebook

Os textos de nossa coluna têm o objetivo de refletirem de forma na qual o leitor possa reconhecer seus próprios recursos conscientes e inconscientes para o desenvolvimento pessoal, criando um ambiente não para aconselhamentos ou manuais de como se deve viver, mas um espaço protegidamente para provocações e reflexões de temas comuns a nossa vida.

O próximo tema pode ser escolhido por você. Basta enviar sugestões, pedidos ou mesmo relatos diretamente ao e-mail do blog ou nos comentários mesmo.

Criei também uma página para arquivar todos os meus textos de diferentes publicações. Deem uma conferida lá: http://igorteo.blogspot.com.br/

Este post tem 5 comentários

  1. Felipe Veras

    Leitura complexa, mas extremamente reflexiva. Adorei a forma como o texto foi disposto em atos. Parabéns!
    @Teo – Obrigado, Felipe.

  2. Keller

    Cada vez melhor, o conteúdo, a narrativa, tudo.

    Paz, lux e obrigado por sempre acrescentar em minha vida.
    @Teo – Gratidão.

  3. natalia

    Muito bem escrito. Otima reflexão. O pragmatismo cientifico funciona como ancora que fundamenta e da credito ao culto ao corpo.
    @Teo – Obrigado.

  4. Rayovac

    Discordo em um ponto: há sempre um culpado.

    Bom texto!

  5. Marcela

    Ótimo texto, parabéns!
    @Teo – Gratidão!

Deixe uma resposta