O homem sozinho consigo mesmo

Muitos não sabem, mas uma das maiores questões da modernidade nasceu da leitura de um trecho da Bíblia. Ela foi colocada por ninguém menos que Soren Kierkegaard após refletir sobre a história de Abraão.

Imagine a situação. Abraão recebe uma mensagem de Deus, uma mensagem terrivelmente estranha: ele deve sacrificar seu único filho, Isaac. Imagine agora o tormento pelo qual Abraão deve ter passado. Para quem sabe o final da história pode parecer simples, mas tente se colocar no lugar do nosso personagem. Ele ama o filho, mas também é um homem devoto e sabe que deve obedecer a Deus. Abraão leva o filho até o topo de uma montanha, e quando está prestes a matar Isaac com uma faca, conforme as instruções divinas, surge um anjo enviado por Deus para impedir que ele cometa o assassinato. Em vez disso, um carneiro é sacrificado e Deus recompensa a lealdade de Abraão permitindo que seu filho viva.

Se você já escutou essa história antes, lhe contaram que a moral da história é que você deve ter fé, confiar em Deus e que tudo vai melhorar. A palavra de Deus supostamente não deve ser colocada em dúvida. Um filósofo, no entanto, não deve se contentar com esta explicação. Para o pensador dinarmarquês Kierkegaard, a questão é bem mais complexa.

Vamos tentar imaginar o que deve ter se passado pela cabeça de Abraão antes de tomar sua decisão. Suas questões, medos e angústias. Ele ouviu a palavra de Deus lhe ordenando para matar seu próprio filho, mas será que ele poderia confiar nela? Será que era realmente Deus que lhe enviara aquela mensagem ou um impostor se passando por Ele? Se fosse um impostor, ou talvez uma alucinação, traria desgraça para sua família por um engano. Mas e se fosse realmente Deus, por que deveria pagar um preço tão alto para demonstrar sua fé? Se Deus realmente queria seu filho morto, mesmo que se recusasse a obedecer, Deus poderia fazer ele morrer de qualquer outro modo. Adiantaria ele tentar se opor? Um Deus com um pedido absurdo como este pode ser justo e benevolente? Qual recompensa ou maldição tal divindade poderia lhe oferecer? Será que elas compensariam o sangue de seu filho derrubado por suas próprias mãos?

Enfim, como tomar uma decisão tão difícil?

Segundo os pensadores existencialistas, um ato é sempre uma decisão no escuro, um salto de fé. Mas não fé no sentido comum, e que usamos habitualmente, como uma determinada crença muito forte. Talvez o que faltasse a Abraão neste momento justamente era saber no que realmente acreditar. Tomar uma decisão como tal era inevitavelmente uma aposta no escuro.

Se Abraão decidisse matar seu próprio filho, estaria moralmente errado. Um pai que deve amar e cuidar do filho não tem o direito de amarrá-lo e cortar sua garganta. Mas se ele soubesse que Deus não lhe faria seguir sua ordem até o fim, talvez tivesse sido mais fácil. Só não era o caso. Assim como Abraão, quando temos certeza de algo parece que fazer as coisas são mais simples e naturais. Simplesmente fazemos porque temos certeza de suas consequências. Mas em diversos momentos estamos como Abraão: devemos fazer decisões – decisões difíceis, que envolvem nossas carreiras, relacionamentos, destinos, amizades, economias, felicidade – e não temos nenhuma certeza do que acontecerá depois.

Se Abraão tivesse sido racional, talvez não tivesse feito aquilo. Mas o que a Bíblia exalta é sua fé excepcional. Estaremos enganados se acreditarmos que Abraão não foi assaltado por dúvidas ou temores diante do desconhecido. O grande trunfo de Abraão, porém, é sua capacidade excepcional para aceitar riscos, algo que toda decisão envolve.

É comum que, por medo, tentemos eliminar os riscos de nossa vida. Antes de nos mudarmos para uma nova cidade, aceitarmos uma nova proposta de emprego, sairmos de um relacionamento porque ele não está muito bom, ou tantas outras coisas, nós podemos pesar os riscos e tentar amenizá-los ao máximo. O que é altamente recomendável. Ninguém em sã consciência deve se arriscar desnecessariamente.

Mas existem riscos na vida que são inerentes. Digo mais, viver é um risco constante. Por mais que tentemos controlar variáveis e defensivamente evitemos nos colocar em perigo, as atividades em que supomos existir uma certeza podem nos mostrar o quanto nossa crença na estabilidade é falsa. Por mais que alguém cuide de sua saúde, nada diz que um organismo não possa desenvolver uma doença por causas desconhecidas. Por mais cuidadoso que eu seja, nada impede que um acidente por causa de terceiros me atinja e abrevie minha vida hoje mesmo. Por mais inteligente e competente no trabalho, nada impede que mudanças econômicas e estruturais me coloquem em situações complicadas. Por mais feliz que seja um relacionamento, nada impede que uma das partes venha a se sentir eventualmente insatisfeita e tudo termine.

Não estou querendo assustá-los ou causar preocupações desnecessárias, mas apenas sinalizar que a estabilidade é uma sensação comodista que assumimos, e que nada garante sua permanência. O homem, devido à impermanência das coisas e do mundo, está sempre referido à dúvida, à incerteza e ao preço da angústia de não possuir respostas perfeitas para tudo. Tal como Abraão, ele pode ter fé, assumir um ato com seus riscos, mas não possuir a certeza de que sua decisão seja a mais correta ou verdadeira.

Diante de decisões difíceis, há quem paralise. Outros postergam a escolha até não poderem mais. Também há os que terceirizam a responsabilidade, fazendo com que os outros escolham por eles. Mas Kierkegaard demonstrou na história de Abraão que, para fazermos uma escolha ética, nós devemos estar sozinhos com nós mesmos.

Quando Abraão foi interpelado por Deus, ele se viu sozinho em sua decisão. Ele não podia apelar para a moral, já que a moralidade o julgaria erroneamente. Não poderia culpar a Deus por seu ato, pois ainda que fosse Sua exigência, a pessoa unicamente responsável por atravessar a faca na garganta do filho seria ele. Quando somos convocados a fazer uma escolha, é tentador nos livrarmos da responsabilidade. Apelarmos para a moralidade (a lei, a verdade, ou o que é “mais correto” fazer) ou culpar o outro pelas nossas escolhas. Mas ainda que façamos algo em nome do outro, a decisão de fazer ou não aquilo depende inteiramente de nós. Neste sentido, o homem está sozinho consigo mesmo. Não há para quem apelar, pois o único que deve responder por seu ato é o próprio. Qualquer coisa diferente disto Sartre chamaria de má-fé.

Escolher um caminho é estar inteiramente sozinho na decisão. Ainda que façamos amigos e companheiros numa jornada, e eles são sempre bem-vindos, apenas nós respondemos por nossas escolhas. Tomar uma decisão é um ato solitário, e também uma aposta. Não há para o que se apelar em nome de certezas: razão, sentimento, intuição, ciência, religião, amor, Deus, o que os outros dizem ou pensam, moral, lei… tudo é em algum momento furado, incompleto, parcial. E que seja.

Você pode pesar os riscos, pensar na opinião dos outros, ver qual caminho é mais seguro, moral, prazeroso, mas o que verdadeiramente deve importar no fim é:

Você quer fazer isso? Está disposto a aceitar e se responsabilizar pelos riscos e/ou felicidades que podem surgir do seu ato?

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Você pode me encontrar no Facebook ou no YouTube.

Este post tem 6 comentários

  1. reginaldo giassi

    Quando eu leio (esculto alguém falar, lembro ou até mesmo imagino) essa passagem, logo me vem a mente (claro que entendo que é uma metáfora). Isque o filho a ser imolado, carrega nos seus próprios ombros a lenha para a fogueira….Ué? Não é nenhum recém nascido indefenso e sem reação. É um jovem, de meia idade que sabe o quer da vida. Então para ele ser amarrado pelo próprio pai a servir de oferenda em holocausto? Ele precisa estar temente a D ‘us ou conivente para situação. Qualquer um no seu lugar iria reagir!!
    eu penso que essa passagem tem muito mais haver com Isaque seu filho que irá se sacrificar pela devoção… (ou pela humanidade) do que Abraão que é somente um elo de ligação entre os dois pares.
    A interpretação literal vista pelo lado de Isaque seria muito mais interessante de ser explorada.

    1. Luciano Akessan

      Concordo com essa interpretação. De fato, Isaque parece ser o mais “reflexivo” dos heróis bíblicos, já que passou por poucas e boas durante sua vida. Realizaram uma festança na ocasião de seu desmame (parece ter sido um “incômodo”), viu seu irmão Ismael ser expulso da companhia familiar para o inóspito deserto, além de seu pai ter cogitado servi-lo como churrasquinho divinal. Tais experiências certamente deixariam marcas indeléveis em qualquer psique! Imagino que Isaque tenha sido, hipoteticamente, um homem fantástico, com uma profunda visão de mundo e que certamente se sobressai (psicologicamente) em face a outros heróis bíblicos.
      Quanto a Abraão, apesar do estresse decorrente do ato da imolação do próprio filho, tenho sempre em mente que a ele já havia sido feita uma promessa, da parte do próprio Deus, na qual era garantida numerosa descendência – e que Isaque seria o filho da promessa. Há passagens bíblicas em que pode-se inferir notável sagacidade da parte de Abraão, de forma que ele poderia muito bem ter sacado antecipadamente qual o desfecho da antológica passagem. Reitero que o suposto conhecimento prévio não aliviaria o estresse do ato, talvez ocorresse justamente o contrário.

  2. igor menezes

    minhas filhas são meu sangue.. me supondo no ato bíblico, jamais mataria elas ou entraria em mérito de duvidas, de fazer ou não. Em momento algum iria ficar dividido! Bem como NÃO FARIA tal atrocidade. Como disse são meu sangue, minha parte. Mesmo indo contra Deus ou não, o que há de mais importante em minha vida são minhas filhas.

    1. Carlos

      Não sei se você entendeu, mas nada tem a ver uma coisa com a outra, ainda que matar seus filhos traga consequências. Pelo que entendi, e o que ficou evidenciado na pergunta final é exatamente o que a metáfora simboliza.

      Essa metáfora fala sobre suas escolhas, as possíveis consequências dessas escolhas – que às vezes sabemos quais serão -, e se isso vai te fazer feliz.
      Como largar um emprego e usar suas economias pra abrir um negócio, você tem, depois de abrir o negócio dois resultados: a falência e a perda do seu dinheiro ajuntado com tanto sacrifício ou o sucesso e a possível riqueza, desses dois possíveis resultados cominarão a sua felicidade ou sua tristeza, mas ai depende do seu ideal de vida heheehe

  3. MARCELO

    Qual o mérito desta mensagem? Abrão e o ato de fazer ou deixar de fazer; por ouvir a voz de Deus ou possivelmente, ser enganado por outra voz ilusória, digamos do subconsciente?
    A riqueza de ter o entendimento não se apega exatamente na imagem do ato, o absurdo de tirar a vida de um filho, que teve consequências anteriores à conceição. Ele de idade avançada, ela também. Mas, o que revela em Abraão é o que revela no próprio Deus em João 3: 16, 17. É Bíblia. Deus deu o seu único Filho com proposito. Abraão não foi diferente, tanto que ele é considerado o Pai da fé.
    Agora, a imolação de um filho ou filha, hoje, é a imolação da sua própria renuncia, diante do crer, como em Hebreus 11:1 e 11: 6.
    Não se trata de dedução, ou forma de fanatizar a cena ou a vida devocional.
    Se me perguntares: darias seu filho ou filha como sacrifício vivo a Deus?
    Por que acreditaria em mim, se eu dissesse que não, mas não acreditarias se eu dissesse que sim, e fiz. Dei a mim mesmo no altar, para que houvesse provisão de fé em minha família. Eu sou o sacrifício. Isso é loucura. Pensou dessa maneira?
    Não! Trata-se de fanatismo religioso.
    A filosofia não pode ver assim. Mas o homens podem ver, e isso incomoda, por que,
    se revela como mentira.
    Deus vê o que o mundo não vê, e esta responsabilidade passa em mim. Eu creio.

  4. dodi

    Olá a todos!
    O texto em SUMA fala de decisões e o que vem depois de ser tomada.
    Concordo com os comentarios sobre explorar o grande homem que foi Isaac, sobre ser pai e não sacrificar filhos DEUS FEZ ISTO ! diga-se de passagem… ora eu não sou Deus!! obvio … enfim …
    A verdade que o autor passa é que estamos SOZINHOS! para ser mais claro:
    Quando o próprio Deus nos coloca em uma determinada prova, teste, luta, etc… não adianta recorrer a ELE pois ele não dará a resposta enquanto nós não tomarmos a nossa decisão! ou seja: O homen sozinho consigo mesmo , cara! rs
    Esclarecedor !

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