O Herói em você!


O herói é o arquétipo da superação. Variando de acordo com a época ou corrente estético-literária, o herói é marcado por uma projeção ambígua: se por um lado representa a condição humana na sua complexidade psicológica, por outro transcende a mesma na medida em que representa facetas e virtudes que o homem comum gostaria de atingir.

Na preocupação com a possibilidade de não conseguirmos solucionar os grandes problemas políticos, sociais e filosóficos do nosso tempo, muitos de nós persistem em buscar o herói em algo externo, seja em um líder político (como o Obama) ou em um grupo (como os Anonymous). No entanto, todos podem ser heróis. Até porque ninguém nasce herói, mas torna-se um durante a jornada.

O herói não é o melhor ou o mais importante. Os principais heróis da famosa saga de Tolkien, Senhor dos Anéis, eram dois pequenos hobbits que ninguém jamais acreditaria serem capazes de salvar o destino da Terra-Média. Qualquer um pode se tornar um herói, mas antes deve ser si mesmo.

Todos nós precisamos encontrar, se não o “sentido da vida”, pelo menos o sentido das nossas próprias vidas individuais. O sentido da vida não nos dado é dado pelo mundo, mas devemos nós mesmos o criar com as ferramentas que nos são oferecidas. A vida é como um livro repleto de folhas em branco, em que nós podemos escrever a nossa própria história. Nem todas as páginas são de vitórias. Existem sempre derrotas amargas, fracassos e desilusões, e isto não se pode alterar, é verdade, pois já está no passado. Mas a próxima página sempre estará ainda em branco, e nela podemos escrever o que quisermos. Sartre dizia: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.”

A Verdadeira Vontade é, basicamente, o propósito da vida de alguém. Quando Alesteir Crowley disse “Faze o que tu queres será o todo da Lei” não se referia ao hedonismo, acatando-se qualquer desejo, mas no atender do chamado de algum propósito maior que nós mesmos. Quando alguém realiza sua Verdadeira Vontade é como se encontrasse sua própria órbita entre os demais corpos celestes, e o universo passa a auxiliá-lo. O Herói é aquele que descobriu sua Verdadeira Vontade e mesmo trilhando por uma jornada tortuosa, enfrentando todos os tipos de perigos, cumpre sua missão.

No livro “O herói de mil faces”, Joseph Campbell descreveu a típica jornada realizada pelos mais diversos heróis que já houve na história, figuras religiosas e mitológicas como Jesus e Hércules. São basicamente três etapas: a partida, a iniciação e o retorno.

O herói vive em seu cotidiano quando surge uma mudança que o impulsiona a aventura. O estímulo para que o herói inicie sua jornada é o sentimento de incompletude, que irá levá-lo a buscar sua plenitude. Para iniciar é necessário ter coragem, disposição e desprendimento do que se considera seguro e conhecido. Ele, no entanto, recusa o primeiro chamado porque teme o desafio. O surgimento do mentor e o treinamento recebido impulsionam para que ele cruze o primeiro portal, abandonando a realidade do mundo comum.

Uma vez que se torna um Iniciado, o herói passa a enfrentar as provações, encontrando aliados e inimigos ao longo de sua jornada. Em seu caminho, muitas vezes solitário, o herói se depara com sombras e enfrenta dragões. Diante do perigo descobre uma série de competências que, antes no conforto do cotidiano, não seria possível. Encontra também aliados que buscarão ajudá-lo a cumprir sua missão.

Ao final desta fase ele deverá enfrenta a maior provação, o seu grande inimigo, que na realidade sempre foi ele mesmo. O inimigo é uma projeção de si mesmo, do que ele mais teme ou das características que ele procura negar. O inimigo é a contraparte que deve ser absorvida para o herói obter sua recompensa.

O herói deve morrer nesta batalha. Nem sempre os mitos narram uma morte literal, pois esta morte é na verdade simbólica. A morte representa tudo que ele deixou para trás e agora está pronto para se tornar um novo Ser. Há então a ressurreição do herói que alcançou a individuação ao obter novos conhecimentos, experiências e vivências. O fim da jornada é a transformação do próprio herói. E, mesmo que o ambiente não sofra alterações, ele não irá enxergá-lo mais da mesma forma.

Cada vez que enfrentamos uma grande dificuldade em vida, também nos deparamos com um dragão. Se escolhermos lutar contra os desafios, ao invés de desistirmos, mergulhamos mais profundamente na descoberta de quem somos e derrotamos o dragão.
Infundimos, assim, vida nova em nós mesmos e ao nosso redor. Mudamos o mundo, o nosso mundo.

Igor Teo é psicanalista e você pode encontrar mais textos aqui.

Este post tem 14 comentários

  1. D

    É interessante notar como esse é o típico herói do mito Indo-Europeu, que nasce sem poder, metamorfoseia-se e ascende.
    Contudo, e quanto a outros mitos de heróis ? O mundo possui muitas histórias, e estamos perdendo muito em não apreciar outro tipo de narrativa que esta, dada a nós pelos nossos irmãos das terras velhas.

    1. Fernando

      “D” o próprio Joseph Campbell mostra em sua obra que esse ritual do herói eh universal.. serve pra Jesus, bud, Hércules e varios ouros heróis e mitos, seja da região asiática ou de tribos indígenas..

  2. InSaNo

    Muito legal o texto, mas tenho algumas questões.
    Em primeiro lugar, é em relação ao sentimento de incompletude, o “chamado” do futuro herói. E se a pessoa nunca sentir isso? E se ela for feliz com seu cotidiano e, mesmo com as dificuldades que aparecerem, achar que sua tranquilidade e conforto já a preenchem completamente? É possível isso?
    @Teo – Sim, é possível. Mas conhece alguém assim? Existe alguém que não busca ser sempre algo mais em alguma coisa qualquer? Não se satisfazer é uma das maiores virtudes do ser humano, mas também é a fonte de sua desgraça. O que é bom, pois nos mantém eternos, enquanto a Jornada nunca chega ao final de fato.
    Segundo, e se a pessoa possui esse sentimento, mas não consegue ultrapassá-lo. Ela sente que algo não está certo, sente uma angústia profunda e tem a vontade de mudar, mas nada do que faça parece adiantar. Ela pode ter recusado o chamado, mas o “mestre” não apareceu, ela não foi “treinada” e não tem a mínima ideia de qual é o caminho. Onde está o erro? O que ela pode fazer para avançar? É possível ficar uma vida inteira frustrado e perdido sem conseguir avançar esta etapa? Como identificar o “mestre” e o “caminho”?
    @Teo – O mestre aparece quando o aluno está pronto. Se o mestre não apareceu ainda, talvez não fosse a hora certa. Mas também tem que se ter o cuidado para não estar esperando um herói externo que resolva todos nossos problemas, projetando no mestre este herói esperado. O mestre pode nem ser uma pessoa.
    Não há erros, apenas aprendizados. Como disse certa vez Fernando Pessoa, “Nunca ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho”.

    Terceiro. Tudo isso também pressupõe o conhecimento de sua Verdadeira Vontade, mas e quando ela não é conhecida? Como descobrir qual a sua Verdadeira Vontade? E se, apesar de todas as tentativas, a pessoa continua perdida, sem pista nenhuma de sua VV?
    @Teo – Nem sempre ela é conhecida conscientemente. As próprias tentativas fazem parte da construção do caminho da Jornada do Herói.
    Desculpe, as perguntas podem parecer idiotas, mas são sinceras. Sempre gostei de histórias que tivessem como pano de fundo o “mito do herói”, antes mesmo de saber do que se tratava. Mas na teoria tudo é muito legal, acontece que na prática é difícil conseguir aplicar esta metáfora.
    @Teo – Acontece que na prática não é simples porque você não é apenas uma Vontade unificada, mas ela se manifesta de maneira múltipla. Mas de algum jeito, existe algo mais reincidente que vai marcar o que Sartre chamava de Projeto de Vida.
    Não há o que se preocupar, as perguntas foram boas.

    1. Rodrigo Tonin

      Foram perguntas que muita gente tem duvidas, como eu.
      Obrigado aos dois, texto execelente e complemento de perguntas e respostas muito bem vindas.

      1. Rodrigo Tonin

        Excelente* =D

    2. Celino

      InSaNo, aquilo que você perguntou reflete muito bem as dúvidas que a maioria das pessoas tem.
      As vezes parece que algo nos prende, como um emprego, limitações financeiras, sentimos que estamos presos e não estamos desenvolvendo totalmente o nosso potencial. O medo da mudança supera a vontade de se tornar um herói, a frustração toma conta do indivíduo.
      Desenvolver o potencial é também uma questão de liderança, o seu líder pode ser o seu mestre, é a missão de qualquer líder desenvolver o potencial das pessoas.
      Não sei se misturei as coisas… Igor, qualquer coisa me corrija.

  3. Renan Rodrigues

    Magnifico texto e perguntas e respostas muito pertinentes
    Abraços

  4. francisco

    Ótimo texto, esclarece algumas dúvidas.
    Além de Campbell, há outros autores que abordam o mito do herói que Cristo representa?
    @Teo – Sim. Carl Gustav Jung, por exemplo, fala sobre o mito do herói no processo de individuação que todo ser humano precisa passar.

  5. Croco

    Sabe, as perguntas do Insano foram as minhas, guardadas a muito tempo sem colocá-las para fora. Fico grato pela expressão delas! \o
    Uma coisa que ajuda é fazer as 3 questões que o Del Debbio recomendou: O que eu poderia fazer para sempre, quando faço, esqueço de comer, tomar banho, etc e, eu faria isso mesmo que não me pagassem?
    Depois, entra as ferramentas ocultas: Astrologia, SAG, etc.
    Mas gostei muito da frase: Ninguém se perdeu, tudo é verdade e caminho.
    Sabedoria e serenidade ímpares.
    Belo texto, Igor, acompanho seu trabalho desde o Artigo 19 e gosto bastante, um dos autores daqui que mais me identifico.
    Abs,
    @Teo – Obrigado. 🙂

  6. Henrique Estrela

    “O surgimento do mentor…”
    “O mestre aparece quando o aluno está pronto.”
    Muito obrigado para voces dois, Igor Teo e InSaNo. Sei que o meu mentor/mestre uniu estas duas mentes brilhantes neste post para dizer-me que estou no caminho certo.
    Continuado sucesso!

  7. Marcelo

    A quantidade mestres pode variar numa só vida?
    Ele pode ser nosso pai? Um mestre de artes marciais? Um professor de desenho? Um encarregado numa empresa? Um amigo?
    @Teo – Creio que quantos e a quem você assim considera.

    1. Franco-Atirador

      Para os xamãs tudo pode ser um mestre. Qualquer coisa. Um vento, uma folha, a disposição de figuras na paisagens ou desenhos nas nuvens, um acontecimento, coincidências, uma fala humana ou movimento de um animal que lhe chamou a atenção, a natureza. De tudo retira ensinamentos para esse grande mistério que é a vida. Esse também é o princípio básico dos oráculos, instrumentos usados para se esclarecer qual é a situação de vida que se impõe e obter dicas intuitivas para escolher os caminhos que iremos tomar em relação a isso, a mente subjetiva projeta e encaixa um ensinamento na bagagem simbólica usada, que aponta para uma direção em que o indivíduo alcançara maior individuação e realização pessoal, da V.V, que em seu sentido total só poderá ser entre-visto e totalmente compreendido pelo recebedor da mensagem.

  8. Roberto N.

    Acredito que uma outra caracteristica comum dos herois é controle sobre o proprio ego. Viver por algo que considera maior do que si mesmo.

  9. Leonardo

    Ser o herói de nossa própria história depende de cada um de nós! Mas a despeito de não atingir aquilo que se buscou durante toda uma vida… lembre-se de que todo pai é um herói aos olhos do filho. Seja lembrado por seus bons atos, pela humildade, honra, e pela forma como retribui à vida o direito que esta lhe concedeu de respirar e viver.
    O herói que constrói um mundo melhor nem sempre é o de capa e espada que enfrenta o dragão… as grandes destinações são por vezes eternas para a História e soam efêmeras para o próprio indivíduo…

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