O amor como argumento cosmológico

A relação sexual não existe. Esta foi a frase que Jacques Lacan cunhou para resumir o seu ensino.  Com ela, Lacan não queria dizer que não existem relações sexuais, afinal, elas acontecem a toda hora. Inúmeras vezes vamos para a cama com o mesmo ou diferentes parceiros. Lacan se referia a algo filosoficamente mais profundo que isso.

Lacan dizia que não existe relação sexual porque não há um significante que complemente outro significante. Para cada coisa que existe no mundo, não há um par que a complemente ou a compreenda. Cada ente existe por si mesmo, e não há nada no mundo que exista para ele, por ele, ou que forneça sentido para sua existência.

Com uma frase, Lacan questionou muita coisa. Questionou toda a forma como pensamos a realidade. Questionou também muitos séculos de filosofia. Sabe aquela história que você sempre ouviu de yin e yang, os opostos se complementam, os paradoxos serão reconciliados, e por aí vai? Lacan disse que isto é linguagem. O real é outra coisa.

O mundo descompassado

Ontologicamente, a ideia de que não existe um significante para outro significante quer dizer que o mundo não é fechado. Ele não tende ao equilíbrio. Pelo contrário, a vida é incompleta, faltante, parcial. O universo não é um lugar perfeito, onde tudo se encaixa, mas as coisas são absurdas. Não há uma razão guiando o cosmos, nem há um final feliz planejado. As coisas simplesmente acontecem – de uma forma que poderíamos nos aproximar ao que diz a moderna teoria do caos.

O argumento lacaniano não é apenas metafísico, pois podemos testemunhar o que Lacan diz cotidianamente nas nossas vidas. Afinal, a vida é feita de desencontros. No dia que esquecemos o guarda-chuva, é o dia em que chove. Encontramos aquela pessoa inconveniente na rua justamente quando menos podíamos. O horário em que meu vizinho acha justo para fazer barulho não é o mesmo para mim. Meu pensamento sobre a política nem sempre é compreendido e aceito pela maioria. Enfim, posso me prolongar indefinidamente com variados exemplos, mas que, de maneira geral, nos surpreendem como diante de tantas diferenças entre uma pessoa e outra, ou entre o homem e o mundo, ainda conseguimos estar em sociedade.

Mas fomos ensinados a pensar que “existe algo aí fora para mim”. Quando éramos crianças, descobrimos que o nosso pai transou com a nossa mãe, e assim nós nascemos. Vimos na sociedade que as pessoas se apaixonam, namoram, viram casais e constroem uma vida juntos. Parece assim que o destino é o lado masculino buscar o feminino, e vice versa, para se complementarem. É o tao do mundo. Até mesmo os homossexuais, que são do mesmo gênero, buscam um parceiro para também fazer casal. Se não há relação sexual, um significante para outro significante, por que o amor é algo que se faz a dois?

Filosofia da natureza

Aristóteles era um pensador preocupado em entender e explicar como o mundo funcionava. Para tanto, ele estabeleceu a física. Mas como todo bom pensador, ele não ficou satisfeito. Aristóteles se interrogava sobre a origem das coisas. E para tanto, ele criou uma ciência das origens: a filosofia primeira. Trata-se de uma série de pensamentos cujos escritos, na estante da biblioteca, foram colocados depois da física, e, portanto, eram chamados de metafísica.

Na metafísica, Aristóteles se perguntava qual é o princípio das coisas, mas ele usava palavras para se perguntar, e foi neste momento que ele se enganou. Porque a linguagem cria as coisas mesmo quando elas não estão lá. Posso lhe falar sobre um elefante rosa se equilibrando sobre uma corda segurando um bambu, aplaudido pela plateia do circo. É o necessário para você visualizar e até acreditar no que nunca aconteceu.

Que haja desde o princípio o homem e a mulher, o yin e o yang, são meramente questão de linguagem. Tomemos um homem por exemplo. Como podemos definir o que é um homem? Se vamos por sua biologia, podemos dizer que ele é o portador de gametas. O que seria uma definição parcial, porque não só ele é o portador de gametas dentre os animais. Mas somos muito espertos, e dizemos que são os espermatozoides que o homem carrega que o fazem homem. Ou será que ser homem que o faz carregar os espermatozoides? Quem veio primeiro: o espermatozoide ou o homem? Mudem as definições, e continuaremos girando em círculos.

Há seres com pênis e outros com vaginas, é verdade, mas quem lhes fez homens e mulheres, yin e yang, não foi a natureza, e também não foi Jung. Foi a linguagem. É a linguagem que condiciona o sujeito a ser ele ou ela. É o princípio do funcionamento do gênero. A função da linguagem é nomear. Preencher o que é faltante. Mas o que falta? Que se saiba algo como homem e não mulher, ora. Ou ao contrário. Positivo ou negativo, quente ou frio, ativo ou passivo, dia ou noite, luz ou escuro, som ou silêncio etc. Estamos dando voltas na linguagem para falar do que só existe.

No princípio era a palavra. E com ela se faz amor.

A fantasia amorosa

Solidão, angústia e desamparo. Três categorias que podem definir o homem moderno, e que apontam para o real: a inexistência da relação sexual. Seja pelo outro que nunca entende completamente o que eu quero realmente expressar, pelo desejo que é sempre mais difícil de realizar-se na realidade que em nossos devaneios, ou pela ausência de uma força maior que ofereça segurança e conforto, o homem deve se confrontar com o mal-estar de viver.

Mas buscamos um remédio para o sofrimento: amar e ser amado. Esperamos que o amor e a sexualidade resolvam os impasses de nossas vidas, projetando na esperança de um grande amor – sempre idealizado – a solução dos nossos problemas existenciais.

Mesmo quando alguém se sente bem sendo solteiro, e não está à procura de um relacionamento novo, paira no ar uma expectativa, própria ou dos outros ao seu redor, de que em algum momento haverá um novo relacionamento. Há uma crença compartilhada de que estar sozinho é etapa para o caminho natural que é eventualmente formar um casal. Como se a vida só pudesse se completar deste modo. Quem decide por uma felicidade solitária não poucas vezes é importunado por sua escolha não ser socialmente compreendida.

O amor tem uma função apaziguadora frente à angústia. Diante de um mundo de desencontros, em que as coisas não funcionam sempre como desejamos, o amor cria a ilusão do significante faltante. Isto se manifesta claramente nas frases românticas dos casais, como “meu amor é tudo para mim”, “o meu melhor momento é o de sua companhia”, “você me fez um(a) homem/mulher melhor”, e por aí vai.

O amor suplanta a inexistência da relação sexual. Mais do que isto, ele cria a ilusão da relação sexual fazendo o impossível: que duas pessoas diferentes convivam. Não é exagero dizer que o amor fornece um sentido para a vida, pois ele aplaca a incompletude e a falha do mundo fornecendo um significante para outro significante. A pessoa amada, com seu jeito, estilo, forma de pensar, se mostrar, sua beleza, representa o tão sonhado espírito que faltava para o mundo.

Para o amor dar certo, ele tem que lidar com o fato de que somos pessoas diferentes. Não nos encaixamos perfeitamente. Tem gente que gosta de ir para a praia no feriado, outros para a montanha. No cinema assistir a um filme de terror. Há quem não suporte filme de terror. No final de semana ler um livro ou maratonar uma série nova, a despeito do parceiro que só quer ir para uma balada ou um barzinho. Temos manias, gostos, pensamentos que não se encaixam.

Mas o amor recobre as diferenças. Ali onde era uma série de desencontros com o outro, magicamente, com uma pessoa específica, tem-se a tão desejada relação sexual: dois significantes se complementam. Os interesses são parecidos, os objetivos comuns. Fisicamente há um alinhamento entre expectativa e realidade. E mesmo quando as programações da vida são diferentes, se estabelece um diálogo em nome de um acordo maior.

Deste modo, o tao do amor não é um princípio da natureza, existindo desde sempre in natura, pois originalmente há apenas o significante em si mesmo. Mas é na linguagem – que incorpora uma dimensão de fantasia – que algo se faz para outro.

E no fundo, não há muita explicação pela qual amamos. Certamente há um motivo, mas ele é inapreensível enquanto estamos apaixonados. Simplesmente há aquilo com aquela pessoa.

O verdadeiro amor é aquele que termina

O amor se pretende eterno. A promessa é que sua felicidade deve durar para fora do tempo. Os dois amantes aspiram a um espírito fusional, o encontro dos opostos, a conciliação dos paradoxos. Deve-se amar e ser amado para sempre.  Mas não é bem assim, porque o amor, como tudo na vida, também acaba.

Após o fim de um romance, sentimos como se nosso mundo desabou. Uma vez que o amor é o que se opõe ao niilismo, caem as nossas defesas contra ele e somos invadidos pela angústia. Sentimos-nos sozinhos, impotentes, pensamos que não possuímos valor ou nunca mais seremos felizes novamente. A inexistência da relação sexual emerge, e nos sentimos abandonados pelo universo.

Isso porque fomos ensinados a acreditar que só o amor verdadeiro dura para sempre. Quem acredita que o amor só é verdadeiro quando eterno interpreta o seu fim como fracasso. Tais pessoas reconhecem valor apenas no que é perene, porque, assim como o amor, querem ser eternos. Desejam desfrutar de uma suposta felicidade absoluta e perpétua, que nada tem a ver com a vida real. Pois a vida é feita de diversos momentos. Ela é um ciclo de mortes e renascimentos, acontecimentos que implicam em transformações. Não somos a mesma pessoa ontem e amanhã, e é natural que nossos desejos, sonhos e amores também se transformem.

Hoje podemos recordar nosso amor da adolescência e rirmos de como ele era ridículo e bobo. Inocente como nós éramos. Mas isto não o torna menos verdadeiro que o atual, ou que todos os demais. Porque a vida é feita de vários amores.

Mesmo quando se permanece com o mesmo parceiro por toda a vida, não há apenas um relacionamento, um amor. São vários relacionamentos, diferentes fases que refletem distintos momentos da vida, que nascem e terminam para dar início a um novo. Um grande relacionamento constitui-se assim de uma história de muitos amores com a mesma pessoa.

Para concluir nosso romance

O amor é sempre um mito, uma história e uma fantasia. Tal como os princípios místicos e orientais, tal como nossos romances particulares. Diante de um universo caótico, o amor funda uma harmonia cosmológica, estabelecendo uma trégua momentânea com o absurdo. O amor é o mais potente criador de mundos.

_________________________________________________________________________________________________________
Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Você pode me encontrar no Facebook ou no YouTube.

Este post tem 10 comentários

  1. Lucas Fiorindo

    Nossa, cara. Que confusão.
    @Teo – Uma vez Lacan respondeu a uma pergunta do Chomsky da seguinte maneira: “Acreditamos pensar com nosso cérebro, quanto a mim, penso com meus pés. É somente aí que encontro algo de duro.”
    Continue andando. Aliás, eu só penso andando. Abs!

    1. Mario

      Nossa, cara. Que confusão.²

  2. bruno

    Até chegou essa conversinha fiada de “genêro”… pra mim a natureza fez homem e mulher, se alguem quer ser algo diferente não será algo natural… nada contra quem é gay, só não me venha dizer q é natural…

  3. raph

    É muito interessante também considerar que existem os assexuados, mesmo que em maior ou menor grau. Chico Xavier, que era um deles, falava com maestria da sexualidade humana, talvez por de fato conseguir contemplá-la totalmente de fora, sem nenhum apego sexual a ninguém, apenas o amor mesmo.

    Em minha família há outro assexuado que convive incrivelmente bem consigo mesmo, não sem as costumeiras pressões de todos os lados. “Quando vai arrumar uma namorada?”; “Será que é gay?”; etc.
    @Teo – Então, acho que o termo assexuado precisa de muito cuidado. Porque se a gente entende sexualidade apenas como duas ou mais pessoas irem para cama, ok. Mas se entendemos o sexo como uma pulsão de gozar da vida em que transar é apenas uma das manifestações da energia que é sexual (mas podia ser artística, filosófica, e por aí vai…), não há quem não goze de algo na vida.

    Aliás, se a gente pensa que sexo é só transar, como vamos falar da tão polêmica (e tabu social) sexualidade infantil?

    De qualquer modo, o exemplo é muito oportuno, Raph, porque mostra que gozar não necessariamente é transar.

  4. Marcela

    Gostei muito deste texto! Parabéns!

  5. Vinícius

    Parabéns pelo texto! Muito bom!

    Na minha opinião, algumas pessoas acharam o texto confuso, pois entendê-lo demanda conhecimentos de linguística, filosofia e psicanálise, que nem todos possuem.

    Adorei a frase que termina em “…o amor cria a ilusão do significante faltante.”; pois rolou uma discussão interessante sobre esse tema na minha última aula de Análise de Discurso.

    Abs
    @Teo – Obrigado, Vinícius. Que bom que o texto foi proveitoso! Apesar do TdC ser um portal aberto ao público geral, às vezes é bom ir além do básico em alguns assuntos. Mas não dá para agradar a todos: ou a dosagem fica superficial demais para alguns, ou avançado demais num assunto para outros. Aos poucos vamos equilibrando isso.
    Grato pelo seu comentário, abs

    1. Lucas

      Perfeitas colocações Vinícius! Reportam exatamente o que eu havia pensado.
      Teo, o texto está excelente, possui uma profundidade significativa e uma base de conhecimento robusto sobre os vários campos já mencionados!
      Abraço.
      @Teo – Obrigado, Lucas!

  6. o Silencioso

    Texto interessante e reflexivo, gosto da sua coluna.

    Corroborando com a explanação a respeito da linguagem.
    Na literatura taoista, muito se fala, o tao que pode ser dito, não é o verdadeiro tao.
    Pois toda linguagem explica-se com ela mesma. Imagens explicando imagens. Um dicionário, nada mais, é um aglomerado de palavras, explicando outras palavras. Um universo se justificando por si mesmo.
    @Teo – Obrigado! Muito boa colocação também. Isto faz paralelo com que Lacan diz de que “não existe metalinguagem”. A dimensão da linguagem é uma só, não tem uma linguagem que explique outra.
    Mais perto do final de sua obra, o Lacan teve uma grande aproximação com o taoismo e o pensamento chinês, embora “oficialmente” pouco falem disso…

  7. Ana Rita

    Achei muito interessante como meu interior ardia em indignação quando li este texto. Ele é realmente bom, não porque é necessariamente verdadeiro, mas porque nos obriga a confrontar com uma visão do mundo que não queremos ver. Tenho muita dificuldade em aceitar que não haja dicotomias, que tudo isso só existe no plano mental. Mas, de facto, não é isso que observamos no dia-a-dia, como você diz.
    Parabéns pelo ótimo texto! Continue desconstruindo perspetivas dessa forma!
    @Teo – Grato, Ana Rita!

  8. Maria do Carmo

    Muito bom o seu texto. Infelizmente, poucas pessoas acham o amor neste mundo. O que vemos a todo momento é o individualismo e o egocentrismo permeando as relações levando não a uma busca de completude em relação ao parceiro , mas de posse .

Deixe uma resposta