Monte Osore, a Montanha do Medo



Há algum tempo atrás, eu comentei sobre as Montanhas Sagradas do Japão e, principalmente, sobre o fato de elas serem consideradas entradas para o Outro Mundo. Várias são as montanhas famosas por lá, como o Monte Hiei e o Monte Koya, mencionadas naquele post, mas nenhuma exerce tamanho fascínio como o Monte Osore. Osorezan, para os japoneses, é a Montanha do Medo, a entrada para o Inferno, onde está localizado o Sai-no-Kawara, o Leito Seco do Rio das Almas, o limbo das Crianças.


Localizado na cidade de Mutsu, na Península de Shimikita, estendendo-se em direção ao norte de Hokkaido, ao norte da Prefeitura de Aomori, Osorezan não é exatamente um monte, mas uma área formada por uma série de picos devido à forte ação vulcânica que lá ocorria. A paisagem, de tão árida e rochosa, lembra a superfície da lua. O cheiro de enxofre é forte, e não há vida no lago formado na cratera do vulcão, de tão venenosas que são suas águas.


O lago, Usoriyama, ainda mantém o nome pelo qual era conhecida a região pela antiga população indígena do local, o Povo Ainu: Usori. Foi apenas mais tarde, com a introdução do budismo do Japão, quando os monges alcançaram o norte, que o nome foi alterado para o idioma japonês: Osorezan.


A região é dirigida pelo Templo Budista Bodaiji de Mutsu, mais conhecido como Templo Bodaiji de Osorezan. Um templo bodaiji é geralmente um templo familiar dedicado aos serviços fúnebres. O patrono do templo é o Bosatsu Jizô, e é por eles organizado o festival Itako Taisai.


Duas vezes por ano, durante o Itako Taisai, Osorezan reúne pessoas vindas de diversas partes para ver a reunião das médiuns conhecidas como itako, mulheres shamans que mantêm ainda o ofício inicialmente desenvolvido pelos antigos Ainu, incorporando os espíritos dos antepassados e transmitindo suas mensagens aos seus familiares através de sua voz mediante a prática do kuchiyose.


Ainda, é em Osorezan onde se encontra o Sanzu-no-Kawa, o Rio das Três Passagens, que conduz os mortos ao Outro Mundo, Este rio é atravessado por uma pequena ponte vermelha, a qual deve ser cruzada por todos aqueles que abandonaram esta vida sete dias após a morte. É o Bosatsu Jizô que auxilia todos na sua travessia, sejam adultos ou crianças.


É nas margens do Sanzu-no-Kawa onde fica o Sai-no-Kawara, o Leito Seco do Rio das Almas, o limbo das Crianças. Por isso, é muito comum encontrar, sobretudo aos pés das estátuas de Jizô, pequenas torres de pedras, empilhadas pelos pais cujos filhos faleceram ainda pequenos. Nas margens do rio é possível ainda encontrar outros tipos de oferendas, como brinquedos e bonecas.


Monte Osore, a Montanha do Medo, o local onde este mundo e o Outro se encontram. O local por onde os espíritos de todos aqueles que faleceram encontram o seu caminho para a próxima vida; o local onde aqueles que permanecem vivos encontram conforto pela partida de seus entes queridos na voz mediúnica das itako.


“O mundo que brilha lá no alto, onde será? Será a terra onde mora o santo Jizô? Amor é encontro, separação, um pedaço de pano surrado.

Este post tem 10 comentários

  1. Manoel

    Olá, gostaria de parabenizar o site por todas as matérias publicas. Mas vim comentar
    sobre outro motivo. Pois bem, achei o Projeto Mayhem pelo site mesmo, vi que precisava mandar um “Histórico” da sua vida e como surgiu sua busca pelas informações ocultas, mandei para o e-mail do Marcelo mas até agora não recebi retorno, gostaria de saber se o Projeto está na ativa e como receber o convite por outro e-mail! Grato e abraços!
    @MDD – Foi mandado convite. Como é algo automático do Ning, as vezes cai na caixa de Spam.Dá uma olhada.

  2. Kpaxx

    Muito interessante.Gostei.

  3. jozu

    esse trecho do shaman king fez valer minha noite =;]
    muito bom
    @Aoi Kuwan – Shaman King é uma obra de arte. Um dos mangás mais repletos de referências orientais…. e ocidentais. 😉

  4. "L"

    Parabéns pelo texto, Aoi. Muito lindo. Me lembrou quando eu jogava Vampiros do Oriente, tamanha beleza até nas coisas “sinistras”. Isso é Oriente. :]
    @Aoi Kuwan – Obrigada! Sim, é tudo muito lindo mesmo 🙂

  5. Herculano

    Na viagem de Chiriro tem essa mesma ponte de travessia né? sem falar que o filme tem outros pontos interessantes, vc poderia falar dele algum dia?
    🙂
    @Aoi Kuwan – Tem sim. Claro, será um prazer 😉

  6. Phillipe

    Excelente matéria, uma sugestão para a próxima : Aokigahara a floresta japonesa dos suicidios.

  7. Gustavo Costa

    e eu achando que o kuchiyose so servia para invocar o gama bunta…esses desenhos realmente fazem sentido, de um jeito simbolico

  8. victor mantovani

    O que seria a tecnica do kuchiyose ?
    Tem um anime de um certo ninja loiro que possui uma tecnica com esse nome.
    Obrigado

  9. érico

    Me surpreende cada vez mais algumas semelhanças deste mundo. Mediuns que incorporam antepassados, as oferendas, o sistema. Acho muito interessante como no Oriente existem essas equivalências a com o sistema de magia africana. Parabéns pelo post.

  10. Lulu

    Obrigada pelo post. Não sabia nada disso.
    Vou visitar o local num próximo verão.

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