Magia: simbolismo e atualidade


Retomando rapidamente o que vimos no último post: alguns estudos das Ciências Humanas têm passado a conceber nossa mente formada simbolicamente, estruturando-se através da linguagem (esta última vista de uma forma mais ampla do que apenas palavras e falas, mas representando toda uma gama de expressões simbólica), onde a mesma linguagem não é um simples veículo de ideias, mas a manifestação das mesmas. O meio social é, por sua vez, composto por diversos discursos de diversas ideologias, ao passo que cada sujeito internaliza alguns dos mesmos, de acordo sempre e em relação com a sua própria subjetividade, fundamentando assim o que ele chama de Verdade.

Entender o funcionamento disso poderá nos dar uma elucidação sobre o que chamamos de Magia. Você provavelmente já escutou algum religioso dizer “as palavras tem poder”, pois de fato elas possuem (ou melhor, não as palavras, mas a própria linguagem). E como referência para esse texto, basear-nos-emos no próprio discurso do escritor Alan Moore em seu documentário The Mindscape of Alan Moore.

Em primeiro lugar, o que é a Magia?
“Magia na sua forma mais antiga é referida como “A arte”. Creio que isto seja completamente literal. Creio que a magia é arte, e que essa arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma é literalmente magia. A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos (palavras ou imagens), para operar mudanças de consciência.
Ao identificar a Magia com o trabalho do artista, Alan Moore desmistifica a ideia de eventos sobrenaturais, igualando-a a uma atividade comum e possível para praticamente qualquer ser humano. Notemos também que todas as atividades citadas pelo escritor são pertencentes a algum campo da Linguagem: seja a manifestação escrita, a sonora ou sob uma forma física, todas elas são “materializações” de ideias. O homem precisa apenas ter a ciência, isto é, o conhecimento dos símbolos e como eles se estruturam para poder utilizá-los. Magia é, portanto, entender a manifestação dos símbolos e utilizá-los para conseguir um determinado objetivo que desejamos. É o entender das regras do jogo para fazê-las funcionar de determinada maneira.

Um pouco mais a frente, veremos como Alan Moore retoma um conceito antigo de Magia para fazer uma articulação como novos saberes e as próprias características do mundo moderno, adaptando-a ao que mais faz sentido para nós atualmente.
“Um grimório, por exemplo, um livro de feitiços, é simplesmente um modo extravagante de falar de gramática. De conjurar um encantamento. É somente encantar, manipular palavras pra mudar a consciência das pessoas. Eu acredito que um artista ou escritor são o mais perto do que você poderia chamar de um xamã do mundo contemporâneo”.

Há aqui uma interessante referência ao xamã, que deve ser digna de comentário. O xamã é alguém capaz de manipular símbolos porque conhece a eficácia dos mesmos, e por este motivo era reconhecido pela sua comunidade. Por exemplo, quando numa tribo um de seus integrantes ficava adoecido, era de responsabilidade do xamã cuidá-lo, e isto se dava dentro do sistema simbólico daquele povo, através de uma medicação psicológica. Essa medicação se desenvolve em cura através de uma história mítica em que o corpo ou os órgãos do doente é o espaço onde essa encenação ocorrerá. Nesse teatro mítico não há distinção do que é realidade ou místico, sendo ambas tidas como verdadeiras tanto pelo curador quanto pelo curado. Dessa forma, o xamã através da ritualística atuava através da eficácia simbólica que desencadeava por fim a cura.

É presunção dizermos a priori que a cura era falsa. Há diversos relatos de antropólogos, desde Malinowski à Lévi-Strauss, que presenciaram supostos milagres desencadeados pelos xamãs. Mesmo que chamemos estes acontecimentos de placebo, é algo que não é passível de ignorarmos. Que as curas mágicas não possuem explicação dentro de uma realidade objetiva não é problema, pois o doente acredita nela e é membro de uma sociedade que também acredita. Espíritos protetores, demônios e outras entidades sobrenaturais fazem parte de uma concepção coerente de universo para algumas pessoas. O que elas não aceitam são as doenças incompreensíveis e dores arbitrárias. Na explicação sobrenatural, crença e realidade se unem numa relação causa-efeito para o doente, e não é somente explicada a suposta causa de seu sofrimento, mas ele também sara. O xamã encarna o papel de mestre em cura, fornecendo uma linguagem acessível a seu povo, provocando a reorganização do sistema fisiológico do seu paciente. Isso constitui um mito que o doente deve viver: o mito individual de superação. O doente não poderia se ver curado se não houvesse realmente uma eficácia neste método.

Alan Moore também coloca esse entendimento em perspectiva para refletir sobre nossa própria sociedade: “Atualmente, quem usa o xamanismo e a magia para dar forma a nossa cultura são os publicitários. Em lugar de despertar as pessoas, o xamanismo é usado como um opiáceo, para tranquilizar as pessoas, para fazê-las mais manipuláveis. A sua caixa mágica, a televisão, com suas palavras mágicas, seus slogans, pode fazer com que todos no país pensem nas mesmas palavras e tenham os mesmos pensamentos banais exatamente no mesmo momento.”

Em outro momento, o escritor passa então a retomar a importância da linguagem:
“Em toda a magia há um componente linguístico incrivelmente grande. A tradição mágica dos bardos os colocava num patamar muito mais elevado que os magos. Enquanto os magos poderiam fazer sua mão se mover de forma engraçada, ou fazer você ter um filho com um pé de pau, um bardo não te amaldiçoaria. Ele faria uma sátira, coisa que poderia te destruir. E se fosse uma sátira inteligente, não te destruiria somente aos olhos de teus colaboradores. Destruiria-te aos olhos de tua própria família, e aos teus próprios olhos. E, se fosse uma sátira finamente elaborada e muito astuta, o bastante para sobreviver e ser recordada durante décadas ou mesmo séculos, então anos depois de tua morte as pessoas ainda leriam e ririam de tua ruína e do teu absurdo. Os escritores e as pessoas que podiam comandar as palavras eram respeitados e temidos como gente que manipulava a magia.”

Alan Moore, não apenas no documentário divulgado aqui, mas em todas as suas entrevistas e palestras, sempre se mostra uma pessoa aberta aos novos conhecimentos, refletindo sobre as interlocuções deles com suas próprias convicções. Esta é a postura exemplar que quero evidenciar. Alan Moore nos faz pensar sobre o futuro ao mesmo tempo em que retoma alguns conhecimentos antigos, como o próprio Paganismo. Essa postura deve ser exemplar ao estudioso do Ocultismo, mas não no sentido de uma mera forma de imitação, pois sabemos como cada um é cada um, e as regras que se aplicam a vida de uma pessoa não são as mesmas que devem ser seguidas pelas outras. Tampouco pretendemos fazer uma hagiografia, elevando Alan Moore a um nível de santo, pois o mesmo compartilha de nossa condição de humano. Digo exemplar no sentido de colocar as nossas próprias práticas em questionamento.

Não podemos ignorar os avanços do conhecimento pelas Ciências Naturais e Humanas numa atitude conservadora seletiva aceitando somente o que é semelhante a nossa crença e se remetendo a conhecimentos mais antigos como se eles fossem únicos detentores de uma verdade. Não que não possa realmente existir algo que deva ser resgatado e estudado do passado, pois este é inclusive uma das propostas do Ocultismo. Mas se existe verdade no passado, também existe verdade no presente.

É preciso ter em mente que o conservador de hoje foi o inovador do passado, e o inovador de hoje será o conservador do futuro. Mais do que tempos bons ou ruins, cada período histórico possui as suas vantagens e desvantagens, dependendo do ponto de quem avalia. Não são muitas pessoas que gostariam de abandonar seus confortáveis apartamentos para viverem em cabanas indígenas. Tampouco um índio abandonaria com facilidade toda a cultura em que cresceu para se deslocar a um grande centro urbano. E não coloco que nenhuma dessas perspectivas seja necessariamente melhor que a outra, pois são apenas distintas produções da espécie humana. Ao fazermos uma avaliação que pretende dizer que um tempo ou sociedade é melhor que outra, estaremos fazendo uma seleção tendenciosa de algumas características que nos são de interesse, pois se formos procurar levar todas as variáveis em consideração, veremos que a situação é sempre complexa demais para reduzirmos algo a simplesmente bom ou ruim.

O mesmo se dá com assuntos como Magia: seja ela Moderna ou Antiga, Xamânica ou Salomônica, Caoísta ou Neopagã. Todas elas se articulam como uma estrutura simbólica, uma linguagem, que faz sentido para a pessoa que se afilia aquela vertente. É importante e extremamente válido para cada pessoa vivenciar o seu processo pessoal. Nenhuma é mais verdadeira que a outra. Apenas uma faz mais sentido para uma pessoa do que a outra.

Alan Moore ao conseguir fazer uma articulação da Magia e do próprio Paganismo com diversos outros saberes, sejam estes científicos, religiosos, antigos ou atuais, consegue reacender a chama da reflexão, colocando nossas práticas em perspectiva. Não estamos aqui dizendo que devemos abandonar o estudo usual do Ocultismo, ou que você deva, por exemplo, abandonar os ritos neopagãos que costuma frequentar por simplesmente representarem correntes antigas. De maneira nenhuma é este o nosso objetivo. O que é preciso evidenciar é a possibilidade de também estar aberto a outras áreas de conhecimento para que elas possam estar enriquecendo a sua própria prática. Não é preciso adotar um cientificismo cego, pois sabemos que a Ciência não é a única detentora da verdade. Pelo contrário, o objetivo é um desenvolvimento de um discurso crítico que mesmo na discordância tenha grande embasamento. Estar aberto ao questionamento provindo de outros conhecimentos que já demonstraram sua validade pode enriquecer a prática de qualquer tradição. E cabe destacar que ao sugerir o enriquecimento de uma prática, não estamos recomendando necessariamente uma alteração das práticas origninais, mas apenas um entendimento mais completo da mesma.

É preciso ter certa humildade para admitir que nosso conhecimento é passível de falha. Mas é essa humildade que pode fazer que ele permaneça vivo, pois algo que não é capaz de se atualizar com a mudança das Eras, é esquecido no girar da Roda do Tempo. O conhecimento que o passado nos oferece é como uma herança, que devemos respeitá-la e agradecer. Mas também se deve saber investi-la para fazê-la retornar em novos lucros, e não apenas guardá-la intocável para perdemos com a desvalorização da moeda ou na próxima crise financeira.

Ademais, o conhecimento muda não porque as pessoas gostam de discutir ou porque as pessoas gostam de simplesmente discordar dos outros. Ele muda porque o sujeito e o objeto de nosso conhecimento, o próprio ser humano, também muda ao longo dos tempos. O homem de hoje não é o mesmo de ontem, e nada seria mais óbvio do que o conhecimento que temos acerca do mesmo também alterar-se. Sem que necessariamente seja algo melhor ou pior, mas apenas algo que esteja reflita melhor aquele determinado tempo histórico.

E antes de dar este texto por findado, é preciso ressaltar que dentro do Teoria da Conspiração, todos os colunistas também tem demonstrado essa postura exemplar. Desde Bruxaria até Taoísmo, passando por Umbanda, Hermetismo, Caminho da Mão Esquerda e a própria Filosofia Espiritualista, entre todas as demais, é visto uma preocupação de construir um pensamento crítico em relação às práticas que chamamos de maneira mais geral de Magia, assim como a mesma pode se articular no contexto atual de nossa sociedade. Quem ganha é o leitor, que encontra uma configuração muito especial e propícia para seu próprio desenvolvimento. E olha que ninguém me pagou nada para dizer isso.
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Igor Teo é escritor e estudante de psicologia
Blog: Artigo 19
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Este post tem 7 comentários

  1. Saulo

    Parabéns pelo texto. Atingir um determinado estado alterado de consciencia e portanto um estado alterado de realidade pessoal, ao meu ver (e não sou grandes coisas para ser levado a sério), é o modo operacional em qualquer sistema místico. O simbolismo é, como nos sonhos, a interface do processo entre a mente e o resto, bem como dela consigo mesma…

  2. raph

    Eu fui descobrir que era mago quando vi esse documentário. Alan Moore pode não ser santo, mas é gênio!

  3. conjurando uma magia pra vc…

    Fodástico! Adorei o texto! =]
    @Teo – Valeu, rs

  4. Qualquer coisa

    Cara, eu tenho uma dúvida: sempre vejo nesse site uma certa padronização da magia(se é que posso falar assim, como leigo). Por exemplo, pega-se a árvore da vida e se aplica a tudo quanto é coisa. Porém, até que ponto isso é válido? Realmente tudo no universo se encaixa nesse “esquema”? Podem me chamar de ateu babaca(embora nem ateu eu seja) mas nesse universo, eu ainda não encontrei algo que seja absoluto(talvez a velocidade da luz?) e queria entender como você pode pegar crenças totalmente distintas, surgidas e inseridas em contextos totalmente distintos, e aplicar o mesmo “esquema mágico” e dar certo.
    @Teo – Cada dia mais eu me confirmo de uma coisa: o problema não é o que falamos, mas o que acham que falamos. rs
    A questão é que não são crenças tão distintas assim. A Árvore da Vida não é um esquema aleatório ou uma verdade absoluta, ela é um esquema gráfico para a representação da ideia de um “ideal de transcedência”, essa última sim que é encontrado em diferentes culturas de diferentes contextos do Ocidente, somente manifestada de diferentes formas. Joseph Campbell desenvolveu um estudo sobre isso baseado nos arquétipos Junguianos e publicou como a Jornada do Herói (algo encontrado na maior parte dos mitos ocidentais e nos filmes que você assiste de Hollywood). O que o Marcelo faz em diversos posts são as representações gráficas dessa ideia e como as mesmas se articulam.
    Não pense que é algo fechado como uma fórmula pronta. Cada cultura tem suas particularidades e suas nuances, que faz com que cada Árvore seja totalmente única e particular em cada situação, embora encontremos tendências comuns. São as esferas da árvore, portanto, que representam as tendências da consciência humana que são parcialmente comuns. A maneira como essas tendências se organizaram é que é algo extremamente subjetivo de pessoa para pessoa, ou de cultura para cultura. Mas como todos nós compartilhamos da mesma natureza, temos similaridades.
    Pense em grupo de aves. De nosso ponto de vista, todas são iguais e obedecem uma mesma natureza. Entretanto, se formos analisar individualmente cada pássaro, veremos que mesmo os animais possuem pequenas diferenciações de comportamento. Isto, no entanto, não nega que existe um comportamento que poderia ser dito “universal” (pelo menos para aquela espécie), embora exista também as idiossincrasias dentro desse universal (que é um universal particular).
    As pessoas costumam tomar posições extremadas quando debatem sobre culturalismo. Alguns generalizam e querem tratar tudo como universal. Outros tratam cada caso como apenas um caso único e particular. Enfim, o que os estudos de psicologia transcultural e antropologia tem comprovado é que existem certas tendências universais que se manifestam de diferentes formas. Isso não nega as tendências universais, e tampouco nega as particularidades.
    E se tudo no Universo se encaixa nesse esquema? Não, claro que não. A Árvore da Vida é uma representação da consciência humana, e por isso só vale para produções humanas. Por fim, não são todas as produções humanas que podem se encaixar na Árvore da Vida, mas somente as que foram criadas para representarem a consciência humana e tocar nesse “ideal de transcendência” que parece comum a diferentes pessoas e diferentes culturas. Essas produções são, por exemplo, a maioria dos filmes Hollywoodianos, as diferentes mitologias ocidentais, e a nossa própria vida (pois nós mesmos também crescemos influenciados por esse ideal, já que somos constantemente bombardeados por essa ideia).
    Vamos a um exemplo: Geburah, a esfera da energia militar, da força e severidade, que acreditamos estar presente em todo ser humano comum. Para os nórdicos, era representada pelo respeitável Thor, enquanto os gregos viam com desconfiança Ares. Perceba como a mesma “energia” é vista de forma diferente pelos diferentes povos.
    Ou então, a dicotomia Hod x Netzach, razão x emoção respectivamente, que também está presente em todo ser humano. Comumente associados a personagens masculinos e femininos, vemos que na série do Harry Potter esta manifestação é invertida (a garota amiga do Harry representa Hod e o garoto representa Netzach).

    1. Vinícius Flávio

      Muito boa resposta.

    2. Luis Henrique

      Essa respota valeu outro post, parabéns!

  5. V. Vitali

    Muito bom. 🙂

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