Interpretação dos Sonhos para Freud e Jung

Sigmund Freud, na primeira das Cinco Lições de Psicanálise, tem como objetivo explicar as perturbações psíquicas e a talking cure, a cura pela conversação, para o público norte-americano quando em ocasião de sua visita aos Estados Unidos. Embora o simples fato de se falar sobre um sintoma ou mesmo descobrir o seu sentido não signifique propriamente a cura, este é um primeiro passo para a questão fundamental: abandonar uma posição onde o sintoma oferece uma satisfação. Mas isto é assunto para outra hora. Comecemos hoje pela base da Interpretação dos Sonhos, livro com que Freud inaugura a Psicanálise, e veremos também qual a opinião de Jung quanto ao mesmo tema.


Segundo a teoria psicanalítica, quando temos uma vivência traumática em nossa vida, esta tende a ser recalcada, isto é, posta para o inconsciente com fins de reduzir o desconforto que seria manter essa experiência na consciência. Entretanto, pelo retorno do recalcado (ideia de que o inconsciente não resiste, mas insiste em aparecer), esta experiência volta à consciência sob a forma de um sintoma. O objetivo inicial da Psicanálise seria fazer o caminho inverso, partindo do sintoma para descobrir a origem que está velada para a consciência no presente. Embora neste momento inicial da teoria a ideia de experiências traumáticas são muito presentes, Freud percebe que nem todo conteúdo recalcado advêm de experiências vividas de fatos, mas em muitos casos de fantasias do próprio sujeito. O recalque seria então, deste modo, fruto de um desejo que se opõe às normas da consciência, isto é, dos valores morais da sociedade e das próprias aspirações da personalidade do sujeito, onde a solução deste conflito entre algo que quer e algo que diz que não se deve querer é uma solução contrária ao desejo, este perturbador à consciência, em favor da coerência do Eu, com o recalque mantendo assim o “inadmissível” no inconsciente.

Freud verifica, a partir de seus casos clínicos, que a finalidade do sonho é dar realidade a esse desejo, pois, já que ele não pode ser realizado na vida de fato, é no onirismo que eles encontrarão uma saída. O sonho é produto do trabalho efetuado pelo aparelho psíquico, onde o conteúdo latente, de ordem inconsciente, se torna consciente, manifesto e acessível ao atravessar a barreira do recalque. No entanto, essa travessia não ocorre sem algumas deformações impostas pela consciência para tornar o conteúdo latente aceitável quando manifesto. O processo de interpretação seria desfazer-se destas deformações para encontrar o sentido do sonho.

No processo de formação do sonho é preciso saber ainda que o consciente pode contribuir com restos e ideias diurnas, coisas que não são necessariamente da ordem inconsciente. Entretanto, dentro da visão freudiana, o consciente não é essencial no trabalho do sonho, uma vez que sua centralidade é um desejo inconsciente. Pode-se advir ainda um questionamento disto: até o pesadelo pode ser considerado um desejo inconsciente? Se algo foi recalcado, é porque não era aceitável ao consciente. Quando esta ideia reaparecer durante o sonho, o conflito ainda existirá, e por isto sensações ruins ainda podem sobrevir, ainda que no fundo estejamos falando de um desejo.

Carl Gustav Jung tomou conhecimento de Freud e suas teorias justamente através da leitura do livro inaugural do primeiro psicanalista, Interpretação dos Sonhos. Jung viu em Freud um companheiro de estudos, e durante muito tempo a relação dos dois foi amigável e produtiva pra ambos, com inclusive o próprio Freud vendo em Jung o seu “príncipe herdeiro”. No entanto, desentendimentos fizeram que eles se separassem mais tarde, pois Jung não aceitava a ênfase da psicanálise nas questões de natureza sexual e Freud não admitia o interesse de Jung em questões espirituais e místicas como método de estudo válido.

Jung defenderá uma visão diferente do inconsciente humano. Para ele, embora exista de fato um inconsciente pessoal fundamentado de conteúdos recalcados, há também um inconsciente coletivo permeado de um simbolismo universal. Enquanto no inconsciente individual residem as nossas experiências recalcadas, no inconsciente coletivo reside um passado não apenas nosso, mas de toda a espécie. Jung chama o inconsciente coletivo de “padrões genéticos comuns a toda humanidade” que acumularam a experiência psíquica de milhões de anos de evolução humana. Enquanto a consciência é responsável por nossos sentimentos de identidade e o inconsciente individual é lar dos Complexos (grupo organizado de experiências), o inconsciente coletivo alicerça toda a personalidade do sujeito. Os arquétipos são as imagens recorrentes do inconsciente coletivo e que se manifestam constantemente na vida de qualquer um de nós, inclusive nos sonhos.

Os sonhos seriam, portanto, uma janela para este inconsciente, podendo as imagens oníricas se comunicarem conosco e transmitirem mensagens e conselhos sobre nós mesmos, sobre os relacionamentos que temos com outras pessoas e sobre situações de nossas vidas, podendo orientar o nosso processo de desenvolvimento pessoal. O sonho não seria um mascaramento, mas a forma mais clara que o inconsciente conseguiu para se manifestar. Apesar de reconhecer os processos de deformação do sonho, estes não se atribuiriam à censura, mas à própria polissemia da imagem. O modelo de interpretação junguiano de sonhos busca não apenas se basear na sua causalidade, mas também na finalidade, se interessando não apenas no “por quê”, mas também no “para quê”.

Ao comparar uma visão com a outra, podemos ficar tentados a escolher aquela que parece “mais verdadeira”. Entretanto, tomar esta como um objeto em si próprio nos fará apenas escolher um dos lados sem entender o que de fato está em jogo.  A diferença principal entre ambos os autores, mais do que apenas diferenças teóricas, é uma diferença na visão de ser humano que fundamentam estas teorias. Em Freud, o ser humano é um ser errante em um mundo vazio de sentido em busca de um objeto que lhe dê completude.  Em Jung, o ser humano é um ser espiritual em um processo de expansão de consciência.

Apesar das diferenças quanto à questão do inconsciente, em ambos os autores há uma abdicação do modelo antigo de interpretação dos sonhos baseado em signos fixos e interpretações imutáveis para todos os sujeitos (como se sempre que alguém sonhasse com dentes alguém próximo fosse morrer ou se alguém sonhasse com cachorro seria um sinal de que este iria sair no jogo do bicho do dia seguinte). A simbologia dos sonhos está subordinada a própria cultura de que se está inserido e às próprias significações pessoais que o sonhador tem com seu sonho. Interpretar é descobrir, através de técnicas específicas de conhecimento de um profissional habilitado, o sentido subjetivo dos símbolos oníricos.

Este post tem 4 comentários

  1. plaz

    Lendo esse texto não pude deixar de lembar de um filme recente de Cronenberg
    chamado “Um Método Perigoso” (A dangerous method) onde é mostrada essa relação entre Freud e Jung… Vale a pena ser visto… Belo texto ….

    1. Alberto Silva

      Assisti ao filme e gostei muito, obrigado pela recomendação.

  2. Mevorach

    Texto muito bom, parabéns. Só acho que não ficou muito claro que o profissional habilitado provê as técnicas para interpretar e finalmente descobrir o sentido dos sonhos, mas quem interpreta e realmente descobre é o próprio sonhador. É isso, não é?
    @Teo – Isso aí!

  3. Interpretação dos Sonhos

    Também lembrei do filme: Um Método Perigoso. Vale muito a pena assisti-lo!

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