Falarei do Mal, mas não serei piegas

Somos confrontados em nossos mais diversos pensamentos, ações e sentimentos quanto ao problema entre o Bem e o Mal. Somos pessoas de bem, que visam fazer o bem. Queremos ser conhecidos pelos nossos ideais. Mas não é bem assim que as coisas acontecem.

Aristóteles, que não era um pensador desatento, se indagou sobre qual seria a finalidade das ações humanas. Esta seria alcançar a felicidade. Segundo o filósofo grego, a felicidade é o Bem. E este não dizia respeito apenas à satisfação individual, mas era um exercício para harmonia da Pólis. O Bem Supremo poderia ser alcançado através do aprimoramento de nossas virtudes morais e intelectuais, conduzindo a uma boa vida não apenas para nós mesmos, mas para todos ao nosso redor. O Bem Supremo não é apenas um bem para mim, e sim um caminho ético que leva a felicidade da comunidade.

Qual o lugar do Mal diante disto? Certamente, diante do sublime Bem, tendemos por naturalizado entender o Mal como tudo aquilo de errado, vil, e até monstruoso. Ou seja, tudo aquilo que nos afasta do ideal de Bem, sendo aquelas atitudes e pensamentos que podem causar sofrimento a mim ou aos outros. Portanto, através do culto ao Bem e das virtudes, o Mal é visto como algo a ser reprimido, controlado, excluído do nosso horizonte ético.

Mas o que usamos para diferenciar o Bem do Mal? Sigmund Freud, o pai da psicanálise, nos responde: o princípio do prazer.

Toda filosofia sobre o Bem, toda moral, todo princípio ético, é um cálculo de prazer. A felicidade como finalidade é dosar quais ações são mais satisfatórias para mim e para os outros. Descobrir aquilo que eu posso fazer que me conduza ao bem-estar, livrando-me do desconforto. Como o amor e a amizade. De modo análogo, isso que me causa prazer não deve causar dano ao outro, pois eu estaria assim lhe privando do seu próprio Bem. Assim se pauta a moral. O Bem Supremo nada mais é do que esse lugar do prazer sublime, máximo, lugar do amor, e onde não há espaço para o Mal e os sofrimentos a mim ou outrem. O ideal de felicidade para todos.

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A sociedade ocidental se estrutura por tal ideal, e, ainda hoje, este nos serve de paradigma ético. A busca da felicidade como um Bem e a eliminação do Mal para nos livrarmos dos sofrimentos. Tal fantasia – como toda fantasia – sustenta-se a partir de um ponto cego do qual reiteradamente precisamos não reconhecer, recalcando-o, para mantê-la funcionando. Trata-se da tarefa eminente falha que é usar o princípio de prazer para diferenciar o Bem do Mal.

É ingênuo imaginar que o mal, o monstruoso, não seja também prazeroso em alguma medida. Mesmo os atos mais malignos da humanidade, em alguma medida, estão associados a algum tipo de prazer que podemos entender por mórbido. Falo aqui das máquinas da morte nazistas no holocausto às torturas da Inquisição durante a Idade Média. Será justo imaginar que aqueles que tomaram a responsabilidade destes atos não estavam minimamente implicados como sujeitos autênticos, em que o ato de causar dano, destruir o inimigo, não causava um bem a si, uma autêntica sensação de prazer?

O problema de usar exemplos tão clichês é fazer parecer que maldade e prazer só estão associados nos tipos psicopatas, extremos que imaginamos nada se relacionarem com nosso cotidiano. Nada mais enganador.

Todos nós estamos envolvidos com os mais diversos tipos de “pequenas maldades”, que não são maiores apenas por nos faltar maior poder. Falo das pequenas intrigas com o vizinho, a inveja do atual relacionamento do ex, as fofocas com os colegas de trabalho, as sabotagens entre os adversários, o orgulho e o excesso de propaganda das conquistas individuais, o egoísmo na divisão de bens com os irmãos, o ódio para com uma ideologia política, as mentiras propagadas intencionalmente, e por aí vai. Uma lista tão grande, que antes de servir de denúncia de como absolutamente todos nós em algum momento da vida já se viu cometendo algum ato maligno, nos serve para demonstrar que não há nada mais humano do que ser mal em alguma medida. Tampouco há razão para espanto ou autocomiseração por causa disto.

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Em outras palavras, quem se diz um “cidadão de bem e da paz”, só o diz por esforço em não reconhecer suas atitudes mais comuns no cotidiano, que se mantém desconhecidas por uma alta dose de hipocrisia.

Se tentarmos associar o Bem ao que causa felicidade, não podemos ignorar que essa é uma métrica precária, já que atos malignos podem ser tão prazerosos quanto. O homem se vê assim condenado a uma ironia trágica parecida com a de Édipo, que tentando evitar matar o pai e desposar a mãe, acabou justamente por cumprir seu destino. Quanto mais se esforça em alcançar o Bem, ser ético, o ser humano deve ser confrontar com o fato de que isto ele não é. Pois guiado por sentimentos comuns, o homem nada tem de moral, e seus pensamentos são geralmente motivados por inveja, ódio, orgulho e egoísmo. Se for buscar a satisfação de suas tendências, a última coisa que será em suas ações é moral. E jamais um Bem Supremo, lugar da felicidade geral, pode ser alcançado, uma vez que na maioria das vezes o que eu e o outro queremos é essencialmente diferente.

Mesmo sentimentos como amor e amizade, empatia pelo próximo, sentimentos que estimamos de forma tão elevada, nunca são inteiramente sublimes. Em nome do amor e da amizade, discriminamos carinhos e atenções especiais a pessoas específicas, que em última análise correspondem aos nossos próprios ideais egoístas de satisfação no amor e na amizade.

Evidentemente, o ideal de Bem e felicidade estão opostos na realidade humana.

Immanuel Kant foi um filósofo prussiano que, diante deste problema, tentou pensar numa alternativa ética. A proposição de Kant é que nossas ações não fossem dirigidas pelo sentimento, como amor, amizade, compaixão, estima. Mas que fossem guiadas por ideais éticos universais, os imperativos categóricos.

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Por exemplo, se você abrigasse em sua casa Anne Frank, e os nazistas batessem na sua porta, você deveria lhes contar que ela estava escondida num compartimento oculto da sua casa. Não importa se você soubesse a verdadeira intenção dos nazistas e a pobre menina fosse para um campo de concentração. Se mentisse para os nazistas, você estaria rompendo com a ética universal, abrindo precedentes para que todo o universo fosse corrompido. E caso os nazistas cometessem algum ato maligno seria de responsabilidade deles, não sua, já que você foi ético e contou a verdade. Fez a sua parte sendo moral.

O pensamento de Kant está em oposição à doutrina utilitarista, que elevou às ultimas conseqüências a ideia de que o Bem deveria ser calculado a partir do prazer. Para os utilitaristas, se você segurasse a alavanca de um trilho aonde um trem vinha em movimento, de um lado da bifurcação houvesse uma pessoa amarrada e do outro houvesse cinco pessoas, e havendo apenas uma dessas duas opções a ser escolhida, você deveria escolher fazer com que o trem atropelasse apenas uma pessoa.  Isto porque o sofrimento dos familiares de cinco pessoas seria maior que o de uma, e, portanto, deveríamos evitá-lo. A menos que essa única pessoa soubesse a cura do câncer, enquanto as outras cinco fossem pessoas ordinárias. Nesse caso, seria melhor salvar a pessoa que pode curar uma doença que afeta milhões de pessoas pelo mundo. Mas você não sabe se uma das cinco pessoas, que atualmente estuda sobre colonização em outros planetas, poderá vir a salvar toda a humanidade de uma catástrofe ambiental no futuro… Ou seja, como todo obsessivo, os utilitaristas geralmente se perdem em cálculos extremamente abstratos e incapazes de serem medidos com precisão. No final, seus atos são tão irracionais quanto querem não parecer.

Por sua vez, a radicalidade de Kant é, no mínimo, chocante. Será que alguém abriria mão de salvar um amigo para moralmente dizer a verdade a qualquer custo? Nem Kant acreditava muito nisso. A questão é que o pensamento kantiano situa a ideia de que há um Bem Supremo, e ele é Universal.

Se a moral kantiana dizia “aja conforme o Bem, custe o que custar, nunca ceda da moralidade”, na França vivia um tal Marquês de Sade, cuja filosofia pode ser resumida como o perverso de Kant. Sade é o oposto de Kant, e ao mesmo tempo o seu igual.

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Se Kant acreditava que o nosso dever era agir sempre moralmente, a despeito de todo prazer, a ética sadiana era de que o sujeito jamais devesse renunciar ao seu gozo. Custe o que custar. Tal como um Imperativo Universal kantiano, o sujeito jamais deve recuar diante daquilo que lhe causa prazer. Seja isso o Bem, seja o Mal. Tudo vale em nome do prazer sadiano, de beijos e carícias às torturas e abusos sexuais. Nem que custe a vida do próximo, nem que a custe a sua própria vida, o seu dever não é nada menos do que gozar ao máximo.

Mais do que uma filosofia do Mal Supremo ou algo do tipo, o que Sade de forma muito inteligente e satírica demonstra é a hipocrisia sobre a qual a sociedade ocidental e o pensamento kantiano se sustentavam. Em seus ideais morais, orientados ao Bem, esconde-se o Mal que todo Bem comporta. E é isto que Sade magistralmente denuncia.

O Direito já nos ensina que gozar é o direito de usufruir dos bens. Um bem, por sua vez, não existe enquanto categoria abstrata e impossível, como Kant idealizava, mas ele só existe enquanto ato contingente na realidade. Por exemplo, o ideal platônico de Verdade nada tem a ver com a demanda de dizer a verdade que nos encontramos no cotidiano. Sabemos que dizer a verdade pode machucar um ente próximo, sabemos que a verdade pode ser feita de mentiras bem contadas, e por aí vai. Não podemos crer que a verdade seja um bem em si mesmo, como pensava Kant, ou uma finalidade da ação humana, como acreditava Aristóteles.

O bem, e os bens do homem, aquilo que o conduz à felicidade, dos nossos encontros amorosos aos bens materiais que usufruímos, só existem no plano imanente da realidade. Não enquanto ideias abstratas e transcendentes. Façamos uma ponte com o amor cortês: a Dama Pura e Sublime, a amada dos sonhos do poeta, só existe na fantasia do caval(h)eiro. Na vida real ela é uma mulher normal, que menstrua, tem TPM, gases, medos, sonhos e também decepções.

Não se usufrui de ideias, mas de bens. É somente assim que se pode gozar, alcançando o prazer e a felicidade. Indicando consequentemente que não há nada mais humano do que a corrupção: é apenas ao corrompermos os bens abstratos em ações reais e controversas que deles podemos gozar. Quem conhece o amor, sabe das contradições que é manter um relacionamento. Quem conhece uma amizade, sabe dos desencontros que toda relação possui. Quem conhece uma meta de vida, sabe todo o percurso espinhoso, e às vezes nem tão belo de se contar, para se alcançar o que desejamos.

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Em suma, o Bem Supremo, lugar que Aristóteles deu para a harmonia e a felicidade geral da comunidade, não apenas é inexistente. Aquele que deseja a felicidade, deve entender que a tristeza virá muitas vezes. Aquele que deseja amar e causar o bem a um parceiro, deve imaginar que não agradará sempre, e por vezes poderá ser um incômodo para este. Quem deseja um filho e lhe dar sempre o melhor, deve saber que por vezes lhe dará o pior de si mesmo por não ter outra opção. E tudo bem, nada mais humano.

Não há lugar para maniqueísmo. Todo ato comporta o seu negativo, que por culto à fantasia de Bem, ideal que queremos fazer de nós mesmos, tendemos a recalcar. Amar alguém é assumir o ódio que por vezes isso comporta. Dedicar-se a uma causa é assumir suas contradições e imperfeições.

Isto é diferente da sátira de Sade, que pregava o gozo a todo o custo. Nada mais danoso a mim e ao outro que ter o gozo por única meta. Sade nos demonstrou isso claramente com seus contos. Mas tampouco somos capazes de guiar nossas vidas apenas por ideais, que, mais do que irreais, nos conduzem ao seu avesso. Quanto mais alguém se esforça para parecer moral, certamente sabemos que esta pessoa não o é. Afinal, não é curioso que movimentos como o nazismo e a Santa Inquisição foram feitos em nome do Bem?

A ética do real só pode ser pensada considerando aquilo que temos de mais humano, não em conceitos e exigências abstratos. Isso inclui a possibilidade de errarmos e acertarmos, perdoarmos e também pedirmos desculpas. Essa é uma ética humana, e ironicamente a verdadeira ética cristã. Esperar qualquer coisa diferente disto fica entre hipocrisia ou exigências descabidas para autocomiseração daquilo que não se pode ser.

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Curta a sua página no facebook.

Este post tem um comentário

  1. Lorenzo V.

    Incrível o modo de articular tais conceitos com os exemplos! Me vi repensando vários aspectos da realidade que estavam puxavam minha atenção há um tempo… Durante a leitura, relembrei duas citações de Nietzsche, do livro Além do bem e do mal, que senti tratarem de ideias semelhantes a alguns paragrafos do texto:

    “Os princípios servem para tiranizar os próprios hábitos, a
    justificá-los, honrá-los, vituperá-los ou escondê-los — dois
    homens de princípios iguais desejam alcançar, provavelmente,
    coisas fundamentalmente diferentes.”

    “O amor por um único ser é uma barbárie: porque acontece em
    detrimento de todos os outros seres. Mesmo o amor de Deus.”

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