Em busca da Teoria do Tudo

» Parte 2 da série “Reflexões sobre a perfeição” ver parte 1 | ver parte 2

Tenho um amigo matemático – Guilherme Tomishiyo – que ousa afirmar que a matemática é mais arte do que ciência. Vejamos seu pensamento acerca do assunto:

“O motivo pra mim da matemática não ser uma ciência, ao menos uma ciência natural – que estuda a natureza –, é que ela não parte de observações da mesma.

Um matemático não analisa um aspecto do mundo natural e tenta traduzir aquilo. Ele parte de axiomas e constrói daí um sistema lógico. Eu diria que ela é o estudo dos padrões. Quem estuda matemática sabe que números são apenas uma parte, a grande maioria dela não está nem um pouco relacionada com isso.

Uma coisa que eu acho estupidamente bela na matemática é o seu aspecto ontológico. Daqui a mil anos, podemos descobrir que Einstein esteve errado, e a sua teoria inteira não passava de um caso particular de uma teoria mais geral (como foi com Newton), mas daqui a 10 mil anos, o Teorema de Pitágoras continuará sendo verdadeiro, assim como todos os teoremas já demonstrados até o momento.

O teor artístico da matemática é inegável. A criatividade – mesmo para conjecturar alguns fatores – é sublime.”

Por muitos e muitos anos a física experimental esteve sempre à frente da física teórica – primeiro a natureza era observada, experimentada, e somente após os cientistas tentavam explicar o mecanismo natural através de suas equações e teorias… Ultimamente, entretanto, isto se inverteu…

Desde a formulação das teorias da relatividade e da mecânica quântica, os físicos vêm tentando unir todas as forças da natureza em uma espécie de Teoria do Tudo. Assim como Maxwell conseguiu unificar a eletricidade e o magnetismo em uma elegante matemática, Einstein e muitos outros gênios científicos vêm tentando unir o eletromagnetismo as forças nucleares (forte e fraca) e a gravidade. Até agora, a única teoria que obteve sucesso considerável foi à teoria das supercordas ou Teoria-M (não me pergunte sobre o que significa o “M”).

Essa teoria postula que os elementos mais fundamentais da matéria não são pontos e/ou partículas, e sim cordas muito, muito pequenas, em eterna vibração… Da amplitude de suas vibrações partículas de maior ou menor massa são criadas, e o universo se trona uma elegante sinfonia cósmica.

O grande problema da Teoria-M, entretanto, é que ela não pode ser testada! Não dispomos da tecnologia necessária para chegar sequer próximo da energia necessária para detectarmos uma supercorda (ou p-brana). Entretanto, físicos de toda a parte do mundo a estudam a décadas, simplesmente porque sua matemática lhes parece bela e simétrica, com a vantagem de que a gravidade se adequou as suas equações desde os primeiros esboços da teoria. Mas, seria esse sentimento de beleza suficiente para garantir a veracidade de uma teoria?

Brian Greene, um dos grandes defensores da Teoria-M, admite que a simetria da natureza atraí certos cientistas:

“Os cientistas descrevem duas propriedades das leis físicas – o fato de que elas não dependem da ocasião (tempo) ou do lugar (espaço) em que foram invocadas – como simetrias da natureza. Com isso eles querem referir-se ao fato de que a natureza trata todos os momentos do tempo e todos os lugares do espaço de forma idêntica – simétrica -, fazendo com que as mesmas leis estejam em operação em todas as partes. O efeito causado por essas simetrias é o mesmo que exercem na música e na arte em geral – o de uma profunda satisfação; eles revelam ordem e coerência no funcionamento da natureza. A elegância, a riqueza, a complexidade e a diversidade dos fenômenos naturais que decorrem de um conjunto simples de leis universais é parte integrante do que os cientistas querem dizer quando empregam o termo "beleza".”

Já o físico brasileiro Marcelo Gleiser recentemente passou a criticar ferozmente esse tipo de “utopia estética” na ciência:

“A noção de que a natureza é perfeita e pode ser decifrada pela aplicação sistemática do método reducionista precisa ser abolida. Muito mais de acordo com as descobertas da ciência moderna é que devemos adotar uma abordagem múltipla, e que junto ao reducionismo precisamos utilizar outros métodos para lidar com sistemas mais complexos. Claro, tudo ainda dentro dos parâmetros das ciências naturais, mas aceitando que a natureza é imperfeita e que a ordem que tanto procuramos é, na verdade, uma expressão da ordem que buscamos em nós mesmos.
 
É bom lembrar que a ciência cria modelos que descrevem a realidade; esses modelos não são a realidade, só nossas representações dela. As "verdades" que tanto admiramos são aproximações do que de fato ocorre. As simetrias jamais são exatas. O surpreendente na natureza não é a sua perfeição, mas o fato de a matéria, após bilhões de anos, ter evoluído a ponto de criar entidades capazes de se questionarem sobre a sua existência.”

Espinosa concluiu que o conceito de perfeição só pode ser aplicado às obras humanas, pois que essas podem já ter terminado… Como os quadros e as esculturas dos grandes artistas da Renascença. Talvez o mesmo possa ser dito dos teoremas matemáticos – que são perfeitos porque já foram terminados… Mas, e o que isso tem a ver com a natureza, com a imensidão cósmica a nossa volta?

Eu disse que muita ciência e/ou muita religião nos aproximam e desvelam a Deus… Mas não seria então um “deus imperfeito”? Um “deus ausente” que irradiou o Cosmos à partir de si mesmo somente para deixar-nos a mercê desse eterno baile de partículas e poeira? Existe algum sentido em todo esse infinito a nossa volta? Onde estará à perfeição prometida pelos profetas, o céu que aguardamos para descansar?

» Isso nós descobriremos a seguir, seguindo pelo caminho do pólen (dentre outros)…

***

Este post tem 6 comentários

  1. Jeferson

    Se existe algum sentido? Daí a importância da ciência cabalística…
    Vale a pena se arriscar e se dedicar ao máximo para um dia, sabe-se lá aonde e quando, atingir Kether e compreender o que aqui não é possível ser compreendido, pois do contrário, acho que não conseguiremos encontrar resposta no que concerne ao sentido disso tudo por aqui.
    Parabéns pelo post. Adoro quanto a temática é mais científica.
    @raph – Ainda que jamais solucionemos todos os mistérios do Cosmos (ao menos enquanto humanos), ainda faz todo o sentido do mundo se dedicar a esta jornada com toda nossa alma. Acho que era Demócrito quem dizia: “prefiro conhecer uma causa do que ser o rei da Pérsia” 🙂

  2. MDC

    Para reflexão:
    eletromagnetismo, força nuclear forte, força nuclear fraca e gravidade = água, fogo, ar e terra = melancólico, colérico, sanguíneo e fleumático
    O texto afirma que a ciencia ainda vem tentando buscar uma teoria que una as quatro grandes forças da física.
    Entendo que as ciências ocultas, há muito tempo, tem a resposta para esta pergunta.

  3. Gabriel

    Gosto da Teoria dos multiversos não só porque ela se assemelha a Kaballah (11 dimensões, 11 esferas, se considerarmos D’aath), mas porque é uma teoria científica panteísta, é o resumo do Todo. E o quem tem o gostar, o importante é a razão, a verdade, me diriam alguns… Não vou dizer que a entendo direito. Não sou um físico, apesar de estudar muito o assunto, pois física e química são estudos que amo. Passei do tempo de acreditar só na razão quando coisas que fogem dela se apresentaram em minha mente e então passei a utilizar as duas para filosofar e “poetar”. Pura intuição, pura loucura, mas que dá certo em sublimes sincronicidades… Claro, racionalizar tudo isso é um ponto de vista que tento fazer, mas ao mesmo tempo deixou de ser importante. Admiro muito quem persegue isso, como os físicos teóricos. Outra coisa engraçada na Kaballah é que mesmo em tiferet a simetria é inexata e só por isso se segue do manifesto ao Inefável.
    @raph – Somente porque a quantidade de matéria e antimatéria não era exatamente igual no início do universo, é que existimos (ao menos fisicamente) 🙂
    Mesmo a beleza de tiferet mostra proporções imperfeitas, no fim das contas e só isso leva a redenção do rendentor. Peço desculpas a quem não me entender, mas tem coisas que não se entende, se sente, se intui e não serei eu, um perdido nos túneis da caverna, que apenas viu um raio de sol, a mostrar a compreensão. Mesmo assim, gostei da parte: “Eu disse que muita ciência e/ou muita religião nos aproximam e desvelam a Deus… Mas não seria então um “deus imperfeito”? Um “deus ausente” que irradiou o Cosmos à partir de si mesmo somente para deixar-nos a mercê desse eterno baile de partículas e poeira? Existe algum sentido em todo esse infinito a nossa volta? Onde estará à perfeição prometida pelos profetas, o céu que aguardamos para descansar?”. Vou falar um pouco disso sobre o que é o segundo termo de uma equação. E meu amigo Raph, sei o quanto é um adepto do “existe algo e não nada”, o que concordo, mas o zero no segundo termo de alguma equação não é um nada no sentido passivo da palavra, pelo contrário, é um zero igual a soma de toda a equação, quando ela encontra a resposta do enigma de si mesma.
    @raph – Sim mas não é deste nada que falo. Na verdade o nada de que falo não pode ser descrito nem conhecido nem sequer imaginado (nem sequer é uma palavras, na realidade). É a ausência total e completa do Uno – e exatamente porque algo existe, sabemos que o nada não existe.
    Adotei seu termo: o reverso do universo, sua origem, é esse o zero e o X da questão; o algo que é zero ou “nada” não porque é nulo, mas porque é “algo”, a potencialidade de Tudo, o repouso, o segundo termo da equação, Inefável, indecifrável e que pode vir a ser qualquer coisa do todo, como um joker, como um Louco, como um zero do tarot, um zero que não é nada, só o algo em si mesmo, capaz de ser qualquer coisa… Não há como conciliar isso em palavras, então, conciliemos em Puro Ser, pois só assim pode haver Verdade, só assim os opostos são um, um meio do Um poder se manifestar no dois. Há o algo como equação, como brinquedo seu (o universo) e há o “algo” Imanifesto, centrado em sua perfeição, o outro lado da equação universal, que pode até ser simbolizado por um zero, mas não por ser nada, mas exatamente pelo contário, por ser só a si mesmo e assim ser qualquer coisa, caso se manifeste no universo, seu reverso… Já senti que falamos da mesma coisa várias vezes e usamos termos totalmente opostos. Espero que sinta o que eu quis dizer, pois só assim compreenderá a metáfora do zero “filosófico” das equações, que não é um zero matemático, mas Kabalístico, que nem é um zero, só o Tudo Imanifesto. Apesar de usarmos palavras tão distantes e opostas, a cada dia creio mais que falamos da mesma coisa… rsrs… Só espero não confundir ninguém com este comentário… Abraços!
    @raph – Já nos foi prometido que todos os paradoxos seriam reconciliados. E, pela lógica, realmente foram: existe algo, o Uno, a “substância que não poderia criar a si mesma, incriada”, e para esta, e talvez SOMENTE para esta, não há oposto, nunca houve e nunca haverá. Todos os paradoxos estão reconciliados no Uno desde o início até o fim, pela eternidade e o infinito: basta ter olhos para ver.
    Obrigado pelo excelente comentário, o que me permitiu explicar melhor o que quis dizer sobre nada, e sobre Tudo! Abs.

  4. AD&D

    Belo texto.. muito interessante o pensamento do Espinosa que perfeição só pode ser um conceito de obras acabadas (como exemplo as obras artísticas humanas).
    Mas podemos considerar “perfeição” justamente o oposto, a constante (e perpétua) evolução, característica da natureza por exemplo.
    Abraço
    @raph – Obrigado. É isso, acredito que tenhamos 2 tipos de “perfeição”: a humana, que atende pela realização da grande obra de um artista (e falo artista no sentido amplo), e a da Natureza, que é uma eterno “vir a ser”, e está, dessa forma, “ancorada” na Eternidade.

  5. Aids na seringa

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  6. Carlos Roberto

    somos cápsulas de nós mesmos na impermanência.

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