Despertar para o Real


Você precisa encarar a realidade. Talvez você já tenha ouvido essa frase, talvez não. Talvez já tenha dito isso para alguma pessoa. Alguém que parecia ter ideias absurdas e pouco condizentes com a percepção daquelas que estavam ao redor teve consequentemente chamada a sua atenção sendo dito “você precisa encarar a realidade”. Entretanto, uma coisa é encarar a realidade, outra é encarar o Real.

Aqui faremos a distinção de dois planos distintos: o Simbólico e o Real. O Real é o plano da falta de sentido, sendo constituinte dele os próprios objetos do mundo em si mesmos. É o objeto  que está inominável porque não se apresentou para uma consciência. A partir do momento que este objeto vem à consciência, ele recebe uma referência simbólica, ganha um nome, um propósito, um sentido de existir. Por sua vez, é o plano Simbólico que deve dar significado ao que existe, sendo este último, portanto, o plano dos múltiplos sentidos.

O que chamamos no senso comum de realidade não é propriamente uma referência ao Real enquanto tal. Se quisermos ser mais precisos, podemos dizer que o que comumente chamamos de realidade, e criticamos quando alguém parece fugir dela, é um sistema simbólico coletivo, enquanto o Real é precisamente aquilo que escapa à realidade, isto é, o impossível de ser simbolicamente representado. Quando alguém em simples senso comum diz que outra pessoa não está vendo a realidade, ela está dizendo que aquela pessoa não está compartilhando desse mesmo sistema simbólico que ela é integrante. A realidade é, no fundo, uma grande fantasia constituída por símbolos compartilhados, que mediatizam o encontro do sujeito com o que é inacessível para ele de forma direta, isto é, o Real. Todo contato do sujeito com o semelhante e o mundo é sempre mediatizado por essa barreira. O Real seria a realidade objetiva e universal perdida, nua e carente de significação, o que é próprio da objetividade em si mesma. O Simbólico, por sua vez, é a própria linguagem, a cultura e toda produção tipicamente humana, não encontrada em outras espécies, que abarca o Real para dar-lhe significação.

Então espere! Você está dizendo que o ser humano vive dentro de uma trama simbólica de significados culturais, marcado pela subjetividade, e que a mesma impede o contato direto  com o Real, isto é, a própria realidade objetiva?
Sim. O Real é a realidade objetiva e perdida, pois enquanto o ser humano está no plano do Simbólico, isto é, da linguagem e das mediações culturais, ele sempre se relacionará com ela a partir de sua subjetividade.
Ah, mas então você está me dizendo que cada ser humano vive sua própria fantasia e que somos todos loucos! Não há acesso ao Real?
Quase, mas não apenas isso. Não podemos esquecer que somos seres sociais, e que os próprios significados e percepções são muitas vezes socialmente construídos, e não erigidas individualmente. Não são subjetividades em si próprias, mas intersubjetividades. Sempre há a troca de valores com o social.
Quanto ao acesso ao Real, a Ciência sempre tem buscado isso, embora nunca consiga alcançar, pois o próprio muro que a subjetividade constitui impede essa passagem. Mas não que esse muro seja, de fato, intransponível, pois muitas vezes ele cede, e o Real invade o Simbólico. Isto é precisamente o trauma: a invasão do não simbolizado dentro do campo simbólico. Explicarei melhor.

Se o Simbólico constrói uma fantasia para lhe servir de tela protetora, cada sujeito acaba vivendo dentro de sua própria fantasia pessoal, que de algum modo está sempre ligada à fantasia coletiva chamada realidade. Por este motivo é tão difícil fazer alguém pensar diferente quando está obcecado pela sua própria fantasia, pois a fantasia constitui a realidade psíquica para cada sujeito, sendo igualmente uma defensiva ao traumático. É uma base segura, e quando desconstruída de forma abrupta, tem suas estruturas psíquicas abaladas. Isso seria o trauma.

Mas o que tem o Real de tão traumático?
O Real é o plano do sem sentido. Uma vez que o sentido é dado pelo Simbólico, o Real seria a “realidade crua”, o objeto em si, sem nenhuma significação. É o próprio niilismo. O próprio vazio existencial. Podemos tentar simbolizar (isso soa contraditório, eu sei) pela própria Morte. Não a morte física em stricto sensu, mas a Morte como a própria não existência. Diferenciarei as duas utilizando letra minúscula para o primeiro, e maiúsculo para o significado existencial. A estrutura psíquica do ser humano não está preparada para a Morte, pois  sendo esta uma estrutura Simbólica, ela não está preparada para contato com o Real. Sempre que algo que a estrutura psíquica de um sujeito é incapaz de simbolizar surge, a estrutura sofre um choque. Nisso consiste o traumático. A incapacidade de lidar simbolicamente de forma eficaz com o ocorrido é desencadeadora do sofrimento.

As religiões são construções simbólicas que visam erigir uma grande fantasia, comum a muitos indivíduos, que seja forte o suficiente para abafar o Real. A própria promessa de vida após a morte, comum a muitas religiões, deriva disto. É da religião o dever de vencer a Morte, dar sentido ao sem sentido.

Entretanto, o Budismo é uma religião que foge a essa lógica, e eu acredito que por este motivo ele é tão singular. Afinal, qual a meta do budista? O Nirvana, uma palavra sânscrita que significa apagamento, extinção. Em geral, esse termo serve para designar a extinção do desejo humano, o aniquilamento da individualidade que se funde na alma coletiva, um estado de quietude e felicidade perfeita. Vemos que o Budismo visa justamente encarar o que todos não querem ver: a Morte.

A própria história de Sidharta, o Buda (o Desperto!), é um excelente ensinamento. Profetizado como o futuro rei do mundo ou seu redentor, seu pai procurou excluir de sua vida tudo o que poderia lhe revelar a senilidade, a dor ou a morte. Ou seja, tudo que é da ordem do trauma.  Crescido em um ambiente de grande felicidade, Sidharta resolve ultrapassar os limites que lhe foram impostos pela fantasia, e atravessar os muros de seu palácio (do Simbólico?), se deparando com a velhice, a doença e a morte. Sidharta foi protegido do Real de todos os modos, mas igualmente buscou a ele. Esta é uma ótima metáfora da própria existência de cada ser humano.
Porém, não creio que o caminho de todos deva ser de nos tornarmos Budas. O que foi da vida de Sidharta cabe unicamente a ele e aos que desejam segui-lo.

O que podemos extrair é que se a vida simbólica, típica da espécie humana,  permite o acesso da criança ao mundo cultural, ela é também uma prisão. Fugindo da história contada no Mito da Caverna de Platão que faz uma diferenciação infantil entre despertos e adormecidos, vemos que há na própria constituição de cada sujeito a sua alienação. Todos estão alienados, uma vez que essa alienação acontece a partir do momento que a criança abandona o Real para entrar no Simbólico. Ou seja, a partir do momento que ela é humana. Porém, nossa história não acaba assim. Não cabe aqui final trágico, mas sim o esforço de trazer a possibilidade de construção de novos sentidos para a existência humana.

A maioria de nós vive a vida em certa homeostase psíquica mais ou menos estabelecida, quando, de repente, alguma coisa terrível acontece. Surge uma doença grave, uma separação amorosa, uma grande baixa na carreira profissional, ou qualquer outra coisa que seja da ordem do traumático, do difícil de lidar. O que acontece neste momento? Perdemos a homeostase psíquica, a fantasia em que vivíamos é abalada, quando não rompida. Quando isto ocorre, o que resta fazermos? É preciso recompor a homeostase através de uma nova articulação. Destituindo de nossos falsos ancoramentos simbólicos, podemos esvaziar a significação patológica de nossas vidas para podermos construir um novo acesso ao Real. É preciso um Despertar para sair desse sonho que agora se faz angustiante. Não aquele despertar infantil platônico que serve apenas para que as pessoas apontem o dedo uns aos outros, chamando uns aos outros de “alienados” e disputando para saber quem está mais “acordado”.
É na verdade um Despertar pessoal e relativo a cada sujeito, sendo que as regras do despertar individual  só podem ser aplicadas àquele próprio desperto, e não constituem modelos universais. É o desvencilhar de cada um para encarar o Real e dizer: “Eu estou pronto para mais um dia de luta. Mostre-me o que você tem hoje para mim”.

Bibliografia indicada:
A quem gosta do assunto aqui abordado, eu indico para aprofundamento os volumes da obra “Fundamentos da Psicanálise: de Freud a Lacan”, de Marco Antonio Coutinho Jorge.

Este post tem 13 comentários

  1. Vinícius Pedro

    santa sincronicidade. estava lendo sobre a não existência do “Eu” e a impermanência das coisas no budismo.
    pra falar a verdade comecei a ler de verdade sobre o budismo hoje, ainda estou meio impressionado com a identificação que estou tendo com essa doutrina.

  2. Thamy

    Se tem algo que adimito neste site é a série de Teorias da conspiração. chego a me questionar verdadeiramente sobre o que vocês colocam aqui… Muito bom mesmo… Leva a gente a pensar.

  3. Maitreya

    O Planeta Terra tá precisando de uma nova manifestação avatárica com software atualizado; pois todos os “ismos” disponíveis já cumpriram seu papel e precisam de um upgrade urgente.
    Precisamos de uma “Boa Nova” ou um “Neo” pra dar uma agitada na “Matrix” Terra – Sistema Solar – Via Láctea – Universo(s).

    1. Gabriel

      Acho que o que o planeta precisa, amigo Maitreya, é que cada um perceba que é o Avatar de si próprio, da essência divina nele (chame isso de Adonai/SAG/o Jesus no seu coração, o Buda em você…). Os “ismos” não dão certo porque cada ser é único, como cada caminho pessoal é único. Quando alguém encontra sua essência divina e brilha, como os antigos avatares fizeram, ao invés de aprender com eles como fizeram para brilhar, passamos a adorá-los. Amarramos o caminho deles em cascas de dogmas, mas os conceitos eram para eles e para os caminhos deles… Se aprende com exemplos para fazermos o melhor do nosso jeito e não para sermos cópias dos exemplos que tivemos. Não estamos aqui como perdidos em busca de um Avatar, nem como um Avatar “Salvador do Mundo”. Quando cada um entender que estamos aqui como Avatares e Salvadores de nós mesmos e fizer do seu caminho o melhor possível, estará fazendo o caminho dos que estão a sua volta melhor também, pois não há luz que não ilumine os arredores só por existir (independente de qualquer cor que apresente). Sem novos “ismos”, sem novos dogmas. Cada um criando seu próprio destino, experimentando o contato com o Absoluto através de tudo e se expandindo em tudo, se projetando em tudo como tudo nele está projetado. É nossa hora de fazer o upgrade… Prontos ou não, mesmo sem saber, já começamos… Abraços

      1. Paulo José

        Se o tudo está projetado; então ele não existe.
        Não é real, é ilusório.
        Então como despertar para o Real no meio do Ilusório ?
        Pelo Avatara.
        Que é o representante do nada onde o tudo está projetado.
        E daí se o upgrade do software for um novo “ismo”.
        Com ou sem dogma ele vai ser útil, vai ser mais atualizado do que os antigos “ismos”.
        E cada Avatara que se manifesta é um véu a menos dentro da LILÂ: “Desvelando o Absoluto”.
        Cada ser não é único, cada caminho não é pessoal.
        Não existe separatividade.
        Tudo é Absoluto.
        A separatividade só existe para aqueles que dizem: “você precisa encarar a realidade”.
        Para aqueles que confudem a projeção com o projetor.
        E o Avatara sendo o representante do Absoluto funciona como bússola, apontando o caminho a ser seguido.
        Colocando a humanidade de volta no eixo; compensando o desvio de rota frequente, dos seres ilusórios humanos.

        1. Gabriel

          Não concordo, mas aceito bem e defendo seu direito de pensar assim. Penso que cada ponto de um círculo é único e individual, apesar de ser uma manifestação do próprio círculo, como cada célula é unica e individual em um corpo, apesar de toda célula ter em seu DNA o design do organismo inteiro, algo como os famosos fractais. O problema que vejo com a espera dos Avatares é que tiramos toda a nossa responsabilidade e jogamos em outro, como o fazem muitos cristãos. Ao invés de fazer o Cristo viver nele, ele vive uma adoração externa de Cristo, numa eterna busca externa. E vc chegou num ponto interessante do problema: se tudo está projetado, então ele não existe. Nós não vemos, tocamos, vivemos nada que não seja nossa projeção sobre o que existe, sobre nosso contato com o “algo ” e mesmo o nosso conceito de nós é apenas uma projeção do que somos. O unico algo que foge da ilusão é o próprio Absoluto, só que qualquer manifestação do Absoluto requer dualidade, é uma ilusão do Real, uma projeção. Achei até nossos pensamentos parecidos. A única diferença perceptível foi que defendi que o Avatar deve ser esperado como uma manifestação interna e vc o defendeu como um ser diferenciado, um Messias externo, mas no fim, há interno e externo? Há projeção e projetor ou a projeção é apenas uma projeção do próprio projetor, do Absoluto na multiplicidade de si, visto em partes? São boas questoes para refletirmos… abraços.

  4. flasHQ

    “Porém, não creio que o caminho de todos deva ser de nos tornarmos Budas.”
    Nesta afirmativa, você diz que não é necessário todos se basear na busca deste desperto especifico para se despertar ou que é possível em nenhum momento da existência total a pessoa querendo ou não não chegar a despertar?
    @Teo – Que não é necessário ser especificamente Buda.
    Não seria o caminho natural de todo individuo em algum momento despertar destas várias formas de ilusão (se considerarmos claro a possibilidade de que o espirito jamais apaga)?
    @Teo – Sim, mas o caminho natural de uma pessoa seria exatamente igual para outra? Por exemplo, supomos que marquemos de nos encontrarmos em Copacabana, no Rio de Janeiro. Eu saio da praça XV para chegar lá, enquanto você sai de Botafogo. Quando nos encontrarmos, teremos pecorridos caminhos diferentes, mas chegaremos no mesmo lugar… ou será que este é realmente o mesmo lugar para nós dois? Nós podemos nos encontrar até no mesmo lugar geográfico, mas ele se constituiu de formas diferentes para nós, de forma que a própria visão que temos é relativo a soma de experiência que tivemos ao longo da caminho. Se for por volta das 17 horas, eu chegarei provavelmente bem aborrecido em Copacabana, chingando aquele bairro, mas você saindo de Botafogo e indo pela praia talvez chegue bem tranquilo e ache aquele lugar muito agradável. Dessa forma, cabe questionar: dois caminhos diferentes podem levar ao mesmo lugar?
    Independente de seguir, estudar, crer ou se quer conhecer Buda, ele no final não é um modelo comum para todos se considerarmos a pluralidade das existências mesmo que isto não implique que ele seja se quer o melhor dos modelos ou sequer um modelo a ser seguido, não um modelo mas um exemplo de amostragem se afastarmos/extrapolarmos a visão de um todo espiritual e não de existências carnais especificas?
    me desculpe se o fato de considerar a imortalidade do espirito e a pluralidade de experiencias não couber a esta coluna, mas é que eu de fato não estou familiarizada com ela, mas achei a exposição quanto a realidade deveras interessante e posso ter me confundido em algum ponto na citação do Buda.
    @Teo – Entendo. Particularmente, eu acho indiferente a questão da imortalidade da alma ou mesmo da reencarnação. Ela não interfere na questão pragmática dos problemas filosóficos do cotidiano rs

    1. flasHQ

      sem considerar a possibilidade de continuidade ou reinicio, realmente Buda passa a ser apenas a história de um alguém interessante e não um caminho natural a todos, uma vez que é impossível reviver a vida (experiencia) de alguém, então ele deixa de ser um exemplo de humano que atingiu o natural estado de se libertar da ilusão e passa a ser alguém fantástico que conseguiu algo que muito poucos conseguem ainda mais levando em conta que ele construiu seu caminho por si (mesmo tendo alguma influencia) e não seguiu alguém como os seguidores de Buda que possuem um modelo e mesmo assim, imagino, que muitos poucos chegam a estado semelhante de compreensão ou despertar.
      Enfim ele passaria de exemplo do caminho da humanidade para apenas uma possibilidade de despertamento.
      @Teo – Isso é “apenas”? rs
      Agora eu me pergunto, se é realmente irrelevante esta possibilidade especificamente para mim, uma vez que todo um desencadeamento de situações e visões passaram a existir após compreender esta possibilidade, mesmo entendendo que no final, se não for, o caminho em si já foi satisfatório, e mesmo não tendo uma necessidade especifica de rejeitar toda a gama de sinais e exercícios que me levaram a esta visão, se ainda assim sem esta possibilidade todos os ensinamentos, posturas e mudanças ainda fariam sentido e seriam coisas naturais do ser, não necessariamente associadas a esta postura de entendimento. Neste momento entendo que qualquer um poderia ter certas posturas que eu tenho sem ter passado por este entendimento, possivelmente até bem melhores sem as considerar em momento algum, mas foi através deste entendimento que passei a considerar estas posturas e muito dificilmente eu chegaria a elas sem jamais ter este entendimento, e mesmo que agora pensando entenda que seja natural do ser e não inerente de uma linha, este “despertar” em minha experiencia particular se deve completamente a ela,m embora entenda que existam outros caminhos para obter-las, dificilmente eu espontaneamente teria seguido estes outros possíveis caminhos, e mesmo que estas posturas se mostrem mais fortes do que o entendimento em si e o entendimento possa ser até descartado sem influenciar no abandono destas posturas positivas no meu “viver cotidiano”. Por fim creio que a conclusão seria, estou aberto a uma possibilidade diferente, mas hoje esta é a que mais me influenciou e me satisfez, embora saiba que ela não é necessariamente exatamente como imagino, espero que ela seja uma amostragem mais próxima de uma verdade sem ilusões, embora no final eu terei que passar pelo quer que for a verdade final de forma passiva. A todo momento este entendimento influencia nas minhas ações e entendimento do mundo, é um esforço grande tentar entender que a postura pode e é a mesma independente do que se entende desde que se queira fazer o melhor para o todo tendo como consequência o melhor para o individuo, uma consequência espontânea e não um desejo de se fazer para o todo para ter algum beneficio especifico, em teoria poderia suprimir este entendimento por ser irrelevante para a postura do individuo, mas na prática me parece pelo menos por hora impossível ignorar todas as regressões e comunicações, pressentimentos e intuições como indícios desta possibilidade que influenciaram nesta postura de vida atual, logo, mesmo que teoricamente poderia ser irrelevante, na pratica pra mim especificamente é parte de uma base importante e muito influenciadora, nada irrelevante na construção de minha individualidade. Por fim quero dizer que embora entenda que esta possibilidade possa ser irrelevante a outros, hoje ela é imprecendivel para mim pois embora ela de fato não vá mudar consistentemente nada no sentido de mudar meus valores e caminho, ela influenciou em demasia esta busca e seus sinais são tão coerente e consistente para mim que realmente eu considero sempre esta possibilidade em cada entendimento do cotidiano. Hoje não consigo viver uma vida separada deste entendimento mesmo considerando que ele seja só uma interpretação equivocada ou ilusão, acaba sendo o alicerce para como construo e entendo tudo em minha volta.
      @Teo – Entendo. Acho bem relevante o que você disse. O que eu quis passar com a questão da imortalidade da alma e sucessão de vidas não ser tão relevante ao pensar nos problemas filosóficos é que isso está no campo da crença (que sem dúvida norteia o modo de nos relacionarmos com o mundo e com as outras pessoas) e não no campo da ética.
      Por exemplo, pena de morte. Alguém que acredita em reencarnação pode defender a pena de morte? Muitos dirão que não, porque a morte não seria o fim da vida e toda aquela história de estar jogando um problema para o futuro. Mas igualmente conheço pessoas que acreditam em reencarnação e defendem a pena de morte em certas ocasiões baseados em um pensamento utilitarista de gerenciamento social. A questão ética na situação transpassa a isso por um motivo simples: crenças são maleáveis. Usando os termos que empreguei no texto: uma fantasia (diga-se de passagem, fantasia NÃO é sinônimo de erro) pode ser sustentada mesmo em face de contradições para não ter suas bases abaladas e emergir um trauma. Por isto a pena de morte deve ser discutido de maneira secular. E por isto também que acho indiferente a crença de meus leitores se formos pensar nos problemas pragmáticos de nossa filosofia. Na verdade, eu acho um incentivo que os leitores apresentem crenças das mais diferentes, porque essa pluralidade de visões pode ser muito enriquecedora, permitindo que o campo da crença possa discutir o campo da ética, embora a segunda exista além da primeira.

      Trabalhar o desapego e a evolução do entendimento contínuo considerando uma única existência limitada a poucas décadas, embora hoje veja que é um belo caminho independente do tamanho do caminho, não chegaria a isto sem a compreensão do efémero e passageiro em relação a uma existência muito maior, embora seja confortável hoje ambas as possibilidades.
      Divido minha vida em duas, e agora me pergunto se é possível uma terceira fase.
      tempo 1: vivia sem filosofia ou religião, insatisfatório
      tempo 2: entendimento de uma realidade espiritual maior que a realidade material efêmera, muito satisfatório
      tempo 3: será possível ter a mesma satisfação só considerando como o cotidiano reage as escolhas sem considerar qualquer realidade além das dos sentidos comuns? E como ignorar os demais sentidos e influencias? É necessária esta tentativa ou a relutância de não querer aceitar vivenciar esta possibilidade não é um apego a um estado confortável de ilusão?
      No final, o que seria mais saudável? Quebrar com tudo e recomeçar do zero, e ver pra onde este caminho vai levar e se existe mesmo um caminho verdadeiro, mais cedo ou mais tarde ele há de cegar lá, mesmo que a resposta me leve de volta a um caminho antigo, a qualidade de compreensão poderá estar melhor ou me leve a um conhecimento muito maior que o apego a fantasia de uma resposta satisfatória possa estar me encobrindo.
      Preciso pensar profundamento sobre isto tudo!

  5. O Silêncio do Nada

    {Jnana Yoga – Advaita Vedanta – Shankara}
    O “niilismo hindu”.
    Uma poderosa ferramenta capaz de conduzi-lo:
    – Do Ilusório para o Real, das Trevas à Luz, da Morte à Imortalidade.

  6. Alan ramos

    Gostei muito do texto, da forma como você estruturou as idéias e a clareza na sua exposição.Obrigado!!!

  7. Dialuana

    Ótimo texto! Valeu!

  8. Daniel

    Otimo texto!!! Existe tambem uma certa analogia entre seu texto e a Escola do Quarto Caminho de Gurdjieff, sugiro as pessoas interessada a darem uma pesquisada nesse tema que vai bem de encontro ao seu texto
    Obrigado

  9. Katiuscia

    Excelente texto! Obrigada.

Deixe uma resposta