Contextualizando os Textos Mágicos Clássicos e Antigos

Por Kayque Girão

A crítica mais comum ao tradicionalismo mágico proveniente da magia dos séculos XVII e XVIII diz respeito a interpretação, viabilidade e funcionalidade dos textos mágicos. O caro leitor certamente já deve ter lido ou ouvido alguma opinião desse tipo, o que revela muitas vezes um grande desconhecimento baseado no senso comum acerca da a tradição clássica que o tempo todo procura se renovar e, principalmente, se reinventar diante das diversas circunstâncias temporais, políticas, religiosas e étnicas. Mas antes de partirmos para o assunto principal se faz necessário antes compreender o que são exatamente esses textos e manuscritos antigos.

O que são Grimórios?

Grimórios são textos antigos, copiados à mão, com fórmulas mágicas para os mais diversos fins, da consagração talismânica a conjuração infernal. Receberam esse nome a partir da palavra “grimoar” por se assemelharem a “gramática”, uma disciplina que envolve linguagem e nomes, aspectos principais desses textos místicos e fantásticos.

Os mais antigos textos com “voces magiae” – os assim chamados “nomes bárbaros de evocação” – documentados até então remontam da Antiguidade tardia, durante os períodos de helenização de parte da Europa assim como do fenômeno de cristianização a que passavam esses povos com a influência romana até a queda do Império com a cisão entre o Ocidente católico e o Oriente ortodoxo bizantino.

Então textos comuns como “Higromanteia” (termo ligado a “clarividência pela água” ou por superfícies refletoras) e uma coletânea esparsa do que ficou conhecido como “Papiros Mágicos Greco-Egípcios” (conhecida mais pela sigla “PGM” entre os estudiosos) foram cooptados pelo clero como resquícios do antigo paganismo clássico e da influência tardia da escrita, que ia do antigo cóptico, aramaico e hebraico arcaico. Esses textos possuíam fórmulas místicas e mágicas de consecução espiritual que não eram reconhecidos por nenhuma religião hegemônica, estando ligado a praticantes marginais à Civilização de então.

Com a expansão cristã e o fenômeno de conversão dos povos pagãos por sobre a Europa, esses textos ficaram restritos ao controle religioso do clero quando não eram destruídos pelo fundamentalismo religioso. Alguns integrantes religiosos foram pagãos convertidos ou religiosos muito estudiosos que conseguiram perpetuar seus textos e copiá-los para outras bibliotecas a fim de servirem de estudo por parte da própria Igreja (o leitor iria se surpreender bastante com o quanto o clero ainda hoje sabe mais de magia).

Então, como não poderia deixar de ocorrer, alguns desses religiosos também incorreram no risco da prática clandestina desses textos pagãos impondo sobre eles a influência litúrgica cristã sem quebrarem diretamente as regras clericais de sua classe, por mais heréticas que parecessem aos olhos da hierarquia religiosa temporal.

Sendo assim, isso explica o anonimato de grande parte dos textos atribuídos ao mítico “Salomão” e tantos outros magos desconhecidos e de origens bíblicas ou egípcias, bem como da limitação textual dos procedimentos descritos nos textos referidos, dado que em sua grande parte foram escritos, copiados e mantidos por padres, rabinos e monges que tinham noções básicas de liturgia, o que deixavam escrito nos textos apenas o essencial a ser praticado.

Se um desses livros fosse pego por alguma autoridade ao revistar um praticante, o mesmo ainda poderia tentar “escapar” sob o argumento de que se tratavam somente de textos de orações, tão comuns da época por devotos. Basta observar essa semelhança de textos como “Liturgia Diária” para com “Liber Juratus” (o “Livro Jurado” atribuído ao Papa Honório, um dos textos mais antigos textos da tradição salomônica, datado de meados do Séc. XIV) : ambos são textos predominantemente organizados com orações.

Grimórios podem ser adaptados?

Antes de responder essa pergunta, temos de entender o contexto do qual os grimórios foram escritos. Eles são resultado inquestionável de um determinado pensamento sobre um determinado período em uma determinada localidade.

Sendo assim, quem os escreveu e os perpetuou foram religiosos ou estudiosos, mas ambos ligados a centros de conhecimento vinculados ao poder da Igreja. O maior de seus mecenas intelectuais fora o próprio Abade Johanes Trithemius (1462-1516), que administrava a maior biblioteca hermética de seu tempo, servindo de ponto de encontro para estudiosos como Marcílio Ficino (1433-1499) e Cornelius Agrippa (1486-1535), autor dos “Três Livros de Filosofia Oculta”, o maior compilado de conhecimento hermético disponível na época.

Então pode ser percebida três camadas de influência desses textos:

1ª Camada: a influência pagã com entidades celestes e telúricas, provenientes em grande parte do paganismo tardio e da goécia mais arcaica;

2ª Camada: a influência religiosa cristã, com a inserção de elementos litúrgicos dentro da ritualística mágica dos textos, com recomendações de purificação e até de orações, quase todos esses procedimentos tento intertextualidade direta com textos sacros, como a Bíblia e a Liturgia das Horas;

3ª Camada: A influência acadêmica escolástica e hermética, que tentou reorganizar esse conhecimento e justificá-lo sob a chancela cristã em detrimento da “magia natural” pagã, como que legitimados pela autoridade religiosa e mágica de Cristo. Grande parte dos hermetistas do período assim se posicionaram para organizarem a sua “prisca theologia”;

Também não deixamos de mencionar uma influência contínua da cultura judaica e rabínica sobre os referidos textos, com procedimentos que são muito pertinentes a visão do Velho Testamento e inteiramente parte da visão religiosa judaica, como o sacrifício de animais e o “holocausto ao Senhor”, de modo que parte das analogias pagãs a pedaços de couro de animais vem da curtição de cabra, bode, boi e leão, por exemplo.

E pode parecer hoje algo terrivelmente horroroso ao pensamento moderno sacrificar um animal para curtir o couro para a feitura de talismãs, considerando esse ato como de extrema brutalidade e selvageria, impactando a psiquê do magista quando isso era visto como natural por quem o fazia nos tempos idos onde não havia açougue e tecnologia de refrigeração e se comia carne o mais fresca possível.

A analogia não era somente literal, mas por verossimilhança, de modo que se um texto como “Grimorium Verum” (o documento mais antigo sobre Goécia) exigia o couro de bode e o das “Clavículas de Salomão” (e suas inúmeras versões latinas, gregas ou hebraicas) o de leão, havia uma equiparação e funcionalidade orgânica em tais trabalhos que os diferenciavam profundamente em significado e simbolismo.

Na visão do Lemegenton, o couro de leão era uma proteção e chancela espiritual sobre o domínio do bestial. Daí pode se considerar os mais diversos níveis de interpretação e analogia, do astrológico ao mitológico. O mesmo para o couro de bode, numa aproximação ao ctônico e bestial, propriamente pagão e mortuário.

Sendo assim, se pudesse-mos sintetizar a praticidade de um grimório, seria sob o raciocínio de etapas descrito a seguir:

“Etapa A”. Um homem com faculdades sensíveis e noção mística/religiosa de mundo entra em contato com um espírito;

“Etapa B”. O espírito mantém contato com o homem e ensina seus conhecimentos sobre a natureza das comunicações e como melhorá-las, prescrevendo materiais acessíveis a este de modo que a comunicação possa tornar-se cada vez mais estreita;

“Etapa C”. O homem alfabetizado anota para deixar registrada a receita para uso frequente e transmite a outros indivíduos, que copiam o texto e passam pra frente, ora incorrendo em erros de tradução ou deturpações conforme suas próprias visões de mundo;

Nenhum grimório, em tese, deveria ser visto como um texto escrito em pedra, mas assim como em todas as vertentes, existirão sempre os fundamentalistas e dogmáticos que farão tudo à risca e com a maior exatidão de detalhes descritos por esses textos.

Como adaptar os Grimórios?

Não existe fórmula pronta e perfeita, que fique claro. Entretanto, à luz dos tempos atuais, faz-se necessário ter uma visão mais aberta ao estudo acadêmico e entender com alteridade tais textos e culturas distintas sob um olhar mais “antropológico”.

Isso porque ao longo da história esotérica muitos se propuseram a adaptar conforme as conveniências pessoais ou filosofias místicas do período, como a própria “Ordem Hermética da Aurora Dourada” MacGregor Mathers (1854-1918), que incorporou diversos textos em sua ritualística e estrutura maçônica e rosacruz. Mesmo Mathers não sendo o melhor dos exemplos, deve ser reconhecido pelas diversas traduções que fez da “Magia Sagrada de Abramelin, o Mago” (Séc. XV apróximadamente) e da “Chave Menor”, do qual, apesar dos erros, soube adaptar tão bem à luz de outras fontes de consulta, como dos livros do Agrippa e do Francis Barret (1770-…) e seu “Magus – A Milícia Celeste”.

Nessa mesma esteira, também é devida a menção honrosa a Papus (Vincent Encausse, 1865-1916), Eliphas Levi (Alphonse Louis Constant, 1810-1875) e Arthur Edward Waite (1857-1942) por seguirem a mesma linha de conduta. Até Aleister Crowley (1875-1947) soube adaptar conforme suas conveniências pessoais aspectos de sistemas pregressos como a Magia Enochiana e o próprio “PGM” na construção de sua carreira mágica com Thelema.

Até aí, Ok. Todos os poucos citados são europeus. Falar que eles puderam adaptar é fácil porque, excluindo-se as devidas diferenças, seguiam uma mesma linha cultural, o que não seria viável para pessoas inseridas em outras culturas que nunca tiveram o contato íntimo com essas tradições, certo?

Então…

A questão é que talvez não tenhamos feito a pergunta certa. Não caberia “adaptar os grimórios” porque eles se consolidaram num contexto específico e local e que dificilmente encontraria a mesma abordagem em outra circunstância. Sendo assim, a pergunta que poderia ser feita de forma mais fortuita seria em “como adaptar as práticas dos grimórios”. E é aí que podemos perceber “o pulo do gato”.

O melhor exemplo que posso dar com base em estudo e vivência é a questão da popularização da leitura. Isso foi crucial com a industrialização e a invenção da imprensa, de modo que muitos desses textos deixaram de ser exclusivos do clero e de uma aristocracia pedante e caíram ao gosto popular e mais informal de uma plebe e burguesia menos intelectuais e mais técnicas, voltadas ao consumo e a busca por alívio espiritual em tempos de materialismo da era moderna.

Esse processo não foi de imediato, claro. Em muitos casos demorou gerações. Imaginemos a situação de um camponês da Irlanda semi-letrado que se tornou monge franciscano e teve acesso a uma Bíblia e textos mais “heterodoxos” como “Galinha Preta” (“Black Chicken”, no original, pouco conhecido do público). O que ele vai contextualizar não vai ser a cosmovisão de um clérigo que está no topo da liturgia rebuscada cristã, mas de um sacerdote popular. Sendo assim, a adaptação dessas práticas vão encontrar uma aproximação com a cultura popular camponesa de sua região.

A leitura e prática do “Galinha Preta” foi corrompida? Não, de maneira alguma. Fora adaptada às circunstancias, necessidade e entendimentos práticas da “magia popular”.

Agora, peguemos o mesmo exemplo, desse monge. Chamemos o gajo de “Willie”. Willie alfabetiza Patrick, jovem mancebo que era literato tanto quanto o monge, e ganha de presente o “Galinha Preta”, numa confidência entre eles. Patrick vivía em tempos difíceis e também tinha o desejo de se aventurar por aí, então ele se arrisca a virar marujo e enfrentar os mares a comerciar nos portos especiarias e produtos diversos, como cana-de-açúcar e algodão.

Patrick, que era um pouco menos inteligente que seu padrinho e mentor de sua terra natal, aprendeu diversas coisas em seu intercâmbio comercial. Num desses portos negreiros do Haiti e da América travou contato com diversos escravos alforriados e letrados e trocou seus textos por diversas outras coisas.

Então o “Galinha Preta” passa das mãos de um Irlandês semi-letrado alfabetizado por um monge popular para as de um escravo liberto que não entende absolutamente nada de Teologia e religiosidade cristã, mas reconhece o poder daqueles espíritos de tão longe, e os trata sob sua mentalidade pagã e ancestral a ponto de adaptar o que aprendeu aqui e acolá, com magia popular, magia de índio, magia de europeu e o que restou da sua religião natal.

Entendem onde quero chegar? Ocorre a mesma coisa.

Em meus estudos pessoais sobre Voodoo e Hoodoo, dentre outras tradições africanas e ameríndias, encontrei muitas aproximações cerimoniais que em nada devem a hegemonia do pensamento católico/protestante de uma elite aristocrática e clerical. E mesmo com suas diferenças conceituais, o texto em prática continua funcionando.

Então, mais uma vez reitero: fazemos as perguntas erradas e por isso deixamos de nos integrar a tradição mágica.

Engenharia Espiritual Reversa e a Prática Hoje

“Certo, você provou seu ponto, mas isso é a sua opinião! Me mostre mais alguém que considera esse raciocínio como válido”

Ok, desafio aceito. Alguns exemplos que me fazem concordar com essa visão reconstrucionista:

Se os grimórios são resultados do desenvolvimento de práticas místicas e mágicas, é natural que aqueles que os escreveram não pensaram e tornarem funcionais para outras pessoas, achando que as condições de vida de seus praticantes se manteriam com o passar das gerações, o que é um erro comum.

Alguns desses textos tem erros grosseiros de tradução dado os inúmeros fragmentos, rasuras e rudimentos de preservação dos textos. Acaba sendo a mesma coisa que sua avó faz ao copiar as receitas que a Palmirinha dá no programa matinal, muitas vezes naquele caderno velho e quase apagado, já amarelado pelo tempo.

Se isso não fosse verdade, não existiriam trabalhos acadêmicos e compilações ou mesmo novas traduções, como as de Joseph H. Peterson, o que implica sempre em novas descobertas que não limitam a interpretação de um texto sob uma chancela de uma única tradição religiosa, a menos, claro, que você pense da mesma maneira que Joseph Lisiewiski e ache que só cristão pode praticar a magia dos grimórios.

Os erros também não são só de linguagem, também dizem respeito a outros conhecimentos dos quais o grimorista poderia não conhecer com profundidade. O autor de Abramelin, por exemplo, tava se lixando para astrologia e deu uma visão simplista e mais gnóstica do tema. Astrólogos como Christopher Warnock chegaram a peitar muito “devoto” ao afirmar que “As Clavículas estão erradas!” pelo simples fato de que, na sua visão de astrólogo, o texto continha erros conceituais e os retificou segundo o que aprendeu.

Mas o derradeiro exemplo que guardo sempre como citação honrosa são de dois autores dos quais tenho grande respeito e admiração: Humberto Maggi (e suas atuais traduções compiladas dos grimórios conhecidas como “Thesaurus Magicus”) e Jake Stratton-Kent. Maggi possui diversos artigos nos quais mostrou um senso de adaptação muito prático e acessível, seguindo a mesma linha original de Jake, que fora capaz de afirmar que “preferia desobedecer os grimórios a desrespeitar os espíritos” e em diversas entrevistas relatou o desagrado de algumas entidades com o tratamento de algumas orações mais tradicionais, demonstrando que é possível uma cordialidade de tratamento mútuo entre o homem e os espíritos.

Sendo assim, e usando o bom senso, eu não vejo a recusa a contatar os espíritos usando adaptações sensatas e aplicadas a vida prática a fim de reduzir esse distanciamento entre teoria e resultados. No mais das vezes, tudo vai se resolver com a mão na massa e na boa e velha “tentativa e erro”. Seria muita ingenuidade não tratar tais textos apenas como tábuas de convocação em vez de listas telefônicas acessíveis as entidades.

Afinal de contas, se elas deixaram por os nomes delas num pedaço de papel, é porque elas desejam ser comunicadas também e receber um chamado para irem de encontro ao “karcista” (outro termo pouco conhecido para o espiritualista que trabalha com evocação de espíritos). Por isso se faz tão necessário tentar ver o tema sob diversos matizes a fim de construir o melhor contato possível, e isso só é possível tentando atender não a forma, mas a essência de tais fontes e seus objetivos: o contato com os espíritos e a formação de vínculos espirituais.

Este post tem 4 comentários

  1. Romulo

    Muito o bom o texto, tirando a aura poeirenta e amedrontadora dos grimórios, mas ainda sim, por insegurança ou como resquício dessa mesma poeira, fica uma leve cisma.

    Desse modo, por onde começar? Deve-se ter claro que não existem garantias, da mesma forma que não existem garantias para a lida com pessoas encarnadas. A pura fé em certa doutrina, que case com as práticas dos grimórios, concretizada em hábitos e condutas, é suficiente?
    Ou o puro exercício da vontade do magista? Ou até mesmo, a simples lábia?

    Digo isto pois pelo estilo obscuro desses grimórios, as vezes fica difícil identificar a pratica espiritual apresentada.

    1. Kayque Girão

      Romulo,

      Boa pergunta!

      Então…

      Não tenho resposta! 🙂

      Brincadeiras a parte, é uma questão complexa. Os “puristas grimóricos” (esse termo foi criado nas comunidades do exterior) vão seguir à risca os textos, amparados num mínimo de pesquisa acadêmica para não perderem alguns detalhes que ficaram faltando e não estão nos manuscritos originais. Um dos mais conhecidos é o Bryan “Ashen Chassan” Ashen, autor dos recentes “Gateways Through the Stone and Circle” e do “Gateways Through Light and Shadow”, ambos focados nos básico e avançado da operação de “Invocação de Espíritos em um Cristal” atribuída ao abade Trithemius. Ele chega a um nível de detalhismo tão grande que PAGOU uma senhora para ensinar a FILHA VIRGEM dela a costurar, porque o texto menciona isso “ipsis literis”!

      Ok. Até aí o cara tem grana para torrar e fazer algo com qualidade. Quem não faria o mesmo, tendo recursos? O que fica pendente é a falta de contextualização das práticas para uma vivência contemporânea que permita a comunhão prática com os princípios deixados nos textos antigos. Do contrário, fica parecendo algo estritamente pedante, numa mescla de romantismo e idealismo sem aplicação prática alguma. E por exatamente isso que eu adoto uma via de pensamento mais coerente, baseada no pragmatismo e utilitarismo (ainda pretendo escrever sobre isso mais pra frente) aplicados a Magia, o que alguns chamam de “grimórico reconstrucionista”, a exemplo que eu citei no Jake Stratton Kent no texto.

      Então, o que posso compartilhar da minha abordagem que talvez te ajude é a seguinte:

      1. Eu pego o texto;
      2. Contextualizo com o momento histórico em que foi escrito;
      3. Busco entender o pensamento daquele “autor”, a viabilidade dos materiais e a finalidade prática;
      4. O que não puder ser adaptado, descarto por não ser contemporaneamente aplicável;

      Fim.

      Se ainda restar dúvidas, vou tateando pela “tentativa-e-erro”. Não fala: ou se acerta, ou se erra. Pergunto ao espírito, quebro a cara e tento melhorar as condições para que a comunicação seja viável e os resultados igualmente consistentes, algo diferente dos puristas conservadores que acreditam piamente em tudo o que leem.

      K.’.

  2. Enzo Ohata

    Kayque, parabéns pelo texto muito bom msm. Mano qual seria a relação entre essa adaptação aos tempos atuais e o caoismo que chega num ponto de “adaptar tudo, pois nada é verdadeiro e tudo é permitido” até onde essa adaptação é sadia?

    @KGirão – Enzo, na verdade são duas coisas totalmente distintas. Adaptar textos e práticas antigas segue uma linha de pensamento reconstrucionista, que tenta replicar senão com os mesmos parâmetros, ao menos com o mesmo sentido perene aquele conhecimento obtido. E isso em nada tem a ver com as premissas da “Magia do Caos”, que diz respeito a consecução mágica através do estado de “gnosis” obtido com alguma prática extática, ascética, mística ou induzida por drogas ou privação/excitação dos sentidos.

    Te dizer “até onde é sadio” não é tão simples. Em se tratando de qualquer prática mágica sempre vai haver um risco maior, sobretudo nas mais antigas, que demandam um estudo acima do comum para se compreender as chaves de obtenção dos resultados pretendidos. O problema também é que temos um péssimo hábito de confundir as adaptações como “fazer de qualquer jeito”, sem um mínimo de esforço, muitas vezes motivado por questões econômicas/sociais/ambientais. Por exemplo: na época de alguns textos era algo cotidiano sacrificar um cabrito, curtir a pele e fazer dela um pergaminho para um talismã. Papel era um artigo de luxo e a relação com os animais algo mais objetificada. Agora observe hoje a problematização excessiva em torno da nossa cultura moderna e na relação da Humanidade com o Meio Ambiente, do qual culturalmente não é mais bem visto o sacrifício dos animais e o indivíduo comum sente o momento da morte com um peso na consciência maior do que aquele do passado.

    O que um tradicionalista (e aqui eu me coloco como exemplo, para não generalizar) faz é tentar entender esse processo sem distorcer o sentido original e a essência de um grupo de práticas específicas, o que geralmente não costuma ocorrer com os adeptos modernos da “Magia do Caos”, que consideram a premissa arquetípica apenas como uma sugestão do inconsciente. Não estão “errados”, mas não é somente isso. E acabam de forma equivocada substituindo os elementos por razões econômicas e sociais achando que isso torna o processo “mais fácil” ou “mais rápido”. Não é com todos, porque reconheço que tem bons autores e praticantes que seguem uma linha coerente com o que essa vertente propõe, e mesmo alguns reconstrucionistas (como o Jake Stratton Kent), curtem “Liber Null” e afins.

    O que eu acho interessante disso tudo é que a mesma crítica não é feita para com as religiões de matrizes religiosas afro-ameríndias, como Umbanda, Candomblé, Quimbanda, Vodú, Ifá, etc, nas quais possuem exigências de material e postura/resguardo por parte de seus praticantes que são mais exigentes e restritas que os próprios textos clássicos, o que me parece particularmente singular vindo de grande parte da comunidade “caote” até certa admiração. Uma hora todos são seduzidos pelas tradições 😉

  3. FC

    Pegando a linha que sigo (Umbanda) seu texto faz todo o sentido no que diz respeito a imensa variedade de ritos distintos que cada terreiro usa em particular, mas sempre partindo de algumas chaves que são ligadas a todos. Os Orixás por exemplo vieram do panteão africano e foram adaptados na Umbanda. Dessa forma em determinado lugar do Brasil se cultua Xangô na cor marrom enquanto em outro, na cor vermelha. Outro exemplo são as sete linhas de Umbanda que cultuam Orixás diferentes dentro dessas sete e que podem diferenciar de um terreiro a outro, mas inevitavelmente as chaves iniciais de ativação serão as mesmas, já que sete são as linhas (tronos de manifestação divina) e uma dessas linhas podem abranger vários Orixás.

    Esse seu texto me fez compreender uma coisa importante quanto ao porque de tanta magia mista na Umbanda entre regiões, porém todas sempre chegando a um lugar parecido, senão o mesmo.

    Obrigado por compartilhar desse conhecimento, uma luz a mais na consciência!

Deixe uma resposta