A Dança dos Paradigmas

Magia+do+Caos

“É um erro considerar qualquer crença mais libertadora do que outra. É a possibilidade da mudança que é importante. Cada nova forma de libertação está destinada a eventualmente se tornar outra forma de escravidão para a maior parte de seus adeptos. Não há libertação da dualidade nesse plano de existência, mas é possível ao menos aspirar à escolha da dualidade”

Peter J. Carroll, Liber Null

É impossível viver completamente fora de um paradigma. Até mesmo a magia do caos, que é tida como um metassistema, no fundo também é um “sistema de criar sistemas” (já que poderiam ser criados outros metassistemas além da proposta do caoísmo). Por isso, se você considerar como verdade que “nada é verdadeiro, tudo é permitido” em vez de encarar esse pensamento como mais um paradigma dentre muitas outras opções, ele também poderá aprisioná-lo.

É mais ou menos como os cegos diante do elefante: você pode dizer que cada crença ou paradigma toca uma parte do elefante e todas elas, de certa forma, estão certas, dentro de seu respectivo ponto de vista. Mas essa forma de pensar também é um paradigma e você pode correr o risco de considerar que só você está certo ao pensar assim, se tomar isso como verdade absoluta.

Peter Carroll nos diz que é um erro considerar qualquer crença como mais libertadora do que outra, mas isso também é uma crença. Você tem o direito de questionar o pensamento de que uma crença liberta mais que outra, contanto que não considere que essa sua crença liberta mais que as outras. É uma pegadinha, mas a magia do caos está cheia delas. O livro Principia Discordia descreve bem as contradições que permeiam pensamentos como esses. Mas na maior parte das vezes os caoístas vivem à vontade com contradições, principalmente se geram uma boa piada. (mais…)

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Teoria e Prática: o Livro e a Espada

Magia+do+Caos

Seja na magia do caos, na magia tradicional ou em qualquer área do conhecimento, fala-se muito da importância de aprofundar-se tanto na teoria quanto na prática. Conforme a época, o lugar e a área do saber, essas concepções mudam. Às vezes valoriza-se mais a teoria ou mais a prática, devido a motivos culturais, políticos, econômicos, dentre outros.

Na magia atual, vejo muitas críticas aos chamados “magistas de poltrona” (armchair magicians), que “só estudam e não praticam”. Eu conheço uma prática em que se fica sentado “sem fazer nada”, que segundo os relatos levaram muitos à iluminação: ela se chama meditação. Para magistas que apreciam ficar sentados em suas poltronas essa seria uma boa ideia. Mas brincadeiras à parte, será que teoria e prática são assim tão separadas? Algumas sistematizações são mais úteis que outras. Qual seria o caso aqui?

Na Idade Antiga, como na Grécia, trabalhos manuais costumavam ser pouco valorizados e os trabalhos intelectuais eram exaltados (como aqueles dos filósofos). Tanto que a palavra “escola” vem do grego “scholé”, que significa “lugar do ócio”, significado que se busca resgatar, no sentido de “ócio criativo”, que leva ao surgimento de novas ideias, e consequentemente novos paradigmas. Na Idade Média, os médicos aprendiam a teoria e quem realizava as cirurgias eram os barbeiros-cirurgiões, que recebiam pouquíssimo treinamento teórico, sendo considerada uma profissão inferior. Hoje, o médico cirurgião com destreza manual é algo apreciado. (mais…)

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HermetiCAOS – Sobre a Disciplina


Por Felipe Cazelli

Eu acordo de manhã completamente disfuncional. Demoro algum tempo para pegar no tranco, caso não tenha nenhuma obrigação agendada. Se eu não tomar café, demora mais.
Ao longo do dia, tenho que conciliar a vida de pai, marido, eterno mestrando, minhas tentativas esporádicas de me enveredar pelas vias literárias, o trabalho como professor de filosofia e, agora, como coordenador, e a busca por dimensões superiores de existência. É muita coisa. Pra mim, é. Muitas vezes, algumas dessas coisas ficam comprometidas. Às vezes, todas elas ficam, pois o nosso mundo contemporâneo parece construído com o objetivo de nos afastar o máximo possível da excelência (areté), de sermos o melhor que podemos ser. E minha mente, com frequência perturbadora, se envereda por caminhos de procrastinação autodestrutiva, de recompensas e prazeres imediatos, que me distanciam de mim mesmo.
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Jesus Adolescente no Século XXI

Magia+do+Caos

Capítulo 1: Jesus estuda na minha classe!

Meu nome é João. Meu sobrenome é Ninguém. Sou João Ninguém no nome e na vida. Moro numa favela, sou feio, vou mal nos estudos e não tenho nenhuma habilidade especial. Como se isso não bastasse, tenho outros três colegas que se chamam João e todos eles são muito populares. Então toda vez que alguém chama:

– Ô, João!

Eu já nem me viro. Nas primeiras três vezes eu me virei, só para ouvir essa adorável resposta:

– Não é com você não, seu idiota!

Por isso, tento ficar na minha. Na boa, eu realmente detesto os outros três Joões. Não sei o que o pessoal enxerga nesses caras. São uns esquisitões.

Tem o João Batista. O sujeito é totalmente antissocial. Ele se veste com pelos de camelo e cinto de couro, mesmo no calorão de quarenta graus. Só come mel e gafanhotos. Tá certo que a gente aqui na favela é pobre, mas também não é pra tanto.

Ele só fica lá paradão do lado do esgoto, batizando todo mundo que passa, e a galera acha o máximo. Sorte dele que o esgoto passa bem no meio do nosso colégio. Assim ele pode continuar os batismos nos intervalos.

– Eu batizo com água! Mas depois vai vir um cara mais forte do que eu que vai batizar com fogo a rapaziada, e eu não vou ser digno nem de desamarrar os tênis dele.

O Batista não para de falar esse negócio e tira notas muito baixas. Ele sempre pega recuperação em biologia, mas o prof Mendel é bonzinho e arredonda a nota. Os dois gostam de conversar sobre mel e abelhas, sabe-se lá o porquê.

Já o João da Cruz tira notas melhores, mas também não é muito sociável. Só quer saber de rezar, ou “contemplar” seja lá o que for isso. Ele não para de falar sobre a “noite escura” mesmo quando está dia. (mais…)

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Um Retiro Monástico

Magia+do+Caos

No ano passado escrevi um livro sobre meditação e acabei contando um pouco sobre o período de um mês que passei num mosteiro budista em 2012. Nesse novo livro, falo sobre meu retiro de cinco semanas num mosteiro católico. Você pode baixar o PDF aqui ou adquirir a versão impressa aqui.

Inevitavelmente, faço comparações entre as duas experiências, o que foi uma boa oportunidade para celebrar as semelhanças do cristianismo e do budismo, que é outro ponto que exploro nesses escritos. Passei por um período de estudo do catolicismo nos meses anteriores ao retiro e conto o que descobri.
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HermetiCAOS – Meditação, Treino Mental


Por Felipe Cazelli

Parte 1: Concentração.

O Caibalion é um pequeno livro de gigantesco conteúdo. Nele afirma-se estar reunida a sabedoria do Antigo Egito e da Grécia, que, no fim das contas, é o cerne do ensinamento de praticamente todas as Escolas da chamada WMT (Western Mystery Tradition), ou seja, o Ocultismo ocidental. O Caibalion nos explica os Sete Princípios sobre os quais se baseia toda essa Sabedoria. O primeiro desses Princípios nos diz: “O TODO é MENTE; o Universo é Mental”. Vou extrair uma pequena possível interpretação desse princípio, para falar sobre o treinamento mental. Pois bem, se o nosso Universo é moldado pela nossa mente, aquilo que se passa na nossa mente constrói a nossa realidade, o nosso Universo. O problema é que não estamos no controle da nossa mente; ela produz pensamentos, dinâmicas e complexos que nos atrapalham e nos levam ao fracasso.
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HermetiCAOS – Tradição, Ciência, Arte e Cultura


Por Felipe Cazelli

PARTE 1: TRADIÇÃO*
Você quer praticar Magia. Quer se tornar um Mago. Tomou a decisão e está determinado.
Ótimo, que bom pra você. Mas e agora? Qual o próximo passo?

Descobrir que diabos é “Magia” e como é que se pratica isso é, logicamente, o caminho a seguir. E daqui a pouco você vai entender por quê. O que interessa agora é que as respostas mais acessíveis — seja em livrarias, seja na internet — vão te levar, conforme aponta o mago inglês Alan Chapman, ao “quase impenetrável transcendentalismo de textos mágicos do início do século XX, o moralismo ambientalista do movimento Pagão moderno, o sentimentalismo ingênuo e popular da Nova Era e o materialismo prático e bobo de alguns autores pós-modernos”. A escolha é difícil. O que existe por detrás das cortinas da realidade que dá fundamento à Magia e se encontra na base de qualquer “Tradição”? E por que elas são tão diferentes entre si? Este é o primeiro de uma série de textos que buscarão responder a essas e outras perguntas.
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A Tentação pelo Poder Espiritual

Magia+do+Caos

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Não são poucos os que procuram o ocultismo em busca de poder. Muitas vezes é um desejo de poder sobre as coisas do mundo: ter mais dinheiro, curar doentes, curvar colheres ou reviver os mortos. Outras vezes, busca-se dominar estados mentais: ter menos ansiedade, mais coragem, menos raiva. Finalmente, há um anseio de controlar também o mundo dos espíritos, buscando o êxtase dos estados alterados de consciência, contato com entidades e a obtenção de poderes psíquicos.
Frequentemente esse desejo desenfreado por poder está mascarado. Por um lado, há pessoas que de forma muito direta e sincera simplesmente declaram que, sim, elas querem ter poder sobre o mundo material e espiritual e não enxergam nenhum mal nisso. Ou, mesmo que houvesse um mal, elas não se envergonhariam de realizar esse mal, principalmente se fosse para ajudar a si mesmas ou a pessoas que amam.
E isso nos leva ao próximo ponto, que é a busca por poder sob a justificativa de ajudar alguém, que muitas vezes toma a forma de “os fins justificam os meios”. Quando alguém declara que está buscando desenvolver poderes psíquicos para curar doentes, a princípio nos parece muito nobre, mas às vezes devemos tomar cuidado para não cair nessa armadilha que preparamos em nossa mente.
É muito mais comum que desejemos o poder pela sede de poder. Quando não queremos admitir isso para nós mesmos, podemos alegar que nosso objetivo é maravilhoso, como ajudar outras pessoas ou o meio ambiente. Queremos tornar o mundo um lugar melhor, queremos tornar os outros melhores, essas pessoas que enxergamos como tão egoístas e corrompidas pelo poder. No entanto, nós não nos olhamos no espelho para notar que, da mesma forma que os outros, buscamos solucionar esse anseio de controlar as pessoas e o mundo fazendo exatamente isso.

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HermetiCAOS — Um presente


Por Felipe Cazelli

Minha inspiração para escrever isso aqui vem da leitura do texto que o grande amigo Iago escreveu em seu blog, o Rota 32. Lá ele analisa o futuro da Magia, segundo sua própria jornada e as coisas com as quais foi lidando ao longo do caminho. Inspirado por suas palavras, decidi, de forma semelhante, expor minha maneira de ver a Magia e minha própria análise quanto à questão.
Diferentemente do Iago, a Magia do Caos não foi meu primeiro contato com o mundo do Ocultismo, mas, assim como muitas outras pessoas com quem já discuti o assunto, minha porta de entrada foi a Wicca. Existe aí já uma diferença fundamental, uma vez que a Wicca, conforme concebida por Gerald Gardner, era uma filhotinha da boa e velha Magia Cerimonial a la Golden Dawn, com as tradições e mitologias do norte da Europa, especialmente a Celta. Na prática, o resultado disso era já um conhecimento, mesmo que superficial, dos elementos básicos das tradições ocidentais de Magia. Um certo cerimonialismo era exigido, mesmo sem a devida compreensão de seu propósito — que cumpre, dentro daquele paradigma, uma função fundamental. Outra grande importância desse meu começo de caminhada, foi o contato que acabei tendo com importantes ferramentas ocultistas, quando procurei por um aprofundamento que a Wicca não dava. Assim, conheci a Magia do Caos quando já tinha uma boa base em Tarot e Cabala.
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