Sobre Invocações, Evocações e Banimentos

Embora essa temática em meio a bruxaria seja cercada de mistérios, segredos e muitas vezes seja pouquíssimo discutido, não deixa de ser um assunto necessário para debates, ainda mais para o conhecimento de neófitos (pessoas iniciantes nas práticas). O tema é pouco discutido por N motivos, alguns deste motivos são a caracterização cristã de possessão e a ideia de se receber espíritos voltada ao candomblé e Umbanda, que seriam a manifestação de espíritos ou seres sobre o corpo físico (material) de um indivíduo, que é normalmente visto com temor, outra caracterização frequente é a de que a descriminação dentro e fora das religiões impedem essas crenças e assim seguem uma série de questões de questões básicas e que devem sim ser debatidas, afinal, o que é a crença livre quando nos prendemos a rotulagens, a práticas e tradições?
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O Diabo na Bruxaria

serpent key

Em seu livro sobre Bruxaria Tradicional Balcânica, Radomir Ristic nos fornece imagens evocativas da natureza da bruxa como alguém que possui uma relação ou conexão com algum espírito vestido em trajes demoníacos. A conexão com este espírito o torna apto a fazer maravilhas e prodígios, voar noite a fora e agir de maneira que o coloca aparte do mundo ordinário. Ele ou ela é alguém que vê além dos véus do dia e da noite e vê o que há por trás de tais véus. Ristic também é claro ao revelar que na raiz da idéia da bruxa encontramos um conceito teológico bogomilo. Os Bogomilos acreditavam em um Deus Único, porém, eles também acreditavam em seu emissário e vigário, Satanael. Por esta razão temos o conceito dos dois Czares, o Czar dourado do Céu e o Czar prateado da Terra. Sua exposição sobre estes mistérios também foi expresso na antologia sobre Bruxaria Tradicional Serpent Songs, onde ele conclui que a influência bogomila fez o ‘caminho das avós’ sobreviver – foi este caminho que ficou conhecido como bruxaria.

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Sangue, Necessidade e a Casa da Noite

Bruxaria; este parece ter se tornado um termo insignificante — uma expressão abrangente para tudo o que é, em seu âmago, pagão e feiticeiro. Temos a nostalgia de algo, o desejo de um retorno que conduz à recriação de mistérios esquecidos e outros mais, que se rendem a uma paixão pela natureza, onde  Natureza se torna o templo e o propósito. Outros ainda saúdam o diabólico e abraçam na bruxaria uma ‘contra-natureza’ para suas aspirações, enquanto ainda outros enxergam na bruxaria a continuação do culto à fertilidade ‘dionisíaco’ de Murray, que celebra a Grande Mãe. (mais…)

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O Sangue e Ossos da Bruxaria Tradicional

Com a primeira faísca da forja sagrada – a primeira gnose, palavra da mesma raiz que gnoscere, ou “conhecer”, o homo sapiens tornou-se capaz de maravilhar-se com toda a criação ao seu redor, assim como se tornou capaz de questionar as razões de tudo o que acontecia com ele. Podemos dizer que esta “faísca” caiu em um corpo que sentia medo, fome, frio, sono e o desejo de procriar, como qualquer outro animal. O homem muito provavelmente ainda nos tempos de “bicho” percebeu que um grupo era mais forte que um indivíduo solitário, assim como os lobos e os macacos, e portanto, é muito provável que ele já tivesse uma idéia do que era uma família, um clã ou tribo. A idéia de lar foi desenvolvida pelas mulheres, que também foram as inventoras da agricultura e muito provavelmente da pecuária, o que possibilitou os assentamentos humanos em regiões específicas.
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Häxan – Uma Especulação Cult


Häxan (1922) é um filme no estilo semi-documentário, uma obra prima do cinema macabro executada pelo cineasta Benjamin Christensen. Este é realmente um “filme maldito” e pode ser considerado o primeiro “cult” do mundo. Este filme, para o público ligado à bruxaria e paganismo modernos, pode parecer uma séria provocação. Mas não podemos excluir em momento algum seu valor histórico e cultural, isto porque ele retrata a crença popular e os variados vestígios históricos do que se acreditava que as bruxas faziam. Fica óbvio, por exemplo, que o criador do filme baseou-se largamente no Malleus Maleficarum e em algumas confissões obtidas dos julgamentos de bruxas. (mais…)

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A Verdade da Bruxa


“Bruxaria é uma realidade poética – nascida das libélulas que tomaram forma nas fagulhas do martelo do primeiro ferreiro – e assim Ele forjou a Beleza na caverna da Sabedoria”

 The Nocturnal Gospel, Frisvold & Ristic (obra em progresso)

Bruxaria Tradicional é a arte de forjar o mundo de acordo com o seu próprio Destino -mas é também a arte de moldar o Destino em algo bom e verdadeiro, tanto quanto forjar o mundo para que ele se curve à sua vontade, e fazer toda a natureza imóvel em seu momento de impossibilidade régia, onde você é Um.
Isso transforma a bruxa em uma trabalhadora do Destino – e isso atrai a necessidade de conhecer a alquimia secreta dentro da criação – e em particular, a própria natureza.
Qualquer tentativa de se definir a bruxaria tradicional será sempre um desafio – como ela é a definição do praticante desta arte, “a bruxa”. Andrew Chumbley refere a ela como a “arte sem nome”, os sábios escandinavos chamam-na simplesmente de “A Arte” e o poeta grego Kostis Palamas a chamou “o que ainda não tem nome”. (mais…)

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Häxa – a transformação de uma palavra Sueca de “mulher do Diabo” para uma “amálgama da Nova Era”


Introdução Linguística
Este artigo foi originalmente escrito com leitores suecos em mente, e assim, foi também escrito em sueco. Ele é relacionado ao problema com o termo geralmente usado em sueco e as linguagens vizinhas como o norueguês e o dinamarquês – a palavra häxa. Porém, acho que os leitores interessados em Bruxaria Tradicional o acharão interessante de qualquer forma, em alguns pontos sobrepondo com os desafios que qualquer bruxo tradicional encara e em outros talvez compartilhando algum conhecimento novo para o público de língua inglesa [e daí para o português].
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O Útero dos Anjos

– Uma homenagem às mulheres –

Figura ‘Yonitântrica” de Kali em pleno fluxo menstrual (Séc.XVII).

Por Katy Frisvold.
Há um tempo um comentário nesta mesma coluna me chamou a atenção, não só pela franca erudição do remetente, mas também pela graciosa comparação com Bruxaria Tradicional e a Magia Tradicional Salomônica. Nas palavras dele: “Me parece que a bruxaria tradicional se assenta sobre a mesma filosofia e cosmologia da magia grimórica, mas imagino que na sua tradição haja um trabalho maior com os chamados espíritos terrestres, o que a meu ver é interessantíssimo. De fato, há uma lacuna na tradição grimórica no que diz respeito a trabalhos com elementais e espíritos dos mortos (os ancestrais), e seria interessante ver como a bruxaria tradicional lida com isso.”
Na época em que este comentário foi feito, deixei disponível meu email de contato. Não achei que era momento de escrever um texto muito longo como resposta como fora a resposta anterior.  As férias se passaram e estes são assuntos que ainda se apresentam muito pertinentes e que eu gostaria de desdobrar um pouco mais, de forma em que percebo este questionamento uma forma de clarear alguns assuntos àqueles que apreciam a abordagem teológica mais simples e pragmática. Isto porque a abordagem não recorre aos Doutos Mestres de outrora, mas na simples compreensão daquelas que foram caladas por séculos de repressão patriarcal.
A classificação bipartida da magia geralmente se apóia em “celestial x infernal” e “alta x baixa”, comumente compreendendo “celestial” como algo superior e sagrado e “infernal” como algo diabólico, ou do mal. Hoje alguns conseguem sair deste território ignorante, mas esta ainda é uma teoria muito vigente quando falamos de “baixa magia”, graças ao dualismo reinante nas culturas cristianizadas. Dentro da miríade de mundos e possibilidades, criou-se então uma dicotomia absurda ainda adotada por muitos magos, e “baixa magia” se tornou um rótulo negro às artes que lidam com o fator humano, a corporeidade e a noção de mortalidade. (mais…)

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Um Olhar Tradicional sobre Charles Leland

por Mazarol Rosmarin

Quando se fala em bruxaria italiana ou stregoneria, estamos falando de uma infinidade de práticas e crenças dos povos que compõem a península itálica. O que nos mostra que é mais correto falar em bruxarias itálicas, por não se tratar de um movimento unificado, não havendo organização social nem religiosa, e muito menos uniformidades nas crenças.

As crenças mágicas dos italianos começaram a ter repercussão na mídia escrita a partir das publicações de Charles Leland, principalmente com o seu Gospel of the Witches e Etruscan and Roman Remains. No Gospel of the Witches, ele parte de um suposto relato de uma bruxa da Toscana, Maddalena, enquanto no Etruscan and Roman Remains ele descreve lendas e crenças mágicas dos camponeses da Romanha, e devido ao recém movimento de unificação da nação e língua italiana, generaliza como sendo absoluta em toda a Itália. No final dos anos 90 se utilizando das fontes de Leland e fragmentos familiares de magia popular, sob uma perspectiva wiccana de culto, o autor ítalo-americano Raven Grimassi lança a sua stregheria, ajudando a intensificar a nostalgia pela velha Itália, de muitos já nostálgicos ítalo descendentes em todo mundo. Atualmente, Brasil, EUA e Argentina são os países com maior número de ítalo descendentes, superando até mesmo a Itália em número de italianos, por isso, somado aos movimentos de Nova Era, esoterismo e revivalismo pagão, o trabalho de Grimassi teve uma aceitação muito grande. (mais…)

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Pai Saturno, Mãe Lua

Sobre Robert Cochrane e seu encontro com o Destino

 por Nicholaj de Mattos Frisvold
 

Evan John Jones & Robert Cochrane
O veneno que Cochrane escolheu para si e o caminho que ele tomou podem nos contar sobre a influência de Saturno e da Lua em sua vida. Ele escolheu ir embora temperado por Saturno e usar o caminho da Lua, através da aliada Beladona. Talvez na escolha da aliada que iria levá-lo à Companhia Oculta possamos entender mais sobre a abordagem de Cochrane ao coração da matéria, o Círculo de Tubal Caim – e, deste modo, entender as polaridades mágicas de sua Pellar Craft, que ele demonstrou de formas aparentemente estranhas, até onde se relaciona o seu suicídio ritual. As polaridades que tenho em mente são aquelas entre a Chance ou Destino e a Sabedoria (ambas em sua oitava feminina, bem como na forma exigida pelo Senhor dos Chifres), assim como podem ser vistas nos mistérios mantidos dentro dos reinos de Tubal Caim e da Senhora Fortuna. Há uma gravura francesa do século XVI que é notável no caso da compreensão de Cochrane sobre o Destino como uma Deusa.  (mais…)

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