Cangoma a Chamar

(atenção: este é um artigo musical, tenha ouvidos atentos)

Shhh… Escute, você ouve este som etéreo, distante? Perecem, parecem tambores… Tambores, e um lamento estranhamente alegre…

O último dia 13 de maio de 2012 foi um dia muito especial. Não pelo dia em si, mas pelo que simbolizou: a união da comemoração do fim legal da escravidão no Brasil, e a comemoração do dia das mães. Além de terem caído num mesmo dia, este dia foi um domingo, pois no Brasil se comemora o dia das mães sempre no segundo domingo de maio. Ora, em muitas casas de umbanda, ou casas espíritas e espiritualistas que são simpáticas a umbanda, se realiza uma festa no domingo mais próximo do dia que simboliza a libertação dos escravos no país – ou seja, além de neste ano a festa poder ter sido realizada no próprio domingo em si, ainda foi dia das mães.

Para compreender a importância disso, é preciso retornar alguns séculos no tempo e visualizar a barbárie que os povos europeus, ditos civilizados, realizaram na África. A escravidão não significava apenas o roubo dos adultos mais saudáveis e promissores de um reino ou grupo étnico africano, mas a separação de mães e filhos, e filhos e mães: a pura devastação daquilo que nos é tão sagrado, a família. Deste modo, podemos supor que não era tanto por saudades de sua terra que os escravos choravam, nem tanto por serem açoitados e tratados como animais selvagens, mas antes por terem deixado pais, mães, esposas e até mesmo filhos, em sua terra natal – para jamais os ver novamente, nem sequer receber cartas.

Pensemos nisso quando reclamamos de nossa dor de dente, do time de futebol que perdeu a final do campeonato, ou daquele concurso público em que não passamos, e deixamos de ganhar alguns milhares de reais a mais do que já ganhamos… Os que vieram da África, esses sim tiveram razão do que reclamar.

Mas, como foi… Como foi então que os negros puderam enxugar suas lágrimas, e amenizar sua dor? Como poderia ter sido, que não através do espírito? Pois eles não poderiam sequer escrever cartas que pudessem atravessar o oceano, mas sabiam que enquanto remavam ao Brasil, tinham a Senhora do Mar abaixo, e o Senhor dos Ventos acima – os orixás ainda estavam com eles, e a espiritualidade foi sua ponte entre o Brasil e a África, ponte esta que jaz firme até hoje.

Foi isto mesmo: nós os retiramos de sua terra, os açoitamos e dissemos que nos pertenciam, pois sequer tinham alma… E o com o que eles nos retribuíram? Axé, danças e tambores…

A festa que se realiza no 13 de maio é a festa dos pretos velhos. Pense nisso: hoje a ciência sabe que toda a humanidade migrou da África para o restante do globo, a África é a mãe dos homo sapiens, a nossa mãe. Se um genuíno preto velho é um desses espíritos antigos, é bem capaz de fazer parte do grupo espiritual mais antigo da Terra – a despeito dos outros que migraram de outras casas. Kardec nos alertou que “os espíritos falam apenas do que sabem”, e ele tinha razão; Porém, alguns dos pretos velhos que aparecem para papear em tais festas podem saber muito, muito mesmo, pois são tão antigos quanto os primeiros xamãs, e tão sábios quanto os primeiros filósofos.

E há ainda aqueles espíritos que, cansados de toda a formalidade e prepotência que se encontra em outras doutrinas ditas civilizadas, resolvem aparecer como pretos velhos, de barba branca e encaracolada, olhos profundos como o mar, voz adocicada como a primavera, e arqueados pelos séculos em suas bengalas imaginárias. Sabe-se que o grande Bezerra de Meneses volta e meia aparece como um destes pretos velhos, quem sabe quantos sábios de outrora não preferem se utilizar deste mesmo símbolo, e permanecerem anônimos nas danças de tambor?

Lai ê, lai ê, lai á, disse levanta povo… Ouvem alguma coisa agora? Acho que está vindo lá do fundo…

Vissungos eram os cantos dos escravos utilizados nas lavras de diamante e ouro, ao redor da região de Diamantina, em Minas Gerais. Alguns de seus cantos atestam como o fim da escravidão no Brasil foi muito mais legal do que real, e como foi ser liberto em uma terra que não era a sua, que não era a Mãe África. Embora alguns dos legisladores brasileiros, e alguns dos artistas e pensadores da época, fossem genuinamente simpáticos aos ex-escravos, a maioria não era, e todos sabemos quantas gerações foram necessárias para que eles fossem aceitos como cidadãos, como seres que têm alma e, portanto, direitos.

Mas a alma de alguns deles era imensa, tão imensa que jamais foi embora, e sorrateiramente infiltrou-se em nossa cultura, nossa religião, nosso pensamento… Já disseram que os orixás eram demônios, mas como demônios poderiam compor canções tão belas quanto os cantos dos escravos de Minas, da Bahia, do Rio, do Maranhão?

Clementina de Jesus foi uma grande cantora tardia que, do alto de seus 60 e poucos anos, ainda assim teve o tempo e a vitalidade para nos deixar alguns clássicos da música popular brasileira. Clementina, como neta de uma escrava, cantava com propriedade.

Foi sua voz quem nos resgatou um dos mais belos vissungos de Minas, e que, por ser tão belo e profundo, nos serve como um verdadeiro mantra para a libertação… A libertação dos preconceitos, a libertação da ignorância, a libertação do ego, para que um dia, como os pretos velhos, possamos apenas dançar ao som do tambor, da cangoma [1], e nos esquecer, por um breve momento, de toda a dor do mundo…

Tava durumindo
Cangoma me chamou
Disse: levanta povo,
Cativeiro já acabou!

Agora sim, todos estamos a ouvir… Vamos então cantar, e fazer desse canto um hino de liberdade… Até que todo cativeiro fique para trás, e a nossa frente, apenas a Mãe África, e milhares de pretos velhos a nos saudar.

Áudio de Cangoma me chamou – Mawaca (em 2:00 ouve-se a voz de Clementina, uma gravação inserida na música).

» Veja também Mawaca cantando ao vivo este mantra (o áudio não está lá muito bom).

» Ouça Clementina de Jesus no original (esta versão é obviamente muito mais próxima do que se ouvia em Minas).

***

Sentido e escrito por raph, branco de pele, africano de dna, iluminado na alma por alguma luz que não sabe dizer a cor…

[1] Há um tambor grande chamado de cangoma ou angoma. Esse tambor avisa, no registro da canção, o fim da escravidão, como os sinos das igrejas que tocavam avisando e marcando os momentos importantes da vida da comunidade.

Crédito das imagens: Google Image Search

 

Rafael Arrais é autor da coluna Textos para Reflexão no TdC, mas de vez em quando aparece por aqui também…

» Ver todos os posts da coluna Umbanda: Magia Brasileira no TdC

 

Este post tem 12 comentários

  1. Gabriel

    Lindos, texto e música! Isso vale se comemorado!

  2. Elton Aparecido

    Estou tocado pelo texto, pela música, pelo significado… como sempre, isso é o que vale!!!!
    @raph – É o que vale… É o que levaremos daqui 🙂

  3. felipe

    nossa por um minuto escutei mesmo tambores….que pena que perto de casa nâo tem nenhum terreiro,e pensar que já odiei,sem mesmo conhecer essa forma de viver.

  4. Ranieri

    Recomendo o CD Canto dos Escravos da Clementina de Jesus, Tia Doca e Geraldo Filme.
    Abçs.

  5. Rogério

    Rafael,
    Concordo que a libertação dos escravos é algo a ser celebrado como forma de não cometer um erro já aprendido. Porém a ideia de que foi coisa dos europeus não me parece certa pois a escravidão se deu e ainda se dá com povos de um mesmo lugar. Não posso provar pois não estava lá (rsrsrsr) mas já li sobre tribos africanas que escravizavam outras, mas esse tipo de comportamento é algo que se pode perceber até os dias atuais; seja a escravidão pela força física ou por capacidade intelectual.
    @raph – Claro, a escravidão existe há muito tempo na humanidade, mesmo na Grécia Antiga ela existia (e até se diz que Epicteto, um dos grandes do estoicismo, nasceu escravo), mesmo no Renascimento e no Iluminismo ela existia, e provavelmente exista até hoje, veladamente, mesmo entre povos africanos. Mas talvez a maior parte dos que foram escravizados pelos europeus, e trazidos para a América, não conviviam num sistema em que existia escravidão. O artigo procura tocar mais no sentimento que esses africanos passaram, particularmente a saudade dos que ficaram na África.
    Também creio que devemos respeito a nossa Mãe, mas considero a Mãe Terra (não somente a Africa) como a que nos dá os elementos para nossa evolução aqui.
    @raph – Em dado momento a África Mãe é usada simbolicamente como referência não somente a Mãe Terra enquanto planeta, mas a Deusa Mãe. Achei interessante usar dessa associação de pretos velhos, escravidão e liberdade, dia das mães e tantos e tantos mitos que os ventos da Mãe Terra levam e trazem 🙂
    Até porque não me faz razão acreditar que todos vieram da Africa como aponta a ciência atual, pois pra mim é difícil crer que os chineses por exemplo migraram da Africa e com o tempo foram ficando “amarelados” e com os olhos puxados.
    Acho muito legal compartilhar os ideais e o conhecimento da Umbanda, lembrando sempre que devemos olhar o passado de modo a melhorar o futuro. Parabéns pelo post. Abraço!
    @raph – Daí já é uma questão puramente científica. Hoje as descobertas arqueológicas de fósseis de hominídios e homo sapiens (nós) demonstram que é MUITO provável que o homo sapiens tenha surgido na África a cerca de 200mil anos, e migrado para o restante do mundo através da Europa e Ásia:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_sapiens#Paleol.C3.ADtico
    As tribos nômades que se dirigiram para o extremo Oriente deram origem não somente aos chineses, indianos e aborígenes, como também aos indígenas de toda a América, pois há muito tempo atrás ainda era possível se atravessar da Rússia para o Alasca a pé, e foram esses que fizeram tal caminho e colonizaram a América a partir do norte. Por isso que tanto japoneses quanto índios têm olhos puxados… Nosso corpo nada mais é do que a ação do meio ambiente sobre os genes herdados (o espírito já é outra história e, claro, no ocultismo/espiritualismo não podemos descartar a possível ação do espírito sobre o corpo).
    O que se discute hoje em dia é em que região da África surgiu o homo sapiens, nesse caso, aí sim, existem muitas dúvidas ainda… Achavam que era mais na região central, mas recentemente fósseis descobertos no sul apontam para uma possível origem ali.
    É nesse sentido, estritamente antropológico-científico, que a África é realmente nossa mãe. Mas, voltando aos mitos: O Éden ficava nalgum canto dela, e por isso menciono esta “volta a África Mãe” no artigo, o que simbolicamente seria a volta ao Éden.
    Abs!
    raph

  6. D

    Muito cuidado Ralph, pois as lágrimas nos olhos impedem o povo de ver a verdade do que se passou, e de descobrir quem é e o que aconteceu.
    Não fomos NÓS que trouxemos negros da África. Nós somos filhos de pais que o fizeram, ou reencarnações daqueles pais – mas um filho não é seu pai, e o eu de hoje passa longe do eu de ontem.
    De fato, é muito difícil ver um negro muito negro e um branco muito branco no Brasil. Quando fui para Europa, a menos de um ano, notei isso. O que chamamos de branco não é branco, seja o branco do Sul ou do Nordeste. Ja é branco brasileiro.
    E o que chamamos de preto não é preto, na maioria das vezes, já é preto brasileiro.
    Tomar um karma que não tem de ser tomado, sofrer por algo que não tem de ser sofrido, é coisa que não devemos fazer. É coisa pouco útil, muito fútil mesmo.
    E o negro, o negro da África não foi escravizado pelo branco – o branco realmente falava que não tinha alma, fazia crueldades… mas quem caçava negro na tribo eram outros negros. O branco ficava na costa, protegido dentro dos fortes, esperando a caravana passar.
    Trocava açucar, trocava rum, trocava coisas por negros. E trocava com o negro que tinha roubado os negros de outra tribo.
    O negrinho que nascia no Brasil, esse sim era escravizado. O negro brasileiro era escravizado pelo branco brasileiro, o negro africano era escravizado pelo negro africano.
    E foi assim também com o índio, porque branco era pouco, não conhecia a mata nem conseguia se guiar sem morrer com bicho e com planta. Pra cada branco da bandeira, iam dez indios subindo na frente a ladeira.
    Gostamos de falar que os brancos eram os ruins, que a Europa era eterna cortesã, e que dela vinham os filhos da puta para fazer ruindade com o povo bom que virou sofrido.
    Mas já é tempo de sair disso. Essa lição é antiga e errada, feita para tirar a angústia de quem foi dominado e rebaixado. Já é hora de relembrarmos as glórias antigas, mas glória sem erro tras desgraça. Temos que relembrar as glórias sim, mas todos os erros e vícios na mesma barca.
    @raph – Como eu disse noutro comentário, mesmo na Grécia Antiga, no Renascimento, no Iluminismo, existia já a escravidão, e muitos dos mais sábios, dos pensadores, jamais levantaram a voz contra o sistema. Isso porque se evoluí devagar mesmo, passo a passo… Antes acreditávamos que existiam brancos e negros e amarelos e etc., e que uns tinham alma e outros não, e que uns eram inimigos e outros amigos, por decreto divino – e hoje sabemos, inclusive cientificamente, que todos viemos da África, que todos temos um pedaço de seu DNA.
    Não quero dizer que fomos nós enquanto indivíduos os culpados pelo que de mal ocorreu no passado, mas sim nós enquanto sociedade. O problema em questão é exaltar a sociedade ocidental, cristã, como um grande modelo para as outras, quando na realidade todos os povos têm o seu quinhão de escuridão – claro que os selvagens africanos eram selvagens mesmo, mas pelo menos não se diz hoje em dia que “eram um modelo de sociedade”. Por outro lado, se estudarmos a história africana a fundo, veremos que esse estereótipo de “negro selvagem” não serve para todo o continente, e há muitos reinos africanos que foram muito prósperos (bem, o Egito também fica lá).
    Mas minha intenção, em todo caso, não foi nos colocar como culpados pela escravidão, mas sim enaltecer a bravura, a doce e pacata bravura, dos pretos velhos, que têm há muitos e muitos séculos cuidado do espírito de seu povo. E, no fundo, cuidado também do nosso espírito – pois aqui somos um só povo 🙂
    Abs
    raph

  7. Daniela

    Rafael, belo texto. Eu tive o primeiro contato com músicas africanas com o filme do Rei Leão. Desde pequena eu sou apaixonada por essa cultura, os tambores e os cantos enchem meu coração de alegria, coragem e força pra viver. Tenho descendência afro e índígena (apesar de ser branquela), porém as músicas africanas me chamam mais atenção. Temos que aprender com esses nossos irmãos que o sofrimento que passamos hoje seja muito menor do que eles passaram (deveria ter colocado ainda passam, mas não quero culpar ninguém). Mãe Africa tem todo o meu carinho, e seu povo minha admiração …
    @raph – É exatamente isso. Minha intenção não é apontar o dedo para ninguém, nem para mim, mas exaltar a alma africana, a alma que, a despeito de todas as chibatadas, venceu, sobreviveu… Agora, vamos construir o futuro, juntos!
    Os tambores ainda tocam, e milhares de pretos velhos ainda dançam (as bengalas eram só disfarce).
    Abs.

  8. Diogo Mendes

    Meu caro uma pergunta.
    É possível uma entidade se manifestar em seu aparelho, demonstrando um conhecimento que este não possui?
    @MDD – Totalmente.
    @raph – E nem sempre precisa incorporar totalmente. Quando alguém “sente” uma inspiração repentina, vinda sabe-se lá de onde, as vezes pode ser uma entidade querendo te ajudar a passar sua luz adiante… Na verdade, talvez essa seja a forma mais elevada de mediunidade, e a que passa mais desapercebida.

  9. Diogo Mendes

    Senhores,
    Sei que este não é o lugar correto, mas preciso compartilhar uma coisa. Todas as vezes que rezo pai nosso e ave maria antes de dormir, costumo ter pesadelos ou uma noite mal dormida e, quando acordo, sinto me exausto.
    Conversei com minha esposa e, coincidência ou não, ela também sente o mesmo…
    Desde então só peço proteção aos meus guias e aos orixás.
    Que coisa não? oO

    1. GR

      Que interessante! hehehe
      Teoria nº1: parece seu subconsciente lhe apontando sua verdadeira vontade em relação à religião.
      Mas isso não significa que o cristianismo seja coisa do “demo”, e sim que talvez seu coração (sua crença) esteja em outro lugar;
      Teoria nº2: também pode ser um sentimento de culpa em relação ao cristianismo que é uma religião que excluí as outras crenças;
      Teoria nº3: talvez o estado meditativo que você entra ao rezar lhe proporcione esse desconforto e pesadelos, por sua mente não estar acostumada a esse estado (assim como os exercícios de visualização fazem).
      Alguém tem mais teorias? heheh

  10. Eu tive o meu primeiro contato com as músicas de umbanda, era ainda bem pequena minha mãe tinha uma sonata e alguns LPs (discos de vinil). Ela tinha então uns dos 1º discos do Martinho da Vila. Um que na capa era cheio de mãos. O que me lembro era que eu adorava ficar ouvindo aquelas músicas. Minha mãe não era e não é umbandista mas é simpatizante. Na época minha tia, que hoje é falecida era umbandista. Acho que a partir daí começou minha história com a esta religião. Ainda estou me desenvolvendo já com 41 anos, um pouco atrasada eu sei, mas muito feliz e realizada com minha religião.
    @raph – Nunca é tarde para começar ou recomeçar… E a idade, para quem crê em reencarnação, subitamente deixa de ter tanta importância quando antes 🙂

Deixe uma resposta para Anônimo Cancelar resposta