Autoconhecimento não é um caminho para dentro

Processo terapêutico, caminho espiritual, jornada de vida, autoconhecimento, dentre outros, são termos que se tornaram usuais na nossa fala cotidiana para nos referirmos a um processo pessoal de descoberta e realização. O sujeito, geralmente motivado por alguma questão que esteja o perturbando, sente-se motivado a entender mais sobre si para tentar lidar melhor com alguma situação na qual sente dificuldade. Pode ser uma ansiedade, uma exigência específica de realização, uma tristeza, um sentimento de solidão, ou mesmo desencontros em relacionamentos com familiares, amigos ou parceiros sexuais. Muito se fala neste momento em mergulhar na interioridade. Entretanto, ao estudarmos a psicanálise em seu âmbito teórico-clínico, precisamos fazer algumas ressalvas quanto a isso.

Pretendo demonstrar com o texto que um processo analítico não se trata de um mergulho, um retorno à interioridade, e sim um saltar para fora dela, um descentramento de si. Portanto, nos é necessário inicialmente diferenciar dois termos: o eu e o sujeito. O primeiro trata-se de uma identificação imaginária construída e operada ao longo da vida. O segundo é uma função simbólica de um ser falante, sem nenhuma essencialidade ou qualidade que a defina. Tais não igualáveis entre si.

O eu é como me identifico. Eu posso ser alto ou baixo, bonito ou feio, flamengo ou corinthians, advogado ou comerciante, forte ou fraco, extrovertido ou introvertido etc. Isto é, toda sorte de qualidades com que o sujeito se identifica ao longo de sua vida e fagocita para si. Tudo aquilo com que o sujeito sonha, quer e afirma ser cristaliza-se num espectro de personalidade ao qual chamamos de eu, e passamos a operar na sociedade a partir disto. Algumas tradições espirituais dizem que se trata de uma ilusão. Prefiro não pensar assim. O eu é real, extremamente tangível numa análise e muito necessário para existir no meio social. Talvez um monge que viva no meio do nada possa pensar assim, mas qualquer um de nós possui uma carteira de identidade, bens em nome próprio, uma inscrição como pessoa física no Estado para poder participar do mundo comercial… Nada disso seria possível sem um eu. Tampouco seria possível nos relacionarmos com as outras pessoas sem sermos algo, e do mesmo modo esperarmos algo do eu do outro. Menos do que quão real é o eu, o que importa para a saúde mental é o quanto nos apegamos a esta construção de quem somos. Crer que somos muito de determinada maneira impede que possamos agir diferentemente em certas situações necessárias.

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Como instância de identificação, o eu rejeita de si tudo aquilo que difere dele. Como uma característica pessoal, por exemplo. Diz o sujeito aos seus semelhantes: “eu sempre faço isso, nunca faço aquilo”. Entretanto, quanto o sujeito faz aquilo, tal fato torna-se inadmissível para a consciência. Deste modo, uma das funções do eu é manter longe da consciência tudo aquilo que ela rejeita. Tal fenômeno chama-se em psicanálise de recalque. Sairemos da metapsicologia para ilustrarmos de maneira mais cotidianamente demonstrável tal dinâmica.

Pedro chega à análise. Queixa-se não entender por que não consegue engatar num relacionamento. Diz que até existem algumas mulheres que ficam atrás dele, mas não costuma se interessar por elas em retorno por variadas razões. O eu de Pedro situa bem o que busca: “eu quero alguém para namorar”. Então a análise prossegue, e o sujeito falante Pedro continua falando de suas experiências ao seu analista. Naquilo que seu analista pontua, Pedro começa a sentir certa estranheza. Como se Pedro percebesse que sim, ele se sente pressionado para ter um relacionamento, mas também que há um impulso estranho dele próprio que constantemente o nega alcançar isto. Em Pedro habita uma vontade não só estranha, mas conflituosa ao seu eu.

Frequentemente nos deparamos com alguma experiência de alteridade em nós mesmos. Freud aborda tal questão na Psicopatologia da vida cotidiana, através dos chamados atos falhos. Isto é, momentos em que a pessoa tenta fazer algo, mas termina fazendo diferente sem entender a razão do seu dito engano. Como ao chegar num enterro, ao invés do sujeito dizer “meus pêsames”, sem querer diz “meus parabéns” à viúva. Ou quando pretende chamar uma pessoa e diz o nome de outra. Ainda quando quer se referir a algo no passado e sem dar conta fala como se fosse no presente ou no futuro. A psicanálise entende que tais equívocos não se dão por acaso.

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No ato falho, o conteúdo que o eu rejeitou retorna à consciência sob a forma de um lapso na fala ou na ação, de modo que o sujeito age segundo suas determinações inconscientes, e não naquilo que conscientemente diz querer sob a ordem do eu. A sensação de estranheza àquele conteúdo é o que se segue. A grande distinção da psicanálise para outras abordagens terapêuticas ou filosóficas é de que esse estranho familiar, essa alteridade que me habita, que me determina e age a despeito do que o eu quer, não se trata de um inimigo a ser eliminado para tentarmos construir uma ilusão de personalidade coerente. A experiência de análise conduz à descoberta que esse outro estranho de mim faz parte das minhas coordenadas existenciais, sedimentadas ao longo da minha história. Reforçar o eu, por outro lado, é reforçar as próprias resistências do sujeito a uma mudança. Por isso que o verdadeiro trabalho analítico não acontece na ordem do eu, mas no inconsciente. Se algo pode ser mudado para a história futura, não cabe ao eu decidir, mas ao inconsciente, este que sou sem saber.

A análise permite a descoberta de que o sujeito é um outro em relação a quem o eu pensava ser. Portanto, autoconhecimento não é um caminho interno, em busca do eu interior, mas uma jornada além dele, saltando para fora de suas couraças imaginárias e descobrindo o outro mundo que esteve sempre aí, você só não via ainda.

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Curta a sua página no facebook.

Apenas a título de curiosidade, ontem (09/06/16) fez 5 anos que sou colunista aqui no Teoria da Conspiração. Como o tempo passa rápido.

Este post tem 5 comentários

  1. Luciano

    Artigo tão simples e tão fantástico!
    Como seria melhor o mundo se todas as pessoas fossem capazes de exercitar essa auto-análise, desgarradas do próprio ego, de suas convicções cegas e egoístas, partindo-se ao meio e olhando para si mesmo como se fosse outra pessoa. É sempre mais fácil enxergar certas coisas do lado de fora.

    Esse assunto devia ser ensinado em sala de aula.
    ” Menos do que quão real é o eu, o que importa para a saúde mental é o quanto nos apegamos a esta construção de quem somos. Crer que somos muito de determinada maneira impede que possamos agir diferentemente em certas situações necessárias.”

  2. Thiago Henrique

    Excelente texto Igor, obrigado.
    Seguindo sua linha de raciocínio, e já adiantando que não tenho conhecimentos teóricos nenhum sobre psicologia, os casos de dupla-personalidade que vemos seria uma exteriorização desse “sujeito” frente ao “eu”?
    @Teo – Obrigado, Thiago! Boa pergunta.
    Os chamados transtornos dissociativos (nome técnico para o fenômeno de dupla personalidade) são definidos como momentos em que o sujeito passa a se comportar literalmente como se fosse outra pessoa, associado a isso geralmente uma amnésia. Essas outras personalidades – às vezes é mais de uma – se marcam como um outro para aquele eu que normalmente estamos acostumados ao lidarmos com o sujeito em questão. É um diagnóstico polêmico para a psiquiatria, havendo dúvidas até que ponto ele é empiricamente comprovado.
    Que o eu não é o único habitante da mente não é novidade na tradição psicanalítica. Mas o que chama a atenção nesses raros casos é a sensação de perda de controle do eu, seguida de amnésia (forte presença de recalque). Geralmente o eu se faz senhor do psiquismo, embora não o seja realmente. Mas ele vai dando parcialmente conta do seu trabalho no cotidiana, e lutar contra suas resistências é algo bem trabalhoso no trabalho psicoterapêutico.
    Nesses casos, no entanto, o que deve ser notado é a associação com eventos traumáticos. Esses momentos de cisão da personalidade estão geralmente associados a experiências traumáticas, surgindo mesmo como um mecanismo de defesa a eles. Uma certa persona vem para dar conta daquilo que um eu muito fragilizado não dá conta. Agora, quanto a esta nova personalidade, ela pode ser outra para o eu consciente, mas nada tem de novo em relação àquilo que sempre esteve lá no inconsciente.
    O tema é bem interessante e uma vez abordei num texto o fenômeno do duplo a partir da literatura: http://www.deldebbio.com.br/2015/12/07/analise-de-um-caso-de-duplo-na-literatura-de-edgar-allan-poe/
    Abraço!

    1. Thiago Henrique

      Interessante Igor. Obrigado pela resposta.
      Outra pergunta:
      Existem casos conhecidos sobre um sujeito com transtornos dissociativos tão exaltados que o eu começa até mesmo a conversar com a persona?
      Ou que a persona “apareça” para dar uma bronca no sujeito quando ele faz algo que desagrada a persona?
      @Teo – Não conheço nenhum relato de caso assim. Há uma experiência parecida com isso nos terreiros e nos centros espíritas, mas aí é outra história…

  3. Kueid

    Para mim o autor relatou um pulo pra fora do “eu” mas que ainda se passa no interior. Acredito que o caminho referido pode ter sua direção para fora mas esse “fora” não é alcançado e o caminho mesmo sendo reto mantem-se curvilíneo.

  4. Wilson Nasser Sleiman

    Artigo esclarecedor. Traz consigo as sementes de valiosas reflexões.

    Tenho me buscado através de processo terapêutico próprio, ou seja, falo comigo como se um terceiro fosse. Consigo nesse diálogo entre a minha consciência e inconsciência (pelo menos é o que entendo), consigo identificar os porquês da minha insatisfação ou tristeza atuais.

    Enfim, essa busca de mim mesmo é norteada somente pelo meu instinto e conhecimentos adquiridos ao longo da jornada.

    Muito interessante!!.

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