As Palavras, Símbolos e o Poder

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Ontem fui com a Pri Martinelli assistir à peça “Troilo e Créssida” no teatro SESI, pois um grande amigo nosso, Eduardo Semerjian, está fazendo o papel de Ulisses, um dos generais gregos no texto. A peça, escrita por William Shakespeare em 1602, é uma de suas peças menos conhecidas no grande público mas, por lidar diretamente com a Guerra de Tróia e conter diversas referências herméticas, é uma das favoritas dos apreciadores de História da Arte.
No caminho, estava aguardando a Priscilla recarregar o cartão dela e, quando retornou, explicou que havia demorado pois a moça à sua frente na fila era analfabeta e não conseguia de jeito nenhum fazer a recarga na máquina sozinha e tiveram de ajudá-la na tarefa.

“Analfabetismo” talvez seja uma das coisas que, como escritor, creio ser das mais cruéis possíveis quando se diz respeito à alma humana e a Pri me pediu para escrever alguma coisa sobre isso… analfabetismo não apenas no sentido mais tradicional, mas também voltado ao espiritual. É uma verdadeira prisão em todos os sentidos possíveis e imaginários, que limita e encolhe o ser humano à condição quase de um animal. E é algo muito difícil de se compreender, pois se você está lendo este texto, significa que nunca conseguirá imaginar o que é não ter a capacidade de interpretar os símbolos ao seu redor, pois é impossível fingir ser analfabeto mesmo que para um teste de se colocar no lugar do outro.

Esta prisão é estudada na Kabbalah dentro das Qlipoth. Thantifaxath é o nome pela qual conhecemos o 32o túnel de Set, a Sombra de TAV. Enquanto TAV representa os portais do Templo do conhecimento que nos permitem adentrar a Árvore da Vida, Thantifaxath são as portas fechadas aos que querem aprender. Neste texto não falarei sobre responsabilidades governamentais, políticas nem nada assim, EMBORA como os túneis estão conectados, Thagirion, a Corrupção (a Sombra de Tiferet) demanda que os servos estejam aprisionados e Thantifaxath cumpre este papel de carcereiro, da mesma maneira que um povo ignorante e analfabeto político serve aos interesses dos ditadores e populistas de plantão…

Magia e Imagem
Não é à toa que a palavra MAGIA está ligada diretamente à palavra IMAGEM, e GRIMÓRIO vem do francês Grimoire, que relata à Gramática. “spell” em inglês tem a mesma relação com soletrar uma palavra e conjurar um feitiço ou sortilégio. Os primeiros magos da humanidade foram as primeiras pessoas que aprenderam a ler e escrever. Com estes hieróglifos, eles eram capazes de passar o conhecimento para um papiro ou parede no templo e outros com o mesmo conhecimento eram capazes de resgatar estes ensinamentos mesmo longe da presença dos Mestres. O “Conhecimento invisível” (e daí o termo “Colégio Invisível” usado na Rosacruz) vem da capacidade de aprender algo novo simplesmente olhando para um desenho na parede (ou, no seu caso, olhando símbolos na tela de um computador)! o quão mágico pode ser isso? E ai o Elemento AR estar ligado diretamente ao Conhecimento, aos Símbolos e às letras. E, em última instância, ao AUTO-CONHECIMENTO.

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O texto acima pode ser encontrado no “Cyrus Cylinder”, um dos primeiros textos da história da humanidade. Ele relata sobre o governo do Imperador Cyrus, sua relação com Marduk, sua genealogia, os implementos que fez na Babilônia e o tratamento que dava aos servos, além de relatórios sobre a construção dos templos e alguns barcos. A partir deste texto, reproduzido fielmente acima, você acha que Cyrus foi um bom imperador?

Pois é… você não tem como saber. Você não possui as CHAVES. Porém, você sabe ler em Português, e consegue ler o que EU escrevo. Se eu soubesse ler Akkadio, eu poderia traduzir os textos para você entender… e se eu não soubesse, eu poderia inventar e você não teria como saber se eu estou dizendo a verdade. O que, nas duas alternativas, coloca você, analfabeto acadiano, nas mãos da pessoa que DIZ que sabe interpretar os textos… o princípio vale para os textos acadianos e também para a BÍBLIA… ou você também fala aramaico, grego ou latim?

Em 1998, no interior da Grécia, tive por algumas horas a sensação de não conseguir interpretar as palavras e letras que estão dispostas nos letreiros de ônibus, lojas, restaurantes, mercados e jornais… um mundo alienígena onde só conseguia compreender as fotos, logomarcas e imagens nas embalagens do produto, onde mal se conseguiria diferenciar um shampoo de uma embalagem de ketchup. As notícias de todos os jornais pareciam todas iguais! Letras incompreensíveis e algumas fotos de pessoas de terno apertando as mãos em alguma reunião. O que estariam discutindo?Apenas quando perdemos algo que nos é tido como garantido que percebemos como nos faz falta!

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“Nai” lembra “Não” em português, certo? deve ser algo contra alguma manifestação popular? ou votaram contra? ou estão contra alguma coisa?
Pois é… mas “Nai” é SIM em grego, “Oxi” é NÃO. O que nos leva à segunda lição muito importante deste texto… ACHAR que possui as Chaves certas é PIOR do que não possuí-las
.

Todos nós somos ignorantes em algum aspecto. Não há vergonha alguma em admitir isso. O problema começa quando algumas pessoas DIZEM ter todas as chaves e respostas que, de fato, não possuem. E isso vale para um jornal em grego ou para a BÍBLIA. E pior ainda, para as interpretações do que é “certo” e do que é “errado” de acordo com qualquer texto “sagrado”. Fica mais simples de entender porque justamente o túnel de Thantifaxath controla as chaves para os portões do Templo, certo? Sem o triângulo TAV-SHIN-RESH, não temos competência para interpretar os símbolos que são apresentados diante dos nossos olhos e nos tornamos vulneráveis às mentiras e informações falsas (SAMAEL, a Qlipoth de HOD, trata justamente da Mentira e é a emanação do túnel de Shalicu, o Preconceito).

Samael também cuida da MÍDIA como grande manipuladora da informação. Um povo analfabeto acredita em qualquer coisa que a mídia disser. Não é à toa que todas as Igrejas compram emissoras de rádio, jornais e televisões e que por trás de todo grande partido político corrupto está uma ligação com emissoras de televisão, jornais e rádios (e agora blogs e “jornalistas” de internet?).

Como escapar de Thantifaxath?
Não há uma maneira fácil, a evolução demanda sacrifício. A Espada Excalibur está permanentemente enterrada na pedra bruta, aguardando todo aquele que será o Rei de seu Reino retirá-la da pedra. Se a Espada e o elemento Ar representam o Conhecimento e a Pedra Bruta o Mundo Profano, o que deve fazer um Mago, ou Rei? Estudar sempre. Aprender, questionar, procurar obter as chaves do conhecimento em todos os sentidos. Alfabetizar-se em todos os sentidos (não apenas saber juntar as letras e formar palavras, isso minha filha de sete anos consegue fazer…). O grande problema de Thantifaxath é quando as pessoas ACHAM que são alfabetizadas, mas são o que chamamos de “Analfabetos funcionais”, o segundo degrau da escada, ainda mais perigoso que o primeiro, como demonstrei acima. Em 2001 quando fazia especialização em Semiótica, um professor disse que “A população brasileira não tem capacidade nem para discernir entre um merchandising e um conselho… Quando o povão vê uma apresentadora de TV dizer que usa um shampoo X no cabelo, eles não acreditam que aquilo seja uma propaganda; 78% das pessoas acreditam que a apresentadora está REALMENTE recomendando e usa aquele produto”. Bem, isso explica muita coisa em relação à nossa TV aberta e os programas de auditório, certo?

Alfabetizar-se no Elemento AR significa ter a capacidade crítica e racional de questionar o mundo ao seu redor e conseguir separar o joio do trigo. No Brasil, apenas 8% das pessoas podem ser consideradas realmente alfabetizadas, de acordo com as pesquisas mais recentes, o que significa que a situação ficou PIOR nestes últimos 15 anos.

Hermetismo e Metalinguagem
O Hermetismo no Renascimento assume o papel de uma Metalinguagem capaz de implementar mais força e impacto na apreciação de qualquer obra de Arte. Um artista talentoso consegue fazer um retrato ou um desenho, mas somente um Mestre é capaz de colocar os símbolos certos nos locais certos e invocar em nosso subconsciente as sensações que tornarão aquela obra de arte inesquecível. Da mesma maneira, qualquer um consegue escrever um texto, uma peça de teatro ou uma história em quadrinhos, mas somente os verdadeiros Mestres conseguirão mexer com o público em sua forma mais íntima e impactante, como camadas (ver o texto anterior sobre O Hermetismo ser como Camadas de uma Cebola). É a diferença entre aquela HQ mensal meia-boca que será esquecida daqui alguns meses e um Sandman, Promethea, Invisibles, Liga Extraordinária ou Watchmen que serão clássicos para sempre.

Cada camada desta cebola exige um vocabulário específico, uma maneira de conversar com o público e uma linguagem que atinja o público que você deseja. E os Símbolos conversam com todas as pessoas ao mesmo tempo. É possível escrever um texto em camadas, desde que você tenha o fio de Ariadne para conduzir a narrativa (se duvida, releia os primeiros textos do TdC após alguns anos e veja se continuam iguais aos que você lembra de ter lido…). Desta maneira, seu texto conversará com todo mundo, não importa o grau de conhecimento que a pessoa possua. E quanto mais culta a pessoa for e mais chaves ela tiver, mais ela gostará do seu texto, pois será capaz de se aprofundar cada vez mais no labirinto.

Troilo e Créssida
Para finalizar, queria dar os parabéns a toda a equipe da peça, tanto o diretor Jô Soares em suas escolhas de adaptar o roteiro junto com Maurício Guilherme para uma versão mais popular e simplificada, sem perder o simbolismo da história. A escolha de redefinir os figurinos dos Gregos e Troianos com base na dicotomia do Xadrez, para facilitar a compreensão do público em relação a qual lado da disputa cada personagem estava, entre outros detalhes muito bem acabados. O balanço entre a comédia e a tragédia ficou bem marcado (embora a peça tenha pendido muito mais para o lado da comédia nesta versão… uma “comédia sinistra, como diz o cartaz) e as caracterizações dos atores estão sensacionais (eu não assisto TV aberta, mas alguns dos atores da peça são conhecidos por seus trejeitos em programas como Zorra Total e outros e os aspectos mais caricatos foram bem explorados para conseguir a empatia do público junto a personagens complicados como Aquiles, Pátroclo, Menelau, Ajax, Pândoro e o estrupício Térsito.

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Os gregos

Shakespeare conseguia conversar com todos os tipos de público em sua linguagem simples e suas obras podem ser adaptadas para praticamente qualquer contexto, por serem profundamente hermetistas e dançarem na Árvore da Vida. Suas obras podem ser apreciadas tanto pelas camadas mais populares quanto pelos mais eruditos e cultos. E quanto mais chaves você tiver, mais gostará desta peça.

Este post tem 11 comentários

  1. Marcos Rodrigues

    Del Debbio, gostaria de tirar uma dúvida.

    Em uma de minhas meditações, após seu término tive um insight que num primeiro momento era uma sensação de compreensão absoluta, e somente depois as palavras descreveram aquilo (de maneira caricata e incompleta).

    Logo em seguida ao realizar uma tarefa banal do dia a dia, percebi novamente aquela fração de segundo entre a real compreensão do ser sem palavras, e a descrição posterior daquilo com a voz interna.

    Seriam a linguagem e os símbolos superestimados e sua importância na compreensão e resolução de “problemas” baixa ou nenhuma, restando a eles somente o papel de apontadores e comunicadores?

    Do mais, os textos do blog estão ficando cada vez mais intrigantes, parabéns!

  2. Guilherme

    Estava com saudades dos textos desse tipo. É sempre bom estar de volta.

    @MDD – A idéia é escrever basicamente só este tipo de texto agora… toda a parte teórica já está no blog, agora vamos contar causos…

  3. Filipe S. Menezes

    Muito bom! Em práticas de escrita já me percebi recheando os textos com camadas de cebola cozidas a vapor… de forma intuitiva…
    Me pergunto se as portas de giz que esbocei na parede podem ser abertas por chaves herméticas…
    Digo isso porque os símbolos não são específicos, mas acredito na natureza comum e universal das ideias.
    Gostaria que você (MDD) lesse um pequeno ensaio que fiz, se possível, e o analisasse brevemente (ou não).

  4. Gustavo C

    Eu estou querendo escrever, na verdade até já escrevo alguns textos e contos. Gostaria de saber como levar esse jogo pra ”outro nível”’, oque eu estudo pra me melhorar como escritor? Não quero escrever mais um desses milhões de romances adolescentes que vemos lançar semanalmente.

    @MDD – Eu recomendo estudar as bases da Jornada do herói: http://www.lojaderpg.com.br/index.php?cPath=72

    1. Klepsidra

      Também recomendo! Apresentei a jornada do herói pro meu namorado e agora os textos dele estão em outro nível

      1. Gustavo C

        Pior q eu estudo isso e nem me toquei. Obrigado!

  5. Thiago Andrade

    O campeão voltou hehehe.

    Já que você falou um pouco sobre TV no texto, inclusive no fato de não assistir canais abertos, fica uma sugestão para futuros textos.

  6. Rafael H.

    Muito interessante seu texto. Ultimamente me vejo muito trabalhando no caminho de TAV e as metáforas da educação com o nosso presente momento (que não são coincidências) são bem interessantes.

    Engraçado que há poucas semanas li uma resenha de um jornalista que dizia algo como: “Troilo e Créssida é uma obra ruim de Shakespeare. Até Shakespeare escreveu bobagens e essa era uma delas.”

    Chaves… Ignorância.. Mídia… Alienação… Camadas…

    Nada é por acaso.

  7. Tibério

    A questão do auto-conhecimento e os analfabetismos me lembrou bastante o conceito de “estado anômalo do conhecimento” que estudo na faculdade…A ideia base é que o processo de aprendizado não começa quando recebemos a informação e sim quando notamos um lacuna em nosso conhecimento (ou anomalia informacional) e utilizamos das ferramentas de aquisição de informação que conhecemos para suprir essa lacuna…O problema é que toda nossa sociedade é ensinada desde sempre a não procurar suas próprias lacunas e sim completa-las com conhecimentos pasteurizados fornecidos pelas escolas e meios de comunicação; o que cria uma população incapaz de reconhecer sua necessidade de conhecimento cada fez mais fanática que precisa se agarrar as suas verdades absolutas produzidas em escala industrial.

  8. Bia

    “É uma verdadeira prisão em todos os sentidos possíveis e imaginários, que limita e encolhe o ser humano à condição quase de um animal.”
    Os animais por vezes têm uma sensibilidade superior aos humanos, percebem coisas que os humanos deveriam perceber (não depende de sentidos mais aguçados). Para muitos, chegar à condição de um animal seria um avanço. Tal seja a armadilha de pensar que tem as chaves.

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