As HQs como parte da Humanidade


Por Vagner Abreu
Desde o inicio dos tempos o homem com o poder da imaginação, vem desenvolvendo, em sua própria Mente, Histórias sobre Heróis capazes de feitos que beiram o inacreditável. Heróis capazes de proezas épicas que incluem: matar monstros de sete cabeças, caçar muitos animais para alimentar uma tribo inteira, desafiar os mortos em busca de um ente querido.
Esse mesmo homem também criou um meio de passar para os demais de sua espécie a originalidade de sua história. Com o advento da Linguagem, o homem agora poderia contar a seus irmãos como se desenvolve a saga de seu próprio herói.
Ao se acender uma fogueira, tinha-se ali o riscar de fósforo para a aventura começar. O humano primitivo agora conta, em meio às labaredas, uma jornada que transcende da sua mente para a Imaginação de seus ouvintes. Usando a Linguagem e a, embora precária, Narrativa, ele criava imagens mentais de fatos de um mesmo personagem que o tornaria cada vez mais ligado com a realidade.

A aceitação do público fez com que, cada vez mais, o homem contasse a mesma história ouvida na última fogueira. De pessoa a pessoa, de uma família a família, de uma tribo a tribo. Era dada cada vez mais importância aos acontecimentos de uma determinada história, levando o nosso contador a passar para a próxima geração quais eram os tais feitos de seu herói de fogueira. Deste modo nasceu a escrita em cavernas.
Através de desenhos de parede, os narradores, agora contavam seus mitos que seriam reinterpretados por seus demais – em sua comunidade ou em milhares de anos no futuro.  Essa, talvez fosse, a primeira vez que fora usado o desenho para se criar uma história. Mas, um mero rabisco rupestre não diria muita coisa a alguém, a menos que se inclua narração e palavras em cada imagem. Nascia, assim, o desenho que ilustrava uma narrativa.
Esse modo de contar histórias tornou-se um sucesso. Qualquer espectador agora tinha uma imagem um pouco mais palpável do épico narrado. De uma caverna a outra, de uma região a outra, o desenho narrativo transcendia qualquer reino, qualquer tempo, criando estilo que levaram o homem a criar seus próprios meios de desenhar, narrar e interpretar suas Aventuras.
Dizem ter começado pelos antigos babilônicos, onde os muros de da cidade de Ur traziam jornadas inteiras de Reis Heróis capazes de terem o amor de deuses ou enfrentarem o próprio dilúvio. A famosa epopéia de Gilgamesh – o talvez primeiro Herói mitológico – está totalmente gravada “cuneiformemente“ nestas paredes. As paredes da Babilônia deram origem a Arte Sequencial.
Da Babilônia para as margens do Nilo, onde os desenhos narravam os mitos dos próprios deuses. Toda a classe nobre e sacerdotal do Egito usava os Hieróglifos (imagens no papel ou papiro) para obter e passar informações sobre ritos religiosos, modos de comportamento do faraó, fatos históricos.
O desenho não só contava histórias, como também ditava a cultura de uma das mais prósperas civilizações do mundo antigo. Ele fazia parte do cotidiano de todos.
Tão poderosa é a história narrada com desenhos que tal costume chegara até os dias modernos, nossos próprios mitos de nossos próprios tempos são narrados usando textos e imagens, deuses dão lugar para Homens com super força, Homens destemidos como Odisseu passam a ser vigilantes com trajes de morcego, deusas do mundo antigo recebem vestes modernas.
Claro, amigo leitor que você já deve ter “sacado” que é de Histórias em Quadrinhos de que iremos falar neste artigo.
Tão poderosa é essa forma de narração que, desde a década de 80, sabe-se através de estudos do Pentágono que a narrativa em quadrinhos é a melhor maneira para se compreender e reter informações. Palavras trabalhando com o lado esquerdo de nosso cérebro e a arte seqüencial interagindo com o lado direito, que é pouco racional, sendo pré-verbal. Ou seja, durante uma leitura de quadrinhos estamos colocando os dois lados do cérebro para trabalhar.
Com capacidade Dualcore de processamento acredita-se que o leitor freqüente possa ser capaz de ativar entre 20 e 30 porcento da capacidade cerebral. Essa teoria não é um fato concreto, de modo que é apenas uma especulação de uma entidade governamental de um país que “não dá muita importância” ao assunto. Não é mesmo?
Com base de todas estas informações, chego ao ponto de que o quadrinho não apenas é uma das melhores maneiras de se contar uma história (tanto que influencia até mesmo a grande mídia de massa, com filmes campeões de bilheteria) como também um hábito comum a humanidade. De tal forma que cada país tem seus próprios meios de trabalhar desenhos e narrações. Isso sem contar que em cada período de nossa história como seres deste planeta tivemos formas diferentes de ilustrar nossa mitologia. O que os Gregos faziam em vasos ou os egípcios em papiro, nós fazemos hoje dentro de quadrados com balões (sejam eles impressos ou digitais).
Sabem quem mais utiliza o método palavras e imagens para difundir informação? A mídia impressa; jornais e revistas todos se apropriando de métodos que o homo sapiens já conhecia a muito tempo.
Assim, o gibi, tal como a narrativa em desenhos do passado, trás temas que envolvem públicos específicos. Temos histórias destinadas a pessoas bem instruídas, histórias que fisgam adolescentes, história para o público infantil; a arte seqüencial é uma Linguagem Universal não tendo idade para se perder o interesse por sua apreciação e merecendo muito mais respeito do que ele realmente tem hoje em dia. Ora, se os povos antigos (e até mesmo homens das cavernas) valorizavam desenhos com narração, o que dizer de nós Homens Modernos.
Ref. Bibliográfica
As Obras que me inspiram a escrever esse post foram:
MOORE, Alan – Promethea
CAMPBELL, Joseph – O Herói de Mil Faces

Este post tem 10 comentários

  1. MaxRaven

    Caracas, nunca vi um post aqui bater tanto com que penso, inclusive no fato de gostar do Dr. Strange e olhando o blog do autor ainda dou de cara com a imagem de fundo que é justamente meu wallpaper a pelo menos uns 6 anos.
    @Yuri- Pqp 6 anos???
    É bom saber que o bom e velho Dr , ainda tem admiradores 🙂
    PS: Manda a imagem do Wallpaper , fiquei curioso!

  2. Cris

    Muito bom post, nunca havia lido algo parecido aqui TDC, interessante é que sempre lemos HQ, mas nunca pensamos que é algo tão antigo!!!

  3. Victor Hugo

    Essa técnica foi bastante utilizada na Idade Média. Como a maioria do povo era analfabeto (agora o povo é apenas funcional) a I.C.A.R começou a encher de imagens as suas igrejas e catedrais. É só olhar os enormes vitrais existentes.
    Imagina como seria amedontrador ouvir as passagens do apocalipse enquanto a Luz iluminava os diversos vitrais que as retratavam ?

  4. Rafael Arrais

    Heh o Dr. Estranho é um dos meus prediletos da Marvel, ao lado do Cap. Améica e Surfista Preteado 🙂

    @Yuri – É um dos meus também!
    Espero que logo venha um filme dele!

  5. Vagner Abreu

    Ai Galera…
    Para completar esse meu texto, se eu não me engano há um episódio recente de “The Big Bang Theory” em que o Sheldom (Bazinga!) fala sobre as pituras rupestres.
    No filme, Corpo Fechado, de M. Night Shyamala também temos uma teoria parecida.
    Descobri tudo isso essa semana.
    PAX

  6. Hanna

    Oi, Vagner!
    Grande texto!
    Logo de cara, brilhante tu escolher a capa da Promethea.
    (Quem ainda não leu, sério, por favor, procure ler.)
    Genial tu ter citado os relevos sobre o Gilgamesh.
    (Para quem curte Arqueologia e para quem curte correlacionar mitos e fatos, recomendo o livro “A Visão Babilônica sobre o Dilúvio e a Epopéia de Gilgamesh”, do Sr. Wallis Budge, Ed. Madras).
    Maravilhoso tu comentar sobre o estudo estratégico da HQ. E como ela atua/estimula nosso cérebro.
    Mas tu não comentou algumas poucas linhas sobre Promethea.
    “… Deusas do mundo antigo recebem vestes modernas.”
    Sendo fã do Moore, eu desejo ler tua opinião sobre essa obra.
    Posso voltar aqui pra ler?
    Abraço!

    1. Vagner Abreu

      Olá Hanna.
      Posso até tentar dedilhar algo sobre Promethea, mas é tanta referência e tanta citação ao hermetismo que até mesmo o Tio Marcelo teve dificuldades em falar de toda a grandiosidade da obra. Que dirá de mim que não sou Reptiliano hauhauhauha…
      Obrigado pelos elogios.
      PAX!

  7. roberto

    eu sempre vi os herois modernos como copias de herois ghregos

  8. roberto

    por exemplo:
    deus hermes ou mercurio (para os romanos) é representado hje por herois ou até viloes que possuem supervelocidade (the flash, cheetara, mercurio, kabal, wesker…)
    mulher maravilha éa deusa diana ou Ártemis, uma deusa agricola e da caça; inclusive era adorada pelos efésios
    thor nem precisa dizer pois ele já é dito como deus escandinavo mesmo
    namor ou aquaman assimilam ao deus dos mares posseidon ou netuno
    já observaram onde a liga da justiça se reúne? num lugar no espaço, ou seja, quase inalcançavel pra pessoas comuns, analogicamente éo monte olympus

    @Yuri – Tem um livro , quando ouvi falar dele o nome estava para ser “Nossos deuses vestem colantes” e ele trata exatamente dessa ideia , porém depois li uma critica pesada dele e resolvi não arriscar comprando.
    Mas segundo o que dizem ele faz essa analogia.

    1. Rogui

      Dica: American Gods
      lá fala a respeito dos novos deuses
      a parte que eu mais curto é quando a TV fala com Shadow(personagem principal), e ele, uai mas vc é um DEUS?
      sim, sou parte dos novos, os antigos já não consegue fazer o que fazemos.
      mas todo DEUS requer um sacrifício, o que os humanos fazem de oferenda para você?
      na maioria das vezes eles sacrificam o TEMPO.

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