Análise de um caso de Duplo na literatura de Edgar Allan Poe

I hold it back but somehow
There is someone else
Another stranger me
– Blind Guardian[1]

William Wilson (1839) é um conto de Edgar Allan Poe (1809-1849), autor notoriamente conhecido por suas histórias que envolvem mistérios. Nesta história, escrita em primeira pessoa, o narrador se apresenta como William Wilson, assumindo ser este um pseudônimo por preferir não revelar seu verdadeiro nome. O narrador afirma ter sobre ele se abatido o horror e a abominação do mundo, sendo assim o mais abandonado dos proscritos. As páginas que o leitor possui em suas mãos tratam-se da tentativa de William Wilson em contar, do princípio ao fim, a razão de sua corrupção, descrevendo-a enquanto uma fatalidade.

William Wilson se descreve tendo nascido com um temperamento irritável em extremo, e devido à abstenção dos pais na tentativa de modificá-lo, se define como alguém dominador, acostumado a mandar em sua casa, impondo ordens e sendo senhor absoluto de suas próprias ações. Enviado para um colégio interno, afirma que devido ao seu caráter ardente, entusiasta e dominador, se vê numa posição superior a todos demais colegas, de idade inferior ou igual. Todos exceto um. Este outro aluno, sem possuir nenhum parentesco, possuía mesmo nome de batismo e sobrenome familiar. William Wilson – nome falso, mas que segundo o autor não é muito diferente do verdadeiro – encontra em seu homônimo um rival nas lições, nos jogos e nas lutas do recreio. Este homônimo frequentemente não acreditava naquilo que ele afirmava, assim como não se submetia ao que o narrador impunha como sua vontade, recusando sua ditadura e manifestando-se a revelia sempre que podia.

A escolha do nome William Wilson é por si só algo a ser notado pelo leitor. Começaremos pelo sobrenome Wilson. Lendo a palavra escrita não há dúvida, mas ouvindo tal nome podemos muito bem nos confundir com Will´s Son. Há sua razão, pois, originariamente, Wilson provém de Son of Will, ou em português, filho de Will. O nome de família, herdado pela linearidade da tradição traz uma interessante marca ao personagem: és filho de Will. Filho, resultado, produto. Aquilo que te engendras e herdas.

William, por sua vez, se decomposto torna-se Will I Am. Will Eu Sou, em português. O nome de batismo, nome identificado como nome próprio, se traduz em Eu Sou Will. O personagem, a partir da centralidade do Eu, toma para si aquilo que é. Ou seja, aquilo que herda enquanto last name (Will), em first name torna-se quem o é. William Wilson, neste sentido, muito bem poderia ser “daquilo que herdei fiz quem sou”. Condição de todo sujeito, que como já apontava Freud no texto O Eu e o Isso (1923): Wo Es war, soll Ich werden. Em português: Onde Isso há, o Eu deve advir. O que em termos da psicanálise lacaniana diríamos que lá onde há a estrutura, o sujeito deve tomar seu lugar.

O nome do personagem principal já traz a marca de uma condição de duplicidade: ele é Will e ele é filho de Will. Quanto ao significante Will, daremos prosseguimento à história para tentar compreender mais a frente do que possivelmente se trata.

O homônimo William se mostrava rebelde aos desígnios do narrador, mas não por prover de igual ambição. Suas razões parecem enigmáticas, ao passo que o personagem de Edgar Allan Poe imagina se tratar de apenas um fim: rivalizar com ele por um caprichoso desejo de contradizê-lo e atormentá-lo. Pois mesmo quando Wilson lhe concedia a vitória, o fazia sentir que a vitória não o pertencia. Apesar da rivalidade, a relação de ambos não chega a um ódio absoluto. O narrador assume que seus caracteres iguais em muitos aspectos poderiam ter desabrochado em verdadeira amizade, se não fosse à reserva e a hostilidade que se resguardava entre eles. O sósia tinha apenas uma vulnerabilidade em relação ao personagem que conta a história: uma fraqueza nas cordas vocais que o impedia de falar alto, e quando falava, fazia em forma de murmúrio.

A irritação aumentava com o passar do tempo, na medida em que mais semelhanças eram encontradas entre ambos personagens do conto: o dia da data de nascimento, a mesma altura, a semelhança da fisionomia. E a cada momento William Wilson o imitava mais em seus gestos e palavras, em suas formas de vestir e andar. No seu último dia de aula naquele colégio, antes de abandoná-lo por tais acontecimentos, o narrador invade o quarto de seu homônimo carregando uma vela, e ao se deparar com o rosto de seu rival dormindo, uma estranha sensação o toma conta. Não reconhece as feições de William Wilson.

O narrador conta que daí em seguinte sua vida torna-se envolta de orgias, embriaguez e vício do jogo. Na universidade, monta um plano para enriquecer em cima de um colega de grande riqueza. Convida-o para uma noite de apostas junto a outros rapazes, onde ao fim do jogo iria tomar-lhe sua riqueza. Seu plano transcorre como esperado, até que, após vencê-lo nas cartas, surge uma figura, sem mostrar seu rosto, entrando pela sala onde eles se encontravam, e com uma voz baixa diz para examinarem as mangas de William Wilson. Assim descobrem que ele havia armado aquele jogo, e o expulsam da universidade.

Sentindo-se humilhado, foge da Inglaterra para o estrangeiro, mas descobre que sua fuga é vã. Em cada país que ele se instala, encontra seu perseguidor, desbancando-lhe em seus planos. Entretanto, apesar de seu perseguidor imitar-lhe nos modos e na maneira de vestir-se, nunca mostrava seu rosto.

O desfecho da história se dá em Roma, no carnaval. Num baile de máscaras, quando encontra um sujeito vestido exatamente como ele. Tomado por cólera, agarra-o e empurra-o para uma antecâmara, fechando a porta. O combate de espadas não dura muito até que o narrador transpassa o peito do seu perseguidor com a espada uma série de vezes. Percebe então que tentam mexer na porta, ao passo que retorna para impedir a entrada de alguém. Ao retomar sua atenção para a sala se espanta com o fato de que, no breve momento em que se afastara, o aposento mudou completamente suas disposições.

Havia agora nele um grande espelho, em que ele via a sua própria imagem salpicada de sangue caminhando em sua direção. Era seu inimigo William Wilson, que, agonizante, já não mais murmurava ao falar, mas pelo contrário: falava de maneira alta e nítida, como se fosse a própria voz do narrador: “Venceste e eu pereço. Mas daqui para o futuro também tu estarás morto. Morreste para o mundo, para o céu e para a esperança! Existias em mim. Olha bem agora para a minha morte, e nessa imagem – que é tua – verás teu próprio suicídio!”.

Podemos fazer uma ponte do conto com aquilo que Freud discute no texto O estranho (1919). Nele, o fundador da psicanálise parte da palavra alemã Unheimliche, que significa, comumente, aquilo que suscita medo e horror, como algo estranho. Unheimlich é o contrário de íntimo (heimlich), pois no alemão o prefixo un- introduz uma negação, como no português atua o prefixo in-. Un-heimlich é o não-íntimo, o estranho, o não familiar. Dessa equação pode se imaginar que aquilo que é novo, por ser estranho e não familiar, provoca o medo e o horror. Entretanto, não é sempre assim.

Dos significados possíveis de ser empregado à palavra heimlich, um deles exibe um significado congruente com seu oposto unheimlich. Isso deriva do fato de que a palavra heimlich possui dois circuitos de representação distintos, mas não contraditórios: ela tanto pode ser empregada para significar o familiar e agradável, como também aquilo que está oculto e clandestino. Unheimlich é usado como contrário do primeiro significado, mas não do segundo. Entretanto, se aplicarmos ao segundo, perceberemos que unheimlich pode significar tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto, no entanto veio à luz. Neste sentido, heimlich, em seu segundo significado possível – enquanto algo obscuro, inacessível e, de certo modo, estranho – esbarra no seu oposto unheimlich, de forma que o que é heimlich também é de certo modo unheimlich. O familiar é também estranho, como o estranho pode se dizer familiar. Experiência que William Wilson muito bem descreve em seu relato: quanto o seu nome pode lhe parecer estranho ao pertencer a outro, ao mesmo passo que aquele outro, tão familiar a ele em algo, lhe é um estranho aterrorizante.

Freud (1919, p.54-55) identifica o sósia como uma instância que no eu emergente pode se contrapor ao restante do eu, servindo-lhe à auto-observação e à autocrítica. Como que um ideal a fazer-lhe o trabalho de “consciência moral”. Nos chamados casos patológicos, tal instância pode ser isolada e cindida do eu, tratando-lhe como se este fosse uma outra representação, aparentemente externa a si. Não nos deve admirar que o sósia de William Wilson o sabotasse justamente quando ele pretendia cometer algum golpe ou atentado à ética, agindo quase que substitutivamente a um imperativo moral.

Retomando a questão do nome de William Wilson, segundo a versão digital do dicionário Oxford (2015), will enquanto verbo modal (verbo auxiliar) possui os seguintes usos:

  • Expressar situação no futuro, como em you will regret it when you are older (você irá se arrepender disso quando for mais velho);
  • Expressar um pedido, como em will you stop here, please (pare aqui, por favor);
  • Expressar desejo ou vontade, como em will you have a cognac? (gostaria de um conhaque?);
  • Expressar possibilidade ou expectativa, como em they will be miles away by now (eles devem estar milhas de distância a essa hora).

Quanto a sua origem, deriva do inglês antigo wyllan, de origem germânica, de raiz indo europeia compartilhada com latim velle (will, wish; vontade, desejo). Talvez este seja o significado que o personagem de Edgar Allan Poe compartilha com a palavra de seu nome. Will, de William Wilson, se aproxima de intenção, enquanto esta palavra pode ser uma substituta para seus sinônimos, como vontade, desejo, e mesmo situação a ser desencadeada no futuro (will enquanto verbo modal). William Wilson é: intenção-eu-sou filho-da-intenção. Em sua condição dupla, seu sobrenome o apresenta como filho, resultado da intenção. Enquanto no seu nome, esta intenção é identificada em primeira pessoa. Ao imaginarmos o personagem hipoteticamente se apresentando no modo inglês – Wilson, William – o personagem nos diz: eu sou produto de uma intenção, assim como sou ela.

Tais elaborações que aqui nos furtamos não são por acaso. A grande questão que fica após a leitura do conto de Edgar Allan Poe é: quem afinal é o sósia de William Wilson? Ele realmente existiu? O que queriam dizer suas enigmáticas últimas palavras? Esse é o enigma que nos deixa um grande escritor para que cada leitor elabore a sua própria resposta. Não precisamos ter pressa em responder. Mas vamos nos ater ao que seu próprio nome (escolhido intencionalmente como um pseudônimo) nos ajuda a pensar a questão.

É interessante notar que, desde os tempos de escola, o narrador falava sobre sua relação competitiva com seu duplo, e como ele estava sempre na defensiva, temendo ser subjugado por este, mas nunca falou de forma direta sobre a relação deste outro William Wilson com os outros colegas. Ele apenas diz que ele próprio era o segundo na hierarquia estudantil, atrás apenas do outro Wilson, mas nunca disse se isto era um consenso entre todos os estudantes ou se assim ele acreditava que fosse. Quando, ainda na escola, ele se dirige ao quarto de seu rival, ele se assusta ao olhar as feições de seu homônimo. O que ele terá visto? Uma cópia fiel de si? Ou se depara com o fato de que aquele menino nada tinha a ver com suas fantasias, mas era apenas um garoto normal em que projetou seus próprios anseios? Questões que Edgar Allan Poe silencia para manter o enigma.

Se o sósia era real ou não, também pouco importa. Essa é a dimensão da alteridade, impenetrável enquanto um enigma. Quem é esse Outro? O que ele quer de mim? Questões que atormentam o neurótico. Talvez o que mais nos importa é a própria posição subjetiva do narrador. William Wilson has willed himself into being along with the double which shares that name. William, a intenção eu sou, Wilson, filho da intenção, intencionalmente se encontrou com seu duplo naquele que compartilhava o seu nome. Intenção aqui não no sentido do racional, do sujeito moderno, que se vê senhor de si mesmo e de sua própria casa. Mas no sentido que interessa a psicanálise – onde como Freud apontava, o sujeito não é senhor nem de sua própria casa – restando a ele como uma intenção inconsciente.

Essa intenção inconsciente, no entanto, não lhe serve de álibi. Como seu próprio nome o denuncia: a intenção que te fez é o que te move e define quem tu és. Cabe sobre ela o sujeito se responsabilizar, pois, afinal, é sobre ele mesmo a quem recaem suas consequências. Não foram esta as últimas palavras do duplo ao responsabiliza-lo por seu suposto suicídio: Olha bem agora para a minha morte, e nessa imagem – que é tua – verás teu próprio suicídio!”.

[1] Trecho da música Another Stranger Me sobre a temática do duplo da banda de Power Metal alemã Blind Guardian

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Igor Teo é psicólogo e psicanalista. Curta a sua página no facebook.
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Este post tem 6 comentários

  1. Henriquess777

    Excelente texto. Muito bom, Igor.
    @Teo – Obrigado, Henrique

  2. Luciano

    Interessante demais! Me fez lembrar de um romance de Oscar Wilde. O Retrato de Dorian Gray. Também daria uma boa dissertação como essa. Parabéns pelo texto!
    @Teo – Grato, Luciano. Bem lembrado!

  3. Laura

    Ótimo texto, esta muito bem elaborado!
    William Wilson parece um tirano que teme até a si próprio, apesar de que tirano é uma palavra forte hahaha.
    @Teo – Obrigado, Laura

  4. Franco-Atirador

    Muito bom. Admiro muito seu trabalho, Igor. Adoro esse estilo misterioso (talvez por ter sol e mercúrio 1/2 em escorpião, casa 8), embora conheça pouquíssimo, tenha visto a um filme ou outro. Me lembrei aqui de Coração Satânico (1987). Curto muito mistérios. Parece que esse autor influenciou H. P. Lovecraft.

    Bom, fui lendo e tentando formar algumas elucidações ao longo de tantos caminhos e riquezas que certamente não me apropriarei: é tudo metáfora psicológica? O que é e o que apenas ‘serve’ pra dar seguimento à história e pode ser deixado de lado? O que significa o sósia estar dormindo quando o primeiro não o reconhece? ‘Entrar no quarto’ teria também um paralelo psicológico, como penetrar mais intimamente no estranho familiar? Sei que algo importante acontece aí, pois é nesse instante em que ele desemboca para os vícios, ou seja, passa a tentar suprir alguma carência, que pelo visto passou a existir a partir daí. Seria a carência de perder certo contato (não se reconhecer no outro que dorme)? Me indago se não deveria ser o processo inverso, se, na intimidade do outro, deveria se conhecer mais, enquanto parte dele mesmo. Mas o sósia é o que? A sombra (pois que é oculta)? O superego? Pelo caráter moralizador me pareceu o superego. Teria ver? No entanto, penso que a depender da criação do ego, as sombra pode também ser moralizadora. Por exemplo, em sua criação desenfreada, de pais bundões, pode ter sido relegado à sombra o caráter moral, uma vez que este não foi estimulado pelos pais e foi jogado para escanteio pelo poderoso WILL, ID, do personagem.

    Nossa! São tantas questões! Eu me atormento e me fascino com um texto desses. Vou tentando elucidar e vira e meche paro no caminho, são muitas questões que inundam a mente, falta até concentração para resolve-as, e conhecimento de psicologia também.
    @Teo – Ótimas questões levantadas! São coisas realmente a se pensar

  5. Luiz Otávio

    Clube da Luta…

  6. Ana Paula Oliveira

    Me fez lembrar do filme Revólver, não é uma história parecida, porém, o tema me parece o mesmo, o Ego. Parabéns pela análise!

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