A ponte em reforma

Clique no Banner para conhecer o Blog Textos para Reflexão

» Parte final da série “Para ser um médium” ver a introdução | ver parte 1 | ver parte 2 | ver parte 3 | ver parte 4

Segundo a falsa ideia de que não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. É assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a raiva, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, culpa seu organismo, acusando a Deus por suas próprias faltas. (Hahnemann em O evangelho segundo o espiritismo) [1]

Para ser um médium é preciso abandonar o que fomos, e nos preparar, sem medos ou falsas expectativas, para o que viremos a ser – novos homens e mulheres forjados no único fogo que queima sem se ver, e arde pela eternidade.

Para ser um médium é preciso reconhecer nossa própria alma, tomar posse, mergulhar profundo dentro de nós mesmos, pois que só assim nos conheceremos em verdade. Manuais de natação e mergulho podem ser importantes, mas há algo que são incapazes de nos ensinar – somente mergulhando, sem medos ou dúvidas improdutivas, é que saberemos. O grande poeta português já nos alertou:

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu. [2]

E, se a alma não for pequena, se o amor não for brisa passageira, se a vontade não for chama inconstante que se apaga com os ventos contrários, valerá a pena… Em nosso inconsciente profundo encontraremos, decerto, muitos monstros e demônios, mas caberá a nós, somente a nós, educá-los, persuadi-los, mostrar que só existe um caminho para uma vida plena de liberdade e sentido, e que todos os outros são apenas falsos atalhos e estradas sem saída, que nos fazem girar em torno de nosso próprio ego, sem realmente sairmos do lugar.

Os maiores perigos no início do caminho espiritual são as idealizações, as ilusões encantadas. Já falamos do “complexo de santidade” anteriormente, mas uma outra ilusão tão ou mais comum é a ilusão do céu de ócio eterno, alcançado mediante barganhas com alguma espécie de deus estranho… O que Deus precisa de nós? Apenas que aprendamos a posicionar nossa alma tal qual espelho a refletir a luz solar. Apenas que consideremos que todo pequeno ser, e todo grande ser, são como crianças a tatear um berçário cósmico, descobrindo aos poucos o que significa, afinal, amor infinito.

Um dos espíritos que respondeu a Kardec no Livro dos Espíritos talvez tenha vislumbrado tal amor de forma um pouco mais abrangente do que temos conseguido: “O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados. A atração é a lei de amor para a matéria inorgânica… Não esqueçam que um espírito, qualquer que seja seu grau de adiantamento no plano cósmico, está sempre colocado entre um superior, que o guia e aperfeiçoa, e um inferior, para o qual é pedido que cumpra esses mesmos deveres, em troca” [3]. Portanto, se não nos perguntamos por que a gravidade nunca deixa de atuar, constante e harmoniosa, por incontáveis eras, da mesma forma não devemos nos perguntar se Deus precisa de alguma coisa de nós – não é Deus quem precisa, são nossos irmãos. Devemos tão somente aumentar o centro de massa de nosso próprio amor, para que cada vez mais seres gravitem em torno dele.

Para ser um médium é preciso reconhecer todas as nuances do amor, é preciso ter um plano para conquistá-lo e estudá-lo, refleti-lo e irradia-lo, conforme tem sido feito pelos seres de cima, em nosso benefício, há tantas eras.

Mas para amar o próximo é preciso antes ter amor dentro de si, e para si. É preciso investigar o sótão da alma e reconhecer que lá há sujeira, e eventualmente arregaçar as mangas e fazer uma pequena faxina, e depois uma grande faxina, até que todos os monstros e demônios não tenham mais onde se ocultar… Será preciso encará-los frente a frente, e aceitá-los como são: apenas partes de nossa animalidade, fruto de nossa longa teia de vidas e espécies vividas. Não será o caso de decapitar tais monstros com uma espada reluzente e afiada… Guarde a espada. Os monstros passarão a ser seus amigos, lembranças de tempos em que você era ignorante do amor, e que agora não têm mais necessidade de serem antagonistas de sua saga. E, se não há exatamente um final feliz neste grandioso conto de fadas, há ao menos uma imensa ilusão em desencanto. Não há guerra: há apenas a ignorância a se desvanecer como a neblina da manhã ante os primeiros raios de sol…

Para ser um médium é preciso compreender que existe, afinal, uma terra de vida e uma terra de morte. E se entre tais territórios há hoje apenas uma tênue ponte de madeira quebradiça e cordas prestes a arrebentar, façamos a reforma!

Pois é esta ponte, somente ela, o que separa nossa alma da vida eterna. E é somente amando que conseguiremos progredir em sua reforma… Um remendo de corda, uma nova placa de madeira de lei, um pequeno gesto de amor, dia após dia. Passos na travessia, passos cuidadosos, rumo ao outro lado, onde há música

Há esta ponte entre nós e o Absoluto: atravessá-la, através do amor, é o único sentido, o único significado, a única razão para ser, afinal, um médium.

 

Todos pensam em mudar o mundo. Quão poucos pensam em mudar a si mesmos. (Tolstói)

 

para Maria Luiza.

 

» Esta série termina aqui, mas você ainda pode ler o Epílogo que escrevi para ela em meu blog.

***

[1] Cap. IX, item 10. Com ligeiras adaptações.

[2] Trecho final do poema Mar português, de Fernando Pessoa.

[3] São Vicente de Paulo, 888a. Com ligeiras adaptações.

***

Crédito das imagens: [topo] moodboard/Corbis; [ao longo] Martin Puddy/Corbis (ponte em Angkor Wat, Cambodja)

 

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum
Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.
» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

***

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

 

Este post tem 11 comentários

  1. caio

    simplesmente genial! uma das melhores séries de artigos aqui do tdc.

    @raph – Obrigado Caio 🙂

  2. Zé da Silva

    Muito bonito e poético mas as vezes a genética determina a pessoa sim. E as vezes o ambiente tb. Doenças e transtornos de personalidade são coisas graves e é normal que uma pessoa se pergunte pq Deus foi sádico a ponto de permitir q uma pessoa sofra de uma desvantagem tão grande e insuperável.

    As vezes as religiões e doutrinas espiritualistas só servem para culpabilizar as vítimas.

    @raph – Se você usa o conceito de carma para culpabilizar as vítimas e, principalmente, se você crê que pode julgar o carma alheio, é porque você não compreendeu muito bem a espiritualidade ainda. É algo que não se descreve, e muito menos se julga; é uma experiência, é algo sentido dentro, dentro, dentro, até que floresça, finalmente, afora…

    1. Ramon

      O carma não é uma culpa como punição mental. É uma responsabilidade e mais ainda, uma expressão de livre arbítrio. Uma prova de que o que você faz tem consequências e que você tem poder de atuação e mudar as coisas. Seus débitos cármicos devem ser reconhecidos e pagos não como forma de mostrar que você foi falho, errou, é culpado por seus males, etc… mas como forma de mostrar que hoje você tem o mesmo poder de mudança que antes, mas uma consciência diferente, capaz de reconhecer isso como parte da espiral ascendente, de uma evolução e que você evoluiu. Ao invés de ser dominado pelo evento, hoje, em “terceira pessoa”, você é capaz de entender a situação em que errou e corrigi-la, harmonizando-se com o universo pagando esse débito.

      @raph – “Hoje, em “terceira pessoa”” é uma bela abordagem para tentar descrever o sentimento que se sente 🙂

  3. wilins moraes

    Raph parabens pelo otimo texto suas palavras enriquecedoras!!

    Voce sempre escreveu assim tao bem ou voce foi aperfeicoando com o decorrer do tempo ?

    @raph – Certamente fui melhorando com o tempo e o costume, como podem ver no decorrer do meu blog (desde 2006); mas já escrevo sobre esses assuntos desde o final da adolescência, e anteriormente o fato de jogar RPG e escrever histórias de fantasia tb me ajudaram. Mas além disso, tem coisas que são fruto da inspiração, então não é nem que eu “escreva bem” propriamente, mas que eu me esforço para estar conectado com essas inspirações antes de efetivamente sentar para escrever. A maior pae de meus textos começa e amadurece no pensamento, escrever é só o momento final (embora essencial). Abs.

  4. Carlos

    Eu leio o TdC sempre, mas sempre no fundo do meu ser ainda penso que a vida em sí só, independente da existencia de um ser divino, ou do ser divino apenas ser por sí só, ainda torna tudo o que a gente vive um antro de bobagem e procura desnecessária ainda que, necessária.

    Ainda que eu acredite em algo maior, acredite na filosofia, e no ocultismo e nos estudos em geral, ainda que eu procure uma evolução espiritual, ainda que eu pratique qqer coisa, nada disso seria necessário se existisse o nada, ou seja, ninguem. Com ninguem exisitndo, não haveria fome, morte, sofrimento, procura por felicidade e evolução. Ainda que a providência nos dê tudo, ela teria nos dado muito mais sem nos dar nada, sem nos dar a vida e a morte, sem a existência não haveria nada disso. Quando lí a respeito da maçonaria anteontem, quando foi dito que ela é desnecessária, pois qqer um pode ter ideais de respeito com outrem mesmo fora dela me bateu de novo essa questão na mente: A maçonaria é tão desnecessária quanto a própria existência per se.

    Existindo o nada, ou o nada sendo por sí só, eu não estaria aqui escrevendo e pensando no que eu vou jantar, ou pra que programa eu vou levar minha namorada hoje. Acho que pra bom entendedor, já deu pra entender que se não fosse tudo, você não teria nem a necessidade de estar lendo e entendendo este texto. Sei lá, não sou alguem sem esperanças ou negativista ao extremo, eu sou como a maioria, sou objetivo. Acho que fui objetivista ao extremo, mas pelo menos cheguei num ponto sem resposta, pelo menos pra mim.

    Alguem aí, poderia me dar uma resposta?? 🙂

    @raph – O que chamamos de “nada” não existe, jamais existiu ou existirá, exatamente pq existe algo. Pensar se o nada seria melhor do que a existência é aparentemente inútil, mas pode ser o início de uma grande iluminação, que lá na frente, bem lá na frente, nos encaminhará para a reconciliação de todos os paradoxos… Eu tb recomendo o livro de Jim Holt, “Por que existe o mundo?”; e, depois dele, o meu, “Ad infinitum”. Boa viagem 🙂

    1. Carlos

      Haha, realmente o nada é tão inexistente que sequer podemos pensar nele, pq se tentarmos pensar no “nada” estamos pensando em alguma coisa o que automaticamente faz com que seja algo, sera que o nada não teria lugar quando a gente não pensasse nele? Sem contar que, mesmo que eu tente pensar no nada eu acabo pensando em algo tão abstrato que eu sei que não conseguiria expressar de forma alguma…
      “Pensar se o nada seria melhor do que a existência é aparentemente inútil, mas pode ser o início de uma grande iluminação” e o quão longe, ou qual seria minha caminhada para encontra-la?… agora fiquei curioso haha
      E obrigado pelas dicas de livro, vou ler, tenho certeza que irá me ajudar…
      Obrigado e até mais!

      1. Carlos

        Só pra deixar claro, que o nada que eu citei ali seria simplesmente a não existencia de coisa alguma, só me expressei errado em colocar “existencia do nada”… mas tudo bem 🙂

        @raph – Então Carlos, como disse meu amigo PH (no Podcast para Reflexão, do Conversa entre Adeptus), “essas coias doem a parte de trás da cabeça”… É normal termos esse tipo de problema lógico quando estamos nos referindo a conceitos que escapam da linguagem, e o “nada” é o que mais escapa, visto que escapa até mesmo da lógica – pensar nele já não é pensar nele.

        A questão dos “paradoxos reconciliados” é uma das máximas do hermetismo. Não é algo que, tampouco, possa ser explicado pela linguagem pura, mas digamos que ajuda bastante se você imaginar que todas as coisas possuem oposto, menos o Tudo, visto que o “nada” não existe. O Tudo não tem oposto… Com isso, muitas vezes nos pântanos mais desolados da existência, em nossa busca pelo “nada”, em nossa busca, quem sabe, pela auto-aniquilação, é que o Tudo ressurge das cinzas, e preenche todos os espaços, e é aí, neste momento, que todos os paradoxos são reconciliados, exatamente como profetizou Hermes Trimegisto.

        A caminhada, o caminho, todos os caminhos, iniciam com o conhecimento de si mesmo. Está tudo já aí dentro, até mesmo o mundo inteiro, visto que é aí dentro que ele é representado.

        Isto tb é muito bem representado pelo último suspiro (e falo literalmente) deste documentário: http://textosparareflexao.blogspot.com/2013/11/eu-maior-finalmente-estreia.html

  5. Pedro

    E como realizariámos essa limpeza? Eu sinto que é necessário reflexão de nossos atos, analisar o que nós fizemos ou deixamos de fazer, mas sinto também que falta alguma coisa… poderia dar uma luz em relação a esse assunto?

    @raph – “[…] para amar o próximo é preciso antes ter amor dentro de si, e para si. É preciso investigar o sótão da alma e reconhecer que lá há sujeira, e eventualmente arregaçar as mangas e fazer uma pequena faxina, e depois uma grande faxina, até que todos os monstros e demônios não tenham mais onde se ocultar…”

    Há uma música no “Irmão Sol, Irmã Lua” que fala exatamente sobre isso. O filme inteiro, aliás, fala sobre essa tal “limpeza”: http://www.youtube.com/watch?v=auoIdVPiqXU

    Boa “faxina da alma”!

  6. Jaspion

    Quando o Amor nasce em nós?

    Tenho um teoria:
    A partir do momento que nós aprendemos com o nosso Karma e no momento que vemos que ele é a nossa meta de aprendizado na vida , aceitando-o e sendo pró-ativos em relação à ela ,assim saberemos que Lei é essa que nos educa na grande Vida.

    O Amor que une o terreno do Karma e do Dharma é uma ponte que nos liga do mundano ao divino.

    Por favor, me corrijam ou acrescentem o que expus do meu conceito sore o Amor.

    @raph – Seja o que for o Amor, é algo que palavras serão sempre incapazes de descrever – pelo menos em sua totalidade. Mas eu gosto de uma definição de Rumi: “o que está buscando, também lhe busca”. Esta frase se torna mais poderosa na medida em que damos novos passos no Caminho até o Amor 🙂

    Também falo muito mais sobre esse assunto aqui: http://textosparareflexao.blogspot.com/2011/07/4-amores-parte-1.html Abs.

  7. Nuna Preta

    Grandiosamente lindo! Muito interessante a discussão. O não-ser só pode ser considerado em relação ao ser, ambos são relativos, pois se tocam em suas extremidades no perpétuo movimento do puro devir. Talvez tenhamos muito a expandir em consciência até podermos compreender um pouco mais. Parabéns!

Deixe uma resposta para Anônimo Cancelar resposta