A História de Gilgamesh

A realização de uma obra de arte, perdurável através dos séculos, é um dos mais notáveis “milagres” feitos pelo homem. É a realização intelectual e artística cuja verdadeira origem permanecerá largamente incompreendida.

Há nove mil anos, um sumério inventava a escrita e inaugurava a Era Histórica. É interessante salientar as notáveis conquistas intelectuais e materiais desse povo, inventor da escrita, fundador da civilização, iniciador da tradição intelectual do Oriente e do Ocidente, e berço das artes, das letras e das ciências.

A Literatura Suméria, a mais antiga conhecida pela humanidade, é paradoxalmente a que mais demorou a ser conhecida pelo homem moderno. Seu estudo foi iniciado após a descoberta da escrita e do povo sumério em meados do século passado. Está documentada em milhares de tabuletas de argila escavadas nas cidades mesopotâmicas. A maior parte desta literatura era formada de poemas de mitos e lendas, cantares épicos, documentos historiográficos, ensaios curtos e longos, dizeres e provérbios, assim como hinos e lamentações provavelmente usados nos cultos religiosos.

Cantar de Gilgamesh

O Cantar de Gilgamesh , considerada a obra-prima da literatura suméria, é um canto épico que narra as façanhas do Rei-herói, Gilgamesh, da antiga cidade de Uruk, na Mesopotâmia. O tema central vai além da narração de viagens, lutas e aventuras, temores e sonhos do protagonista: canta-se à amizade, ao amor, aos sentimentos de vingança, fala-se de opressão, de arrependimento e, acima de tudo, do temor à desaparição final e ao esquecimento após a morte. Este último é que leva Gilgamesh a uma procura insólita, desesperada e falida, mas não inútil, pela sua transcendência, da imortalidade.

Gilgamesh, talvez, o primeiro personagem histórico, viveu em torno do ano 2700 a.C., reinou em Uruk (a Erech bíblica) e construiu suas muralhas. Na lendária relação dos reis sumérios, ele é o sexto rei após o Dilúvio.

A obra em si parece, às vezes, obscura, principalmente por ser conhecida de forma incompleta. A mais antiga versão existente do Cantar foi escrita em sumério, por volta do ano 2000 a.C., sendo cópia de trabalho muito mais antigo. No próprio Cantar consta que, após retornar de suas viagens, o próprio Gilgamesh o escreveu, numa estela de pedra que colocou na base das muralhas de Uruk. Teria, desta forma, sido escrito poucos séculos (quatro a seis?) após a invenção da escrita.

Ponto de partida da literatura universal, a obra surge tão evoluída que, ainda hoje, mesmo separados pela barreira de 47 séculos, pela diferença de sensibilidade e pela nossa cultura moderna, configura-se uma leitura apaixonante, ainda que pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos.

Ela nos toca não apenas pela sua beleza, mas também pela sua criatividade temática e técnica; os efeitos e técnicas poéticas que utiliza são invenções da literatura suméria, que a civilização atual continua usando, aperfeiçoados nos quatro a cinco milênios transcorridos:

O uso da métrica e da rima era desconhecido, mas praticamente todos os demais artifícios e técnicas poéticas foram usados com habilidade, imaginação e efeito: repetição e paralelismo, metáfora e símil, coro e refrão. Na narrativa poética suméria, contos épicos e míticos, por exemplo, abundam os epítetos estáticos, longas repetições, fórmulas recorrentes, longas e demoradas descrições e longos discursos. (Kramer, Os Sumérios, sua História, Cultura e Caráter, The Univ. of Chicago Press, 1963).

Esta e outras obras sumérias foram amplamente disseminadas, conhecidas e copiadas no Oriente Médio durante mais de dois milênios, recontadas e parcialmente incorporadas pelos escribas (e pelos nar ou aedas) em obras maiores. Grandes escritores usaram livremente temas sumérios, como no Gênese e no Livro de Jó, por exemplo, e também em obras muito posteriores do Ocidente, como a “Descida ao Inferno” retomada por Dante na Divina Comédia. Homero possui ampla dívida com os sumérios: temática, nas viagens de Ulisses, na descida aos infernos, e técnica, no uso de epítetos, a invocação e colaboração dos deuses e a convivência, amor e ódio, dos mesmos com os humanos e até a promessa de imortalidade àqueles a quem canta.

A existência desta obra-prima foi revelada pelo arqueólogo inglês George Smith que, em 1872, entre os restos da Biblioteca Real de Nínive, encontrou partes da descrição do Dilúvio Universal, semelhante mas muito anterior ao do Gênese do Antigo Testamento hebraico.

O Poema começa com o Elogio a Gilgamesh:

Ó! Divino Gilgamesh, que todo o viu
Eu te farei conhecer em todas as terras.
Eu ensinarei sobre (aquele) que experimentou todas as coisas.
Anu deu-lhe a totalidade do conhecimento do Todo.
Ele viu o Segredo, penetrou o Mistério.
Ele revelou o que houve antes do Dilúvio.
Ele fez grandes viagens, até o limite de suas forças
e quando voltou em paz…
Ele gravou numa estela de pedra a narração de suas proezas
e construiu as muralhas de Uruk, nosso lar,
e as paredes do Templo de Eanna, o sagrado santuário.
[…]

E, sobre o próprio Gilgamesh, diz:

Ele cruzou o oceano, os vastos mares até o sol nascente,
Ele explorou as regiões do mundo, buscando vida.
[…] Dois terços dele são divinos, um terço é humano.
A grande deusa Aruru fez o modelo do seu corpo,
ela preparou sua forma…
… belo, o mais bonito dos homens,
… perfeito…
Gilgamesh é o pastor de Uruk, o refúgio,
decidido, eminente, conhecedor e sábio.
[…]

Gilgamesh, o Rei de extraordinária fortaleza e beleza, exerce seu poder às vezes com sabedoria, às vezes despoticamente: oprime os homens jovens e as mulheres de Uruk, sem que ninguém possa se lhe opor. Os deuses resolvem, então, criar um homem que seja o seu similar: Enkidu, o homem primitivo, nascido e criado nos campos entre as bestas selvagens, o mais forte dos homens. A partir desse momento deve-se produzir o encontro de Gilgamesh e Enkidu, isto é, da civilização com a barbárie. Enkidu vai enfrentar Gilgamesh que já o espera prevenido pelos seus sonhos, interpretados por sua mãe, a deusa Rimat-Nimsum. Depois de uma luta de titãs prevalece Gilgamesh, sendo reconhecido por Enkidu como seu superior. Tornam-se então amigos inseparáveis, transformando o mútuo respeito em verdadeira amizade que nunca haviam experimentado antes.

Gilgamesh convence Enkidu a viajar até a Floresta dos Cedros (no Líbano atual), com o intuito de matar o Guardião dos Cedros, Humbaba, o Terrível, cortar o Cedro Sagrado e obter glória e fama eternas. Apesar da oposição dos conselheiros, os amigos partem, confiantes na proteção do Deus-Sol, Shamash. Ao chegar à Floresta dos Cedros, Enkidu lembra o formidável poder de Humbaba e tenta convencer Gilgamesh a abandonar uma luta impossível e retornar. Mas Shamash os protege e, num trecho do Cantar de difícil compreensão, enfrentam Humbaba. Este é finalmente dominado pelos amigos, após uma luta de gigantes. Enkidu, temeroso das conseqüências de um revide, se deixarem Humbaba com vida, insiste que ele deve ser morto. O monstro amaldiçoa Enkidu condenando-o a ter curta vida e Enkidu, com seus braços formidáveis e sua enorme espada, corta a cabeça de Humbaba, despertando a ira do poderoso deus Enlil. Para aplacar o deus, Enkidu corta o maior dos cedros para com ele construir a Grande Porta do Templo de Enlil, em Nippur. Após terem cortado os cedros, iniciam o retorno e, à beira do Eufrates, constroem balsas que os levam de volta a Uruk. Enquanto Enkidu governa a balsa, Gilgamesh carrega triunfalmente a cabeça cortada de Humbaba.

De volta a Uruk, a bela Ishtar, deusa do amor, propõe casamento a Gilgamesh, mas ele recusa, após lembrar os trágicos destinos dos anteriores amantes da deusa. Ishtar, desprezada, é um inimigo temível; na sua ira ela pede ao seu pai, o deus Enlil, para enviar o Touro dos Céus e destruir Gilgamesh, sua gente e sua cidade. Contra toda expectativa, os dois amigos conseguem matar a besta. Ishtar apela à justiça dos deuses que, afrontados pela morte de Humbaba e agora pela do Touro, decidem que um dos amigos deve morrer e esse será Enkidu, já amaldiçoado pelo Guardião dos Cedros.

Enkidu fica sabendo de sua morte iminente por um sonho. Na sua comovente revolta frente à injustiça, apela ao deus Shamash que, em sábia resposta, o faz lembrar que deve agradecer pelas coisas boas que viveu e pelo profundo sentimento de perda que deixará atrás de si. Enkidu adoece e, apesar do cuidado constante e devotado de Gilgamesh, que é o mais sábio, morre após doze dias. Gilgamesh, arrasado pela perda do amigo, rende-lhe honras, constrói uma estátua em sua memória, rebela-se contra o destino e percebe que alcançar a fama entre os homens pouco ou nada significa frente ao horror do decaimento físico e da morte.

Gilgamesh rebela-se contra a Morte e dedica-se a procurar o segredo da vida eterna. Para tanto, decide procurar o único homem que a conseguiu – Utnapishtim, o Longínquo – o Noé sumério, a quem, após sobreviver ao Dilúvio, os deuses concederam vida eterna.

Numa viagem cheia de perigos, Gilgamesh encontra criaturas fabulosas e estranhas que o advertem da impossibilidade de sua procura, mas, com férrea vontade, continua e acha o barqueiro de Utnapishtim, que o levará ao encontro deste através das Águas da Morte. Quando, finalmente, o encontra, após jornadas agonizantes, é surpreendido, pois em vez de encontrar um ser extraordinário, cujo segredo de imortalidade estava disposto a tomar pela força, encontra um homem comum. Perplexo, diz:

Estava decidido a lutar com você,
Mas agora meu braço pende inútil perante você.
Diga-me, como é que você, na Assembléia dos Deuses, achou a vida eterna?

E Utnapishtim responde:

Eu te revelarei, Gilgamesh, o que é secreto,
Dir-te-ei um segredo dos deuses!

Utnapishtim revela então o que aconteceu no Dilúvio e como ele com a sua família, parentes, amigos e animais foram salvos pela sua piedade e obediência ao deus Ea (nome sumério do deus Enki, deus das águas doces e criador do homem e da sabedoria). O deus Ea, após a terminação do Dilúvio, intercede a favor de Utnapishtim perante o poderoso deus Enlil, o guerreiro. Este, que ordenou o Dilúvio, fica irritado pela sobrevivência dos humanos e suspeita da lealdade de Ea que, argumentando eloqüentemente, convence-o de que não revelou o segredo. Enlil perdoa Utnapishtim e ainda o converte, bem como a sua mulher, em seres imortais.

Terminado o relato do Dilúvio e, frente à determinação de Gilgamesh, Utnapishtim lhe diz:

Então, quem convocará agora (a Assembléia) dos deuses para ti,
para que possas achar a vida que procuras?
Mas, já que o desejas, submete-te à prova:
deves resistir ao sono durante seis dias e sete noites.

Gilgamesh, esgotado fisicamente pela penosa viagem, cai no sono logo e dorme sete dias seguidos. Ele falha no teste, sem dúvida devido à terça parte humana de sua natureza, e deve retornar.

Antes de voltar, a esposa de Utnapishtim intercede frente a este para dar a Gilgamesh uma recompensa pelos seus esforços, dizendo:

Gilgamesh chegou aqui cansado e com as forças esgotadas.
O que você lhe dará para que retorne à sua terra com honra?

E Utnapishtim, dirigindo-se a Gilgamesh, já no barco:

Eu te revelarei um segredo dos deuses, uma coisa secreta.
Embaixo da água existe uma planta,
ela tem espinhos como uma sarça,
como uma roseira ela te ferirá as mãos
Se conseguires apanhá-la, terás nas mãos a planta que rejuvenesce.

Gilgamesh mergulha no fundo do mar, colhe a planta e a segura, embora esta lhe ferisse as mãos. A planta lhe permitiria viver de novo a sua vida, com a vantagem da sabedoria adquirida na sua viagem que contém segredos dos deuses. Mas ele duvida e decide primeiro testar a planta com os velhos de Uruk e, depois, comê-la. Há aqui um curioso ponto de interrogação. Por que Gilgamesh não come a planta imediatamente? Teria desconfiado de Utnapishtim? Logo ele, que percorreu o mundo real e o fantástico para encontrá-lo?

Inicia o retorno, cruzando a porta do mundo que antes tinha franqueado. Quando param para descansar, à noite perto de uma fonte de águas frescas, Gilgamesh vai tomar banho e uma serpente, sentindo a fragrância da planta, silenciosamente sai das profundezas, apodera-se dela, muda logo de pele e submerge, para desespero de Gilgamesh que, impotente, a vê desaparecer nas profundezas.

Então Gilgamesh sentou-se e chorou,
Grossas lágrimas correram-lhe pelo rosto.
[…] Encontrei o sinal da vida e agora o perdi.

A esperança acabou. Gilgamesh retorna ao lar, mais velho e de mãos vazias, tendo agora entendido que não existe a chance de uma segunda vida real e muito menos a de imortalidade.

No fim da viagem, já nas muralhas de Uruk, Gilgamesh, com voz estremecida, mostra a muralha a Ur-shanabi, o barqueiro.

Repete-se o início do Cantar, só que agora as palavras são ditas pelo próprio Gilgamesh. Desta vez trata-se realmente de um solilóquio: perdida a esperança da vida eterna, Gilgamesh relembra e faz uma retrospectiva de sua vida. Ur-shanabi é apenas um símbolo do povo, cuja aprovação final talvez seja seu único consolo:

Ó! Divino Gilgamesh, que todo o viu.
Ele viu o Segredo, penetrou o Mistério.
Ele revelou o que houve antes do Dilúvio.
Ele fez grandes viagens, até o limite de suas forças
e quando voltou em paz…
Ele gravou num estela de pedra a narração de suas proezas.

A seguir, com uma reprise dos elogios feitos no início, termina a XI tabuleta. A maioria dos autores preferem terminar aqui o relato. Contudo, na XII tabuleta encontram-se dois episódios importantes “A descida ao Inferno” e “A Morte de Gilgamesh”, os mais antigos junto com a aventura da “Floresta dos Cedros”. A “Morte de Gilgamesh” parece ser a repetição de fórmulas rituais fúnebres, possuindo então alto valor arqueológico. “A descida ao Inferno” pode ser uma variante do sonho de Enkidu, prevendo a sua morte.

A descida ao Inferno
O episódio começa de forma desconexa, com imagens e visões que pareceriam extraídas de um sonho. Depois de uma sucessão de imagens, quase incompreensíveis para a nossa sensibilidade moderna, temos:

A flauta e a harpa caíram na Grande Mansão (o inferno)
Gilgamesh enfiou nela sua mão, mas não pôde alcançá-las.
Enfiou o pé, mas não pôde alcançá-las.
Então Gilgamesh sentou-se frente ao palácio dos deuses do mundo subterrâneo,
derramou lágrimas e ficou com o rosto pálido.
Ó minha flauta, ó minha harpa!
Minha flauta cujo poder era irresistível!
Minha flauta, minha harpa, quem as trará dos infernos?

Enkidu se prontifica a ir aos infernos procurá-las. Gilgamesh dá-lhe então conselhos para facilitar o seu retorno, como o de não usar ungüentos perfumados, nem vestir roupas limpas, nem deixar o seu arco na terra etc., para que os espíritos não o prendam. Mas, confiando nas suas forças, Enkidu faz tudo errado e a terra “o pega”:

O destino não o possuiu, nenhum espectro o possuiu, a terra o possuiu,
Não caiu sobre o campo de batalha, a terra o possuiu.

Gilgamesh tenta de todas as formas conseguir, através dos deuses, a libertação de Enkidu. Mas Enlil nem o escuta. Finalmente o deus Ea, criador e protetor dos homens, comanda ao deus dos infernos, Nergal:

Abre o fosso que comunica com os infernos,
Que o espírito de Enkidu volte dos infernos
e possa falar com seu irmão!

Aberto o fosso por Nergal:

O espírito de Enkidu, como um sopro, saiu dos infernos
E Gilgamesh e Enkidu falaram:
– Ó meu amigo, meu caro Enkidu,
diga-me a lei do mundo subterrâneo, você a conhece.
– Não, não te direi a lei que conheço.
Não te direi a lei para que não te sentes a chorar!
– Seja assim. Quero sentar-me e chorar!

Então, seguem-se as revelações que Gilgamesh mais teme:

Aqueles que quiseste, os que eram gratos a teu coração,
todos os que acariciaste,
estão agora roídos pelos vermes,
estão cobertos de pó.
Seus espíritos não têm descanso nos infernos.

Os detalhes deveriam ser muito atemorizadores para o espírito sumério da época e nos lembram passagens do “Inferno” da Divina Comédia de Dante.

Não há retorno real de Enkidu, que, vítima de sua fidelidade e por não ter respeitado a sabedoria dos conselhos de Gilgamesh, que representa o Saber e a Ciência, deverá ficar para sempre nos infernos.

Morte de Gilgamesh
O destino de Gilgamesh, decretado pelo pai dos deuses, Enlil, está cumprido:

Na Terra inferior, na casa das trevas, uma luz o iluminará,
Nenhum homem famoso uma lembrança como a dele deixará,
As gerações futuras não terão uma lembrança que se compare à dele.
[…] sem Gilgamesh não haverá luz.
Ó Gilgamesh, foi-te dada a realeza segundo o teu destino.
A vida eterna não era teu destino.

Humildes e poderosos da cidade choram a morte de seu herói e protetor. Esposa e filho, concubinas, músicos, bufos, todos os que comeram de sua mesa, servos, mordomos e os que viveram no seu palácio pesam as suas oferendas para Gilgamesh e para Ereshkigal, a Rainha da Morte e para os deuses dos mortos.

O destino falou. Qual um peixe preso no anzol,
Gilgamesh está deitado em seu leito,
Como gazela presa no laço
[… ]

Gilgamesh, filho de Ninsun, está em seu túmulo
No altar das oferendas ele pesou o pão,
No altar das libações ele verteu o vinho.
Nesses dias partiu Gilgamesh, filho de Ninsun
o rei, nosso senhor, sem igual entre os homens,
Aquele que não faltou a Enlil, seu deus.
Ó Gilgamesh, senhor de Kullab, grande é a tua glória!

Termina assim a Épica mais antiga da humanidade. Não só com a morte física do herói, mas com o seu fracasso na procura pela vida eterna.

Gilgamesh morre junto com os seus sonhos, mostrando assim que é humano. A partir dessa verificação, só lhe resta voltar à sua amada Uruk, para deixar a marca perene de sua existência.

Morta a esperança, Gilgamesh alenta nas suas façanhas, e por isso é que faz sua retrospectiva vital ao barqueiro Ur-shanabi, único a testemunhar sua luta impossível contra o destino efêmero dos humanos.

Por isso é que escreve na pedra o que viveu na vida:

Ó Gilgamesh, foi-te dada a realeza segundo o teu destino.
A vida eterna não era teu destino.
Quando os deuses criaram o homem
deram-lhe como atributo a Morte,
mas a Vida, a Vida Eterna, essa, só ficou para eles.

Este poderia ser o epitáfio na lápide de Gilgamesh, a gigantesca figura que, através dos séculos, marca a despedida definitiva da Humanidade da escuridão impenetrável da Pré-História, que ainda se entrevê nos detalhes do relato do sábio Utnapishtim do mundo antes do Dilúvio Sumério.

Gilgamesh não atinge a imortalidade fútil dos deuses sempiternos que, na sua imobilidade, mais semelham a morte do que a vida. Ele atinge a imortalidade dos arquétipos humanos na memória dos seus iguais, os homens. Obras materiais, como a muralha de Uruk, persistem após 47 séculos de história de uma das regiões mais conturbadas do mundo. Mas ele perdura pela sua constante procura da essência da eternidade, pela consciência insigne de seu conhecimento, pelo que gravou na pedra e impregnou na mente das gerações que o seguiram, cumprindo assim as proféticas linhas finais do poema.

Ele perdura porque a história de sua ciência, de sua força de vontade e de sua coragem nos foram transmitidas – talvez por ele mesmo – e porque elas encarnam o ideal humano de uma vida onde cada obstáculo dá origem a um novo esforço que o leva à contínua superação.

Como Modelo Literário, o Cantar teve as maiores conseqüências imagináveis. Conhecido de toda a antigüidade, ele foi imitado e inspirou obras-primas que conhecemos muito antes, como o Gênese do Velho Testamento hebraico e a Odisséia.

O Cantar, conhecido até poucos séculos depois de Cristo, perde-se com a decadência e desaparecimento da Babilônia. Ele é reencontrado nas escavações feitas por volta de 1860, por arqueólogos ingleses em Nippur e alemães em Uruk (atual Warka) e depois na própria Babilônia. Assistimos, aos poucos, ao renascimento de Gilgamesh… E, talvez, essa seja a chance que a história, reencarnando a “planta do rejuvenescimento” de Utnapishtim, dá a Gilgamesh: viver sua segunda vida na memória e na imaginação do homem moderno.

Ele conquistou a imortalidade da espécie, devido à terça parte humana de sua constituição, a mesma que, paradoxalmente, lhe impediu de atingir o eterno absoluto dos deuses.

Mas, não é isso mesmo o que o poeta lhe promete no início do Cantar?

Mas, eterno é o poeta ou a personagem?

Poeta e personagem identificam-se e, enquanto nos contemplam, com a perspectiva de 47 séculos e a condescendência que dá a longa intimidade com o transcurso milenar do tempo, cada um eterniza-se no outro e na mente e na imaginação dos demais homens.

Por S Caticha Ellis, originalmente no site Kplus.

Este post tem 42 comentários

  1. New_Man

    Eu já li o Poema Gilgamesh e gostei bastante desta “análise” feita pela Ellis. Fantástico MDD. Quando li pela primeira vez, achei que era uma “cópia suméria” do Gênese. Depois, com pesquisas pela net, descobri que o Gênese é uma “cópia hebraica” do Gilgamesh. He, he, he… Nesta existência, nem tudo é o que parece (ainda mais quando se trata de religião, política e INFORMAÇÃO)!!!!

  2. Khael

    muito interessante, não conhecia a história de gilgamesh. aliás, não sabia quase nada dele, só que ele é um dos chefes mais difíceis de final fantasy =P

  3. Tio DD,

    Sou muito fã de Gilgamesh, já li um livro retirado desses textos, é uma pena que apenas um pedaço pode ser traduzido dentre tantas tábuas de barro quebradas!

    Um grande abraço e que o Pai Celestial lhê ilumine cada dia mais intensamente!

    Fred

  4. hahaha

    Gilgamesh era gente que faz 😛

  5. maurício

    Como tem gente que nunca vai ler o texto de Gilgamesh inteiro, deixa eu sugerir a versão “infanto-juvenil” do texto, ilustrado e adaptado por Ludmila Zeman e traduzido para o português pelo Sérgio Capparelli.

    A versão do texto e as ilustrações valem muito para entender o contexto original.

    O Rei Gilgamesh – vol 1 – ISBN 85-85500-12-3
    A vingança de Ishtar – vol 2 – ISBN 85-85500-11-5
    A última busca de Gilgamesh – vol 3 – ISBN 85-85500-10-7

    Abraço

  6. otavio"

    cade a propaganda pra da a clicadinha?

    @MDD – Aquelas propagandas são o fim da picada. Estou pensando seriamente em buscar outra forma de patrocinio mais sério para a Hospitalaria.

  7. Estoniano

    Falando sobre escrita, gostaria de saber se você indica o uso de um diário (mágicko), e se tem alguma dica de como escrever um.
    Aitäh

    @MDD – sim, um journal é algo indispensável a um estudante de magia.

  8. Rick

    Que isso tio Marcelo???
    No dia mais longo do ano vc fala isso de nós, pobres aquarianos??

    uhauahuahuahuah

    Abraços! =]

  9. Rick

    “@MDD – so se fosse para falar que esse povo viaja muito na maionese…”

    faltou essa parte ali em cima… heheh

  10. João

    Em algumas partes desse texto eu lembrei da história do Fidel Castro e do Guevara. Se não fosse tão antigo, diria que este texto foi escrito por um cubano comunista… hehehe.

  11. João

    “Como tem gente que nunca vai ler o texto de Gilgamesh inteiro, deixa eu sugerir a versão….”
    Cara, se alguém não se dá ao trabalho de ler esse texto, você acha que vai se dar ao trabalho de comprar alguns livros???????

  12. eddie

    bom tema, isso se passa antes ou depois dos anuraki?
    ta a par das teorias do tio zacarias ? 🙂

  13. mauricio

    “Cara, se alguém não se dá ao trabalho de ler esse texto, você acha que vai se dar ao trabalho de comprar alguns livros???????”

    1) Não “esse” texto, o texto integral do Gilgamesh, que é muito mais complexo e difícil de ler do que o que está no Blog.

    2) São livros ilustrados, tem muita informação mastigadinha pra quem não consegue ler textos quase pré-históricos, sabe…

    3) Bem, se tu não leu nem meu comentário inteiro, claro que não é pra ti a sugestão de comprar os livros…

    4) Por que eu to respondendo? Tu nem vai se dar o trabalho de voltar aqui de tanta preguiça… 😛

  14. Melquisedeque

    É curioso como os sumérios e seus escritos foram “esquecidos” ou ignorados por tanto tempo, visto que formam uma das bases dos gênises e os gênises são a base dos judeus; e judeus c/ seus livros são a base dos cristãos…E os mitos são cada vez mais distorcidos conforme as necessidades regionais.

    Aproveitando o momentus era aquáriana. hehehe (lembrei de astrologia hermética), gostaria de pedir algo. Qual a possibilidade de vc colocar no site /internet um vídeo de uma de suas palestras. Sei que vc ministra palestras gratuítas e aproveitando a tecnologia isso seria demaiss.
    Espero não estar sonhando muito.

    abraços.

  15. edazdogma

    Qual o mistério dos épicos? Porque fascinam tanto?! Pra quem se interessou tanto quanto eu, existe uma série de entrevistas no GoogleVideo com o Joseph Campbell chamadas ‘ O poder do mito ‘. Depois dessa série você vai entender um pouco mais a beleza da Mitologia e suas influências, principalmente nas religiões.
    Fica a dica… ((:-)-<<|
    .
    Abraços Estrogonais!

  16. Wilson R. Santos

    Olá Marcelo !
    Sou leitor assíduo do TdC, parabéns pelo excelente trabalho !
    Sobre Gilgamesh e os sumérios, gostaria de perguntar, você já ouviu falar em Zecharia Sitchin ? Esse cara é um especialista em algumas línguas do oriente médio antigo, incluindo, a escrita cuneiforme suméria, e escreveu alguns livros onde apresenta a teoria de que, de acordo com seus estudos, muitos mitos e lendas descritos nos textos sumérios, seriam descrições literais de eventos ocorridos a milhares de anos, e basicamente a conclusão que ele chega é que o ser humano foi criado através de manipulação genética, a partir de seres vindos do planeta Nibiru, os Annunaki, que teriam efetuado esta manipulação para produzir um trabalhador primitivo, para auxiliá-los em seus objetivos aqui na terra. Falando assim rapidamente, parece besteira, pura abobrinha, mas os livros dele são interessantes, e com bastante referências apoiando sua teoria, entre elas, ele cita como os sumérios conheciam detalhes do sistema solar, que só foram confirmados recentemente.
    Já ouviu falar nesse cara e em suas teorias ?
    Abraço,

    @MDD – Eu nunca li nada dele, as referências que o kentaro me passou dele são péssimas e, minha experiência pessoal de quase 20 anos dentro de tudo que é ordem iniciática que você possa imaginar me diz que não existem reptilianos. Até onde eu consegui estudar, as imagens de serpentes misturadas com homens dos sumérios são alusões à Kundalini e às energias Telúricas.

    1. Fellipe

      isso na verdade é uma informação bem interessante, mas não pode ser mal interpretada.
      Não se trata de reptilianos, algumas escolas mesmo afirmam que a terra foi visitada por
      alienigenas, mas bem diferentes daquele ETS cabeçudos da ficção, pois na verdade são seres astrais
      que interferiram e modificaram(por via energética) genéticamente o ser humano afim de que estes sirvam
      para uma produção de energia sutil mais abundante, são então os vampiros energéticos a procura da moeda universal: energia.

  17. raph

    Oi Marcelo,

    Para ser bem sucinto, parabéns pelo blog (que não conhecia até então), e sobre o assunto do post, me parece que Enkidu é a representação do instinto animal e Gilgamesh a representação do aflorecimento da consciência humana. E o fato de ambos terem se tornado amigos após a “consciência vencer o instinto” somente demonstra o caminho mais rápido para a sabedoria e o autoconhecimento.

    Não quero dizer que se tratam apenas de mitos, muito pelo contrário. É surpreendente que essas noções espiritualistas e profundas já fossem encontradas nos primeiros textos da nossa história.

    Abs
    raph

  18. Wilson R. Santos

    Olá Marcelo !

    Então, note o seguinte, de acordo com os livros de Zecharia Sitchin, os Anunnaki(seres vindos de Nibiru) não são reptilianos, seriam humanóides como nós, talvez em maior estatura.
    De acordo com ele, a famosa frase “faremos o homem a nossa imagem e semelhança” bíblico, teria sido proferido pela cúpula anunnaki aqui na terra, quando da decisão de manipular geneticamente certos seres primitivos que caminhavam sobre duas pernas pelas savanas, para produzir um trabalhador primitivo.
    Há vários sites, vídeos e apresentações pela web, que dizem que os Anunnaki seriam reptilianos, mas você não vai ver isso em nenhum livro de Z.S. Eu tenho visto que, um grande número de baboseiras que está na Web falando sobre 2012, mistura aí no meio Nibiru, Anunnaki e reptilianos que querem dominar o mundo. Não há nada disso nos livros de Zecharia Sitchin, e esse tipo de coisa que rola na web acho que acaba tirando por tabela qualquer credibilidade que ele tenha, mesmo sem ter nada a ver com isso, rs. Não que haja provas absolutas de que ele esteja certo mas, acho que vale a pena dar uma olhada nos argumentos dele, com a mente aberta.
    Um abraço,

    Wilson

  19. marcão

    Boa tarde.
    em primeiro lugar ,quero dizer a voce, que sou vidrado no tema mitologia, bem como história antiga.Aproveito ainda para elogiar o material exposto, e dizer que já vi algumas alusões ao gilgamesh , sobretudo no antigo testamento, e fazer um comentário: imagine que Deus fez o homem à sua semelhança, mas negou-lhe o fruto proibido, então tal fruto deve ser o conhecimento sobre nossa propria origem.

  20. Beppo

    Mto bem escrito esse texto, adorei!Minha dose de cultura diária!

  21. Ralph Ellis

    O verdadeiro Escorpião Rei(chora The Rock)!!!MDD VALEU.

  22. Ralph Ellis

    E mais ele nega o amor(casamento com a deusa) tal Alberich para se apoderar de seu precioso…

  23. Refinski

    Nossa, não sou fanático, mas é bem interessante como se pode acreditar num monte de histórias mal contadas do que acreditar no que a Bíblia diz. A Bíblia é o livro mais antigo e mais lido que se tem notícias… se aplicassem apenas um versículo do que ela diz a humanidade seria completamente diferente, regida pelo amor, paz e harmonia entre o humano e o espiritual… mas, fazer o que, as pessoas preferem acreditar em Gilgamesh e outras fantasias humanóidicas.

    @MDD – Ainda bem que não é fanático. tenho até medo de pensar no que faria se fosse… Vamos aplicar este versículo, então: “Vossos escravos, homens ou mulheres, tomá-los-eis dentre as nações que vos cercam; delas comprareis os vossos escravos, homens ou mulheres” (Levítico 25,44). ai o mundo seria completamente diferente!

    1. Rev Breno

      Eu sempre uso essa passagem como ilustração

      e se entregava apaixonadamente a homens com pénis como o dos jumentos e sexo como os garanhões.

      Ezequiel 23 20

    2. Roberto Vasconcelos

      Touché! xD

  24. Dominus

    Maravilhoso
    Mostra a triste realidade de um homem que não quis encarar a morte do que ele era, e por isso acabou morrendo.

  25. Willbn

    Olá Tio Marcelo, os comentários neste post fizeram-me pensar em fatos como a grande campanha da Igreja contra todo tipo de “conhecimento” que não fosse aquele transmitido por ela, como também em todo acervo de informações que ela destruiu, perdas irrecuperáveis…
    Mas o que Eu gostaria de saber era sobre a Biblioteca de Alexandria, o que você poderia falar sobre o que se perdeu por lá?

    Vlw

  26. Ricardo

    Muito interessante o post , Gilgamech tinha 75% o sangue celestial , a partir dessa porcentagem tinha 50 % de chances de ter a vida eterna , se fosse permitido , mais no caso dele não foi . Grande herói e temido por todos embora com seus 5,5 metros de altura , não era um dos maiores homens da terra , por que existiam homens muito mais altos , mais ele era o mais forte homem que existiu depois do dilúvio ,reinou mais de 100 anos e ele morreu farto de dias .Para acabar com o sistema de porcentagens de sangue celestial e impurezas genéticas , começou o sistema de reencarnações ,quem tinha porcentagens do sangue celestiais mesmo que morressem , iriam poder voltar num futuro distante , isso não é certo , porque tbm existem relatos até mesmo na biblía que dizem que seres que nascerão desses cruzamentos , nunca mais iriam renascer , e seriam sombras sem vidas e sem memórias . BLZ

  27. gaborul

    folclore babilonico

  28. Marcelo, estou com uma dúvida sobre Mitologia Suméria que me bateu porque uma amiga ufóloga me mostrou o trecho seguinte:

    “Quando eu me aproximei vi verdes pradarias. Ao meu comando foi dada a ordem para provar se havia água potável.Ao meu comando foi dada a ordem para provar se havia alimento apropriado. Ao meu comando foi dada a ordem para provar se os gases eram respiráveis.” — http://pt.wikipedia.org/wiki/Enki

    Ela vive querendo provar pra mim que a humanidade foi geneticamente modificada como raça-escrava dos Annunaki uma raça alienígena que veio para a Terra à procura de ouro. Eu nunca acreditei, mas fiquei grilado com esse trecho ai.

    Parece a viagem de um deus-astronauta pelo espaço até chegar a um planeta e colonizá-lo. Você poderia me dizer como você interpreta o trecho acima?

    @MDD – da onde veio esse texto? Wikipedia em portugues é uma fonte porcaria.

  29. laura fernandez

    Lendo todos estes textos começo a entender porque ao longo de encarnações me tornei o que sou, reino, é preciso rever todos os conceitos e reiventar modus operandis para voltar a acreditar em um mundo paralelo, e dá-lhe exercicícios e muita disciplina para recuperar o tempo perdido, abs

  30. Fernando Dias

    Gilgamesh e Enkidu seriam um equivalente ao Castor e Polux? A referência leva a deduzir que a historia foi criada ou aconteceu no aeon de gêmeos. Tem alguma correlação ou to viajando?

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