A Grande Sabedoria

Texto de Chuang Tzu (*)

A grande sabedoria vê tudo num só. A pequena sabedoria multiplica-se entre as muitas partes.
Quando o corpo adormece, a alma envolve-se no Uno.
Quando o corpo desperta, os sentidos abertos começam a funcionar.
Ressoam a cada encontro
Com os afazeres vários da vida, as dificuldades do coração;
Os homens estão bloqueados, perplexos, perdidos na dúvida.
Pequenos temores devoram a paz do seu coração.
Grandes temores os tragam totalmente.
Flechas vão de encontro ao alvo: acertam e erram, certo e errado.
A isto é que os homens chamam discernimento, decisão.
Seus pronunciamentos são tão definitivos
Como os tratados entre imperadores.
Ah, eles alcançam o que desejam!
Mesmo assim, seus argumentos esmorecem mais rápidos e mais fracos
Que folhas mortas no outono e inverno.
Suas conversas fluem como urina,
Para nunca mais se recomporem.
Ficam, por fim, bloqueados, limitados, e amordaçados,
Obstruídos, como velhos canos.
A mente falha. Nunca mais verá a luz.
O prazer e a raiva
A tristeza e a alegria
Esperança e perdão
Mudança e estabilidade
Fraqueza e firmeza
Impaciência e preguiça:
Todos são sons da mesma flauta,
Todos são cogumelos do mesmo úmido mofo.
Dia e noite seguem-se uns aos outros e vêm
Até nós, sem vermos como eles brotam!
Basta! Basta!
Cedo ou tarde encontramos o «quê»
Do qual «estes» todos crescem!
Se não houvesse o «quê»
Não haveria o «isto».
Se não houvesse o «isto»
Nada haveria com que estas cordas tocassem.
Até aí podemos chegar.
Mas como compreendermos
A causa de tudo isso?
Pode-se supor o Verdadeiro Governante
Por detrás de tudo.
Que tal Força opera
Eu acredito.
Não posso ver sua forma.
Ela age, mas é sem-forma.

 

(*) Chuang Tzu foi um grande filósofo taoísta do Séc. IV a.C., os textos aqui publicados são fruto de um grande esforço de compilação e meditação de Thomas Merton, um monge católico do Séc. XX d.C. que estudou os textos de Chuang Tzu em várias fontes, nenhuma delas sendo a original, mas traduções da fonte original. Finalmente, coube a Paulo Alceu Lima traduzir a Merton, do inglês para o português, conforme visto no livro “A Via de Chung Tzu” (Ed. Vozes, esgotado)

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Este post tem 3 comentários

  1. Daniel

    Belo texto, uma coisa que eu adoro no Taoísmo é sua simplicidade sublime, mas ainda assim dourada.

  2. Saulo

    Texto magnífico!

  3. Jose Alberto Almeida Esteves

    A leveza e a profundidade que são transmitidas por esse texto, é assim algo mágico!!

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