A firmeza somente na inconstância


O Discordianismo é uma religião-paródia cuja deusa suprema é Éris, deusa que personifica a discórdia na mitologia grega. Inclusive a palavra portuguesa “erística” vem do nome da deusa grega da discórdia, e por isso também que Arthur Schopenhauer falava da Dialética Erística. E já que citei Schopenhauer, é bom citar também que este pensador, caracterizado por não ter se encaixado em nenhum dos grandes sistemas de sua época e grande influência de Nietzsche, introduziu o Budismo na metafísica alemã.

Espera aí! Discordianismo, Schopenhauer e Budismo? Que confusão!
Por onde íamos começar mesmo? Ah, sim. Pelo Caos.
Começaremos então com um trecho do Principia Discordia para podermos definir exatamente o que é o Caos.
“O Princípio Anerístico é aquele de APARENTE ORDEM; o Princípio Erístico é aquele de APARENTE DESORDEM. Tanto ordem quando desordem são conceitos criados pelo homem e são divisões artificiais do CAOS PURO, que é um nível além do que o nível de criação de distinções.
Com nosso aparato de criar conceitos, que chamamos “mente”, nós olhamos para a realidade através das idéias-sobre-a-realidade que nossas culturas nos dão. As idéias-sobre-a-realidade são erroneamente rotuladas de “realidade”, e pessoas não iluminadas sempre ficam perplexas pelo fato de que outras pessoas,especialmente outras culturas, vêem a “realidade” de uma maneira diferente. São somente as idéias-sobre-a-realidade que diferem. A realidade Real (Verdadeira com V maiúsculo) é um nível além do nível de conceito.
Nós olhamos para o mundo através de janelas nas quais foram desenhadas grades (conceitos). Filosofias diferentes usam grades diferentes. Uma cultura é um grupo de pessoas com grades bastante similares. Através de uma janela nós vemos caos, e relacionamo-lo aos pontos na nossa grade, e assim entendemos ele. A ORDEM está na GRADE. Este é o Princípio Anerístico.
A Filosofia Ocidental preocupa-se tradicionalmente em contrastar uma grade com outra grade, e juntar grades na esperança de encontrar uma perfeita, que vai retratar toda a realidade, e vai, portanto, (dizem os ocidentais não-iluminados) ser Verdadeira. Isto é ilusório, é o que nós Érisianos chamamos de ILUSÃO ANERÍSTICA. Algumas grades podem ser mais úteis do que outras algumas mais agradáveis do que outras, etc., mas nenhuma pode ser mais Verdadeira do que nenhuma outra.
DESORDEM é simplesmente informação não relacionada vista através de alguma grade particular. Mas, como “relação”, não-relação é um conceito. Macho, como fêmea, é uma idéia sobre sexo. Dizer que macheza é “ausência de feminilidade”, ou vice e versa, é uma questão de definição e metafisicamente arbitrária. O conceito artificial de não-relação é o PRINCÍPIO ÉRISIANO.
A crença de que “ordem é verdadeira” e desordem é falsa, ou de alguma outra forma errada, é a Ilusão Anerística. Dizer o mesmo da desordem é a ILUSÃO ERÍSTICA. O ponto é que a verdade (v – minúsculo) é uma questão de definição relativa à grade que umas pessoas está usando no momento, e a Verdade (V -maiúsculo), realidade metafísica, é totalmente irrelevante para as grades. Pegue uma grade, e através dela algum caos parece desordenado e outro aparenta desordem. Pegue uma outra grade, e o mesmo caos vai aparecer ordenado e desordenado de forma diferente.”

Chegamos a que conclusão? Nenhuma. Esse é justamente o problema e a solução. A pergunta “O que é o Caos?” não pode nos levar a resposta nenhuma. Se definirmos o que é o Caos, iremos impor Ordem ao Caos. Ou seja, a partir do momento que definimos, nós não temos mais o Caos Puro, mas algo inventado pelo nosso aparato de criar conceitos, que eu gosto de chamar de mente. Tampouco o Caos é sinônimo de desordem, pois aí estaríamos conceituando outra vez. O Caos Puro simplesmente está além de tudo isso, sendo algo impermanente e incognoscível.

E quando entra o Budismo nessa história?
O Budismo, como religião e filosofia não-teísta, abrange uma variada gama de tradições com peculiaridades que as diferenciam, mas todas se baseiam de certa forma nos ensinamentos de Siddhartha Gautama, o Buda. O título Buda é dado àqueles que descobriram a “verdadeira natureza dos fenômenos”, isto é, que todos os fenômenos são impermamentes, insastifatórios e impessoais. Tornando consciente dessa realidade, eles buscaram se livrar dos condicionamentos que causam insatisfação e sofrimento.

A filosofia Budista é muito rica e se aproxima em diversos pontos com alguns movimentos do pensamento moderno do Ocidente. Acho bem interessante que muitas ideias que eu já tinha visto no Budismo fui encontrar correspondência (veja bem, digo que é correspondente, não que é igual) no espaço acadêmico em linhas de pensamento como a fenomenologia-existencial, por exemplo.

Segundo o princípio da Impermanência, todas as coisas e todos os fenômenos são inconstantes e instáveis. Compreender isto é de extrema importância dentro do contexto budista, pois tudo o que podemos experimentar através dos sentidos depende de condições externas, e como tudo está em constante fluxo, as condições e as coisas estão sempre mudando. Como nada é permanente, o apego a elas é inútil e leva ao sofrimento.

Se nada é permanente, até o próprio “Eu” é inexistente. Nada é realmente eu ou meu, pois estas são apenas construções da mente. Segue-se daí a idéia que não existe uma essência pessoal, imutável e independente (idéia essa que já vimos aqui na coluna quando falamos do Existencialismo de Sartre). Vale comentar ainda que a inexistência do Atman não exclui a existência do conceito de Karma e Reencarnação em diversas tradições. Quando se fala em alma ou self, mesmo dentro do contexto budista, não podemos esquecer que somos interdependentes uns com os outros, em vez de indivíduos isolados no Universo. Segundo o conceito Budista, corpo e mente se desintegram após a morte, mas a “consciência” reverbera em outro ser, de forma que o ser que renasceu não é completamente distinto, nem completamente igual a sua vida anterior.

O que o Discordianismo e o Budismo, esses dois pensamentos oriundos de diferentes contextos, podem nos ensinar hoje? O desapego a nossos conceitos, ideias e posses. Quando iniciamos uma jornada, seja um caminho de vida ou uma viagem de férias, é interessante que não definamos o ponto de chegada antes de chegar ao fim. É importante estarmos sempre abertos a novas possibilidades que possam aparecer durante a jornada, pois assim aliviamos o sofrimento causado pelo apego, seja este em relação a uma ideia, a um estilo de vida ou mesmo a objetos materiais.

Estejamos sempre abertos ao amanhã, da mesma forma que esteve o velho Pessoa: “Eu não sei o que o amanhã trará”. Há mil caminhos ainda não trilhados, outros mil ainda escondidos. Inesgotáveis e desconhecidas são as possibilidades. Dentro de opiniões, doutrinas que acreditamos e visões de mundo, ficamos fechados como numa casca que nos impede do contato direto com a realidade. Portanto, se estiver mesmo disposto a se autodenominar um livre-pensador, terá que se libertar também de si mesmo. E será várias vezes.

A firmeza somente na inconstância.
– Gregório de Matos, em Inconstância dos bens do mundo
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Igor Teo é escritor e estudante de psicologia
Blog: Artigo 19
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Este post tem 10 comentários

  1. Marcos Keller

    Muito bom Igor Teo, mesmo.
    todos seus textos são ótimos, apesar de haver discordâncias pessoais em pontos mínimos, eles me acrescentam de mais.
    Continue essa obra, por favor.
    P.S : mais de uma vez um de seus textos apareceram como trabalhos de filosofia teoricamente “feitos” pelos meus alunos de ensino médio, tomara que tenham sido bem lidos não? (risos)
    Abraços Fraternos
    @Teo – Obrigado. Melhor ainda é saber que alunos de Ensino Médio já estão tendo contato com alguns assuntos rs

  2. JC

    Excelente. Esclareceu muitas coisas, obrigado por esta luz!

  3. Ronaldo Battistela

    Interessante, o texto parece ter vindo de encontro a algumas experiências pelas quais estou passando no momento. O apego ao que é impermanente nos impossibilita de ver as outras possibilidades. Enfim, valeu pela sincronicidade.

    1. TheNothing

      Faço minhas as suas palavras, texto certo na hora certa!
      Muito grato Igor.

  4. Brasileiro

    Grato pelo oportunidade de (des) conhecer o Caos Puro, Igor! Gostei em especial do primeiro parágrafo, o caos representado por meio da linguagem. Parabéns!

  5. Logos

    Dez emanações do Nada…
    Bem… se há um Caos Puro,ele não é totalmente puro, pois no seu extremo toca a Ordem Pura, afinal, todas verdades são meias verdades e todos os paradoxos deveriam poder ser conciliados.
    Como seres finitos: mentalmente, fisicamente e espiritualmente limitados, seja lá o que isso signifique. Se não podemos fazer algo, normalmente sofremos, já que em essência somos infinitos e a mera lembrança de não ter limites nos causa dor, digo mais, a simples reverberação energética dos nossos semelhantes homens e animais nos afeta.
    Muitos dirão que nos apegamos aos Arquétipos, que nem sempre estão puros, mas carregados de impressões pessoais.
    Não poderia ser diferente uma vez que NADA se apresenta absolutamente. Quem lembra da “Crítica da razão pura” de Kant?
    Uma sociedade acostumada a estagnação estrutural, não só será violentada pelo inevitável, senão até mesmo implodida, levando se em conta que se tirarmos uma carta de baixo do castelo de cartas toda estrutura desmorona.
    Somos interdependentes uns dos outros porque somos todos o mesmo sistemas bio-energético-telúrico, mas os condicionamentos, importantes para quem ACHA que tem domínio, são tão estupidamente limitantes que conflitam com estruturas maiores e desabam ou na imobilidade ou no desastre.
    Não sei se teve algum sentido no que eu disse, mas obrigado, pelos textos luminosos que vão (surpreendentemente já que sou do contra), quase sempre de encontro com a visão que tenho.
    Agradeço pelo espaço no Blog TdC o espaço que normalmente regurgito todo o Amor existentes nos memes egoístas que assombram minha mente insana (e adquiro tantos mais ;D).
    Como nem sempre escrevo coisas com sentido ou gramaticalmente adequadas me surpreende nunca ter uma crítica explícita, só tenho a agradecer a todos daqui colunistas e leitores que perdem seu tempo lendo comments like this one, claramente cíclico e repetitivo, provavelmente fruto de um ser humano inseguro e carente de atenção 🙁
    Não há nada fora do Todo
    Muita Paz e Muita Luz.

  6. Estou maravilhado com o Discordianismo já a alguns anos…
    Para quem quiser se aprofundar… Segue uma sugestão de leitura:
    PRINCIPIA DISCORDIA em português – http://www.scardua.net/files/principia.pdf
    Explicação Séria(?) do Discordianismo – http://petercast.net/public/estudo.pdf
    http://www.bookess.com/read/8255-contos-discordianos/
    http://discordianismo.wordpress.com/2009/12/04/o-mito-de-starbuck/
    Um dos melhores Blogs sobre o assunto – http://discordianismo.wordpress.com
    Sugestões de leitura dentro do Principia Discordia, depois do Download acima:
    UMA HISTORIA ZEN (página 00005)
    CAOS CONVENCIONAL – CARACINZA (página 00042)
    PSICO-METAFISICA (páginas 00049 e 00050)
    A MALDIÇÃO DE CARACINZA E A INTRODUÇÃO DO NEGATIVISMO (página 00063)

  7. Murilo

    o melhor texto que vc já produziu. Parabéns.

  8. Remy

    Artigo muito bom, parabéns.

  9. Rodrigo Tonin

    Igor Teo, sensacional o teu texto!
    Eu pensei e discuti isso a semana toda.
    Ontem, com uma amiga, estavamos a construir e desconstruir conceitos sobre muitos aspectos de um cotidiano que vemos, relemos e vivemos.
    Estou a estudar letras com um pé aqui na filosofia, psicologia e ocultismo de uma forma geral (ainda não fiz a escolha de um caminho por assim dizer) e o texto sincronizou perfeitamente com esta boa semana que passei.
    Meus sinceros agradecimentos
    Parabens!

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