A dificuldade do julgamento


Imaginemos a seguinte situação: Você vê alguém fazendo algo que você considera errado. Como um cidadão de bem, você então diz a pessoa: “Você não pode fazer isso. É errado”. A primeira imagem que poderá passar será a de que você é um moralista, algo que possivelmente nem seja verdade. Se você é uma pessoa aberta a autoquestionamentos poderá pensar: “Será que estou certo mesmo? Afinal, existe o certo e o errado?”.

Se pensarmos com base no relativismo, a resposta para a questão acima seria não. Bem e mal, certo ou errado, e todos os outros valores são relativos a cada cultura, momento ou situação. Por exemplo, você não pode achar que indígenas são pessoas indecentes por não usarem os ternos chiques europeus. Tampouco achar que algumas tribos de esquimós são pervertidas porque é costume que ofereçam suas esposas quando recebem um estrangeiro em suas terras. Isso seria julgar uma cultura construída sobre bases totalmente diferente das suas devido a crenças que você recebeu desde a infância.

Toda atividade humana deve ser vista dentro de um contexto, que na maioria das vezes, justifica as ações das pessoas. As propriedades psicológicas particulares de cada pessoa relacionam-se com suas circunstâncias geográficas, históricas e sociológicas. O mesmo se passa com a moralidade.

No entanto, se levarmos essa argumentação ao extremo poderemos cair numa armadilha: “Se tudo é relativo, posso fazer o quiser, pois tudo estará sempre justificado”. Neste caso, está se utilizando do argumento da subjetividade para justificar qualquer ação. Mas ainda que se em suposição fosse possível fazer o que quiser, deveríamos nos questionar se realmente deveríamos fazer isso.

Não somos átomos isolados vivendo em função apenas de si próprios. Vivemos em sociedade, compartilhamos sentidos e agimos em grupos. Isolar-se simplesmente em nome de uma crença individual não é descobrir a sua própria verdade, é alienar-se do convívio social. Viver em sociedade é algo natural em nossa espécie e em épocas remotas foi decisivo para a sobrevivência da espécie.

Ao mesmo tempo em que temos nossas próprias ideias, nossas próprias visões do funcionamento do mundo, estamos entrando em acordos e conflitos com as opiniões daqueles que nos são próximos. É nessa dialética entre subjetividade individual e coletiva que está marcada a atividade humana, assim como seu processo de desenvolvimento. Saber lidar com a alteridade é um desafio, mas um desafio que pode trazer excelentes recompensas quando superado.

Se de um lado temos os impulsos individuais que buscam a autossatisfação independente da vontade alheia, por outro lado temos a vida em sociedade que oferece barreiras e exige que tenhamos comportamentos de respeito frente aos direitos dos outros. Não há uma moral absoluta imposta por nenhum Deus-Universo que possa regular isso. Mas temos uma regra de ouro, criada pelos homens, que procura oferecer uma alternativa a este conflito. Baseia-se na ética da reciprocidade, que curiosamente se encontra em praticamente todas as culturas e religiões, podendo ser resumida com a frase “não faça ao outro o que não quer que seja feito contigo”. Uma frase simples, que note bem, é muito diferente de “faça ao outro o que quer que seja feito contigo”.

A regra de ouro não é nenhuma novidade no pensamento humano, pois esteve presente em diversas regiões e diferentes tempos históricos do mundo: Confucionismo, Islamismo, Budismo, Cristianismo, Hinduísmo, Judaísmo, Ateísmo Humanista…

Se nos pautarmos por base neste princípio, há a possibilidade de sermos capazes de respeitar as diferentes manifestações culturais, relativas ao seu contexto, e ainda assim seguir uma ética que procure a felicidade comum a todos os cidadãos.

Antes de criticar a vestimenta do povo de cultura diferente poderíamos pensar: “eu gostaria que alguém criticasse a vestimenta que eu uso dentro da minha cultura?”. Antes de criticar a opção sexual de outro cidadão que também desfruta dos direitos universais aos seres humanos, poderíamos nos questionar: “Se eu estivesse na condição dele, gostaria que alguém me criticasse?”. Antes de pensar em roubar ou mentir para alguém, poderíamos nos questionar: “Eu gostaria de ser vítima disto?”. Antes de furar a fila em algum local, pensar “eu gostaria que alguém entrasse na minha frente e me atrasasse?”.

Mas seria então a regra de ouro a solução definitiva e absoluta para as querelas humanas? Definitivamente não. Como sempre, universalizar um conceito de forma independente do contexto fecha a possibilidade de diálogos e de que seja cumprida a própria proposta da regra. Se levarmos a regra de ouro ao extremo, vamos criar uma ideologia de “não me toque”, onde ninguém pode criticar ou questionar nada porque tudo poderia ser interpretado como invasão de crença individual.

Quando a situação é algo que nos afeta diretamente, sempre podemos ter o direito de opinar quanto às questões e até procurar impor uma vontade frente às demais. Por exemplo, um Estado que não é laico está constantemente interferindo nas questões da população e afetando a todos indiscriminadamente. Não criticar isso teria uma consequência desagradável para nós mesmos.

Mas seguindo essa mesma lógica, o mesmo não se aplicaria a touradas. Não temos tourada no nosso país e de maneira alguma isso afeta nossa vida diretamente. Entretanto, nada impede de sentirmos empatia pela questão. Não é porque nós não temos touradas em nosso país que não poderíamos ser contra isto. De fato, se opor a touradas é muito louvável, uma vez que é cometida muita crueldade contra os animais.

Mas nem sempre possuímos informações suficientes para ter uma posição clara sobre determinada questão a ponto de querermos impor uma visão. Por exemplo, eu mesmo nunca gostei de comentar sobre o regime cubano porque é algo que foge ao nosso escopo. As notícias que nos chegam são muito distorcidas pela mídia, que é claramente favorável a uma política estadunidense. Ao mesmo tempo é estranho que exista toda essa repressão que a imprensa divulga sem nenhum tipo de de insurreição popular. É sabio que só há ditadura onde a população aceita, por algum motivo econômico ou social. E se é aceito por eles, como alguém que está de fora questionar? Por outro lado, o simples fato de ser uma ditadura já atenta contra a liberdade e isto já é motivo de reprovação. A liberdade e os direitos humanos deve ser algo buscado por cada um de nós, não só para nós mesmos, mas sim para toda a humanidade. De qualquer modo, a questão é muito complexa, e dentro de nosso etnocentrismo capitalista ocidental não temos como julgar com assertividade.

O panorama oferecido por este dilema, como podemos perceber, não é nada fácil. Os limites de aplicação são muito incertos. Se uma hora ela se aplica muito bem, outra parece insuficiente para solucionar a questão. Se uma hora ele se pauta pela tolerância, em outra a tolerância demasiada pode permitir consequências desagradáveis. Não há como criticar uma visão oposta sem um tanto de proselitismo e crença de superioridade. Assim como fugir da questão por simplesmente relativizar indiscrimidamente não é uma solução que produza o desenvolvimento.

A discussão ética e moral em torno dos direitos individuais e coletivos é, aparentemente, interminável. Regras fixas não solucionam a questão, mas o repensar diário de cada um sobre os direitos dos outros, as consequências de suas ações e como as questões de empatia e alteridade se relacionam, podem proporcionar um diálogo que busque alternativas viáveis.
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Igor Teo é escritor e estudante de psicologia
Blog: Artigo 19
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Este post tem 9 comentários

  1. kk

    A dialética nunca vai terminar e não deve. Muito pelo contrário, devemos sempre discutir, compreender e até mesmo saborear os valores alheios aos nossos e assim nos tornarmos maiores, no entanto, devemos ter em mente que o julgamento nunca sai do Eu. Ao avaliarmos valores, sobrepomos os nossos como fotocópias na esperança de haver uma combinação perfeita e nunca é assim, então ao julgarmos, julgamos a nós mesmos. Permitir-se ao moldar de si mesmo é que gera tolerância que tanto precisamos.

  2. jonatas

    minha idéia de regra de ouro é
    (liberdade na condição de não interfirir fisicamente na vida alheia sem seu consentimento)
    ações erradas se combatem fisicamente,
    idéias erradas se combatem com iluminação.
    Quanto a idéia da ofensa moral..
    acho que existe a parte da ação e reação, qualquer pessoa tem o poder de não sofrer danos psicológicos com qualquer tipo de ofensa moral, e cabe a cada um desenvolver esse poder. Tentar calar toda uma cultura nova ou velha por que isso lhe fere moralmente, é errado, do meu ponto de vista.
    se alguém achar que estou errado em alguma coisa, ficarei feliz em receber uma crítica com bons fundamentos. obrigado.

    1. Leo

      Gostei da sua colocação, só acho difícil definir bem o que é uma ação errada. Somos falhos e imperfeitos demais para julgar com “justiça” e mesmo assim o fazemos todo o tempo, porque em tudo precisamos de um julgamento mental para decidir uma ação. Até a ofensa moral pode ter resultados físicos, como o bullying em sua forma de agressão verbal / psicológica ou isolamento social forçado por rede de intrigas, etc, um dos meios usados por alguns para que suas vítimas se matem. Já vivi uma situação na qual uma pessoa me disse que faria da minha vida um inferno até que eu mesmo acabasse com ela. Bem, não acabei, mas não saí ileso. Usei o ocorrido para crescer, mas também levo cicatrizes feias e feridas que não cicatrizam. Claro, aqui falei de ações pessoais, mas as culturais são só somas das pessoais. Por exemplo, é cultural andar de roupas “modernas”, mas se alguém aparecer de túnica na rua, não é a cultura a opressora, mas as pessoas que se prenderam tanto a sua forma que não aceitam outra, a ridiculariza, marginaliza, tenta destruir. Se a pessoa da túnica quiser que todo mundo a imite, é só o mesmo problema. A questão não é calar uma cultura ou ser calado por ela, é coexistir sem agressão. Sinceramente, também não sei se podemos cobrar das pessoas que não se afetem pelas agressões psicológicas alheias. Como eu disse, eu sobrevivi, mas para o bem ou para o mal, nunca mais fui o mesmo. Se imagine um judeu morando no Irã, ou mesmo um católico na Irlanda do norte há duas décadas ou algo do tipo. Ou se imagine um menino tímido comum sofrendo perseguição psicológica num colégio pelo cara mais popular da escola, o que é bem típico em filmes americanos, para ser o mais leve exemplo. Não me leve a mal, como eu disse, gostei do seu comentário. Só não sei se saberemos julgar uma ação errada e se podemos cobrar dos outros uma força que não sabemos nem se temos e se temos, por que medi-los com nossa medida? Mas tem uma frase sua que não contesto: ideias erradas se combatem com iluminação…. como não estou certo quanto ao certo e errado, combato as minhas ideias e busco a iluminação, para que só surjam as iluminadas nessa cabecinha doida…
      Obrigado por me fazer refletir sobre isso mais uma vez, apesar de que rodopiei e revivi a mesma coisa de sempre na minha cabeça e não cheguei a conclusão alguma…

      1. Jonatas

        Acho que sistema perfeito não é uma coisa que se encaixaria na nossa realidade, então, podemos pensar num sistema mais próximo possível da perfeição OU um sistema que, por mais que imperfeito, propicia uma evolução de idéias da forma mais justa e livre possível.
        logo: pela relatividade da questão do que pode ser ofensivo ou não, o melhor a fazer talvez seja, que isso seja um mal necessário pra que nenhun fluxo de idéias seja parado pra que alcancemos a maior eficiência na evolução de idéias.
        e humanamente falando, a questão das marcas… o ser humano é realmente fraco, mais acho que temos que visar a busca pela evolução, incluindo a nossa força. por que, creio que muitos também achem que adaptar-nos ao mundo é muito mais evolutivo do que adaptarmos o mundo as nossas fraquezas que talvez nem sejam algo definitivo.

  3. Rodrigo Dazuma

    Excelente.

  4. Wilson

    A questão da Tolerancia. A Tolerância é sempre uma Virtude, devemos tolerar sempre? Para resumir, vejamos exemplos diretos. Devemos tolerar os vicios? Devemos tolerar os politicos corruptos e mentirosos ? Devemos tolerar os criminosos? Devemos tolerar as drogas ? Devemos tolerar os maus tratos com os animais? Devemos tolerar a poluição de rios e florestas? Devemos tolerar os exploradores? O Mestre Jesus Chamou os fariseus e os escribas de Hipocritas e raças de Viboras, jesus foi intolerante com eles? O Mestre Jesus quando foi no Templo, ele expulsou os Vendilhões com um chicote na mão e virou as barracas dos vendilhões, chamando eles de Ladrões, jesus foi intolerante com eles??? Quando toleramos os vicios somos intolerantes com as Virtudes. Quando toleramos os crimes somos intolerantes com a justiça. Quando toleramos a imoralidade, os maus habitos e os maus desejos, somos intolerantes com a elevação moral. Quando toleramos a escuridão somos intolerantes com a LUZ. Tolerar o mal é ser intolerante com o Bem, pense nisso. O ser humano é um Espirito encarnado no mundo terra para EVOLUIR pelo Aprimoramento Moral e Intelectual de si mesmo, mediante seu esforço pessoal e sua luta, o Espirito humano está no plano terreno é para VENCER as suas imperfeições Morais e crecer espiritualmente, pela pratica sincera do Bem e das Virtudes, cultivando pensamentos elevados e sentimentos nobres e principalmente PRATICANDO as Virtudes, portanto, temos que COMBATER as imoralidades, vicios, maldades, maus habitos,crimes,corrupções etc. Não podemos ser tolerantes com as forças do mal, não podemos tolerar a serpente, a omissão e a passividade vai dar espaço para o mal crecer, o Mestre Jesus expulsou os Vendilhões do templo com um CHICOTE na mão, devemos raciocinar nessas questões.
    A questão do julgamento,devemos julgar, devemos criticar,devemos condenar??? O mal crece na sociedade, pela omissão e passividade de muitas pessoas, não podemos ficar Calados, por que, quem Cala consente. O Mestre Jesus não ficou calado diante dos Vendilhões do Templo, pelo contrario, Ele usou um CHICOTE e expulsou esses picaretas a ponta pé, e chamou eles de ladrões, vemos que Jesus não era omisso e nem passivo diante das coisas erradas e falsas. O Mestre Jesus também criticou os fariseus, escribas e os sacerdotes judaicos, chamando eles de Hipocritas e raça de viboras, isso mostra um Jesus Moralizador e criticista, que as Religiões procuram esconder. O mal deve ser julgado e condenado sempre, não podemos ser cegos e mudos perante as coisas falsas e erradas, um exemplo, um politico corrupto e mentiroso, deve ser criticado e condenado, para o bem da sociedade.Não criticar, não condenar, não julgar, é ser Omisso e passivo e quem cala consente, muitos embusteiros, picaretas e malandros usam essa frase ” não devemos julgar para não sermos julgados” eles usam tal frase de forma maliciosa para evitar a Critica construtiva e a Justiça, eles querem levar as pessoas a um estado de inercia e omissão, favorecendo assim o crecimento do mal. Uma outra questão, devemos respeitar sempre o livre ábitrio de uma pessoa, CLARO QUE NÃO. Devemos respeitar o livre árbitrio de um criminoso? Devemos respeitar o livre ábitrio de um politico corrupto e malandro? Devemos respeitar o livre árbitrio de um traficante? Devemos respeitar o livre árbitrio de um suícida e deixar ele se matar? Devemos respeitar o livre árbitrio dos exploradores? Devemos respeitar o livre árbitrio das pessoas que maltratam os animais? Devemos respeitar o livre árbitrio das pessoas que praticam o Mal???????? Por que o Mestre Jesus não respeitou o livre árbitrio dos fariseus, escribas e dos sacerdoter judeus??? Por que Jesus não respeitou o livre árbitrio dos Vendilhões do Templo??? O que deve ser Respeitado é a Moral, a Justiça, as Virtudes, deu para entender. As forças do mal querem levar as pessoas para a Omissão e passividade, por que, assim o terreno fica livre.Quem cala Consente. Um abraço meus amigos.

    1. leandro paz

      boa resposta! só penso que:
      Considerando Jesus como Deus, ele sabe o que se passa no coração dos homens, sendo beeeeeeeeem mais facil julgar o certo e o errado e agir ou nao a respeito. (como perdoar 70×7 ou xingar e chicotear os vendilhões)
      Considerando Jesus como um deus solar criado a imagem de outros que ja existiram na simbologia feita pelo homem, o exemplo de chicotear ou perdoar servirá de moral da historia para determinados eventos de nossa vida, onde teremos de escolher uma ou outra atitude dessas e aguardar o resultado que ela trara… se foi uma atitude correta ou nao o que foi feito? nao sei…Devo julgar a ação cometida ou a intenção por detras dela?

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